Sociedades mais igualitárias

Precisamos deste espírito

Em tempos de crise surge com redobrada força o discurso do “estamos todos no mesmo barco”. Este discurso, que exprime uma ideia de destino comum, de solidariedade partilhada no sacrifício e na austeridade, deve ser levado a sério. Se for sério, o que se calhar é raro, só pode conduzir a reformas igualitárias profundas, dada a distância abismal que separa o ideal de uma comunidade política inclusiva da realidade socioeconómica de um país imensamente fracturado.
É por estas e por outras que a edição portuguesa deste livro - O Espírito da Igualdade - Por que razão sociedades mais igualitárias funcionam quase sempre melhor - não podia ser mais oportuna (um excerto pode ser lido aqui).

Repito o que escrevi quando saiu a edição britânica. Richard Wilkinson e Kate Pickett, dois reputados especialistas internacionais na área dos determinantes sociais da saúde, não só sistematizam na obra décadas de investigação empírica, que há muito que indica que os países mais desiguais têm, globalmente e para os vários escalões sociais, piores resultados na área da saúde pública e níveis muito superiores de sofrimento social evitável, como alargam o leque das relações abordadas: da população prisional aos níveis de confiança, passando pelos resultados escolares.

Como bons cientistas sociais, os autores não confundem correlação com causalidade. A sua análise estatística mostra um padrão claro de associação entre cada um dos problemas abordados e as diferenças entre ricos e pobres, mostrando também que nenhuma outra variável exibe o mesmo comportamento. Este é um ponto de partida para uma detalhada exploração dos mecanismos causais que permitem dizer que as desigualdades de rendimentos são a principal causa dos problemas escrutinados.

Os autores dão uma grande importância à forma como as desigualdades de rendimento criam um filtro que dificulta as relações sociais entre os indivíduos, que aumenta a conflitualidade, o sofrimento, o consumo defensivo, a comparação invejosa, o preconceito de classe e que impede a descoberta de soluções cooperativas que substituam mecanismos de dominação, a descoberta de regras e de instituições comuns menos hierarquizadas, que são a base material do florescimento humano, da felicidade.

O Rui Tavares também escreveu sobre este livro. O sítio que Wilkinson e Pickett criaram está cheio de referências e de dados sobre os impactos sociais negativos da desigualdade económica. Quem quiser saber mais sobre a área dos determinantes sociais da saúde, pode ler o relatório da OMS: a injustiça social faz muito mal à saúde e as utopias de mercado que a geram também.

em 24.4.10 Ladrões de Bicicletas e, em simultâneo, no Arrastão

MARCADORES: ,

Publicado por Xa2 às 00:07 de 28.04.10 | link do post | comentar |

3 comentários:
De Trambulhão e especuladores a 28 de Abril de 2010 às 14:12
Tempos difíceis (1)

As pessoas andam mesmo preocupadas. Nalguns meios pequeninos e à boca pequena, algumas pessoas, não muitas, já perguntam se o bocadinho de dinheiro que têm nos bancos está seguro.

É difícil tirar-lhes a dúvida. Efectivamente ficam sempre com ela, qualquer que seja a resposta.

É evidente que isto não é representativo de nada.

Mas deveria haver um maior realismo na informação sobre a situação nacional.

Sobre a pressão das empresas de rating, que, de facto, estão a fazer o jogo americano e o "seu jogo" especulativo.

Quando digo jogo americano significa duas coisas: a "guerra" mais ou menos surda entre o dólar e o euro, o sistema financeiro americano e o "subsistema" da especulação.

Explicando melhor: a elite americana (incluindo alguns notabilíssimos prémios nobéis de economia) toleraram e mal a criação da moeda europeia, o sistema financeiro americano mais subtil reagiu de igual forma e a especulação vê na "intensificação" da crise de alguns países europeus um maná de grandes proporções. Começou com a Grécia mas subjacente está o aproveitamento, se for possível, da exploração de outros países.

Portugal é a seguir o elo mais fraco e não vale a pena andar a dizer que a nossa economia é diferente. É de facto diferente. Mas não é dizendo que se afasta a situação. É fazendo. E isto tudo corre devagar e mal.

Etiquetas: Comissão Europeia, dólar, rating e especulação.

# posted by Joao Abel de Freitas @ 09:41


De Zé das Esquinas o Lisboeta a 28 de Abril de 2010 às 11:26
Será que ninguém percebe o que se passa?
Continuamos a ver posts e comentários de análise e a apontar soluções, esperando ingenuamente que quem nos governa - governo e poder económico, vá aplicar medidas para resolver os problemas das assimetrias sociais e económicas. Como se eles estivessem para aí virados. Como se lhes interessasse para alguma coisa esses assuntos. Como se não soubessem resolvê-los... Como é mais do que evidente 'eles' não estão para aí virados. Estão se mesmo 'nas tintas' para a populaça e as suas dificuldades. Muito pelo contrário, na minha opinião, este descalabro social é que lhes convém para o seu enriquecimento pessoal pois por cada euro não pago é um euro empochado .
Tenham dó senhores postantes e comentadores, mudem de abordagem esperançosa nos poderes instituídos. Deixem de ser totós e 'boas pessoas'. O que é demais também pode começar a cheirar mal.


De anonimo a 28 de Abril de 2010 às 11:07
SR. PEREZ METELLO! Fala na Irlanda! A Irlanda não anda com a mania do TGV! Novos aeroportos! Novas pontes! Não oferece computadores à população! Não paga dividas dos PALOP's! Não empresta 500 milhões de euros a Angola (?)! Não têm gestores públicos a auferir de prémios de mais de 3 milhões de euros! Não tem bancos com lucros diários de milhões! Não tem uma assembleia da república onde foram gastos milhões em modernização! Computadores para todos, luz para evitar adormecimento, etc! Não têm deputados a morar em Paris com viagens semanais (no minimo) pagas por todos nós! Não tem uma ministra da cultura que em plena crise cria o gabinete de tauromaquia! Dá perto de 7 milhões para filmes que ninguêm vê! Não ministros, sejam eles primeiros ou outros que estejam envolvidos em escandalos que delapidaram o erário público) (Submarinos, Portucale, Cova da Beira, Freeport, etc. etrc)Muito mais haveria a dizer! Portanto, se querem sacrificio comecem por pedi-los a quem mais têm e mais culpas têm na situação actual!


Comentar post

DESTAQUE DO MÊS
14_04_botão_CUS
MARCADORES

todas as tags

CONTACTO

Email - Blogue LUMINÁRIA

ARQUIVO

Junho 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Online
RSS
blogs SAPO