Mensageiro, propostas, argumentação, críticas, ...mídia e liberdade

-- olha para o que digo e não para o que faço  (-H.Araújo, 15/1/2017, 2dedos de conversa)

   Um dos argumentos que mais me incomoda num debate é o que aponta a diferença entre o que uma pessoa diz e o que faz. Como se o facto de alguém agir de modo diferente daquilo que propõe bastasse para tirar valor à proposta.
      Mal iria o mundo se, em vez de se orientar pelos melhores princípios, optasse por se medir pelo alcance dos gestos de quem ousa formulá-los - é a diferença entre atar o arado às estrelas ou aos cordões dos sapatos.
    Não sei se as pessoas recorrem a este tipo de argumentação para impedir o debate ou se têm prazer especial em humilhar os outros. Mas sei duas coisas: argumentar assim não ajuda causa nenhuma, excepto a da cacofonia no espaço público, e ninguém está livre de ser alvo deste tipo de ataques quando apela para um mundo melhor. Por muito exemplar que seja o seu comportamento, haverá sempre maneira de virar contra si aquilo que diz. Não, ninguém está livre disso, nem sequer Jesus Cristo - sobre o qual há um certo consenso de ter sido uma pessoa realmente especial e um grande exemplo para todos. Imagino Jesus a tentar fazer-se ouvir hoje, e o ruído das redes sociais a desvalorizar o discurso com base em insinuações e acusações sobre o seu comportamento:
 --Jesus: "quem nunca pecou, atire a primeira pedra" / O ruído: "o que tu queres sei eu! que tu gostas é das mulheres da laia desta, estas desavergonhadas sem moral - esta aqui, está-se mesmo a ver que logo à noite já te vai pagar em géneros, é para isso que a proteges!"
--Jesus: "perdoai aos vossos inimigos" / O ruído: "ah! dessa não te lembraste tu quando te deu para arrear sem dó nem piedade nos vendedores do templo, não é?"
--Jesus: "deixai vir a mim as criancinhas, não as impeçais..." / O ruído: "olha-me este! a gente bem desconfiava que ele andava metido com o outro, aquele Pedro, e afinal é verdade, e - está-se mesmo a ver - são pedófilos!"
--Jesus: "...porque quem não for como as crianças não entrará no Reino dos Céus." / O ruído: "hades, hades. claro, um vadio inútil que anda por aí de casa em casa, a viver do esforço dos outros, não admira que tenha estas ideias tolas. vai trabalhar, malandro! arranja uma família, torna-te responsável! cai na real, ó lírico!"
--Jesus: "apartai-vos de mim, malditos (...); porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; era forasteiro, e não me acolhestes; estava nu, e não me vestistes; enfermo, e na prisão, e não me visitastes." / O ruído: "estás a falar comigo?! ao teu amiguinho, o cobrador de impostos, não vais pedir tu! ele é que tem o dinheiro todo, ele que ajude! para mais, andas para aí a armar-te que és o filho de Deus. vai pedir ao teu paizinho, ele que resolva!"
           Nem Jesus se livraria de ser humilhado. Aliás: não se livrou.
Insisto: olhemos para o que as pessoas dizem e não para o que fazem. Discutamos as ideias e a justeza dos apelos e das propostas, em vez das limitações (reais ou imaginadas) da pessoa que os verbaliza.

---  olha para o que digo e não para o que faço (2)  (-H.Araújo, 16/1/2017)

     A propósito do post anterior, transcrevo dois exemplos práticos de como se ataca o mensageiro em vez de debater a mensagem. Não me entendam mal: não tenho nada contra confrontar as pessoas com os seus actos (desde que sejam realmente actos delas, e não torpes insinuações nossas). Mas quando se está a falar de uma questão concreta, deve-se falar apenas dessa questão concreta. Todos ganhamos se aprendermos a debater as ideias independentemente do contexto das pessoas que as emitem.
      1. Meryl Streep faz um discurso no qual diz:
"And this instinct to humiliate, when it’s modeled by someone in the public platform, by someone powerful, it filters down into everybody’s life, because it kinda gives permission for other people to do the same thing. Disrespect invites disrespect, violence incites violence. And when the powerful use their position to bully others we all lose. O.K., go on with it.
O.K., this brings me to the press. We need the principled press to hold power to account, to call him on the carpet for every outrage. That’s why our founders enshrined the press and its freedoms in the Constitution. So I only ask the famously well-heeled Hollywood Foreign Press and all of us in our community to join me in supporting the Committee to Protect Journalists, because we’re gonna need them going forward, and they’ll need us to safeguard the truth."
   No facebook escreve-se (como encontrei mencionado no mural de uma amiga - e também podia copiar para aqui inúmeros artigos em inglês que dizem mais ou menos o mesmo):
    "Eu entendo perfeitamente o desabafo de Meryl Streep na entrega do seu prémio. Ela pertence a uma classe privilegiada, de milionários de Hollywood, que deve sentir bastante empatia pela classe política de Washington. Tal como estes, os primeiros existem para as pessoas, de que dependem igualmente; vivem rodeados de toda a atenção mediática e de todos os luxos e acabam por ficar igualmente alienados e distantes dessas pessoas que os alimentam. São contra muros, mas o que conhecem do Mundo é limitado pelos muros que rodeiam as suas luxuosas propriedades e pela cortina que os separa da classe económica."
     "Hollywood é altamente subsidiada pelo estado, ao contrário do que muita gente pensa, que aquilo é tudo investimento privado e não sei o quê. É mais do que conhecida a proximidade dos Democratas com essa elite cheia de excentricidades, que dentro do seu pequeno mundo de mansões, iates e jactos privados, e idolatria onde quer que vão, fazem por influenciar a opinião das pessoas sempre no mesmo sentido, não conhecendo de todo a realidade dura do dia a dia dos seus próprios compatriotas. É muito fácil opinar favoravelmente ou contra algo, quando isso não nos atinge diretamente. A Meryl Streep tem direito a ter a sua opinião, mas só tenho pena que os mesmos não se tenham insurgido contra as guerras que o Obama criou, ou contra o incidente diplomático que podia ter tido consequências graves aquando da expulsão dos diplomatas russos, etc, só se interessam com "muros específicos", são muito selectivos."
     "Mas o meu post era algo simples. Uma reflexão apenas, dirigida aos fofinhos ditadores do pensamento único que ficam ofendidos quando alguém ousa pensar diferente. O teu comentário leva as coisas mais longe do que pretendia sequer. É que estava a tentar ser simpático para com a velha sonsa. haha Porque ela sendo uma grande actriz, conseguiu fazer passar muito bem a imagem de querida fofinha, apenas preocupada com o bronco que venceu as eleições. Na verdade, vivemos um momento de conspiração actual fantástico. Parece que ninguém reparou por exemplo no facto de nao terem passado imagens do Pontes de Madison County na montagem da Streep, filme onde ela até foi nomeada por melhor actriz. Nao será por o seu realizador ser o Republicano Clint Eastwood, claro, que nao... Hoje em dia cala-se o que nao interessa, com uma lata que faria corar qualquer censor anterior."
       2. Marisa Matias publica no facebook um post com imagens da situação desesperada dos refugiados apanhados sem abrigo num terrível inverno europeu, com este texto:
"Europa, 2017. Retrato de um inverno que vem de dentro. Fila para o pão. Sem tecto. Abandono. Repito, 2017."
   Comentários no seu mural:
     "Engraçado, por acaso nunca a vi a si nem a ninguem (com responsabilidade social) publicar fotos de nossos sem abrigo, na rua ao frio e à chuva e com fome!!!!! Porquê???? Não há????? Isto é para ficar bem perante o lugar que ocupa no PE ??????"
     "essa senhora com o ordenado que imagino que recebe que o troque por comida para esses"
     "Quem decide a sorte destes refugiados vive em palácios e entopem-se de comida.
Esses gravatinhas da UE deviam ser todos engaiolados, não têm vergonha na cara."


Publicado por Xa2 às 15:51 de 21.01.17 | link do post | comentar |

Jornalistas, os media/ mídia, informação, cidadania ... crise

----  Resolução do 4ºCong. Jorn. Port.:   Afirmar o jornalismo:      (15/1/2017)

Aprovada na sessão de encerramento do congresso por unanimidade e aclamação.
    1. O 4.º Congresso dos Jornalistas Portugueses concluiu que as condições em que se exerce hoje o jornalismo, pilar da democracia, comprometem o direito constitucional à informação, indispensável para o exercício pleno da cidadania.
    2. As condições de trabalho – dimensão reduzida das redações com os despedimentos, precariedade, baixos salários e falta de tempo – estão a ter efeitos na qualidade do jornalismo e condicionam a independência dos jornalistas.
    3. A profunda mudança no enquadramento do setor está a afetar a credibilidade do jornalismo. O contributo dos jornalistas é determinante para ultrapassar as ameaças e desafios que se colocam à viabilidade da informação de qualidade.
    4. A legislação laboral tem de ser cumprida em Portugal no setor do jornalismo, sendo urgente uma ação rápida e eficaz da Autoridade para as Condições de Trabalho para acabar com os falsos estágios, os falsos recibos verdes e os falsos contratos de prestação de serviço.
    5. A autorregulação tem de ser reforçada e a regulação tem de ser eficaz.
    6. Os jornalistas têm de ter maior peso e presença nas entidades reguladoras. É necessário iniciar um processo de revisão legislativa que torne essas entidades mais eficazes e mais participadas pelos jornalistas.
    7. Os princípios éticos e deontológicos têm de ser reforçados, têm de abranger todos os jornalistas e têm de ser aplicados com eficácia.
    8. Os conselhos de redação têm de ter um papel ativo, o que exige a proteção legal dos jornalistas que neles participam. Os pareceres dos conselhos de redação têm de ser vinculativos, nomeadamente para os cargos de direção e chefias.
    9. É crucial que os jornalistas reforcem as estruturas próprias da classe, desde logo o Sindicato dos Jornalistas e a sua presença nas redações com uma agenda própria, para a defesa dos direitos dos jornalistas e a afirmação do jornalismo.
    10. É fundamental avaliar, melhorar e fortalecer a relação do setor com as instituições de ensino superior e outras entidades formativas devidamente credenciadas.
    11. É urgente promover a literacia mediática, com iniciativas no domínio da educação pré-universitária e junto da população em geral.
    12. Os jornalistas, reunidos no 4.º Congresso dos Jornalistas Portugueses, assumem o compromisso de cumprir os deveres e as responsabilidades decorrentes dos princípios ético-deontológicos do jornalismo e das melhores práticas do exercício e regulação da profissão.
             Lisboa, 15 de Janeiro de 2017.   
http://www.jornalistas.congressodosjornalistas.com/resolucao-final-do-4-o-congresso-dos-jornalistas-portugueses/

---- Jornalismo da crise e crise do jornalismo   (-por , 14/1/2017, Ladrões de b.)

 Ainda a propósito do 4º Congresso dos Jornalistas, a que o João Ramos de Almeida fez referência no post anterior (em comentário) e que decorrerá até ao próximo domingo, vale a pena revisitar o estudo realizado pelo próprio e pelo José Castro Caldas, dedicado às «Narrativas da crise no jornalismo económico», e que foi publicado em 2016 nos Cadernos do Observatório sobre Crises e Alternativas.
      Entre os diversos e mais urgentes problemas a que os profissionais do setor e restantes congressistas deveriam dedicar a sua atenção constam dois temas tratados nesse estudo e que temos recorrentemente assinalado neste blogue: o défice de pluralismo no debate político-económico (mais vincado nas televisões e que praticamente não se alterou desde o início da crise financeira de 2008), e a questão da persistência das narrativas hegemónicas sobre a crise e as formas de a superar. Isto é, as tais ideias feitas que continuam a «arrastar-se nos corredores dos media e afins», como dizia recentemente Pedro Lains.
        Sobre estas questões, duas notas a reter no referido estudo do José Castro Caldas e do João Ramos de Almeida: a ideia de que as narrativas não deveriam ficar «imunes ao desenrolar dos acontecimentos, ou aos "factos"» (mesmo quando abalam «crenças prévias muito enraizadas (...) de indivíduos que desempenham, ou desempenharam, papéis cruciais na produção de narrativas e na gestão política da crise»), e a noção de que a procura de soluções «envolve necessariamente a afirmação de novas interpretações» e de «novos diagnósticos», sendo que «o primeiro passo para essa afirmação é o conhecimento, o escrutínio e a caracterização do discurso sobre a crise que predominou e ainda predomina no espaço público».

-----  O trigo e o resto  (-por F.S. da Costa, em 2ou3coisas, 13/1/2017)

    Os jornalistas portugueses estão reunidos em congresso. A profissão atravessa momentos difíceis, com redações depauperadas, muita gente com vínculo precário, salários em geral baixos, com o futuro de muitos órgãos de informação em grave risco. 

    Quero crer que este encontro, em que vejo envolvidos grandes profissionais do setor, é um importante momento de reflexão prospetiva sobre o que poderá vir a ser a comunicação social portuguesa nos próximos anos. Desejo, como utente, que possam chegar a boas conclusões, que as possam tornar operativas, com consequências concretas na melhoria das suas condições de trabalho, mas também com efeitos na qualidade do produto de que diariamente são obreiros. Porém, e sem querer ser pessimista, pergunto-me se ainda irão a tempo.
    O jornalismo passou, nos últimos quinze anos, por um desafio a que claramente não soube dar adequada resposta: as redes sociais. Qualquer bicho careta, com um blogue, uma página de facebook ou uma conta de twitter, lança para o ar “notícias”, sem um mínimo controlo de veracidade dos factos, com estes quase sempre embrulhados em opiniões de qualidade duvidosa.   A comunicação social, em lugar de se distanciar, de reforçar o seu papel de (jornalismo de investigação, moderação isenta,) referente da verdade, da precisão e do rigor, deixou-se embalar por essa moda (e pela submissão a interesses corporativos, financeiros e ideológico-partidários; tornando-se escreventes avençados de peças publicitárias ou propagandísticas). E a que é que assistimos?   Vimos e vemo-la a citar preguiçosamente a blogosfera e as graçolas do twitter, a deixar-se guiar pelas pistas lançadas na internet
    Espantamo-nos também ao observar jornalistas a quererem ser vistos como isentos e neutrais nos textos elaborados na sua profissão e, ao lado, a subscreverem opinião enviezada nas redes sociais, num triste modelo de “Dr. Jeckill and Mr. Hyde”.   A primeira vitória de um jornalismo que se pretenda de qualidade passa pela total autonomização face às redes sociais, resistindo ao imediatismo destas, praticando por sistema o “fact-checking”, confrontando fontes e ouvindo partes (a favor, contra e alternativas). O utente da comunicação social, se esta quer ter um futuro, tem de reganhar o velho estatuto do “é verdade, porque vem no jornal”. É também necessário criar, com urgência, um visível “firewall” (muro de proteção/separação)  entre o que são os factos, reportados numa notícia, com as várias posições descritas de forma neutral, e o que é a opinião.
     Nos últimos anos, assistimos a uma saudável quebra do monolitismo corporativo que parecia federar a classe jornalística. Vemos hoje profissionais respeitados dar mostras de incómodo perante práticas de colegas, em televisões ou em jornais. Este é o caminho, separar o trigo do resto e denunciar, em alta voz, quem está a prejudicar a imagem da profissão (a informação e a cidadania). Espero, sinceramente, que ainda possam ir a tempo.

------------ Coisas que desaparecem das nossas vidas   (-por J. de Freitas, 14/1/2017)

  Não deixa de ser interessante notar, e muito verdadeiro também, se estas mudanças vão ser boas ou más, depende em parte de como nós nos adaptarmos a elas. Mas, quer as desejemos ou não, aqui vão elas...
      1. O Correio
O e-mail, FedEx, Facebook e SMS, têm praticamente dizimado as cartas, que é como quem diz a receita mínima necessária para manter os Correios a funcionar. O pouco do que ainda recebemos pelo correio, todos os dias, não passa de ”lixo” e contas.
       2. O cheque
A União Europeia já está a preparar o terreno para acabar com o cheque até 2018. O processamento de cheques custa bilhões de euros por ano ao sistema bancário. Cartões de plástico e transacções on-line, ou pelo telefone, vão levar à eventual extinção do cheque. Isto tem ligação directa para a morte dos Correios. Se ninguém nunca pagar as suas contas pelo correio e nunca receber as pensões pelo correio, os Correios ficam em absoluto fora do negócio.
      3. O jornal
A geração mais jovem simplesmente não lê o jornal. Eles certamente não se deslocarão a um quiosque para procurar um jornal impresso. Foi o que já aconteceu com o leiteiro e o padeiro. E se soubessem como ainda acordo de noite com o “cheirinho” do bijou” que a padeira trazia de manhãzinha lá na rua de São Dâmaso …
      4. O livro
Eu nunca vou desistir do livro físico, que seguro na mão enquanto leio e vou virando as páginas. Eu disse a mesma coisa sobre o download de música do iTunes. Eu queria que o meu CD tivesse cópia impressa. Mas quando descobri que poderia obter os álbuns pela metade do preço, sem sair de casa, para conseguir os últimos êxitos. E consultar um livro na Biblioteca Mitterrand, em Paris, ou na American Library, em Iorque sem sair de casa…Estou a mudar de ideias…lentamente, e a …entrar na história.
       5. O telefone fixo
Já hoje não precisamos do telefone fixo. A maioria das pessoas ainda o mantém simplesmente porque sempre o tiveram. Até a própria Telecom aproveita a linha do telefone mais para serviços, como o da televisão, do que para o telefone. Inclusivamente todas as empresas de telemóveis oferecem serviço fixo gratuito porque ele já é inespressivo.Mas vou guardar o meu, que comprei em Picadilly…
      6. A Música
Esta é uma das partes mais tristes da história da mudança. A indústria discográfica está a definhar de morte lenta. E não é só por causa de downloads ilegais. É a falta de oportunidade para a nova música inovadora chegar às pessoas que gostariam de ouvi-la. A ganância e a corrupção é que é o problema. As gravadoras e os conglomerados de rádio estão simplesmente a autodestruir-se. Mais de 40% das músicas compradas hoje são "Anexos dos Catálogos"

       7. A Televisão
As receitas dos canais televisivos têm caído drasticamente. Não apenas por causa da crise. As pessoas estão a preferir assistir a televisão e filmes a partir dos seus computadores. E, ao mesmo tempo, elas jogam e fazendo muitas outras coisas, que ocupam o tempo que costumava ser gasto assistindo a ver televisão. Programas do horário nobre descambam abaixo do menor denominador comum. A publicidade roda a cada 4 minutos e 30 segundos. Eu digo boa viagem para a maior parte de tudo isso. Quando vejo televisão escolho o programa antes. Recuso o resto.
        8. As coisas que hoje usamos
Muitos dos bens que usamos e possuímos já não poderemos realmente possui-los no futuro. Eles podem simplesmente ficar na "nuvem ".
        9. A nossa privacidade
Se já houve um conceito, com que podemos olhar para trás com nostalgia, é o da privacidade. Isso já acabou. Ela foi-se já há muito tempo, de qualquer maneira. Vivemos a era do "big-brother". Há câmaras nas ruas, na maior parte dos edifícios, e até mesmo no nosso computador e telemóvel. E vocês podem ter certeza que funcionam 24 horas por dia, 7 dias na semana, "Eles" sabem quem és e onde estás, até as coordenadas GPS, e o Google Street View. Se comprarem alguma coisa (com cartão bancário, nºfiscal, ... Base Dados pessoais), isso é colocado num trilião de perfis (de consumidor, gostos), e passam a receber anúncios reflectindo essa escolha. O que é muito “chato” ! Neste momento é possível conferir todos os teus passos, desde que te levantas até que te deitas, documentando-os em filmes ou fotografias.
     Tudo o que temos perdido e que não pode ser ... desagrada-me ao mais alto ponto. Sempre amei a liberdade. E esta é cada vez mais condicionada.



Publicado por Xa2 às 07:39 de 16.01.17 | link do post | comentar | ver comentários (5) |

Pós-política, pós-verdade, ... os média e os cidadãos

----- Pós-política       (-por João Gaspar, 23/11/2016, 365forte)

 Pontos prévios:
    1. A  pós-verdade  enquanto fenómeno político merece análise e preocupação. É um cancro que mina a confiança nas instituições (sociais, políticas, mediáticas), agrava o fosso eleitor/eleito, afasta pessoas da discussão pública, da participação cívica e democrática e dos centros decisórios, em suma: abala as fundações do contrato social em que se baseia a relação Estado-Cidadão.

     2. As notícias falsas, as câmaras de ressonância, no fundo o facto de andarmos aqui todos a pregar aos convertidos em vez de jogar ao rebenta a bolha, agravam as clivagens sociais, destroem o jornalismo, impedem o debate e favorecem os que se aproveitam da pós-verdade para garantir o poder.

 Não obstante:
    1. Quase nada disto é novo. Muitas vezes a pós-verdade é só um nome pomposo para a mais crua das mentiras, com roupagens modernaças. A velocidade de propagação e o alcance das atoardas são o factor novidade aqui. Paradoxalmente, num mundo em que a informação devia mais rapidamente ser contrastada e desmentida, a ascensão do pós-facto ao discurso dominante e ao poder tem acontecido a uma velocidade vertiginosa.

    2. Mas a falsa informação não é rapidamente contrastada e desmentida? É, claro que é. Diria que quase ao instante. A novidade está no facto de já não importar para nada. E não importa por razões que estão muito a montante dos Brexits e dos Trumps deste mundo. Não importa porque o caldo em que levedaram os Trumpettes é feito de pós-política.
    3. O mundo pós-política. Começou de mansinho. O debate político deixou de ser feito com a razão. Gritar mais alto passou a ser um argumento válido. Ser austero, firme, que isto não está para brincadeiras. As ideologias foram diabolizadas (cruzes, canhoto!). O mundo sonhado passou a ser o da realidade-zinha, a vida dura e simples, livre de ideologia. Governar o mundo deixou de ser feito de opções. É o que tem de ser, «TINA-there is no alternative», dizem-nos! e vendem bonés com a palavra/slogan «Obey», obedeçam!). Aceitemos, então. Aceitámos. Aceitámos tanto que interiorizámos os "isso não interessa nada", os "são todos iguais" os "nem vale a pena votar". As pessoas passaram a valer mais do que as ideias. Vieram os afectos. O carácter. A simpatia. Ideologias é que nunca, que isto da organização das sociedades não está para essas coisas de intelectuais que não sabem o que a vida custa. É preciso é dizer as coisas como elas são. Ou, melhor, como achamos que são. Equivalemos factos a opiniões. Deixou de ser preciso argumentar. E se for preciso amanhã dizemos o contrário. Nasceu a pós-vergonha. O debate político é secundário: um diz A, o outro diz B, já sabemos como é que isto acaba. Argumentos para A e B tornaram-se inúteis. Afastaram-se pessoas, minou-se o debate. E a sensatez impede gente valiosa de correr num campo minado. Perdemos todos. E ganharam os fascistas (que estão sempre à espreita, «com pés de veludo»). Recusou-se a dialética. E sem dialética não há democracia. Mas se calhar isso também não interessa nada, que são todos iguais e nem vale a pena votar.

------ A  ignorância  na  era  da  comunicação

    «A ascensão da nova ignorância», a crónica de José Pacheco Pereira saída hoje no Público  ... merece a pena ler. É sobre a ignorância que nos cerca, oprime e condiciona. Sobre uma nova forma de saber e de dar a saber que privilegia o simples (quando não o simplicíssimo ou o simplório), o efémero, o imediato, o saber condensado e assumidamente soft. É sobre ela que se instala a mentira e a manipulação: para o ignorante, tudo é novo e possível. E, como não possui referências para deter e aplicar um aparato crítico, tudo é verdadeiro, aceitável. Se não é verdade, bem poderá sê-lo, diz o novo ignorante, que nem mesmo sabe que o é. De facto, é este o princípio motor da «era da pós-verdade».

     JPP tem, porém, uma dificuldade sempre que refere o assunto. Como ocorre com outras pessoas que sobre ele opinam, remete a culpa pela situação para a dose ultra-rápida e excessiva de informação, e, para uma, excessiva também, e tendencialmente apocalíptica, democratização dos modos de comunicar. Isto é, para a interferência e a influência nefasta da Internet, e em particular das redes sociais. Ela existe, sem dúvida, e os seus perigos são inúmeros, mas integra, este é um dado adquirido pela teoria, um novo paradigma comunicacional. A solução não está em aboli-lo – e como fazê-lo? desligando as tomadas? «à chinesa», instalando um Big Brother supraceleste? – para supostamente regressar a um modelo, nostalgicamente concebido como ideal, que jamais voltará. Está, sim, em corresponder ao desafio de, dentro do paradigma, agir de uma forma substantiva, mostrando a diferença entre o saber e a ignorância. Os diferentes públicos seguirão depois os respetivos caminhos. Não faz sentido ser contra as novas tecnologias, a Internet ou o Facebook, mas faz todo o sentido agir para torná-los melhores e mais fidedignos.

      Leia-se então JPP num fragmento da referida crónica: «Ainda há-de alguém convencer-me que este comportamento lá por usar tecnologias modernas representa uma vantagem e não uma patologia. Faz parte de sociedades em que deixou de haver silêncio, tempo para pensar, curiosidade de olhar para fora, gosto por actividades lentas como ler, ou ver com olhos de ver. E se olharmos para os produtos de tanta página de Facebook, de tanta mensagem, de tanto comentário não editado, de tanta “opinião” sobre tudo e todos, escritas num português macarrónico e cheio de erros, encontramos fenómenos de acantonamento, de tribalização, de radicalização, de cobardia anónima, de ajustes de contas, de bullying num mundo que tem de ser sempre excitado, assertivo e taxativo. Um dos maiores riscos para o mundo é ter um presidente dos EUA que governa pelo Twitter como um adolescente, com mensagens curtas, sem argumentação, que, para terem efeito, têm de ser excessivas e taxativas

      Resolveremos nós o problema retirando  o brinquedo aos «adolescentes», e controlando ou reduzindo a liberdade de comunicação? E «nós», quem? Os iluminados? Os que detêm meios coercivos ou tecnologia para o fazer? Não me parece que isso seja desejável, ou sequer possível. Pelo menos em sociedades plurais e democráticas. O caminho será, pois, necessariamente outro. Passará sempre pela responsabilização de quem se bate pelo conhecimento, pelo pluralismo e por uma sociedade melhor. Também porque mais e melhor informada.

       [a crónica de JPP, que anuncia continuação, pode ser lida aqui

-----  Presidente Donald      (-por CRG, 10/11/2016, 365forte)

Por altura das primárias republicanas (nos EUA) escrevi este post:     "Na comparação entre "1984" e o "Admirável Mundo Novo", Neil Postman refere que enquanto Orwell temia a censura, A.Huxley temia que nos fosse dada tanta informação que seriamos reduzidos à passividade e egoísmo, que a verdade fosse afogada num mar de irrelevância.

    Passados 75 anos da publicação da obra de Huxley, David Foster Wallace, com a sua habitual genialidade, cunhou o termo "Ruído Total" (Total Noise) para descrever o tsunami de informação, spin, retórica e contexto que nos invade diariamente - que não só dispersa a nossa atenção, mas também torna impossível distinguir o que é relevante e de valor.   No meio desta avalanche as únicas noticias/opiniões capazes de se elevar do mar de irrelevância são as mais chocantes e esdrúxulas."

chart-2.jpeg            Trump parece ser o culminar deste fenómeno descrito por DFW. Com efeito, ele é o candidato que através da sua capacidade de chocar, de criar polémica e de entreter, domina a atenção dos media sedentos de audiências.

    Esta atenção desproporcional face aos restantes candidatos reforça o poder da candidatura de Trump, que por sua vez lhe confere mais cobertura noticiosa - um ciclo vicioso. Este poder da imagem assente em discursos simples reduzidos à formula "eu sou o melhor" nas suas mais diversas variantes apela a eleitores cansados de tanto ruído, de tantos anos de falsas promessas (...).

     Acrescido a estas simples mensagens veio um apelo emocional à nostalgia (ou o que passa por nostalgia num tempo de distúrbio do déficit de atenção generalizado, como diria Pynchon). Não foi uma campanha virada para o futuro, mas para o passado - make america great again. Ora, como escreveu DeLillo: "Nostalgia is a product of dissatisfaction and rage. It´s a settling of grievances between the present and the past. The more powerful the nostalgia, the closer you come to violence." 

     A campanha da Clinton não conseguiu dar resposta a esta dessatisfação e raiva, a uma parte do eleitorado perdido entre o passado e o presente. Julgavam, com alguma razão, que o comportamento desastrado de Trump e a manutenção da política do Presidente com uma taxa de aprovação superior a 50% seria suficiente. Falharam por 2%. 

 NB: Still, it is clear that the places that voted for Trump are under greater economic stress, and the places that swung most toward Trump are those where jobs are most under threat. Importantly, Trump’s appeal was strongest in places where people are most concerned about what the future will mean for their jobs, even if those aren’t the places where economic conditions are worst today.



Publicado por Xa2 às 19:26 de 27.11.16 | link do post | comentar | ver comentários (1) |

Avariar o Estado é fácil e dá milhões ... aos amigos e privados barões/ burlões

Avariar  o  Estado

por Sandra Monteiro , 10/10/2014, LeMondeDiplomatique Pt

     Antes fosse só incompetência, mas não é. (existe intencionalidade). A incompetência resolve-se substituindo pessoas impreparadas por pessoas capazes de fazer um trabalho bem feito. Não seria um grande drama: mesmo com a emigração, o país ainda está cheio de pessoas competentes. Mas o que está a acontecer ultrapassa em muito a incompetência.    O actual disfuncionamento da sociedade é uma consequência previsível, saudada por uns e criticada por outros, da transformação estrutural imposta pela austeridade, pela dívida, pela arquitectura europeia e monetária. E avariar o Estado é um elemento central deste empreendimento.

    O Estado deixa de funcionar através dos cortes de financiamento e das transferências de recursos, isto é, com políticas de desinvestimento público, degradação do Estado social (sistemas de educação, saúde e segurança social), ataque ao mundo do trabalho (salários, contratação, despedimentos) e canalização dos recursos aí gerados para o sistema financeiro.    Chamam-lhe «disfuncionamento» os que discordam do tipo de sociedade que ela engendra;  para os outros, os adeptos do neoliberalismo, tudo corre como projectado. Por vezes as trapalhadas são demasiado notórias, obrigando até a pedir desculpas, mas isso só significa que vão procurar uma forma mais eficaz de nos fazer engolir o seu modelo de sociedade, e nunca que desistiram dele. As desigualdades e as injustiças continuam a funcionar.

      Na justiça, mergulhada há muito numa crise profunda, parecia não ser fácil piorar a situação. Mas o governo conseguiu fazê-lo. A reforma judiciária fechou tribunais funcionais para abrir outros sem as mínimas condições. Obriga funcionários a grandes deslocações (várias horas por dia e de táxi) e processos a serem transportados sem garantias da sua integridade física (em camiões de caixa aberta) e pelo exército. Ao mesmo tempo, o programa informático CITIUS entrou em colapso total, deixando o sistema parado há mais de um mês, com todos os prejuízos que daí advêm para os trabalhadores judiciais e para os cidadãos que recorrem à justiça. Esta já tinha problemas de ineficiência e inigualitarismo, agora a sua paralisação potencia o regresso de todas as aberrações justicialistas (a que não faltará quem chame «justiça popular» ou «populismo», certamente de geração espontânea).

    É difícil imaginar que esteja a preparar-se uma privatização em grande escala do sistema judiciário em Portugal (depois pensa-se nas primeiras privatizações das prisões nos Estados Unidos…, nos "tribunais arbitrais" privados e manipulados, nas multinacionais sociedades de advogados e suas filiais locais, ...). Mas a flexibilidade (e globalização) do projecto neoliberal não admite apenas privatizações, sendo exímio em concessões, parcerias público-privadas (PPP rentistas sugadoras do Estado), etc. Antes destas engenharias tende a disseminar-se um mito, o de que os privados seriam melhores gestores do que o público, e uma experiência marcante, a do mau funcionamento dos serviços públicos, ou até a de «ser bem tratado no privado». O caos na justiça cria o terreno para esta construção.

Na educação reina um outro caos. O início do ano lectivo arrancou sem professores e sem aulas em muitas escolas, com muitas carências ao nível do pessoal auxiliar, com erros inadmissíveis, e repetidos, nos concursos de colocação de professores, cujas consequências são prejuízos materiais e morais para muitas famílias de norte a sul do país. Poderia até ser uma boa piada a sugestão feita aos professores prejudicados de que recorressem aos tribunais, quando a justiça se encontra paralisada. Mas o problema é que isso foi dito, sem graça, pelo Ministério da Educação e, ainda por cima, com o ar de quem não tenciona gastar um cêntimo com pessoas que, pasme-se, insistem em ser mais do que só números.

    O problema tem efeitos desiguais:  há escolas onde existe mais instabilidade, há regiões onde o caos tem mais condições de beneficiar o ensino privado, há professores mais precarizados, há famílias como mais possibilidades de encontrar ajudas educativas e de guarda para os filhos.  Avariar as escolas faz-se com subfinanciamento; com a canalização de recursos para fora do público; com a colocação de pais, professores e estudantes em situações tão degradadas no público que os põe a pensar em alternativas. As trapalhadas e as incompetências criam, também aqui, má experiência dos sistemas públicos. O resto – a escola democrática, igualitária, base da igualdade de oportunidades –, são danos colaterais aceitáveis para os neoliberais.

No campo do trabalho, o mais recente escândalo decorre dos contornos da revisão do salário mínimo nacional (ver, nesta edição, o artigo de Fernando Marques). É evidente que qualquer aumento, mesmo que seja pouco superior a 15 euros por mês, conta muito em orçamentos de miséria – falamos de quase 500 mil trabalhadores. Mas não pode deixar de chocar que um aumento que estava congelado, mas acordado, tenha implicado novas cedências no montante e que a revisão seja feita à custa da segurança social (cuja falta de sustentabilidade o governo a seguir apregoará). Escandaloso é também que as instâncias europeias se tenham apressado a avisar que o aumento é provisório e exagerado (se calhar 500 euros passou a limiar de riqueza…).

    O que tudo isto significa é que prossegue a desvalorização interna, a aposta num país com salários tão baixos que possa competir com todas as indignidades laborais que outros consigam impor aos seus trabalhadores. Prossegue a preparação do caos que, nas suas mentes, há-de levar ao fim do modelo actual de segurança social e ao alargamento do mercado dos seguros privados. Também no sector do trabalho se verifica que os neoliberais cuidam muito do Estado, mas apenas para que ele seja o instrumento da corrosão do público, da destruição do sentido de comunidade e do benefício de/para interesses e sectores privados.

    O que tem acontecido na área da saúde, onde alguns dizem nada estar a acontecer e que os piores cortes já teriam surtido efeito, é a este título bem ilustrativo. As mais eficazes avarias do Estado, ou os melhores arranjos pessoais e negócios privados, fazem-se discretamente. De alguns temos notícia passados anos, como acontece com o que se vem sabendo do chamado «caso Tecnoforma» e da actuação de Pedro Passos Coelho; de outros, enquanto decorrem. No meio das notícias das perdas e falências do «caso BES», o mercado financeiro anima-se, arreganha os dentes. As peripécias em torno da valorização da Espírito Santo Saúde, cuja venda promete ser lucrativa, coincidiram com as greves de médicos e enfermeiros. Nos comentários do Ministério da Saúde repetiu-se o refrão: «o pior é que quem fica prejudicado com estas greves são os utentes do serviço público que não podem recorrer a outra alternativa». Fez lembrar aqueles cartazes do tempo das obras, mas desta vez para dizer: «desculpem o incómodo, mas estamos a trabalhar para que tenha acesso a serviços de saúde privados e concessionados».

     Avariar o funcionamento de um Estado é fácil: corta-se, transfere-se, destrói-se e desrespeita-se a vida da maioria dos cidadãos. Pô-lo novamente a funcionar é que é um duro combate. Não exige só competência; exige sentido de serviço público, convicção das vantagens de uma sociedade igualitária, e coragem para assumir os confrontos, com escala europeia, de que dependerá ter meios materiais para solucionar a avaria.

-------

Acabar com o SNS, esse desígnio da direita    (-J.Mendes, 3/11/2015, Aventar)



Publicado por Xa2 às 07:41 de 03.11.15 | link do post | comentar | ver comentários (19) |

Maioria de sub-cidadãos, poder e media

três tristes timbres de uma sinfonia pobre    (-Paulo Pinto, Jugular, 6/10/2015)

     O 1º foi a abstenção. Pensar que no meu país há mais de quatro milhões de pessoas que prescindem do seu direito de votar é algo que me deixa - e que deveria deixar todos, para além da simples lamentação - perplexo e crispado. Há quatro milhões de portugueses que desistiram de exercer o seu direito soberano: escolher quem os governa. Não é desleixo. Os portugueses não votam porque o voto entronca numa noção de cidadania que continua a ser estranha e com raízes frágeis, em 40 anos de democracia: direitos, deveres, interesse comum, projeto coletivo.     Não votam da mesma forma como não reclamam num serviço, antes resmungam ou desancam o funcionário;    não votam como não protestam, antes encolhem-se ou insultam;    não votam como não se organizam, antes desdenham de quem o faz.   O corolário do "este país é uma merda".   Portugal é o país do respeitinho, do medo à autoridade, da desconfiança que o parceiro nos passe a perna, do sussurro pelas costas e sorriso pela frente, de um povo habituado a ser súbdito e não cidadão. O país do desenrascado e do espertalhaço.  Do individualista desconfiado:   dos seus pares, das instituições, dos políticos e, sobretudo, do Estado.  No sábado, numa caixa de supermercado, ouvi uma discussão entre um senhor que dizia que precisávamos não de um, mas de vários Salazares, e um outro que dizia "Salazares não, Lenines". Ambos concordavam que Salazar tinha muitos defeitos mas, ao menos, não roubava. É a este nível rasteiro, de pura desconfiança acerca de tudo e todos, que nos encontramos. Quatro milhões não foram votar. Não decidiram. Escolher é uma responsabilidade, um ónus. Não votar é não decidir, e quem não decide não se sente responsável pelo que acontece, os males do mundo e do país, "eu não tenho nada a ver", foram "eles". Um país de Pilatos, involuntários mas reais, muitos, quatro milhões deles. 

      O 2º foi a vitória do PàF. O mais absoluto desconsolo. Como é possível que quatro anos de laboratório social de uma gente oportunista, que dizia ter tudo estudado e que afinal não conhecia nada, que prometeu cortar gorduras e acabou a raspar no osso, que alinhou com os credores internacionais na mais absoluta subserviência de capataz ansioso por "ir além da troika", insensível ao descalabro social, hipócrita, beata, mentirosa até ao tutano, não tenham causado uma repulsa inequívoca, total, global?    Gostarão os portugueses de ser guinea pigs ('porquinhos para experiências')?  Serão masoquistas?  Um "povo estúpido", como ouvi de várias bocas, antes e depois do dia de eleições? Não acredito. Existe inequivocamente um sentimento, muito católico, de expiação pelos "abusos", o vivemos "acima das nossas possibilidades" que obrigou a um merecido apertar de cinto. Mas mais importante foi a ideia, muito elementar e, por isso, eficaz, incutida, repetida e sedimentada, de que o pior já passou, de que houve sacrifícios mas estamos a sair da crise, de que o "ajustamento" foi doloroso mas necessário e que agora - precisamente em ano de eleições - podemos finalmente resolver os problemas.   Todos sabemos que não passa de pura mistificação.   Mas a memória é curta e quem mexe os cordelinhos sabe que o uso e abuso de ('novilíngua') termos como "moderado" e "radical" condiciona a perceção da realidade e espartilha as escolhas e as opções.  Evidentemente, muitos dos que votaram PàF fizeram-no por acharem tratar-se do mal menor. Antes estes, que conhecemos, do que os outros, que não se sabe o que são e que - dizem - são "radicais"; e para desgraças já basta as que sofremos. Nada de ruturas. Deixa-nos cá ficar no nosso nichozinho, que é mau mas podia ser pior.

      O 3º foi o fracasso do Livre/Tempo de Avançar. Ao contrário dos desvarios de prosápia demagógica de Marinho e Pinto ou do caudilhismo Femen de Joana Amaral Dias, tratou-se de um verdadeiro projeto político participado, com processos de reflexão e debate e eleição de candidatos inéditos em Portugal.   O programa eleitoral era sólido e com propostas válidas e substanciais; quem quiser, que compare com a pobreza confrangedora do programa do PàF.  Tinha à sua frente pessoas dotadas de mérito e competência política.  Não é qualquer um que consegue ter como mandatário nacional uma figura como José Mattoso.   Nenhum outro "pequeno partido" teve empenho idêntico por parte dos seus membros ou ações de campanha de âmbito sequer, comparável.   Foi uma proposta verdadeiramente nova no panorama eleitoral.  No entanto, falhou em absoluto.   Ficar atrás do PAN, PDR, MRPP e não alcançar os 50 mil votos é um desaire total para quem tinha ambições e expectativas de se constituir como uma "ponte da esquerda".   Ora, este fracasso marcou igualmente o fim de qualquer sonho desse tipo, pelo menos num futuro próximo, num país onde "esquerda" e "direita" deixaram de ter qualquer significado, são meros chavões e rótulos vazios de conteúdo.   Pior, deixou bem claro que ideias bem formuladas, propostas inovadoras, projetos participativos e apelo aos valores da cidadania não ganham eleições em Portugal.   Nada que surpreenda num país com 4 milhões de abstencionistas.   Nada que surpreenda num país onde a PàF venceu as eleições.

------

É que o problema é exactamente esse    (09/10/2015 por j.m.cordeiro, Aventar)

O perfil falso a vangloriar-se do trabalho feito

Consegue a esquerda fazer chegar as suas mensagens ao mais comum dos cidadãos? Será que apenas alcança – em debates, publicações e iniciativas – circuitos e universos («reais» ou «virtuais») demasiado restritos?    Com a ilusão de comunicar de forma ampla, quando na verdade não sai dos aquários em que se move, mobilizando essencialmente os «mesmos de sempre», as militâncias e os já convencidos?  [Nuno Serra]

Blogs e outros meios funcionam em circuito fechado, para um público que já está informado, seja ele de esquerda ou de direita. Trocam-se argumentos mas não se convence ninguém, já que cada um tem as suas posições bem cimentadas, tenha ou não razão. Ambos os lados esperam convencer uma suposta audiência, mas têm, eles mesmos, as suas opiniões congeladas.

Há uma enorme massa populacional que não acompanha o dia a dia do país. Possivelmente, com os pacotes de TV por cabo e com a Internet a comer audiência à televisão, nem sequer segue os noticiários dos canais abertos. E quando segue, convenhamos, pouco fica a saber, pois estes optam por um formato de repetidor de mensagens dos diversos protagonistas, sem um trabalho complementar de validação da mensagem. É mais barato. E poderá haver colagem ao poder, mas será sempre ao poder estabelecido, seja de direita ou de esquerda.

Como é que se chega a esta massa? Com mensagens simples e simplificadas. A coligação fê-lo com mensagens falsas. Contou com um verdadeiro exército, composto por três vértices:

1. Spin doctors: construção e difusão primária da mensagem, usando canais especializados, tais como o acesso aos meios de comunicação social,  os meios partidários (congressos, “universidades” de Verão, etc. ) e comentadores. O objectivo deste nível consiste em fazer chegar a mensagem a um público restrito mas empenhado na difusão (militantes e simpatizantes). A mensagem não tem que ser simples mas precisa de ter elementos que possam ser desenvolvidos e relacionados por outros (números, gráficos, teses,  posições oficiais sobre os temas da actualidade,  etc.).

2. Consolidadores da mensagem: aqui entra o Observador, mas também pessoas com acesso aos órgãos de comunicação social. Pegam na mensagem, desenvolvem-na e dão-lhe credibilidade. Esta camada da comunicação tem por objectivo criar um conjunto de referências (links, notícias, registos de vídeo,  artigos) que possam ser citados pelo nível três. O Twitter também tem um papel relevante neste nível como canal de distribuição mais elitista.

3. Este nível é responsável pela difusão em massa da mensagem. Fá-lo de forma simplificada mas usando as referências do nível 2 para lhe dar credibilidade. O Facebook foi central para a coligação atingir este objectivo. Demonstrou-se no Aventar que a coligação construiu, possivelmente a partir de 2012, uma rede de perfis falsos para, com ela, fazer chegar as mensagens simplificadas a um largo espectro. Mesmo quando esta rede foi desmascarada, a coligação deu o passo em frente e continuou como se nada se passasse, inclusivamente quando tal foi notícia na SIC. E, tirando a minoria informada, nada se passou. Esta rede de perfis falsos fez chegar a mensagem a uma camada populacional que se declara desinteressada da política e que tem no Facebook um importante meio de contacto com o mundo. Para esta camada, a televisão liga-se para filmes e séries, que isso da política “são todos iguais”. E quando calha dar-lhe para o sério, lá está o nível 2 em acção a comentar as teses do nível 1.

      Para dar um exemplo e não ficar pelas generalidades, vejamos o tema do desemprego. A tese oficial é que este baixou. O nível 1 preparou um discurso tendo como ponto de partida 2013, quando houve inversão no ciclo recessivo (a razão de tal ter acontecido é, ela mesma, outro tema, mas vamos manter o foco no desemprego). Como se sabe, fez-se de conta que o governo não estava em funções desde 2011, período de enorme queda do emprego. O nível 1 trabalhou também os números do IEFP, nomeadamente a questão da limpeza do número de inscritos no centro de emprego. O nível 2 tratou de fazer os anúncios em opinião e noticias. Neste aspecto, o Observador, mas também outros OCS (mídia), repetiram a mensagem sem análise ou contraditório. O nível três encarregou-se de fazer pequenos posts com grafismo e mensagens curtas a apontarem para as mensagens do nível 2. Estes posts chegaram directamente a milhares de “amigos” ligados pela rede de perfis falsos.

demontar a propaganda - emprego

Exemplo de uma das mensagens da PAF (à esquerda na imagem)

   O PS de Sócrates já tinha usado uma estratégia semelhante mas sem Facebook. Tinha o blog Câmara Corporativa como ponto central, à semelhança deste perfil falso “Maria Luz” da PAF, ao qual se ligava mais um conjunto de blogs perfeitamente identificados. Mas o fenómeno Facebook tem, agora, uma escala muito superior ao que tinham os blogs em 2009. E objectivo também não é exactamente o mesmo, pois em 2009 pretendia-se influenciar os influenciadores (bloggers, jornalistas, comentadores) para, através deles, fazer o spin chegar à população. Na PAF, além deste objectivo, houve, também, o uso do Facebook para chegar directamente às pessoas. Comparando com o comércio, cortou-se no canal de distribuição para chegar directamente aos consumidores, tal como fizeram as grandes superfícies indo comprar directamente aos produtores.

Outra diferença foi o fim de vozes claramente discordantes na televisão, como era o caso de Manuela Moura Guedes e outras. Questões de políticas editoriais e económicas, estas agravadas com a austeridade, acentuaram este fenómeno de ausência de contraditório.

Não chega um «'Observador' de esquerda». Este apenas é uma peça na engrenagem.



Publicado por Xa2 às 07:59 de 06.10.15 | link do post | comentar | ver comentários (5) |

Violação da privacidade (vídeo, telefone, net, cartões, ...), dados e direitos das pessoas

Os  invisíveis   (jornalistas precários, freelancers, estagiários e desempregados)

(PS. Luz, Aventar, 3/7/2015)
FullSizeRender (1)  Somos tantos, senhores. Tantos que não contam para as estatísticas, porque não há estatísticas. Na onda deste retrocesso civilizacional que nos apanhou nos últimos anos, há milhares de jornalistas que vivem e trabalham fora de uma Redacção, em regime freelancer, que tantas vezes se mistura com a precariedade. Em casa, na sua esmagadora maioria.

    Uma grande parte chegou a esta condição pela via do desemprego, nos últimos anos, depois de levar aquele “coice de mula” de que falava Óscar Mascarenhas. É a geração dos ’40 que predomina, mas o fenómeno está a ganhar dimensões gigantescas: a maioria dos jovens que agora chega à profissão nunca vai conhecer qualquer vínculo laboral, depois do estágio

   Na quarta-feira, quando este Julho começou, a sede do Sindicato dos Jornalistas encheu-se. Integro há seis meses a nova direcção do SJ. E nunca tinha visto aquela sala assim, com tanta gente, depois da tomada de posse, quando a curiosidade levou tantos ao velho edifício. Gente que não existe, aos olhos da lei laboral. Gente que escreve e fotografa tão bem, tantas vezes melhor do que qualquer um dos que ainda vivem nas Redacções. Gente que se tornou “cara” – como o nosso João Mesquita, até nisto à frente do seu tempo – e por isso dispensável. Ou como David Clifford, que morreu há dias, sozinho, ao lado da máquina fotográfica.

     (Sobre)vivem agora da boa-vontade dos editores, lidam todos os dias com o estigma que os enfraquece aos olhos da sociedade e (até) dos camaradas, lutam todas as horas pela normalidade da vida. 

    Num inquérito que serviu de ponto de partida para a discussão, o Sindicato encontrou respostas preocupantes: quase metade dos que responderam – que serão apenas uma pequena parte dos que existem – aufere o equivalente a menos que o salário mínimo nacional. Daí há-de pagar segurança social e demais impostos.

     Uma semana antes, na mesma sala, o ministro da tutela tinha dito que os jornalistas são “os editores da democracia”. E que democracia será esta, perante um cenário destes, com um jornalismo sem poder e enfraquecido?  (... comprado e ameaçado)

     Da tarde deste primeiro dia do resto das nossas vidas de Julho, guardo os testemunhos duros que ali ficaram. Guardo as palavras de António Marujo, que é só o nosso melhor especialista em assuntos religiosos, e que o Público dispensou; da Vera Galamba, do Samuel Alemão, do Pratas, do Lorvão, do Steven, do João, do Bruno. E deixo-vos, para reflexão, as da Filipa Mendes, jovem estagiária, ainda na idade dos sonhos – como deveriam estar todos os da sua idade, com direito a um futuro – “não conheço nenhum estagiário que tenha ficado a trabalhar, terminado o estágio financiado pelo IEFP”.

O princípio do  fim  da  privacidade  dos portugueses   (-J.Mendes, Aventar, 2/7/2015)

Privacidade. Quando valores mais altos se levantam, o bloco central diz presente e coloca de lado as suas diferenças de fachada, à semelhança daquilo que aconteceu há uns meses quando se juntaram para tentar controlar o trabalho da comunicação social durante as campanhas eleitorais através de uma espécie de visto prévio estilo lápis azul. (censura prévia).     Como se o “ascendente” que têm sobre a imprensa não fosse já suficiente. (precariedade, ameaça, medo, auto-censura e despedimento).  
      Foi ontem levada ao Parlamento uma proposta da maioria para reforçar o poder das secretas portuguesas cuja aprovação, segundo me foi possível apurar (não encontro informação que me esclareça para além da notícia do Expresso Diário de Terça-feira), terá contado com o apoio do PS.    
      A proposta permitirá, entre outras coisas, que os espiões acedam às listas de chamadas de qualquer cidadão (Jorge Silva Carvalho, antigo chefe do SIED que trabalhou para a Ongoing mas que afirma nunca ter disponibilizado informações à empresa, começará a ser julgado dentro de dois meses por aceder ilegalmente à lista de chamadas do jornalista Nuno Simas), dados de comunicações online, informação bancária e dados fiscais, bastando para isso uma aprovação de uma comissão composta por três magistrados do Supremo Tribunal de Justiça. 
      Contudo, a proposta do bloco central é vaga sobre os critérios subjacentes à tal aprovação, não implicando sequer a existência de indícios fortes do investigado ter cometido qualquer crime
      Sobre o último ponto, a Comissão Nacional de Protecção de Dados (CNPD) emitiu um parecer que critica violentamente a proposta, afirmando que representa “uma agressão grosseira aos direitos à privacidade e à protecção de dados pessoais e, em consequência, ao direito à liberdade“. Um Patriot Act ao virar da esquina.
     Sejam bem-vindos ao princípio do fim da vossa privacidade e Liberdade.
 
A VIGILÂNCIA DE MASSAS A QUE TODOS SOMOS SUJEITOS, MESMO SEM DAR CONSENTIMENTO
 Julian Assange num momento da sua intervenção    O fundador da WikiLeaks considera que a vigilância em massa realizada pelos serviços de informações destroem os direitos individuais e coletivos e prefiguram um "novo totalitarismo".
      Numa intervenção feita num debate realizado no âmbito do Lisbon & Estoril Meo Film Festival, hoje de manhã no Centro de Congressos do Estoril, Julian Assange dirigiu duras críticas à empresa Google, pela sua pretensão de "saber tudo sobre toda a gente", o que a transformou no "maior serviço de informações do mundo", segundo o fundador da WikiLeaks, e disse estar-se perante um "novo totalitarismo", que resulta das ações de vigilância em massa realizadas pelos serviços de informações, em especial os dos Estados Unidos. 

       Falando por videoconferência, a partir da embaixada do Equador em Londres onde se encontra desde junho de 2012, Assange denunciou o facto de, na atualidade, "todas as pessoas" serem vigiadas, reunindo-se sobre elas e "todos aqueles com quem convivem" dados que, mais tarde ou mais cedo, poderão ser usados.  Esta realidade coloca em causa os "direitos individuais e coletivos" nas sociedades contemporâneas e ninguém consegue, em princípio, escapar a ela, designadamente numa época em que, graças à Internet e aos tipos de interação que esta permite, das redes sociais às transações comerciais, "todas as pessoas acabam por estarem ligadas entre si".  

      Como forma de proteção, Assange considera importante a necessidade de se saber proteger as comunicações feitas entre os indivíduos, através de software específico, e de não ceder à tentação do  MEDO, "que paralisa". Notou ainda que os serviços de informações não são formados "por pessoas apaixonadas" pelo seu trabalho, que neles se cometem erros e podem "ser derrotados".  No debate, intitulado "Reagir contra a violência de massas: abrir o espaço à sociedade", participaram Jacob Appelbaum, perito informático que tem trabalhado com Assange e Edward Snowden, e Jérémie Zimmermann, da associação francesa La Quadrature du Net, que defende a liberdade de circulação de informação e conhecimento na Internet, e os respetivos direitos, liberdades e garantias associados à utilização do espaço virtual.

   Julian Assange denuncia "ocupação militar na Internet"    (-por P.Mourato, 9/3/2014, Lusa/DN)

     O fundador do site Wikileaks, Julian Assange, que permanece refugiado na embaixadada do Equador, em Londres, foi um dos convidados do festival norte-americano SXSW, sobre música, cinema e tecnologia, que decorre em Austin, no Texas, tendo feito a conferência por vídeo.
     No encontro, Assange denunciou o que considera ser uma "ocupação militar" na Internet, por conta de agências de espionagem e de informação, citando a Agência de Segurança Nacional (NSA) dos Estados Unidos.  Para Julian Assange, atualmente vive-se "uma forma de vigilância mais agressiva, nunca antes vista no mundo" e que os jornalistas que escrevem sobre segurança nacional são hoje "um novo tipo de refugiado", obrigados a mudar de país para garantir segurança e alguma liberdade de expressão.   Este ano, no programa debate, além de Julian Assange, são esperadas teleconferências do ex-analista da NSA, Edward Snowden - exilado em Moscovo - e do jornalista norte-americano Glenn Greenwald, atualmente a viver no Brasil, e que publicou as reportagens com informações reveladas por Edward Snownden, sobre a vigilância norte-americana de comunicações de telefone e Internet.


Publicado por Xa2 às 07:34 de 03.07.15 | link do post | comentar | ver comentários (4) |

Vender-se e vender comunicação económico-política e poderosos interesses

    AS  TROMBETAS  DO  PODER     (-por J.Pacheco Pereira, Abrupto, 16/2/2015)

  (1)     O "jornalismo" "económico" em Portugal caracteriza-se por  não ser  jornalismo. (nem sério nem económico.) Há alguns jornalistas económicos que não merecem aspas?   Há sem dúvidas, mas são a excepção da excepção. E eles são os primeiros a saber que o são e como são verdadeiras as afirmações que aqui faço. Até porque fazer jornalismo na imprensa económica é das coisas mais difíceis nos dias de hoje. Fica-se sem "fontes", sem a simpatia dos donos e dos anunciantes e pode-se ficar sem emprego. (que é precário ou estagiário explorado, e daí também a auto-censura, ameaças, assédio, ...)
     A maioria que escreve na imprensa "económica" fá-lo entre páginas e páginas feitas por agências de comunicação, artigos enviados por auditoras e escritórios de advogados, fugas "positivas" de membros do Governo. Quase tudo é pago nessa imprensa, mas esse pagamento não é o salário normal do jornalismo, mas o seu "modelo de negócio", "vender comunicação" como se fosse jornalismo. É pago por empresas, associações de interesse, agências de comunicação e marketing, por sua vez empregues por quem tem muito dinheiro para as pagar.
     O público é (mal) servido por "informação" que não é informação, mas publicidade (propaganda) e comunicação profissionalizada de agências, dos prémios de "excelência" disto e daquilo, destinados a adornar a publicidade empresarial, páginas encomendadas por diferentes associações, grupos de interesse e lóbis, nem sempre claramente identificados, anuários sem que só se pode estar se se pagar, organização de eventos que parecem colóquios ou debates, mas não são.
     Um cidadão que não conheça estes meandros pensa que o prémio é competitivo e dado por um júri isento, que as páginas especializadas são feitas pelos jornalistas e que quem é objecto de notícia é-o pelo seu mérito e não porque uma agência de comunicação "colocou" lá a notícia, que um anuário é suposto ter todos os profissionais ou as empresas de um sector e não apenas as que pagam para lá estar, e que um debate é para ser a sério, ter contraditório e exprimir opiniões não para a propaganda governamental ou empresarial. O acesso ao pódio nesses debates é cuidadosamente escolhido para não haver surpresas, e os participantes pagam caro para serem vistos onde se tem de ser visto, num exercício de frotteurisme da família das filias.
        (2)     Um dos usos que o poder faz deste tipo de imprensa é a "fuga" punitiva. Dito de outro modo, se o Governo tiver um problema com os médicos, ou com os professores, ou com os magistrados, ou com os militares, aparece sempre um relatório, ou uma "informação" de que os médicos não trabalham e ganham muito, que os professores são a mais e não sabem nada, que os magistrados são comodistas, e atrasam os processos por negligência, e que os militares são um sorvedouro de dinheiro e gostam de gadgets caros.  E há sempre um barbeiro gratuito para o pessoal da Carris, ou uma mulher de trabalhador do Metro que viaja de graça, em vésperas de uma greve.
        (3)     A luta contra a corrupção, seja governamental, seja empresarial, a denúncia de "más práticas", os excessos salariais de administradores e gestores, a transumância entre entidades reguladoras e advocacia ligada à regulação, entre profissionais de auditoras e bancos que auditavam e vice-versa, o embuste de tantos lugares regiamente pagos para "controlar", "supervisionar", verificar a "governance" ou a "compliance", para "comissões de remunerações", a miríade de lugares ("tachos") para gente de estrita confiança do poder (ou a troca de favores e o nepotismo), que depois se verifica que não controlam coisa nenhuma,      nada disto tem um papel central na imprensa económica.  A maioria dos grandes escândalos envolvendo o poder económico foram denunciados pela imprensa generalista e não pela imprensa económica, que é suposto conhecer os meandros dos negócios. A sua dependência dos grandes anunciadores em publicidade, as (grande) empresas do PSI-20 por exemplo, faz com que não haja por regra verdadeiro escrutínio do que se passa.
         (4)     Esta imprensa auto-intitula-se "económica", mas verifica-se que reduz a "economia" às empresas e muitas vezes as empresas aos empresários e gestores mais conhecidos.  Os trabalhadores, ou "colaboradores", é como se não existissem. Um exemplo típico é Zeinal Bava, cuja imagem foi cultivada com todo o cuidado pela imprensa económica. Agora que Bava caiu do seu pedestal, como devemos interpretar as loas, os prémios, doutoramentos honoris causa, "gestor do ano", etc., etc.? A questão coloca-se porque muita da análise aos seus comportamentos como quadro máximo da PT é feita para um passado próximo, em que teriam sido cometidos os erros mais graves. Onde estava a imprensa económica? A louvar Zeinal Bava, como Ricardo Salgado, como Granadeiro, como Jardim Gonçalves, como… Até ao dia em que caíram e aí vai pedrada.  
         (5)     Dito tudo isto... ...a imprensa económica é uma das poucas boas novidades na imprensa em crise nas últimas décadas. Eu, em matéria de comunicação social, sou sempre a favor de que mais vale que haja do que não haja, por muitas objecções que tenha ao que "há".  Eu não gosto em geral do modo como se colou ao discurso do poder, servindo-lhe de trombeta, e isso pode vir a ser um problema, até porque esse discurso está em perda e os tempos de luxo (e 'antena') para o "economês" já estão no passado.
     O facto de ter havido um ascenso da imprensa económica ao mesmo tempo que estalava a sucessão de crises, da crise bancária à crise das dívidas soberanas, impregnou-a do discurso da moda, encheu-a de repetidores e propagandistas, colou-a ainda mais aos interesses económicos. Abandonou a perspectiva política, social, cultural, sem a qual a economia é apenas a legitimação pseudocientífica da política do poder e dos poderosos.  Vai conhecer agora um período de penúria, em particular de influência, e pode ser que isso leve a um esforço introspectivo sobre aquilo que se chamou nos últimos anos, "danos colaterais", agora que caminha também para essa "colateralidade". ---  (url)


Publicado por Xa2 às 08:51 de 20.02.15 | link do post | comentar | ver comentários (4) |

Alta finança com fraude e corrupção captura Estado e empobrece cidadãos

  O NOSSO PROBLEMA

Desobediência civil não é o nosso problema. O nosso problema é a obediência civil. O nosso problema é que pessoas por todo o mundo têm obedecido às ordens de líderes e milhões têm morrido por causa dessa obediência. O nosso problema é que as pessoas são obedientes por todo o mundo face à pobreza, fome, estupidez, guerra e crueldade. O nosso problema é que as pessoas são obedientes enquanto as cadeias se enchem de pequenos ladrões e os grandes ladrões governam o país.
É esse o nosso problema."  - por Ramalho Eanes.
----------
 «Eles» sabiam !  Claro que sabiam tudo !!!

Por isso, precisavam de arranjar um "bode espiatório", J.Sócrates... e o "povo" que "gastou mais do que as posses"! Com colaboração dos seus homens de mão na Comunicação Social, movendo-lhe uma campanha negra de tal ordem, que conseguiram abatê-lo politicamente, impondo-lhe a vinda da "troika", para fazerem "a lavagem" e apagarem os gravíssimos crimes de roubo no BPN (que compromete gravemente o PPD/PSD e o chefe, Cavaco Silva), BPP, Banif e, claro, no BES.

A Comunicação Social que temos, salvo raras excepções, encontra-se claramente, como está à vista de todos, ao serviço dos poderes económico, financeiro e dos políticos da direita!!!
     O  BES,  o Goldman & Sachs  e  o  Banco de Portugal
- Retrato de mais uma trapaça, com desenho final (para os mais lerdos). Tal como senhor Vítor Constâncio em relação ao BPN, também o actual governador do Banco de Portugal, senhor Carlos Costa, não percebeu nada do que se estava a passar.  (ou não quis perceber)   
     Uma enormíssima cratera (que pode ir dos 5 mil milhões de euros até aos 15 mil milhões de euros!) não foi detectada a tempo.   Pois, eu sei: o BES era um banco sólido e o senhor Ricardo Salgado um exemplo de bom banqueiro.  De uma família às direitas, que dá emprego a ex-governantes e, por outro lado, fornece os governos com muitos dos seus melhores quadros (e também o líder da UGT). Que paga férias aos grandes comentadores cá do sítio.
     Mesmo depois do buraco ter sido descoberto, o senhor Carlos Costa decidiu nomear uma administração, mas, curiosamente – ou talvez não – Ricardo Salgado continuou em «gestão corrente» e a mexer cordelinhos. Quem sabe se a queimar papéis. Se não fosse um Super Juiz, talvez ainda andasse por lá a dar sumiço a mais uns milhões.
       Mas ninguém sabia de nada?  NINGUÉM MESMO ?!
    Não ! Havia alguém que sabia !  Quem ?
O principal banco dos sionistas judeus: o Goldman and Sachs, pois claro. O banco que faz a nossa dívida crescer. O banco que nos transformou na sua Faixa de Gaza.
Provas disso? Aí estão:
O Goldman and Sachs desfez-se das suas acções do BES uns tempos antes da coisa estourar. Mas, atenção: fê-lo com o reconhecido requinte judaico. Há um mês, o banco judeu americano dizia – e cito:
«Em Portugal, o BES é o banco melhor posicionado para captar quota de mercado, dada a forte posição de capital e movimento em direcção a um sector exportador mais dinâmico».
Num dia, o banco Goldman and Sachs, diz isto; no outro, vende as suas acções no BES.
Compreende-se. O senhor Ricardo Salgado também é banqueiro.
E o senhor Cavaco a dizer que o BES era um banco sólido. E o senhor Passos Coelho a dizer o mesmo. E o senhor Carlos Costa a ver navios.
E alguém vai às contas e ao património (e offshores) da família Espirito Santo?
Para quê? Não é para pagar coisas destas que existem os portugueses?
E AGORA? JÁ PERCEBERAM, ou é preciso fazer um desenho? Então, cá vão os figurões:
- Um (?) banqueiro burlão/ladrão/corruptor/... (com vários associados e capatazes) manipulou governantes, empresas e cidadãos... e foi sacando à vontade o país até não mais poder esconder a cratera…
- o Goldman & Sachs (+ outros bancos, especuladores e agências de 'rating'), os mestres do sacanço internacional, legal e ilegal, mas sempre impunemente…)
- o senhor governador do Banco de Portugal (e adjuntos), que por acaso estava distraído a antegozar a reforma dourada e as mordomias presentes...
- o senhor que devia ser primeiro-ministro defensor do interesse público, mas é fantoche do grande capital e diz que a culpa é dos anteriores, que não há problema com o BES, e que o Estado não vai meter dinheiro em bancos privados... (e depois vai desdizendo as mentiras anteriores e proclama outras como verdades e boas acções...)
- o grande economista, que consta ser presidente da República, pede aos tugas para se manterem calmos e exigirem alianças patrioteiras... e garante que o BES é um banco sólido! …
- E, finalmente, o eterno PAGADOR, o Zé Povo, tu, eu e os outros camelos, carneiros, burros  e mansos.   
------------

O  PECADO  ORIGINAL NO CASO  GES/ BES. O ANUNCIADO E O REALIZADO.  A MENTIRA POLÍTICA  INSTITUCIONALIZADA  EM  PORTUGAL

Quando agora se soube pela boca dos ... que, afinal, os contribuintes seriam novamente chamados a pagar a corrupção, a gestão ruinosa, as luvas e demais comissões que tipificam crimes económicos graves - para compensar o dinheiro que o Estado colocou no famoso Fundo de Resolução para aguentar o banco do Ricardo da Boca do Inferno - nada de novo foi dito sob os céus. E por uma razão simples:

o povo português, mesmo o menos preparado e versado para a compreensão da gestão da cousa pública, há muito já compreendeu que aqueles figurantes não são pessoas de bem, razão por que mentem compulsivamente, agora para justificar e oficializar que a injecção de capitais públicos para aguentar os disparates do Governador do BdP, outro figurante que a história irá crucificar, exigem mais e mais impostos por parte do Zé Povinho, que assim será mais esmifrado nos seus já débeis rendimentos.

A solução técnica criada pelo Fundo de Resolução, uma inovação do sr. Carlos Costa, o guardador de tacos de golf de João de Deus Pinheiro, revelou-se um logro, assim como toda a sua acção laxista na supervisão da banca em Portugal; a esperança vertida nas declarações da ministra das Finanças, Maria Luísa Albuquerque, em linha com as do governador do BdP, traduzem-se em mentiras e estas, por sua vez, em mais e mais impostos sobre os contribuintes. Um e outro, Carlos Costa e Maria Luis Albuquerque, e também Passos Coelho (3º elemento do tripé desta mega-farsa), que nada percebe de finanças públicas, nem nada de nada, convergiram para um ponto de luz:   uma narrativa de mentiras sucessivas visando ocultar o pagamento extra da factura decorrente da desejada venda do banco do Ricardo no mercado internacional, o qual será vendido abaixo do capital que o Estado - e demais accionistas/bancos portugueses - nele investiram. E se assim for, é, de novo, o zé povinho quem paga as comissões à família Espírito Santo pelos submarinos que o Paulinho Portas/CDS/PP encomendou aos alemães.

Em rigor, trata-se de dinheiro que sai directamente dos bolsos das famílias portuguesas para entrar nas contas da família Espírito Santo, tamanho o escândalo (e crime) agora cumpliciado e oficializado pelo alegado PM, Pedro Passos Coelho.

O cancro do BPN ao pé desta megra-fraude, que comprou e corrompeu todo o sistema político durante décadas, não passa duma bagatela jurídica. Os contribuintes pagam sempre os roubos praticados pelos parasitas da nossa sociedade! E se não pagam a bem, pagam a mal, com mais juros agravando o nível de empobrecimento dos portugueses e entorpecendo ainda mais as condições de transparência e de competitividade no funcionamento da economia nacional.

Passos coelho, além de ser tecnicamente incompetente, revelou-se também um actor político populista, perigoso, já que em todos os sectores de actividade os factos têm contrariado o sentido quer do seu Programa de governo, quer das suas declarações avulsas comunicadas à sociedade.

Esta discrepância significa, entre outras coisas, que o exercício do poder ficou literalmente sequestrado por grupos de interesse ligados à alta finança, os quais têm condicionado e perturbado a boa governação nos demais sectores da economia e da sociedade.

Se a política é a articulação da possibilidade com a finalidade, a virtude da decisão política decorre da leitura ajustada das suas condições de concretização, mas para isso seria necessário que aquilo que foi anunciado coincidisse com as tarefas realizadas, o que não acontece(u).

Não restam dúvidas, hoje, de que toda a campanha feita pela extrema direita contra o J.Sócrates na sequência da crise financeira financeira de 2008, teve como artífices, o Presidente da República (enterrado até à ponta dos cabelos no caso BPN), o PPD/PSD e o CDS/PP, como o o objectivo de branquear o caso BPN, BES (que sempre procuraram esconder!), BPP, BANIF e outros!!! É desta brecha entre o anunciado e o realizado que nasce, em todo o seu esplendor, a mentira política institucionalizada pelo XIX (des)Governo (in)Constitucional, o pior desde o 25 de Abril de 1974.

(-recebido por e-mail via mmpoupino.)
 
 


Publicado por Xa2 às 07:30 de 13.10.14 | link do post | comentar | ver comentários (1) |

Poder, "novilíngua" e manipulação dos cidadãos e da democracia

O poder e a sua legitimação linguística  (-por Sérgio Lavos, Arrastão, 3/1/2014)

  [«Guerra é Paz, Liberdade é Escravatura, ignorância é força»]

   Aproveitando o trabalho do David Crisóstomo e a sua exaustiva lista dos termos de novilíngua que este Governo tem utilizado, deste modo enriquecendo, se não o léxico, pelo menos a semântica da língua portuguesa, elaboro um pouco sobre o que poderá estar por detrás deste esforço linguístico do executivo.

     Segundo George Orwell, novilíngua é uma forma de controlo social, através do qual o Estado se apropria de palavras correntes, atribuindo-lhes um sentido diferente, sempre difuso, muitas vezes o oposto do sentido original.    A ideia é simples:   quem controla a linguagem, controla a comunicação, e quem controla a comunicação, controla a informação, o que o público sabe, o que as pessoas conhecem do Estado. A linguagem é um meio de perpetuar o poder, e a novilíngua o instrumento que permite a manutenção de um discurso público que legitima a sua existência.

      Começa exactamente aqui, na ideia de Governo. Analisando o discurso recente do Presidente da República, encontramos talvez o principal elemento legitimador deste Governo: a emergência nacional. Como disse o Presidente, o esforço de consenso não deverá ser "partidário, mas sim nacional".

     A ideia do pensamento único em todo o seu esplendor.  Eliminado a possibilidade de diferença, de oposição, sob a ameaça do anti-patriotismo, apenas um caminho será possível, o caminho do poder, o caminho do Governo. A subtil distorção dos termos em uso - "consenso" em vez de negociação, "emergência nacional" quando esta figura jurídica não se aplica de todo à actual situação, "salvação nacional", conceito que coloca de fora todos os que não concordam com este pensamento único -, cria um novo campo semântico, que por sua vez irá ser propagado pelos meios de comunicação até à exaustão, até que o discurso público esqueça o sentido original das palavras, repetindo acriticamente o novo significado, inventado pelo poder que o difunde. Ao contrário do que acontece em ditadura, interessa ao poder que esta informação repleta de termos deturpados, expurgados do seu primeiro sentido, seja apreendida pelo público e se generalize, e que o novo significado se torne funcional, pleno, viral.

     A substituição de palavras fortes por outras de sentido oposto, mas de tom mais suave, torna também aceitável o que poderá ser, em princípio, inaceitável.   Exemplos:   "desemprego" é substituído por "requalificação" (dos funcionários públicos); "despedimento" por "reestruturação" (do privado); "programa de resgate" por "programa cautelar".  Este último exemplo é, aliás, sintomático de uma gradação variável, ao sabor das circunstâncias. Quando o Governo ascendeu ao poder, convinha que um pânico se instalasse entre a população, que uma sensação de desastre iminente fosse rapidamente assimilada, de maneira a que a política de choque que se seguiu fosse mais facilmente aceite. A palavra "resgate" serviu o propósito na perfeição. 

    A entrada da troika em Portugal foi vista como uma narrativa épica, e as entidades que a compõem era consideradas como salvadoras de um país à beira do abismo. Os apoiantes do Governo não se cansaram de repetir esta ideia:   Portugal esteve a um passo de deixar de existir, e apenas a presença da troika, possibilitada pela salvífica manobra de Passos Coelho que apeou do poder o anterior Governo, evitou a catástrofe.   Mas, ao longo destes três anos, o que antes era visto como tendo uma conotação positiva passou subtilmente a ter um significado cada vez mais próximo do oposto do significado inicial.   Os propagandistas ao serviço do poder difundem agora a ideia de que a presença da troika é nefasta e que a salvação do país está na expulsão destes elementos que, recorde-se, há três anos nos "salvaram".   A haver novo programa, nunca poderia ser de resgate, dado que isso significaria que o Governo teria falhado na sua missão de salvação do país.   O campo semântico da palavra "cautelar" serve na perfeição o objectivo do poder:  "cautela" indica ponderação, serenidade, certeza.   Passámos do choque e do caos a um mar de calmaria no qual navegamos conduzidos por um Governo que sabe o está a fazer.  Mesmo que na prática o país esteja muito pior do que antes do resgate e que a austeridade não vá terminar - 2014 é o ano em que os cortes serão mais acentuados.

      Para além destes exemplos de manipulação deliberada do discurso - contando sempre com a colaboração activa dos meios de comunicação, na difusão e na selecção dos termos a serem usados - temos também vindo a assitir a uma progressiva introdução de estrangeirismos, quase sempre resgatados ao jargão do marketing e da gestão, um fenómeno provinciano que transforma génios em idiotas, como é o caso do ministro Poiares Maduro, senhor de um currículo académico invejável que, mal se viu alçado ao poder, se tornou num mero espantalho de uma língua de pau decididamente miserável. São exemplo disto o "empreendedorismo", o "briefing", o "modelar" (tantas vezes pronunciado como "modular"), o "recalibrar"- que já tinha sido usado em tempos por Passos Coelho e agora foi retomado por Marques Guedes, usado com um sentido ligeiramente diferente, não só do original, mas também da primeira deturpação, ensaiada pelo primeiro-ministro -, passando a significar "aumentar o número de pessoas abrangido por um corte" -, o "reestruturar". O uso de estrangeirismos é não só resultado da caldo cultural em que as novas gerações de políticos foram criadas mas é também deliberado, "pour épater les bourgeois", para impressionar a opinião pública.

      A mais banal degradação da língua ocorre por fim quando as palavras perdem todo a força do seu sentido original.  Quando Paulo Portas se demitiu, em Junho, usou os termos "irrevogável" para classificar a sua decisão e "dissimulado" como o que ele seria caso voltasse atrás nela. E depois, assistimos a uma inacreditável farsa.  Saímos do território da baixa política, no qual vale pouco ou nada a palavra de um político, para uma inimaginável distorção de todos os valores pelos quais se rege uma sociedade.  O "irrevogável" passou a ser facilmente revogável e o regresso ao Governo, que tinha sido classificado pelo próprio autor da brincadeira como uma "dissimulação", tornou-se inevitável.  De certa maneira, Paulo Portas abriu caminho, assumindo que a palavra de um político, mesmo quando escrita, não tem qualquer valor.  A honra e a dignidade também não importam nada.  Paulo Portas assumiu-se como símbolo máximo da actual política, apresentando-se abertamente como o dissimulado colado ao poder, o irrevogável que deixou de o ser quando viu o lugar no partido a que pertence ameaçado.  Como Berlusconi em Itália, Portas (e Passos Coelho) passou a personificar toda a sujidade da política, a sua face mais podre, destituída dos mais básicos valores humanos.

      Trabalhar a linguagem, transformá-la, usá-la como instrumento de poder, sempre foi marca de qualquer poder.  Este Governo, sustentado por uma máquina de comunicação composta por centenas de assessores e apoiado por agências de comunicação especialistas em manipulação da opinião pública, tem sido perito neste campo, talvez aquele em que a sua competência menos pode ser beliscada.  Parecem imparáveis, porque perderam toda a vergonha e limitam-se a continuar, a manter-se no poder, é essa a sua única preocupação - com o objectivo de implementação de um programa ideológico de empobrecimento e de aprofundamento das desigualdades sociais.  A linguagem pavimenta o caminho para as próximas eleições, e tudo será dito, e o seu contrário, para a reconquista do poder e a manutenção do status quo.   Servir o povo, o ideal da democracia, é apenas um pormenor da História.  Uma chatice.



Publicado por Xa2 às 07:53 de 07.01.14 | link do post | comentar | ver comentários (2) |

Sinais pró Fascismo -vs- Solidariedade e defesa da Democracia

             Não desvalorizemos os sinais de tempestade   (-por Tiago M. Saraiva)

    Ao longo dos anos tenho vindo a utilizar com todos os pruridos a comparação entre a realidade presente e o Fascismo. É bom não esquecer que num regime fascista este texto não seria publicado ou que este autor, muito provavelmente, não estaria a escrevê-lo em liberdade. Contudo, olho à minha volta e diferentes momentos da semana fazem adivinhar um negro destino que paira sobre nós.
    Na Turquia o protesto local contra a construção de um centro comercial desencadeou uma guerra civil. Milhares dão o corpo às balas (literalmente) para derrubar mais um ditador protegido pela NATO. Quem duvidar do estado de excepção, basta ver alguns vídeos que circulam pela internet, as imagens da prisão dos (médicos e dos) advogados  que se voluntariavam para (tratar e) defender os manifestantes (e aos jornalistas que procuram cobrir a situação) ou saber das multas aplicadas aos canais de televisão que transmitem os protestos. Ao invés, na Grécia, do dia para a noite o primeiro ministro decidiu encerrar a televisão pública e lançar no desemprego mais uns milhares de trabalhadores.
    A nuvem negra do fascismo paira novamente sobre a Europa. E Portugal está no pelotão da frente.
    O que dizer de um governo que recorre a dispositivos ilegais para condicionar o direito à greve de professores? O que dizer de um ministro que, do dia para a noite, decreta a suspensão do pagamento dos subsídios dos funcionários públicos? O que dizer da morte de “Mucho” depois de 15 dias em coma por ter sido espancado pela polícia num bairro da Damaia? O que dizer de uma justiça que condena em dois dias quem manda trabalhar o Presidente da República e que lhe diz na cara que está farto de ser roubado ao mesmo tempo que ignora, iliba ou adia decisões em todos os casos que envolvem as figuras poderosas do regime? O que dizer dos 25% de cidadãos residentes em Portugal que vive abaixo dos limiares de pobreza?
    Os sinais de tempestade estão todos aí.

-------------

Carta de  solidariedade pelo povo grego,  pela democracia e  contra o apagão do serviço público de rádio e televisão na Grécia  (-por Miguel Cardina)
                  A/C Exmo. Sr. Embaixador da Grécia em Portugal,
    A Grécia acordou no dia 12 de Junho sem televisão e radio públicas. No dia anterior, 11 de Junho, o governo impôs, com escassas horas de pré-aviso, o "apagão "da ERT (serviço público de rádio e televisão grego), tornando-se a Grécia o primeiro país da União Europeia a suspender o serviço público de comunicação social, num claro atropelo da democracia. Semelhante decisão constitui uma inequívoca manifestação de autoritarismo, abrindo um estado de exceção que colide com normas europeias e ataca direitos fundamentais.
    O serviço de televisão público é essencial para o povo grego, para a democracia na Grécia, para a democracia na Europa. Considerar aceitável esta situação é aceitar a premissa e a ameaça da chantagem antidemocrática sobre os meios de comunicação social e a liberdade de imprensa.
    Os e as assinantes enviam por isso esta carta de repúdio pela decisão do governo grego e exigem o respeito pelos valores democráticos sustentados pelo serviço público de televisão e rádio. Só a democracia pode defender os povos europeus contra a austeridade e o autoritarismo.
        Os/as abaixo-assinado  ...


Publicado por Xa2 às 07:52 de 18.06.13 | link do post | comentar | ver comentários (1) |

PORTUGAL

 

Uma nação com um paradigma chamado Sócrates, um pretor a Passos e sob o desígnio do empobrecimento.

Um país cujo Presidente é abstrato e que, por via disso, raramente se engana e nunca tem dúvidas.

Uma sociedade abjecta e feudalizada que aceita a existência de uma democracia baseada em partidos mortos.

Uma democracia em que a oposição faz de governo e o governo faz de oposição, igualizando-se mutuamente na exploração do povo.

Portugal, um país abaixo do relativo, é uma nação moribunda.



Publicado por Zurc às 14:01 de 28.03.13 | link do post | comentar | ver comentários (2) |

Manipular para transformar cidadãos em servos

Surdinas [ LXI ]      (-por  LNT  [0.466/2012] A Barbearia do sr. Luís )

                 Dez estratégias de Manipulação Mediática, de Noam Chomsky
Noam Chomsky



Publicado por Xa2 às 07:46 de 03.10.12 | link do post | comentar |

Islândia e comunicação social

"A negativa do povo da Islândia a pagar a dívida que as elites abastadas tinham adquirido com a Grã-Bretanha e a Holanda gerou muito medo no seio da União Europeia. Prova deste temor foi o absoluto silêncio na comunicação social sobre o que aconteceu. Nesta pequena nação de 320.000 habitantes a voz da classe política burguesa tem sido substituída pela do povo indignado perante tanto abuso de poder e roubo do dinheiro da classe trabalhadora. O mais admirável é que esta guinada na política sócio-económica islandesa aconteceu de um jeito pacífico e irrevogável. Uma autêntica revolução contra o poder que conduziu tantos outros países maiores até a crise atual.

Este processo de democratização da vida política que já dura dois anos é um claro exemplo de como é possível que o povo não pague a crise gerada pelos ricos."

in Youtube



Publicado por Izanagi às 19:59 de 27.09.12 | link do post | comentar |

A RTP E A MERCANTILIZAÇÃO DA SOCIEDADE

    

Nos últimos dias tem sido para aí um, infernal, alarido por ter vindo a público um dos capatazes do sistema político vigente, e na ausência conveniente do respectivo ministro da tutela, a propor a entrega da RTP 1, depois de fechada a RTP 2, a um qualquer grupo que, futuramente, empregue, pelo menos alguns, dos ministros actuais. Eles têm de garantir lugares, não é verdade?

Na minha opinião, tão grande espanto, por tanta gente manifestado, só tem uma única justificação e que é a manifesta ignorância sobre o real conceito político do actual governo e de quem, por traz, dele se serve.

A ideologia que sustenta os actuais governantes já não se consubstancia, apenas, na defesa de uma economia de mercado fundamenta-se, também, em pretender mercantilizar as próprias relações sociais, mercantilizar a própria sociedade. A sociedade torna-se ela própria um mercado onde tudo se compra e tudo se vende; desde licenciaturas, passando pelas amizades maçónicas ou outras, até às vontades de todo e quaisquer cidadãos/individuo, tudo é negociado, tudo parece ter um preço.

Antigamente as pessoas afirmavam que “a honra de um Homem não tem preço” e valores que davam consistência ao ser, como sejam a ética e a moral, quer na vertente natural como na componente intelectual do mesmo, faziam parte do alicerce do ser humano. Tais valores cederam o seu lugar ao vil conceito mercantilista.

Os políticos atuais prometem-nos o céu e acabam por nos dar o inferno e o povo aceita, ainda que alguns de nós nos admiremos. Até quando?



Publicado por Zé Pessoa às 18:56 de 29.08.12 | link do post | comentar | ver comentários (1) |

O que vai na alma ... deste país

A direita não gosta da liberdade de expressão  (-por Sérgio Lavos, Arrastão)

 Definitivamente: a direita não sabe (nem quer) conviver com a liberdade de expressão, a crítica e, em última análise, a democracia. 
     Dom Januário Torgal Ferreira (bispo das Forças Armadas) voltou a dizer * o que lhe vai na alma sobre a situação no país. Claro que num regime dominado por agências de comunicação e um exército de assessores do Governo contratados a peso de ouro (e a receberem os dois subsídios que o resto da Função Pública nem vai cheirar), isso é crime de lesa pátria. Se da primeira vez a lama foi apenas lançada por amigos de assessores na blogosfera, idiotas úteis de serviço e o Correio da Manhã, o antro pútrido do anti-jornalismo onde a direita se espoja e se alimenta, agora o ódio chegou aos partidos do pote (PSD e CDS) e ao próprio executivo. Desde o ex-presidente do Belenenses ao ministro da Defesa, toda a gente parece estar indignada com as palavras do bispo. Os assessores do Relvas que ainda escrevem em blogues descobrem-se tomados por um (muitas vezes execrado) anti-clericalismo (há quem clame pela assumpção de um Estado laico, uma lata apenas ao alcance de gente que terá esquecido o que é ter uma coluna vertebral, tendo em conta a recente negociação do Governo com o Vaticano a propósito do fim dos feriados religiosos) e vociferam, quais vestais violadas, confundido Estado com Governo. O dito ministro Aguiar-Branco convida o bispo a resignar, numa ousadia que visa calar as vozes críticas de um Governo que começa a cheirar tão mal como uma latrina.  
      Eles mexem-se, mostram os dentes, enraivecem-se. É sinal de que Januário Torgal Ferreira tocou num ponto sensível: os interesses que rodeiam o Estado e que dele se alimentam. Os interesses que este Governo não só não tem a mínima intenção de eliminar como vai alimentando, das empresas privadas que laboram na área da Saúde às que beneficiam com os contratos das PPP's, passando pelas antigas empresas públicas vendidas ao Estado chinês que estão a receber de braços abertos várias pessoas ligadas ao PSD e ao CDS. 
     Passou um ano desde a tomada de posse deste Governo, e o ar já se tornou irrespirável. Esta direita, para além de estar destruir o país com as suas políticas económicas, não gosta de contestação, de críticas, de denúncias. É anti-democrática. Ser corrupta é, como se costuma dizer, um pormenor. Apenas.
----------
*    "O Governo é profundamente corrupto”, diz D. Januário Torgal Ferreira, que participava no programa 'Política Mesmo' da TVI.   “Eu não acredito nestes tipos, em alguns destes tipos, porque lutam pelos seus interesses, têm o seu gangue, têm o seu clube e pressionam a comunicação social”.   “O anterior Governo, que foi tão atacado, era composto por um conjunto de anjos, ao pé destes diabinhos negros que acabam de aparecer”. 

     Num passado recente, D. Januário Torgal Ferreira fez duras acusações ao Governo de Passos Coelho, comparado com o regime de Salazar. O bispo manifestou-se recentemente “chocado” com as palavras de Passos Coelho, quando o chefe de Governo agradeceu aos portugueses paciência pelas medidas de austeridade. Essas palavras, disse, trazem-lhe à memória “os discursos da União Nacional”.  “O primeiro-ministro pareceu dizer ‘obrigado pela profunda resignação de um povo tão dócil e tão bem amestrado que parece estar num jardim zoológico’.   Pareceu-me que estava a ouvir uma certa pessoa, há mais de 30 anos atrás. Apeteceu-me dizer 'vamos para a rua, vamos fazer Democracia'”, afirmou à TSF.



Publicado por Xa2 às 13:28 de 18.07.12 | link do post | comentar | ver comentários (12) |

Sobre serviço público da RTP (e RDP e LUSA), "a bem da nação"

   

 em vez de porem o doutor joão duque no grupo de reflexão poderiam pô-lo no livrinho da terceira classe. a bem da nação.  (- por Pedro Vieira)

 Um grupo que fez uma redação sobre a RTP  (- por Daniel Oliveira)    ... 

     O serviço público de televisão deve ser, antes de mais, um garante do pluralismo.
    As televisões comerciais dependem exclusivamente do lucro. E é esse o primeiro e único critério que têm. Reparem que eu não escrevi que dependem das audiências. Não é exatamente a mesma coisa. Nem sempre as telenovelas, os concursos mais idiotas ou os enlatados são o que tem mais audiência. Têm é uma relação custo/audiência mais favorável. Porque são, regra geral, dentro dos programas mais populares, os mais baratos de produzir. Assim como um noticiário feito de pequenos crimes locais é mais barato de fazer do que ter jornalistas a fazer uma investigação de meses ao caso BPN ou enviados aos grandes acontecimentos internacionais.
     Ou seja, quando se diz que não há serviço público sem público não se está a criar uma dicotomia irresolúvel. Está a dizer-se que o serviço público está no ponto de equilíbrio entre a ideia de prestar um serviço à comunidade e essa comunidade consumir esse serviço. Um exemplo, para facilitar: o programa "Conta-me como foi", tendo sido resultado de uma adaptação de um modelo espanhol, cumpria plenamente a sua função. Era entretenimento, tinha excelentes audiências e dava a novas e velhas gerações um retrato do que foi a sociedade portuguesa. Só que cada episódio sai mais caro do que os dos "Morangos com Açúcar". O que fazia aquele programa? Concorrência aos privados. Nivelando por cima. E ao fazer isso ajudava a melhorar a oferta geral.
     Ou seja, no panorama geral de estupidificação dos públicos, em que os concorrentes oferecem quase todos o mesmo, abria uma outra possibilidade, permitindo o pluralismo da oferta. Isto não se faz contratando "serviço público" aos privados, que eles atiram para horas mortas.
     A televisão pública também deve garantir o pluralismo político. E ele não se resume, como parece defender a ERC, a medir o tempo dado a cada partido político. Nem a televisão é um guichet burocrático de tempos de antena, nem a política se esgota nos partidos. A obrigação de uma televisão pública é dar aos cidadãos o conjunto de pontos de vista mais significativos sobre um qualquer problema, não permitindo que o debate se estreite e a democracia empobreça. O melhor exemplo é o do tratamento dado à crise económica atual. Com honrosas exceções - de que o"Prós e Contras", com todos os seus defeitos e limitações, até tem sido um bom exemplo e de que o programa "Plano Inclinado" foi, talvez, o pior dos exemplo -, ouvimos/vemos sempre e apenas uma mesma versão dos factos. E nada é mais discutível dos que os factos.
    O problema dos privados não é não darem voz às minorias. É darem voz a quem entendem. Por vezes, apenas às minorias. Esperando que elas se tornem maiorias. Porque respondem apenas aos seus proprietários, sem qualquer obrigação para com a comunidade.
    Por outro lado, a televisão pública deve ser um garante de independência. Não é uma posição fácil, tendo em conta a sua dependência política e financeira perante o governo. Tem, no entanto, a vantagem de, sendo de todos e pago por todos, ter de corresponder às exigências de todos. Repararão que somos quase sempre mais exigentes com a televisão pública, o mais escrutinado de todos os órgãos de comunicação social. E, apesar da sua má fama, o telejornal da RTP tem sido, não apenas o mais plural, como aquele que, cedendo menos (mas ainda demais) à facilidade, consegue, de longe, as melhores audiências. E quando acontece alguma coisa relevante - desastres naturais ou eleições, por exemplo - os seus shares são ainda mais esmagadores.
    Uma das mais extraordinárias tónicas do relatório prende-se exatamente com a suposta falta de independência da RTP. A lógica é esta:com base em pressupostos que nem se preocupa em comprovar, propõe a redução ao mínimo da informação. Antes de mais, seria preciso provar que o "pluralismo é garantido pelo próprio funcionamento do mundo da comunicação social em democracia". Poderia ficar aqui horas a mostrar como isso é, para dizer o mínimo, discutível.
    Houve quem apresentasse propostas para reforçar a independência da RTP. A principal é esta: mudar radicalmente o processo de nomeação da sua administração. Fico por uma proposta que já fiz, com a certeza de que haverá outras melhores: nomeação por dois terços do parlamento do presidente do conselho de administração - que só posteriormente escolheria a sua equipa, para evitar as costumeiras partilhas de poder pelo PS e PSD -, com um mandato único e diferenciado do dos deputados, sem possibilidade de demissão (excluindo casos extremos).
   Essa nomeação deveria estar vinculada a um contrato-programa com objectivos claros e um orçamento plurianual, dado logo à cabeça, para evitar o uso do financiamento público como forma de pressão. Tutela da RTP pelo Ministério da Cultura (que este governo encerrou, mas quando voltar a sanidade política será reativado) e não na alçada do mais partidário dos ministérios - o da Presidência. Não é uma solução perfeita, mas é uma tentativa.
    O grupo nem se deu ao trabalho de tanto. Propõe que o "Estado promova um debate alargado", que "a empresa concessionária seja profundamente remodelada" e que "o Estado deve estudar as virtualidades de subsistir o atual modelo institucional do operador público de capitais públicos para o modelo de uma instituição sem fins lucrativos nem concorrenciais". Generalidades vazias. E quando vão ao pormenor, socorrem-se de expressões como a "sociedade civil", que quer sempre dizer tudo e coisa nenhuma. No caso do relatório, quer dizer "fundações privadas".  Pois !  ...


Publicado por Xa2 às 07:52 de 17.11.11 | link do post | comentar | ver comentários (2) |

Problemas da nossa economia e da comunicação social

                 É aquele o nosso caminho?

 

Ricardo Costa deverá ter carteira profissional de jornalista mas na realidade há muito tempo que não faz jornalismo. É visível que uma parte importante da sua actividade consiste em formatar a opinião pública portuguesa através do que diz na televisão e do que escreve no Expresso.
...

Ricardo Costa rejubila com a transformação neoliberal da sociedade portuguesa que o novo governo se propõe alcançar. Porém, cego pela ideologia que professa, ainda não conseguiu ler as notícias dos jornais ingleses sobre os riscos de recessão que a política de austeridade praticada por David Cameron (PM) está a produzir no Reino Unido. Felizmente, a política monetária expansionista e a desvalorização da libra vão compensando os estragos da política orçamental recessiva, também lá a pretexto de uma dívida (considerada excessiva pelos conservadores) que acabará por não baixar significativamente.
Se Ricardo Costa recusa a aprender alguma coisa com as consequências da austeridade neoliberal imposta à Grécia, ao menos que perceba que o Reino Unido dispõe de política económica própria. E ainda assim ...
     O fervor ideológico de Vítor Gaspar na política orçamental de austeridade, a que se junta a política monetária recessiva conduzida a partir de Frankfurt, vai mesmo levar-nos ao fundo. Qualquer economista que não esteja possuído pelos dogmas da “economia da oferta”, e pelas ideias de Milton Friedman, sabe que o governo não vai travar o crescimento da dívida porque nenhum governo controla as receitas públicas. Esperam-nos sucessivos cortes na despesa e aumentos nos impostos à medida que a receita fiscal deixa de ser cobrada em resultado da recessão.
    Não haverá exportações que nos salvem. Os resultados do défice no primeiro trimestre deste ano (7,7%) ilustram bem a dinâmica para o abismo que já começámos a percorrer.
    O que virá a seguir vai depender da forma como o povo português assimilar a dolorosa experiência da Grécia.
    Mas também vai depender da capacidade dos que estão conscientes deste desastre em fazerem-se ouvir no espaço público para confrontar Ricardo Costa e demais colegas propagandistas do neoliberalismo com a sua ignorância, sectarismo ideológico e a grande responsabilidade que têm pela falta de pluralismo de opinião dos órgãos de comunicação que dirigem.
    Creio que não será preciso um ano para que a maioria dos portugueses perceba isto.



Publicado por Xa2 às 18:08 de 30.06.11 | link do post | comentar | ver comentários (11) |

Alôôô? Posso elogiar?

Uma senhora telefona para a redacção da TSF pouco depois das 21H00 de segunda-feira. Eis o diálogo:

- Boa noite, olhe, recebi uma mensagem do PSD para me inscrever no Fórum da TSF. Queria inscrever-me...

- Bem, enganou-se. As inscrições não são feitas agora. Só amanhã...

- Ah...desculpe. Disseram-me que era às nove. Pensei que fosse da noite.

Nota: O Fórum da TSF, de terça-feira, teve como convidado Pedro Passos Coelho.

Emídio Fernando [Correio Preto]



Publicado por JL às 00:07 de 20.04.11 | link do post | comentar |

Volta, Judite, estás perdoada...

…onde dois jornalistas entrevistavam o Primeiro-Ministro.

Vítor Gonçalves, autor do livro “A Agenda de Cavaco Silva”, veio de Washington- onde foi colocado após a vitória de Cavaco em 2006. É um jornalista com tarimba parlamentar, foi editor de política da RTP, aceitou recentemente o convite de Nuno Santos para director-adjunto de informação da RTP 1 e desempenhou bem o seu papel de entrevistador.

Já Sandra Sousa, uma moderadora fraquinha do “Corredor do Poder” revelou-se um desastre como entrevistadora. Não só interrompia constantemente o entrevistado, como atropelava Vítor Gonçalves que, diversas vezes, se viu obrigado a mandá-la calar-se. Pior ainda, revelou uma confrangedora falta de preparação que roçou a ignorância. Sócrates não perdeu a oportunidade para lho lembrar, saindo diversas vezes por cima, em questões delicadas. Deve ter terminado a entrevista corada de vergonha. Volta, Judite, estás perdoada...

A insistência dos entrevistadores em querer saber se Sócrates pensava pedir ajuda externa antes das eleições revela ignorância, ou necessidade de agradar a alguém. Alguns constitucionalistas e o próprio Paulo Rangel, já tinham esclarecido a incoerência de um pedido desses ser feito por um governo de gestão.

Foi notório o incómodo de Sócrates durante toda a entrevista. A situação é difícil, ele sabe-o e acredito, sinceramente, que tudo tentou para salvar o país do pedido de ajuda externa. Tentar assacar-lhe culpas pela recente subida das taxas de juro ou pelos cortes de rating e ilibar Passos Coelho da canalhice que fez ao país, parece-me má-fé. Tentar que Sócrates dissesse que Cavaco é o maior culpado desta crise, percebe-se, mas insistir depois de ele ter respondido afirmativamente à questão, com uma indirecta, foi perda de tempo.

O que o país precisa de saber é que a entrada do FMI será muito mais prejudicial para os portugueses, do que o PEC que a oposição rejeitou. Coisa que Passos Coelho não diz, nem os entrevistadores de serviço na S. Caetano quiseram perguntar. Pior… tentaram evitar que Sócrates explicasse algumas das medidas que foram exigidas à Grécia e Irlanda, para os portugueses ficarem a saber o que os espera.

A entrevista podia ter sido um bom momento para esclarecer os portugueses sobre os cenários alternativos que se vão colocar aos portugueses no dia 5 de Junho, mas definitivamente não era para isso que lá estavam os dois jornalistas…

Carlos Barbosa de Oliveira [crónicas do rochedo]



Publicado por JL às 15:30 de 05.04.11 | link do post | comentar | ver comentários (1) |

OS CRÉDITOS DE MÁRIO CRESPO E, OS NOSSOS

O Mário Crespo, através de um texto que escreveu e fez publicar algures em órgão de Comunicação Social, queixou-se que muita gente, especialmente o Ministro das Finanças, lhe devem muito dinheiro. A ele e a quase todos nós, honestos cidadãos deste país, pagantes das suas contas, de taxas e dos impostos que sem apelo nem agrado nos impõem.

Queixou-se porque lhe disseram que as contas publicas estavam sãs quando elas se encantavam (e encontram) mais doentes que nunca.

Queixou-se porque já tentou os homens do fraque e nem mesmo assim consegue reaver o dinheiro que lhe foi pilhado (e, continuarão a extorquir com sua própria benevolência).

Na minha modéstia opinião, acho que Crespo teria toda a razão se, como todos nós de uma forma ou de outra, não fosse conivente com as situações que tanto critica e não tivesse, também como e quando pode, beneficiado, directa ou indirectamente, dos dinheiros publicos. Não foi ele funcionário de RTP e não tem sido o canal publico um sorvedouro dos dinheiros publicos?

Contudo, a avaliar pelos investimentos, não tardará muito que os portugueses comessem a ser ressarcidos dos seus créditos. Deixaremos de importar petróleo e outras fontes de energias, dado que nos tornaremos autónomos, a avaliar pelos resultados do Parque Eólico de Terra Fria, Montalegre, um investimento de 126 milhões de euros, há dias inaugurado pelo primeiro-ministro, tendo "capacidade para fornecer energia a toda a região do Alto Tâmega". Que se multipliquem!

A menos que suceda como o que vem acontecendo com a ponte 25 de Abril, parque contentores de Alcântara, Estradas de Portugal, Aeroportos, etc.

Descansem os crespos deste país que se o governo e os portugueses não forem capazes de inverter tais situações cair-nos-á em cima a prensa chamada FMI e esmagar-nos-á até ao tutano, sobretudo, aos não crespos.



Publicado por Zé Pessoa às 00:09 de 25.01.11 | link do post | comentar |

Liberdade de Expressão

OS GUARDIÕES DO TEMPLO

    «No domínio da liberdade de expressão, a sociedade portuguesa é, hoje, atravessada por pulsões liberticidas que ameaçam os alicerces da democracia e do estado de direito.

    Essas pulsões são provenientes dos mais variados sectores sociais, mas confluem nas tentativas de calar ou limitar aqueles que ousam denunciar factos ou situações anormais ou simplesmente exprimir a sua opinião sobre acontecimentos relevantes da vida pública.

    Tentar compreender as causas ou as consequências de certas situações com evidente interesse público ou apenas divulgar esses factos, torna-se uma tarefa arriscada desde que tal seja susceptível de pôr em causa interesses ou pessoas que se julguem acima do escrutínio democrático. Parece que o paradigma autoritário da ditadura cristalizou no subconsciente colectivo de onde irrompe sempre que alguém ousa cometer a audácia de exprimir o seu pensamento com liberdade.

    Estabeleceu-se que há coisas que não se podem dizer, não porque sejam falsas, mas, justamente, porque são verdadeiras. Ou seja, quer-se proibir a verdade em nome de aparências, de moralismos ou de conveniências, por vezes as mais mesquinhas.

    Já se chegou mesmo ao ponto de querer impor o silêncio a certas categorias de pessoas unicamente para salvar a face de certos poderes. Pretende-se que cidadãos acusados por factos cuja autoria sempre negaram sejam impedidas de rebater esses factos na mesma instância onde foram feitas as acusações. Tudo em nome da infalibilidade de quem os acusou ou condenou, mesmo quando, as acusações começaram por serem feitas na comunicação social, através de cirúrgicas violações do segredo de justiça, destinadas, precisamente, a criar artificialmente as condições necessárias à condenação. O último direito que se pode negar a um condenado é o de poder afirmar publicamente a sua inocência.

 

    A liberdade de expressão do pensamento é o mais sagrado direito de todo o ser humano. Ele abrange três faculdades fundamentais:

 a liberdade de estar calado, a liberdade de elogiar e a liberdade de criticar.

Numa outra perspectiva, ele desdobra-se em duas dimensões igualmente relevantes: o direito de divulgar factos (informar) e o direito de exprimir as opiniões.

    Num estado de direito democrático, o que verdadeiramente constitui a essência da liberdade de expressão é, obviamente, a liberdade de criticar o que se julga errado ou de divulgar factos que se consideram de interesse público.

 

    Aqueles que no exercício da liberdade de expressão optam por ficar calados ou apenas por elogiar o que consideram certo, reduzem esse direito fundamental a um mero instrumento de conveniências. A liberdade de elogiar ou de ficar calado existe em qualquer ditadura, pois envolve sempre um sentido obsequioso ou tolerante que não perturba nenhum poder.

    Os ditadores nunca se preocuparam com os opositores que se remetem ao silêncio ou com os que optam pelo elogio.    Eles sentem-se ameaçados é com os que escolhem o caminho da crítica ou da denúncia dos factos que os poderes gostariam de ver afastados do conhecimento público. Muitas vezes, nem são as opiniões que perturbam os ditadores, mas sim, a verdade dura e crua dos factos. Na realidade, certos factos, desde que verdadeiros, são mais demolidores do que todas as opiniões do mundo. É que, uma vez trazidos ao conhecimento público, ninguém mais pode continuar a fingir que os não conhece e, pior do que isso, o silêncio perante eles pode tornar-se socialmente insuportável. Ficar calado perante certos factos constitui, por vezes, uma forma qualificada de mentir.

 

    Infelizmente, mais de 35 anos depois de instaurada a democracia em Portugal, o exercício efectivo da liberdade de expressão continua a debater-se com enormes dificuldades. Sempre que alguém ousa ir um pouco mais para lá do silêncio ou do elogio de circunstância, logo emergem, um pouco por todo o lado, pequenos censores cuja função é reprimir moralmente essa audácia. Execrar publicamente quem pratica a liberdade tornou-se hoje em Portugal o desporto favorito de alguns opinion makers ou até de jornalistas encartados. Só eles se julgam com o direito criticar. Aos outros restaria apenas o direito ao silêncio obsequioso ou o elogio reverencial.

    São os novos guardiães dos velhos templos da hipocrisia institucionalizada. São os sátrapas da moralidade autoritária. São, enfim, fariseus amestrados nas artes do cinismo. Sentados nos cadeirões da sua soberba intelectual, eles lançam permanentemente fatwas contra quem não pactuam com a paz podre dos impérios que servem. » [- por A. Marinho e Pinto, JN, via Jumento]



Publicado por Xa2 às 00:07 de 22.01.11 | link do post | comentar | ver comentários (1) |

O flagelo neoliberal

O flagelo Neoliberal consiste num conjunto de políticos enfeudados ao grande poder económico e financeiro, que empobrecem milhões de europeus e também gente de outros continentes.

… se puser diante da televisão ou ler os jornais, notará que é constante a lavagem ao cérebro, e que a mentira repetida já se tornou numa verdade consentida. Falam sempre os mesmos, escrevem sempre os mesmos, por isso temos uma perspectiva da crise e da sua resolução através somente das opiniões dos Corifeus enviados pelo sistema, uma visão diferente não tem lá lugar.

Estamos entregues aos latifundiários da comunicação social, [...]

[…] uma afirmação do Senhor Presidente da República, dizendo que os restaurantes deveriam dar as sobras da comida aos pobres. Vamos brincar à caridade? Ou vamos lutar contra as causas da pobreza? Governem para dar os recursos económicos aos mais pobres, sem os quais é impossível manter uma vida digna. Ouçam os pedidos de justiça dos mais humildes, e não as exigências da oligarquia económica e financeira, escutem os que votam, e não os que só têm dinheiro.

Lembrei-me, ao ouvir esta frase de Cavaco Silva, dos finais dos anos cinquenta e princípios dos de sessenta aqui na então vila do Sabugal. Nos dias de mercado, os pobres vindos de algumas terras do Concelho, vinham bater às portas das casas ricas para que lhes matassem a fome. Isso era quase sempre à hora do almoço. Então os donos das casas diziam às criadas para lhes darem fatias grandes de pão centeio. Assim era feito, os pobres de mãos postas e a gemer pai nossos e ave marias, agradeciam essa caridade para com eles. Este era o Portugal, logicamente também o Concelho, rural, feudal e católico, ainda estamos a pagar, pelo menos nas mentalidades, esse domínio da Igreja Católica, que tem na sua doutrina, uma das principais orientações que é a caridade. Isto fez de Portugal um País social e economicamente atrasado. Parece mentira? Mas é verdade.

Pessoalmente, considero o Professor Cavaco Silva um dos guardiões da Ortodoxia Neoliberal em Portugal.

António Emídio [Capeia Arraiana]



Publicado por JL às 18:23 de 21.12.10 | link do post | comentar | ver comentários (1) |

Memórias de uma imprensa bem-comportada

Os jornalistas realizam diferentes tarefas e preenchem diferentes funções sociais. Uma dessas tarefas consiste em produzir e difundir notícias. Outra função consiste em alimentar o debate de ideias no seio da sociedade. Porém, aquilo que, aos meus olhos, é a função essencial do jornalista é o que se chama vulgarmente a "fiscalização dos poderes" e a que os anglo-saxónicos chamam de forma mais colorida a função de watchdog - servir de cão de guarda das liberdades cívicas, revelar as actividades de todos os poderes e de todos os poderosos e denunciar abusos.

Esta é a função que só os media levam a cabo de forma independente e constitui o coração do ethos jornalístico. Isto não quer dizer que não possa haver uma organização não mediática que funcione dessa forma. Mas a prossecução desse objectivo de forma independente - sem qualquer agenda predefinida, sem defender interesses particulares - é a marca de água da actividade jornalística.

Tivemos há dias um exemplo de grande impacto do que pode ser esta fiscalização dos poderes com a publicação pelo site WikiLeaks de milhares de casos de abusos perpetrados pelas tropas americanas e iraquianas no Iraque. Curiosamente, o líder do WikiLeaks, Julián Assange, não só não se considera um jornalista como recusa com veemência o rótulo, que considera "ofensivo". Porquê? Porque Assange pensa que a esmagadora maioria da imprensa, premeditadamente ou não, não só não fiscaliza os poderes como colabora activamente com eles, escamoteando ou maquilhando as suas práticas mais criticáveis. Um exagero? Talvez.

Mas vale a pena, no actual panorama de crise e recessão, quando todos os portugueses têm uma lista de perguntas que gostariam de ver respondidas pelo Governo (sobre as empresas que não pagam impostos, sobre os impostos da banca, sobre a nacionalização do BPN, a política fiscal, o real funcionamento da economia, as razões, para o optimismo com que nos regalaram nos últimos dois anos) podemos perguntar-nos a quantas dessas perguntas os media conseguiram responder. Ou quantos nomes foram responsabilizados. Ou quais foram as denúncias que vimos nas páginas dos jornais e nos ecrãs dos noticiários. Existem pequenas excepções singulares, mas contam-se pelos dedos de uma mão. No geral, a imprensa limita-se a reproduzir os discursos existentes na cena política ou económica. Claro que isso significa citar o Governo e a oposição, os patrões e (esporadicamente) os sindicatos, mas a verdade é que isso é dramaticamente insuficiente.

Mais do que saber qual é a mensagem que os protagonistas querem transmitir, o que os cidadãos gostariam de ter é um retrato fiel da situação. Esta crise seria uma ocasião excelente para os media provarem a sua utilidade - para além do consabido "este disse, aquele disse". Todos gostaríamos de saber o que aconteceu de facto com o PECI e II. Quais são as contas reais do país. O que está a acontecer com as parcerias público-privadas (os factos e não as leituras ideológicas). Com as empresas que não pagam impostos. Com o offshore da Madeira, com as mil e tal fundações privadas que recebem dinheiro dos nossos impostos, com os privilegiados que acumulam pensões e salários, etc. A verdade é que a maioria dos media se encontra ou acantonada num confortável conformismo ou numa quase paralisia imposta por uma draconiana redução de despesas, que impede qualquer actividade de investigação. Só que, sem essa investigação, sem essa função irreverente de watchdog, os media apenas repetem as versões que interessam aos poderes. Sobrevivem, mas isso não é vida. A crise que os media estão a atravessar não é alheia a esta situação. Os media parecem empenhados em provar a sua irrelevância, sem perceberem que é esse o caminho que os está a levar à cova.

 

Público



Publicado por Izanagi às 11:14 de 30.10.10 | link do post | comentar |

Falsas evidências e medidas para sair da crise

Manifesto dos economistas aterrorizados

A Associação Francesa de Economia Política lançou um “manifesto dos economistas aterrorizados”, um excelente documento de análise e de proposta para sairmos da crise europeia causada pelo neoliberalismo. Graças à generosidade do Nuno Serra, temos agora uma tradução portuguesa. Para abrir o apetite, deixo um excerto. Para lerem o manifesto na íntegra é só optar pelo “continue a ler”.

 

“A lógica neoliberal é sempre a única que se reconhece como legítima, apesar dos seus evidentes fracassos. Fundada na hipótese da eficiência dos mercados financeiros, preconiza a redução da despesa pública, a privatização dos serviços públicos, a flexibilização do mercado de trabalho, a liberalização do comércio, dos serviços financeiros e dos mercados de capital, por forma a aumentar a concorrência em todos os domínios e em toda a parte…

Enquanto economistas, aterroriza-nos constatar que estas políticas continuam a estar na ordem do dia e que os seus fundamentos teóricos não sejam postos em causa. Mas os factos trataram de questionar os argumentos utilizados desde há trinta anos para orientar as opções das políticas económicas europeias.

A crise pôs a nu o carácter dogmático e infundado da maioria das supostas evidências, repetidas até à saciedade por aqueles que decidem e pelos seus conselheiros.

Quer se trate da eficiência e da racionalidade dos mercados financeiros, da necessidade de cortar nas despesas para reduzir a dívida pública, quer se trate de reforçar o “pacto de estabilidade”, é imperioso questionar estas falsas evidências e mostrar a pluralidade de opções possíveis em matéria de política económica.

Outras escolhas são possíveis e desejáveis, com a condição de libertar, desde já, o garrote imposto pela indústria financeira às políticas públicas.”

 

Manifesto dos economistas aterrorizados - Crise e Dívida na Europa:  10 falsas evidências, 22 medidas em debate para sair do impasse

 

Philippe Askenazy (CNRS, Ecole d’économie de Paris), Thomas Coutrot (Conselho Científico da Attac), André Orléan (CNRS, EHESS, Presidente da AFEP), Henri Sterdyniak (OFCE) ;        (Tradução de Nuno Serra; Revisão de João Rodrigues)

 

----------------------- 10 Falsas evidências : -------------------------

1- OS MERCADOS FINANCEIROS SÃO EFICIENTES

2- OS MERCADOS FINANCEIROS FAVORECEM O CRESCIMENTO ECONÓMICO

3- OS MERCADOS SÃO BONS JUIZES DO GRAU DE SOLVÊNCIA DOS ESTADOS

4- A SUBIDA ESPECTACULAR DAS DÍVIDAS PÚBLICAS É O RESULTADO DE UM EXCESSO DE DESPESAS

5- É PRECISO REDUZIR AS DESPESAS PARA DIMINUIR A DÍVIDA PÚBLICA

6- A DÍVIDA PÚBLICA TRANSFERE O CUSTO DOS NOSSOS EXCESSOS PARA OS NOSSOS NETOS

7- É PRECISO ASSEGURAR A ESTABILIDADE DOS MERCADOS FINANCEIROS PARA PODER FINANCIAR A DÍVIDA PÚBLICA

8- A UNIÃO EUROPEIA DEFENDE O MODELO SOCIAL EUROPEU

9- O EURO É UM ESCUDO DE PROTECÇÃO CONTRA A CRISE

10- A CRISE GREGA PERIMITIU FINALMENTE AVANÇAR PARA UM GOVERNO ECONÓMICO E UMA VERDADEIRA SOLIDARIEDADE EUROPEIA



Publicado por Xa2 às 00:07 de 14.10.10 | link do post | comentar |

O Mundo diplomático

Conhecimento e confiança , Por João Rodrigues

  Já saiu o número de Outubro do Le Monde diplomatique. Destaque na edição portuguesa para dois artigos de dois sociólogos de combate:

Manuel Carvalho da Silva escreve sobre os 40 anos da CGTP   e Hermes da Costa escreve sobre o valor da unidade laboral que transcende fronteiras nacionais.

Nuno Serra arrasa com a demagogia neoliberal da “liberdade na educação”, ou seja, com o financiamento público de escolas privadas que acentuam todas as divisões. Parte de um dossiê sobre as pressões neoliberais na educação.

Entretanto, Paulo Granjo escreve sobre “a recusa de ser irrelevante” em Moçambique.

 

Isto e muito mais na publicação de toda a esquerda. É por estas e por outras que a Sandra Monteiro, directora do jornal, pode escrever, num artigo sobre austeridade assimétrica e perda de confiança, que as respostas às questões suscitadas pelo esvaziamento dos Estados democráticos “remetem-nos para temas que os leitores do Le Monde diplomatique conhecem bem:

a construção mediática do consenso neoliberal tendente à aceitação de que não há alternativas;

a arquitectura essencialmente neoliberal das instituições europeias;

a financeirização da economia e o desprezo da economia real pelo capitalismo financeiro;

as engenharias e os mitos liberais sobre os mercados, as instituições, a regulação, etc.

 

Remetem-nos também para a dupla tragédia que são as desigualdades socioeconómicas:

por condenarem as populações a uma subvida e por atirarem as pessoas para soluções individuais, não cooperativas, dos problemas.

Mas é também aqui que reside a possibilidade de se quebrar o ciclo.

Através da presença no terreno da crítica e da acção colectiva…”



Publicado por Xa2 às 00:07 de 13.10.10 | link do post | comentar | ver comentários (5) |

Esses ... - Quanto ganham ?... ! ...

Digam em directo nas TV's

Quanto ganham ?

Diversos blogues têm muito justamente chamado a atenção e denunciado com vigor o infame e exclusivo desfile pelas televisões de economistas que são todos favoráveis à ofensiva governamental numa operação de intoxicação tão descarada e tão deliberada que neste caso até custa falar de ofensa ao pluralismo porque parece que até agora nem um dos muitos economistas que têm outra opinião foi convidado. Como é óbvio, esta situação é apenas um pequeno sinal de que eles não dormem em serviço e um aviso sobre a exigente batalha de ideias e de esclarecimento que é preciso travar até dia 24.
Perante esta escandaleira, começo por esclarecer que, desde há muitos anos, faço questão de não assimilar mecanicamente as opiniões das pessoas ao respectivo nível de rendimentos até porque conheço suficientes homens e mulheres deste país que ganham e vivem bem (e, por vezes, até muitíssimo bem) e entretanto tem posições de esquerda e de até de esquerda consequente.
Mas, na situação em que estamos e face a esta completa falta de vergonha e de escrúpulos, arrisco-me a lançar aqui um excepcional desafio: senhores economistas que vão às televisões tocar o fadinho da falta de alternativas e das inevitabilidades, importam-se de, logo de ínicio, informarem os telespectadores de quanto ganham ?  Não, não tenham problemas, como se calcula, isso não diminuirá em nada a receptividade dos telespectadores às vossas opiniões e ideias.

 

 

Não só quanto ganham mas também quanto pagam de IRS.

 

Acertaste na mouche. Inteiramente de acordo: há aliados dos mais pobres que, apesar de viverem bem, têm uma visão humanista mais justa da sociedade. Os picaretas falantes do capital um dia cairão das suas cadeiras de marfim! O ... anda numa fona... palpita sobre tudo sempre, sempre ao lado do Capital !

 

Basta olhar para os seus currículos. Poucos terão trabalhado alguma vez na economia real.

Todos eles, desde a juventude, andam às voltas do mesmo percurso triangular:  universidade, governo, sector financeiro - e sendo este quem lhes paga mais, é este que lhes forma a opinião.



Publicado por Xa2 às 00:07 de 07.10.10 | link do post | comentar | ver comentários (13) |

ERC reprova mediatização conferida a Carlos Cruz

Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) reprova mediatização conferida a Carlos Cruz, condenado no processo Casa Pia, pelos órgãos de comunicação social, em particular a RTP.

Princípios éticos do jornalismo
Em comunicado, o Conselho Regulador da ERC afirma estar preocupado com a situação, reprovando a mediatização conferida assim como o protagonismo dado pela RTP em pelo menos três dos seus programas de informação.

"Sem colocar em causa os princípios consagrados na Constituição e na Lei sobre a liberdade de imprensa - antes os reafirmando -, o Conselho Regulador recorda as especiais responsabilidades do serviço público de televisão no cumprimento dos princípios éticos e deontológicos do jornalismo e no respeito pelas decisões dos tribunais num Estado de Direito", lê-se no documento.

Isenção e imparcialidade
No entender da ERC, a invocação da liberdade de informar e de livre determinação de critérios editoriais não deve "servir, ainda que de forma involuntária, para transmitir convicções próprias ou para uma procura de audiências a qualquer custo, com prejuízo do equilíbrio, isenção e imparcialidade a que está, de modo reforçado, obrigado o serviço público de televisão".

Segundo o Conselho Regulador da ERC, na sequência da sentença do tribunal de primeira instância sobre o processo "Casa Pia", "têm-se sucedido na imprensa, rádio e televisão, entrevistas a alguns dos acusados, em desrespeito, por vezes grosseiro, pelo princípio do equilíbrio, da equidistância e da igualdade de tratamento de todos os agentes envolvidos no processo".
Semanário Expresso



Publicado por [FV] às 10:41 de 11.09.10 | link do post | comentar | ver comentários (6) |

Estratégias de manipulação
"10 ESTRATÉGIAS DE MANIPULAÇÃO" ATRAVÉS DOS MÉDIA

O linguista norte-americano Noam Chomsky elaborou a seguinte lista de "10 estratégias de manipulação" através dos média. Segue uma tradução publicada no Brasil: 

 

1- A ESTRATÉGIA DA DISTRAÇÃO.

 O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundações de contínuas distrações e de informações insignificantes. A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir ao público de interessar-se pelos conhecimentos essenciais, na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética. "Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja como os outros animais (citação do texto 'Armas silenciosas para guerras tranqüilas')".

 

2- CRIAR PROBLEMAS, DEPOIS OFERECER SOLUÇÕES.

Este método também é chamado "problema-reação-solução". Cria-se um problema, uma "situação" prevista para causar certa reação no público, a fim de que este seja o mandante das medidas que se deseja fazer aceitar. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou se intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o mandante de leis de segurança e políticas em prejuízo da liberdade. Ou também: criar uma crise econômica para fazer aceitar como um mal necessário o retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos.

 

3- A ESTRATÉGIA DA GRADAÇÃO

Para fazer com que se aceite uma medida inaceitável, basta aplicá-la gradativamente, a conta-gotas, por anos consecutivos. É dessa maneira que condições socioeconômicas radicalmente novas (neoliberalismo) foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990: Estado mínimo, privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego em massa, salários que já não asseguram ingressos decentes, tantas mudanças que haveriam provocado uma revolução se tivessem sido aplicadas de uma só vez.

 

4- A ESTRATÉGIA DO DEFERIDO. (DIFERIDO é que é) 

Outra maneira de se fazer aceitar uma decisão impopular é a de apresentá-la como sendo "dolorosa e necessária", obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura. É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro, porque o esforço não é empregado imediatamente. Em seguida, porque o público, a massa, tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que "tudo irá melhorar amanhã" e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isto dá mais tempo ao público para acostumar-se com a idéia de mudança e de aceitá-la com resignação quando chegue o momento.

 

5- DIRIGIR-SE AO PÚBLICO COMO CRIANÇAS DE BAIXA IDADE. 

A maioria da publicidade dirigida ao grande público utiliza discurso, argumentos, personagens e entonação particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade, como se o espectador fosse um menino de baixa idade ou um deficiente mental. Quanto mais se intente buscar enganar ao espectador, mais se tende a adotar um tom infantilizante. Por quê? "Se você se dirige a uma pessoa como se ela tivesse a idade de 12 anos ou menos, então, em razão da sugestionabilidade, ela tenderá, com certa probabilidade, a uma resposta ou reação também desprovida de um sentido crítico como a de uma pessoa de 12 anos ou menos de idade (ver "Armas silenciosas para guerras tranqüilas")".

 

6- UTILIZAR O ASPECTO EMOCIONAL MUITO MAIS DO QUE A REFLEXÃO

Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto circuito na análise racional, e pôr fim ao sentido crítico dos indivíduos. Além do mais, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para implantar ou enxertar idéias, desejos, medos e temores, compulsões, ou induzir comportamentos...

 

7- MANTER O PÚBLICO NA IGNORÂNCIA E NA MEDIOCRIDADE.

Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão. "A qualidade da educação dada às classes sociais inferiores deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância da ignorância que paira entre as classes inferiores e as classes sociais superiores seja e permaneça impossível para o alcance das classes inferiores (ver 'Armas silenciosas para guerras tranqüilas')".

 

8- ESTIMULAR O PÚBLICO A SER COMPLACENTE NA MEDIOCRIDADE. 

Estimular o público a achar que é moda o fato de ser estúpido, vulgar e inculto...

 

9- REFORÇAR A REVOLTA PELA AUTOCULPABILIDADE

Fazer o indivíduo acreditar que é somente ele o culpado pela sua própria desgraça, por causa da insuficiência de sua inteligência, de suas capacidades, ou de seus esforços. Assim, ao invés de rebelar-se contra o sistema econômico, o individuo se auto-desvalida e culpa-se, o que gera um estado depressivo do qual um dos seus efeitos é a inibição da sua ação. E, sem ação, não há revolução!

 

10- CONHECER MELHOR OS INDIVÍDUOS DO QUE ELES MESMOS SE CONHECEM.

No transcorrer dos últimos 50 anos, os avanços acelerados da ciência têm gerado crescente brecha entre os conhecimentos do público e aquelas possuídas e utilizadas pelas elites dominantes. Graças à biologia, à neurobiologia e à psicologia aplicada, o "sistema" tem desfrutado de um conhecimento avançado do ser humano, tanto de forma física como psicologicamente. O sistema tem conseguido conhecer melhor o indivíduo comum do que ele mesmo conhece a si mesmo. Isto significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos do que os indivíduos a si mesmos.

 

Retirado daqui (facebook: F.Louçã)
-publicado por M. M. Oliveira em 2dedosprosaepoesia2



Publicado por Xa2 às 00:08 de 08.09.10 | link do post | comentar | ver comentários (1) |

Mira técnica

O estado da arte

Mira TécnicaNum País que tem uma Comunicação Social tão miserável como as misérias e o sangue com que se entretém, esta Barbearia transforma-se até ao final da semana no espelho do Blog da Comissão Executiva das Comemorações do Centenário de Tito de Morais.

 

Não tratamos de fome, martírio, futebol, Fátima, escândalo e intriga, por isso a comunicação social faz a parede que não deixa ouvir os apelos que desde segunda-feira são feitos à ética, à História e aos princípios defendidos através do exemplo de uma vida dedicada ao bem público, vindos de todas as forças políticas, dos historiadores, dos diversos órgãos de soberania e dos cidadãos, que dentro das suas instituições e na rua não conseguem ter o mínimo eco para além do contido nos locais onde os realizam.

 

Para a comunicação social é indiferente uma semana de comemorações que consegue congregar todos os órgãos de soberania numa Comissão de Honra, não interessa a História não fantasiada do Século XX como foi explicado por Fernando Rosas no passado dia 28 no Palácio Galveias, não interessa o reconhecimento dos antigos e dos actuais deputados da Nação sobre a nobreza do carácter de um dos seus mais bravos, não interessa uma Sessão Solene na Assembleia da República onde todas as correntes políticas homenagearam o exemplo que Tito de Morais deixou às gerações vindouras, não interessa a memória pública evocada pelo povo de Lisboa através da voz do seu Presidente da Câmara Municipal que, ao descerrar o busto de Tito de Morais, disse fazê-lo para que todos que por ali passem se recordem que a liberdade, a solidariedade e a fraternidade são objectivos de todos os dias e não um bem adquirido para sempre.

 

E mais. Muito mais nas expressões, muitas vezes comovidas, de inúmeros cidadãos que têm participado nestas comemorações.

 

Das televisões nem vê-las, dos jornais uma ou outra pequena caixa papagueante dos despachos que a Lusa lhes envia. Um deserto. Uma necessidade constatada de, já de seguida, arrancar com projectos para homenagear homens como Piteira Santos ou Raul Rêgo para ver se estes nossos jornalistas são convocados para a missão que têm e que vai para além da bola, da intriga, da sua própria opinião, da escandaleira e do lixo com que vão afogando na manipulação quem ainda os lê e ouve. É este o estado da arte. O estado a que chegámos, como diria o nosso Salgueiro Maia.

LNT [0.233/2010], em A barbearia do sr.Luís, 1.7.2010



Publicado por Xa2 às 00:07 de 03.07.10 | link do post | comentar | ver comentários (3) |

As lutas sociais e o conformismo !

A semana que passou foi um tempo verdadeiramente único para a reflexão política e social! Uma semana em que tivemos a visita papal e o vendaval de medidas de austeridade apresentadas pelo Governo. A visita de Bento XVI foi acompanhada pelas TV,s passo a passo de uma maneira que me lembrou diversas vezes o regime fascista da minha juventude agora numa versão moderna !  Uma cobertura acrítica, sabuja ,com comentadores e jornalistas mais papistas que o Papa, sem uma voz discordante e sobrevalorizando o espectáculo!  Não ouvi uma intervenção, uma única, a fazer uma análise sociológica de Fátima, a discordar e a manifestar uma posição que não a da, porventura, maioria!Uma perfeita submissão ao pensamento do status quo eclesiástico quando sabemos que há muito boa gente da Igreja que não acredita que em Fátima se passou algo de não humano!

Para ser franco este comportamento não é próprio de uma sociedade democrática! E menos própria ainda a "lamachice" da RTP 1, canal público de televisão.

 

As últimas medidas de austeridade estiveram na mesma linha. Uma caterva de jornalistas e comentadores a dizerem que estas medidas são inevitáveis. Servem para salvar o País e até a União Europeia, o euro etc,etc. Mas não era suposto que a União Europeia e o euro se criaram para nos salvar?

Não disseram aos portugueses que o nosso futuro fora da UE e da moeda única seria negro? Teremos que concluir que o nosso presente e futuro será sempre negro?

Dizem-nos inclusive que porventura as coisas ainda podem piorar e que não valerá a pena resistir, contestar, lutar.

Aí está então em toda a sua exuberância a ideologia da inevitabilidade económica própria do neo-liberalismo que afinal está mais vivo do que nunca. Esta ideologia diz-nos que as leis económicas são a última verdade das coisas. Não tem sentido resistir às fórmulas mágicas dos números dos economistas que, aliás, quase todos falam pela mesma bitola liberal e são porta-vozes dos tais "mercados"leia-se (dinheiro).

 

Pois o que é necessário é desmontar esta mentira que está construída para nos anestesiar o espírito e resistir. Muitos de nós tiveram essa experiência histórica das diversas revoluções do século passado inclusive do 25 de Abril. Parece que tudo mandam e tudo dominam.... e de repente o povo mexe; leva tempo, mas um dia mexe.... se trabalharmos!

- por A.Brandão Guedes , em Bem Estar no Trabalho, 15.05.2010



Publicado por Xa2 às 08:07 de 17.05.10 | link do post | comentar | ver comentários (4) |

Demagogos, Demagogias e ladrões.

Em termos etimológicos (origem das palavras) Demagogia provém do Grego “ἐτυμολογία, composto de ἔτυμον e -λογία -logia“, querendo dizer "a arte de conduzir o povo" de forma falseada.

É pois a “arte” de dizer ou propor algo que não pode ser posto em prática, apenas com o intuito de obter um benefício ou compensação.

O demagogo era aquele que, na antiga Grécia, era escolhido para “vender” ao povo uma mentira, constituindo-se assim numa especialidade de manipulação popular, sendo vista e muito condenada enquanto forma corrompida do exercício da democracia.

Os demagogos tinham como características a facilidade de oratória, a exploração dos medos e do desconhecido, a exploração de preconceitos e dos valores espirituais.

No nosso contexto actual, a demagogia está muito associada aos políticos e ao mundo da política e às promessas de "mundos e fundos", que depois na prática não se concretizam.

A população da Grécia actual parece estar a viver as consequências da demagogia dos políticos que os andaram a enganar, durante demasiado tempo. O grave da questão é que tal fenómeno não seja só da Grécia mas de toda a Europa, de todo o mundo, continuamente governado por gente sem escrúpulos nem vergonha.

Esta gente, que tem tido responsabilidades governativas, não tem a mínima vergonha de, inclusivamente, aproveitar as próprias situações de catástrofes naturais para roubar das populações as mais diversas ajudas e solidariedades.

Em qualquer parte do mundo em que se tenham verificado situações catastróficas, sejam elas naturais ou provocadas por conflitos armados, as populações nunca mais saíram de tais situações pela simples razão que por maior que sejam as ajudas nunca chegam aos seus destinos, nunca o mundo viu as reais, as verdadeiras aplicações em benefício dos necessitados.

Vivemos demagogias sem precedentes e não comparáveis com as da Grécia antiga. Será porque os demagogos se democratizaram universalmente?



Publicado por Zé Pessoa às 11:04 de 04.05.10 | link do post | comentar | ver comentários (9) |

Liberdade de imprensa

O blogue político Aventar colocou terça-feira um anúncio inédito no PÚBLICO no qual solicitava um blogger da área do PS que defendesse as políticas de José Sócrates. As visitas ao site dispararam e pouco depois ficou offline. Teve de mudar de servidor para voltar a estar activo

 

 

JN recusa anúncio
A par do PÚBLICO, os responsáveis do Aventar tentaram colocar o anúncio também no Jornal de Notícias (JN), mas este diário do Porto acabou por se recusar a publicá-lo. "O JN não deu qualquer explicação, a não ser que o director não autorizou a sua publicação", contou Ricardo Santos Pinto ao PÚBLICO. Contudo, o jornal já devolveu o dinheiro do anúncio.

 

Público


Publicado por Izanagi às 14:56 de 06.03.10 | link do post | comentar |

Condicionamentos ideológicos nos media portugueses
(I e II)
 

De há semanas a esta parte, sobretudo com a divulgação das escutas do “Face Oculta”, o país anda ao rubro com as alegações de que o governo teria um plano para controlar órgãos de comunicação social incómodos usando como instrumento uma empresa privada (a PT) onde o Estado detém uma golden share que, porém, lhe dá apenas direito formal de veto. A situação está longe de estar esclarecida. Porém, como bem sublinhou Rui Tavares, o problema do PS e do governo é que as alegadas maquinações ganham plausibilidade por causa das dificuldades de relacionamento com a comunicação social: ataques do primeiro-ministro a certos media; inúmeros processos do premier a jornalistas e bloggers; etc. Mas ganham também plausibilidade por causa de notícias vindas a público no ano passado e que davam conta de uma eventual utilização da publicidade do Estado para “premiar” ou “punir” órgãos de comunicação social… Independentemente do que falta esclarecer, este caso mostra também que, por um lado, os jornalistas e os órgãos de informação parecem muito preocupados com a possibilidade de governamentalização dos media mas, por outro lado, pouco lhes parecem importar muitos e evidentes enviesamentos ideológicos que caracterizam os mass media portugueses, embora em graus variáveis.

Como disse, a situação relatada está longe de estar esclarecida. De qualquer modo, na sua alocução de quinta-feira passada, o primeiro-ministro já esclareceu o que era possível clarificar apenas com base em declarações suas: disse que nem ele nem qualquer membro do governo deram instruções à PT, ou aos seus administradores, para a compra de órgãos de comunicação (Media Capital/TVI). Note-se que as escutas divulgadas pelo SOL apenas apresentam vários indivíduos, nomeadamente os administradores da PT nomeados pelo governo e seus assessores, alegando que o governo teria um plano para controlar os media através da PT, e sugerindo que as suas acções se inseriam em tal plano e se destinavam a satisfazer os desejos do “chefe”. Ainda não vimos, porém, quaisquer escutas com falas do “chefe” e que evidenciem efectivamente que tal plano do governo existia, era do conhecimento e era dirigido pelo premier. Não significa isto que tal plano não existisse e que, a existir, o governo não tivesse conhecimento dele. Significa que existe também a possibilidade de estarmos apenas perante boys ultra-zelosos e desejosos de agradar ao líder, sobretudo tendo em conta o seu fraco CV para estarem onde estavam… (O despacho do PGR, recentemente divulgado, e onde este justifica a não relevância das escutas, aponta aliás neste sentido). Por tudo isto é que era ainda desejável que Sócrates demitisse o outro administrador que ainda não se demitiu e que representa (mal) o Estado na PT. A partir daqui, o que há ainda a esclarecer terá de basear-se num cruzamento de testemunhos (como, por exemplo, os que resultam das audições em curso no Parlamento) e outras informações (resultantes, por exemplo, do trabalho de uma eventual comissão de inquérito). Certo é que é difícil ir muito mais longe só com as declarações de membros do governo. Uns podem acreditar, outros não, mas é o domínio da crença.

Como disse, os jornalistas parecem muito preocupados, e bem, com a alegada interferência do(s) governo(s) nos media. Porém, pouco lhes parecem importar os evidentes enviesamentos ideológicos que caracterizam certos órgãos da comunicação social. Querem exemplos? Podemos começar com o célebre “Plano Inclinado”, da SIC-N, onde os convidados destilam regularmente os seus ataques generalizados à classe política e ao papel do Estado, por exemplo. Será que não há, na sociedade, pessoas prestigiadas e independentes que tenham uma visão positiva da política e dos políticos (ou, pelo menos, não apenas negativa)? Ou que tenham uma visão positiva sobre o papel do Estado? É óbvio que este tipo de programas não é minimamente plural do ponto de vista ideológico, entendido aqui em sentido amplo. Outro exemplo, com um programa muito prestigiado (e com intervenientes de qualidade!), a “Quadratura do Círculo”: será que alguém pensa que o pluralismo ideológico, em Portugal, vai apenas do PS ao CDS-PP? Mas não se pense que isto é um problema da SIC. Não, embora em menor medida, a RTP padece de idênticos problemas: basta pensar na presença regular de Marcelo e Vitorino na RTP para percebermos que também a TV do Estado promove um certo afunilamento ideológico… Ou, na imprensa (Expresso, Correio da Manhã, etc.), veja-se por exemplo a sobre-representação que têm os colunistas com orientações anti-políticos e profundamente críticas face ao papel do Estado na sociedade e na economia, designadamente de inclinação ultra-liberal. Ou ainda, a falta de pluralismo que vemos nas rádios, na TV e na imprensa em matéria de debates sobre economia (política), nos quais estão geralmente sobre-representadas as correntes associadas ao mainstream (neoliberal) da ciência económica e onde outras tendências igualmente relevantes do ponto de vista académico e político (neo-keynesianas, institucionalistas, etc.) estão claramente ausentes ou, na melhor das hipóteses, sub-representadas. Há, obviamente, liberdade de imprensa em Portugal, e essa é uma conquista crucial da democracia. Porém, há condicionamentos ideológicos de vária índole nos media portugueses. Pena é que os jornalistas pareçam só se preocupar com os condicionamentos que possam vir por via das influências dos governos e, pelo contrário, dêem pouco ou nenhum relevo (quando não os promovem eles próprios…) a vários outros condicionamentos (porventura mais graves e profundos) que caracterizam os media. A bem da democracia e do pluralismo, era desejável que não só a ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação) mas também os próprios jornalistas fossem muito mais exigentes neste domínio.

Originalmente publicado no Público de 22/2/2010.

3 , Ladrões de Bicicletas


Publicado por Xa2 às 00:05 de 27.02.10 | link do post | comentar | ver comentários (8) |

Do CHE ao pontapé

Rui Pedro Soares passou (na juventude) das t-shirts de Che e a moção à liderança da JS "Nós vamos pela esquerda", para os voos de jacto privado entre Lisboa, Madrid e Milão, a fim de negociar "coisas"

 
Como um acidente de automóvel, por muito que queiramos evitar, não conseguimos deixar de olhar para as escutas que vão sendo publicadas por aí. Acabam por ser pouco surpreendentes, limitando-se a pôr " na primeira pessoa aquilo que o cidadão comum sempre suspeitou que os políticos faziam: espertices mais ou menos saloias, manigâncias e abusos (de poder e de linguagem). Mesmo que uma pessoa queira restaurar a "dignidade da política", torna-se difícil perante o espectáculo de esquemas, entremeados de (e cito) "pás", "gajos" ou "m...s". No meio disto tudo, duas coisas são interessantes. Primeiro, os projectos políticos dos envolvidos, que são... nenhuns. Todos eles são pessoas de esquerda. Rui Pedro Soares, por exemplo, o caso mais citado, passou (na juventude) das t-shirts de Che, mais o apoio à liberalização do aborto e da droga (tudo coisas muito modernas e bastante giras) e a moção à liderança da JS "Nós vamos pela esquerda", para os voos de jacto privado entre Lisboa, Madrid e Milão, a fim de negociar "coisas" com Cebrian, Figo e Mourinho. Segundo o amigo Paulo Penedos, "o gajo conhece toda a gente". E ideias para o País? Ignora-se. A outra coisa interessante é o dinheiro. Parece que o único método destes ases da estratégia é despejar dinheiro. Mete-se um jogador de futebol no bolso por uns milhões ou resolve-se o "problema da TVT com outro tanto. Numa das escutas publicadas, Soares queixa-se a Vara da dificuldade em resolver o "problema" da Cofina. Vara não tem dificuldade em responder-lhe: "Isso compra-se." Noutra escuta, Paulo Penedos fala de certos montantes, provocando a agora famosa reacção de Marcos Perestrello (certamente movido por preocupações sociais): "essa m... em subsídios de desemprego..." Não se trata apenas de estratagemas. Trata-se da facilidade em congeminá-los graças à bolha de dinheiro em que os envolvidos nas escutas vivem. São aprendizes de feiticeiro a nadar numa quantidade obscena de recursos. Assim também eu, mas parece que agora é assim.
 
Metro


Publicado por Izanagi às 10:15 de 26.02.10 | link do post | comentar | ver comentários (5) |

Liberdade de informar ou voyeurismo?

O Luminária, blog de iniciativa de alguns socialistas e cidadãos sem militância partidária, tem sido um, incontestável, exemplo a seguir de liberdade de opinião no qual postes e comentários são, única e exclusivamente, da responsabilidade de quem os escreve. Há quem diga que por aqui se registam muitos e variados disparates, por vezes a ultrapassar as raias do admissível e da ofensa pessoal.

A nosso ver os disparates fazem, também, parte da vida de cada pessoa e das vivencias em sociedade. É necessário que se digam, que se escrevam, que se oiçam, que se leiam tais impropérios, de outro modo não se conheceria da sua existência. Cada um e o mundo evoluem, inevitavelmente, com o que se faz de acertado e muito com os erros e asneiras.

E não será isto que distingue a democracia da ditadura?

Nos termos do artigo 37º da Constituição da Republica, que determina no respectivo número 1 “Todos têm o direito de exprimir e divulgar livremente o seu pensamento pela palavra, pela imagem ou por qualquer outro meio, bem como o direito de informar, de se informar e de ser informados, sem impedimentos nem discriminações.” e, o número 2 determina que “O exercício destes direitos não pode ser impedido ou limitado por qualquer tipo ou forma de censura.” Preceituado que por aqui se tem respeitado.

Por outro lado e sabendo-se que “Luminária” significa dar Luz, que produz iluminação, que alumia, .., não poderia ter outro comportamento, que não fosse um pluralismo de informação e de debate manifestado num campo aberto à livre opinião.

Contudo, e a nosso ver, não pode, a liberdade de opinião significar o que mais recentemente se tem vindo a constatar nos órgãos de comunicação social, em que certa forma de fazer jornalismo se confunde com liberdade de expressão e direito de informar. Graça por aí um certo, prostituído, voyeurismo jornalístico, onde nada nem ninguém parece já ser respeitado, feito com o, quase único, objectivo de vender folhas de papel.

Todos os governos, de uma forma mais ou menos velada, fizeram, fazem e farão, “operações de interferência nos media”, conforme o próprio “ganda noia” reconheceu numa recente entrevista.

O grave, no meio de tudo isto, são os excessos. Excessos por parte dos governantes, excessos por parte dos media, excessos por parte do poder judicial, excessos por parte da população permitindo que lhe desviem as atenções do que é essencial na vida de um povo e que são todo um conjunto de valores que enformam o carácter das pessoas, consolidam as relações dos grupos e alicerçam a vida social de uma sociedade feita nação.



Publicado por Zé Pessoa às 00:18 de 22.02.10 | link do post | comentar | ver comentários (6) |

Corrupção, carrossel jornalístico e auto-flagelação

Plano maquiavélico de pressuposto domínio de órgãos de comunicação social, faces ocultas à mistura com mal salvaguardadas escutas que se deveriam manter em segredo de justiça enquanto decorrem os respectivos processos judiciais, tudo teve, tem e continuará a ter origem em, presumíveis, actos de corrupção envolvendo tantos interesses particulares como colectivos e de financiamento dos partidos.

Certamente que, José Sócrates, pelo facto de ser líder do PS e também Primeiro-ministro de Portugal, não é louco nem, tão pouco, suicida, mesmo que só politicamente.

Contudo, é já tempo, dado que a, tão apregoada, democracia portuguesa já leva mais de 30 anos de vida, de os partidos políticos, eminentemente os pertencentes ao arco da governação, e muito particularmente o PS de debaterem internamente as vantagens e conveniências de separar o protagonista que assuma funções de Secretário-geral das do indigitado nas funções de Primeiro-ministro. A confusão de tarefas e responsabilidades adstritas a uma e a outra das funções acabam, inevitavelmente, por prejudicar ambas e por arrastamento a governabilidade do país.

As mais recentes circunstâncias e factos em torno de notícias, verdadeiras ou apócrifas, que envolvem a pessoa de José Sócrates são bastante demonstrativas dos malefícios provocados quer ao partido quer á função de primeiro responsável pela governação do país e concumitantemente da própria economia e estabilidade tanto públicas como privadas.

Pouco adiantará clamar inocência, bradar que são cometidos crimes, gritar pelo respeito do segredo de justiça se no meio de tudo isto ninguém está inocente, todos cometeram irregularidades, os tribunais não são respeitados nem são concluídos, atempadamente, os mais simples processos-crime. A justiça, simplesmente, não existe.

Vivemos uma política jornalística panfletária e de carrossel que nada aprofunda nem contribui para a resolução de qualquer situação de injustiça social ou corrupção, apenas coloca lixo sobre lixo num processo de auto-destruição e de aniquilamento da sociedade portuguesa.

O caso do “plano para dominar a comunicação social” deriva das escutas, estas resultaram do processo “Face Oculta” e este foi determinado para combater, segundo divulgação oportuna, situações de corrupção. Este dias, mais recentes, deixou de se falar de corrupção, da elevada taxa de desemprego, da pesada divida externa, do excesso de pobreza e excluídos e de tudo o mais que deveria ser preocupação de governantes de políticos, dos tribunais e dos órgãos de comunicação social.

Vivemos um processo de auto-flagelação colectiva.



Publicado por Zé Pessoa às 00:15 de 17.02.10 | link do post | comentar | ver comentários (5) |

O estado da democracia e a democracia partidária

Há quem afirme, parece que com absoluta convicção, que vivemos numa, quase perfeita, democracia. Serão sonhadores, cegos, oportunistas, imbecis, corruptos,… Poetas não são, com certeza, porque quem escreve poesia, normalmente, anda lúcida/o.

Enquanto vivermos numa sociedade em que os maiores e mais graves sacrifícios se empurram para os outros e benesses só para uns não pode o regime político consubstanciar uma sociedade democrática. Uns e outros sempre os mesmos. Os primeiros sempre beneficiados e os outros sempre sacrificados.

Por outro lado, veja-se o regabofe de “jornalismo de buraco de fechadura” que polui a vida politica, social e económica portuguesa, subsistindo a duvida em se saber qual a verdade do que se vê, ainda que mesmo através do buraco, seja da fechadura ou de qualquer outro. Perdeu-se, completamente, a dignidade e o bom senso tanto dos políticos como dos fazedores de propaganda pretensiosamente noticiosa.

Seria, era normal que assim, sempre, fosse nos chamados regimes absolutistas ou totalitários, agora que, assim, sempre seja, também, em regimes ditos democráticos, já é menos compreensível e não deveria ser aceitável.

Os próprios partidos políticos, em termos de democracia interna, estão muito doentes, vivem mais de expedientes nem sempre claros do que de militâncias e solidariedades.

No plano da democracia interna partidária tornou-se regra a promoção de listas únicas ao mesmo tempo que se segregam quaisquer veleidades de iniciativas dos militantes a apresentarem listas alternativas às propostas pelos respectivos “aparelhos” partidários. Isto não é democracia e muito menos se poderá chamar de regime republicano, pela razão simples de estarem a ser sonegados os princípios que enformam, cultural e eticamente, tal regime.

Há bem pouco tempo, no distrito de Santarém, que conta com uma população acima dos 470.000 habitantes, constatou-se que um dos dois maiores partidos políticos da nossa praça não conta com mais de 4.000 militantes nos seus registos e menos de 400 estavam em condições de votar na recente eleição da respectiva estrutura distrital. O candidato de lista única que foi eleito com menos de 360 votos achou que “foi uma excelente participação” e concumitantemente “uma notável vitoria”. Mais grave que a posição do eleito foi o comportamento dos Órgão de Comunicação Regional que fizeram eco de tais disparates e não foram capazes de desmistificar tão profundos e tão graves anacronismos democráticos.

O Estado e a democracia estão num estado doentio, correndo, mesmo, o risco de desagregação convulsiva, na medida em que os partidos políticos, enquanto elementos essenciais ao regime, estão eles próprios em desaparecimento e cada vez menos reconhecidos, socialmente.

É caso para relembrar as prédicas de Frei Thomaz que no dito popular se apregoa “faz o que ele diz não faças o que ele faz”.

Creio que o que está na moda é uma inversa e mais perigosa formulação “não faças o que ele diz faz o que ele faz”.



Publicado por Zé Pessoa às 00:01 de 10.02.10 | link do post | comentar | ver comentários (2) |

Poeiradas para os olhos do Zé Povinho

Contradições e desonestidades na distribuição da riqueza produzida.

Enquanto certos privilegiados da nossa sociedade, antigos políticos, gestores de topo e reformados com chorudas reformas (ao mesmo tempo que acumulam com segundos, terceiros, quartos... empregos) afirmam, despudoradamente e sem se cuidarem de evitar a generalização, que “vivemos acima das nossas possibilidades”, auto-excluindo-se a si mesmos, muitos concidadãos vivem sem recursos e no limbo da exclusão dos mais elementares direitos.

Por outro lado, alguns órgãos de comunicação social chamam de “ataque à banca” ao agravamento da tributação dos prémios pagos aos gestores com uma taxa de 50% este ano, ainda que já tivesse sido anunciado pelo primeiro-ministro esta possibilidade. Não se compreende o porquê da proposta de Orçamento do Estado para 2010 (OE), tornar a taxa permanente nos anos seguintes, reduza aquele valor só para 35%.

Como podem apelidar de “ataque” se, apesar deste agravamento, nem todas as remunerações variáveis serão tributadas. Só os prémios que excedam os 25 % da remuneração anual e tenham um valor superior a 27 500 euros estarão sujeitos à nova taxa e ainda assim poderão ficar isentos se mais de metade dos mesmos forem diferidos por um período de três anos e desde que o desempenho da empresa seja positivo durante esse período. Na prática só remunerações acima de mais de 137.500,00€/ano serão taxadas. Continuam a atirar-nos com poeira para os olhos. O que adiantaria, para combater a corrupção, fazer publicar na internet os rendimentos brutos de todos os cidadãos deste país?

O estranho, ou talvez não, é o facto de em Portugal uma boa parte dos pensionistas pouco mais receberem que duzentos e picos euros mês, ou seja pouco mais de três mil euros ano, os mesmos órgãos de comunicação não digam que é um ataque social, um ataque à dignidade das pessoas, assim como às suas respectivas vidas.

Porque será que tais órgãos de comunicação social não se predispõem a analisar, concreta e honestamente, a realidade económica e social da população portuguesa?

Porque será que os órgãos de comunicação social não desmistificam a caótica situação que tem sido o evoluir da concentração da riqueza produzida, agravando, a cada dia, o chamado leque salarial ao mesmo tempo que se conhece abuso de benesses distribuídas a quem mais influência tem nos aparelhos políticos e económicos, seja no sector público ou privado?

Porque será que os órgãos de comunicação social não apostam em jornalistas e jornalismo de investigação que levem os processos até ao seu completo esclarecimento e conclusão final?

É muito mais fácil fazer “justiça” panfletária que venda papel, do que informar sincera e honestamente a população e, promover o esclarecimento, forçando a conclusão de processos judiciais e respectivas inocentações se os arguidos tiverem de ser inocentados ou condenações que, dentro das respectivas molduras penais, não deixem duvidas da justeza das sanções.



Publicado por Zé Pessoa às 01:01 de 08.02.10 | link do post | comentar | ver comentários (5) |

Uma infâmia miserável

Há cerca de um mês, a revista Sábado publicou um texto (de seis páginas). Chamou-lhe "Guia prático para calar inimigos" e defendia a tese de que o Governo, o BCP e as empresas ligadas ao Estado utilizavam o investimento publicitário para castigar alguns órgãos de informação (Sol e Público) e premiar outros (DN e JN). Nesse trabalho julgou-se até conveniente desenterrar o fecho do Independente (em 2006) como mais uma vítima dessa cabala.

A Direcção do Diário de Notícias não se pronuncia sobre eventuais razões de queixa de outros órgãos de informação, que não conhece e cujos interesses respeita. Somos pela completa separação dos planos editorial e publicitário, aliás determinada pela observação dos códigos que regem a profissão, pelo que estaremos sempre ao lado de títulos, empresas e jornalistas que possam estar a ser vítimas de delitos de opinião.

Neste caso, apenas não podemos deixar de calar a nossa revolta pela infâmia de um texto miserável em que se podia ler que o nosso jornal se mantinha como "parceiro preferencial do Governo", tentando estabelecer em diversas passagens desse mesmo texto uma ligação entre notícias e investimento publicitário. A partir dele, vários opinion makers fizeram considerações infundadas, que, por repetidas, trouxeram prejuízos evidentes ao bom-nome do nosso jornal e da empresa a que pertence. Se só agora manifestamos a nossa revolta isso tem que ver com o facto de só agora estar fechado o trabalho de apuramento de números que permite ao leitor perceber melhor a indignação profissional de todos os jornalistas desta casa.

Um trabalho sério e completo na área do investimento publicitário do Governo, que demorou um mês a fazer, mostra que a revista Sábado, do Grupo Cofina, escondeu os factos essenciais: é o Correio da Manhã, detido curiosamente pela Cofina, que tem uma posição privilegiada, pois recebe este ano, como já aconteceu no anterior, 50% do investimento publicitário do Governo! Esse investimento não é proporcional às audiências. O JN, que tem basicamente o mesmo número de leitores do CM, recolheu menos dois milhões de euros este ano no período que vai de Janeiro a Setembro - e isso, sim, é incompreensível. Todo o restante investimento publicitário do Governo nos outros títulos, como qualquer pessoa de bom senso com seriedade intelectual reconhecerá, cai no domínio do compreensível.

Deixamos aos leitores a verdade substantiva destes dados, que têm a chancela de credibilidade da Marktest (Correio da Manhã — 4,4 milhões de euros; Jornal de Notícias — 2,4; Diário de Notícias — 1,0; Público — 876 mil euros; 24 Horas — 54 mil)

Eles reúnem os números constantes da monitorização da Media Monitor (empresa da Marktest que analisa e mede os investimentos publicitários), respeitantes aos cadernos principais de todos os cinco diários generalistas, com um trabalho específico e exaustivo que lhes junta a publicidade publicada nos respectivos cadernos de anúncios classificados. Estes dados reflectem os preços de tabela dos diversos jornais, mas o dinheiro recebido por todos é na verdade bem menos em função dos descontos geralmente praticados, e que variam de título para título.

Esperamos que a verdade esclareça e afaste deste tema a intriga política e o terrorismo empresarial. Os jornais, as revistas e as respectivas empresas de comunicação social vivem um momento tão delicado, fruto da crise económica e da mudança de hábitos no consumo da Informação, que bem dispensam intrigas mesquinhas e textos como este que não estão à altura do bom jornalismo que normalmente a Sábado pratica. [Diário de Notícias]



Publicado por JL às 00:29 de 22.12.09 | link do post | comentar |

Mártires da opinião

Não há colunista que se preze que não tenha feito seriíssimos apelos à responsabilidade. E muito bem. Não há nada pior do que a sensação de viver num país onde a impunidade impera. Ninguém tem culpa de coisa nenhuma e mesmo se alguém é, por remota hipótese, julgado e condenado por algo de impróprio, não faltam as vozes a pedir que seja feito um enquadramento que relativize a situação.

Corre, no entanto, uma interessante teoria que defende o princípio da inimputabilidade para quem escreve textos de opinião. Ou seja, designa-se um texto ou um comentário numa qualquer estação de rádio ou televisão como opinião, e está automaticamente passada uma espécie de autorização para se dizer tudo o que vem à cabeça. Não há qualquer tipo de limites.

Neste espaço, eu posso chamar ladrão a quem me apetecer, posso acusar qualquer cidadão dos mais terríveis e sórdidos crimes, posso pôr em causa a honra ou a probidade de alguém, posso inventar factos ou mentir descaradamente sem que tenha de me preocupar com as consequências das minhas afirmações.

É assim como uma espécie de inversão do ónus da prova só ao dispor dos opinadores. Curiosamente, ou talvez não, são estes os primeiros a exigir que todos os que são alvo da mais díspar acusação venham esclarecer o que quer que seja e também os que mais apelam a todo e qualquer tipo de responsabilidade. Dos outros, bem entendido.

Mas vamos imaginar que um ignorante, desconhecedor deste estatuto quase divino, resolve não gostar que lhe chamem corrupto, intrujão, ladrão ou pior e tenta, pelos meios à sua disposição, defender o seu bom-nome - escusado será dizer que as leis protectoras do bom-nome e da honra devem ser consideradas letra morta.

Bom, além de ser corrupto ou ladrão, o cidadão estará a exercer uma pressão ilegítima sobre o colunista, será um lenhador das raízes do pensamento, um energúmeno que não sabe conviver com a liberdade de expressão.

De um momento para o outro, o opinador passou para o panteão dos mártires da liberdade.

Há partes desta nova doutrina que ainda desconheço. Por exemplo, será que me devo sentir ofendido se alguém me acusar de escrever o que escrevo porque estou ao serviço do partido A ou B? Devo suportar estoicamente se alguém disser que me divirto a ter sexo com ovelhas neozelandesas ou que espanco velhinhas no meio da rua? Como será que devo reagir, confrontado com a acusação de que sou pago para defender o senhor Zulmiro ou a Dona Zulmira? Ou, heresia das heresias, se um qualquer agente de forças obscuras disser que eu insulto, ofendo, injurio ou minto para que toda a gente olhe para mim, me tire da obscuridade e faça crescer a minha cotação no mercado dos media?

Presumo que neste caso o acusador está a vilipendiar o meu carácter e isso é absolutamente intolerável. Ou seja, se eu faço avaliações da personalidade de alguém, está tudo bem, é a minha preciosa liberdade expressão. Se, por mero exemplo, um político põe em questão a minha honestidade ou a minha honra, está a cometer o mais vergonhoso dos pecados. Somos umas espécie de zero zero sete com a vantagem de ninguém nos poder alvejar.

E ai do director de órgão de comunicação social que resolva prescindir dos meus serviços. De certeza absoluta que foi por eu ter ameaçado os poderes estabelecidos, por eu ter "pisado uns calos", por eu não ser "politicamente correcto". Nessa altura descubro - curiosamente, só me apercebo disso no momento em que saio - que esse medium está ao serviço de uma qualquer agenda que não suporta a minha livre opinião.

Claro está que se sou convidado por um qualquer jornal ou televisão para lá exercer a minha actividade é apenas o mercado a funcionar, mas se for dispensado só pode ser perseguição política.

Pois claro, isto é um país de impunidade, uma terra de irresponsáveis. Nós que escrevemos opinião somos o sal da terra, os puros, os bons, os honestos e ninguém nos pode pôr em causa.

[Diário de Notícias, Pedro Marques Lopes]



Publicado por JL às 00:01 de 14.12.09 | link do post | comentar |

Não digas. Não cuspas…

É talvez uma das notas do provincianismo português, que já Pessoa detectava nos basbaques que se maravilhavam de boca aberta das monumentalidades alheias. O sentido pacóvio dos espantos alarga-se muitas vezes à ideia do país como uma espécie de fatalidade do mal, onde só o que é pulha triunfa. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. É verdade que esse traço persistente de desvalorizar tudo à nossa volta, essa menorização do país, essa ideia de que tudo o que é nacional é mau, refinou-se de forma surpreendente. Alguns por puro analfabetismo, outros por sobranceria intelectual, outros ainda por um sentimento de inveja (visível, apesar de disfarçado), dão curso a essa retórica pacóvia e vazia de apoucamento. Parece que não gostam do sol, nem do mar, abominam a realidade e inventam universos em que, provavelmente, eles são reis e felizes na doce ilusão de um paraíso perdido para consumo próprio. Muitos deles têm responsabilidades no estado a que chegámos, mas falam como se jamais tivessem posto a mão na coisa pública. Dizem nada aos costumes. É um discurso que, geralmente associado a um catastrofismo idiota, rende apaniguados do quanto pior melhor, trampolim para a glória dos painéis de comentadores de televisão (sempre os mesmos, claro) ou para colunas de cátedra de jornais onde destilam venenos (Vasco Pulido Valente) e dilúvios (Medina Carreira). Também ilustres milionários, que dilataram cifrões à sombra do Estado, à mínima beliscadela nos seus interesses logo se apressam a ameaçar com a ida para o estrangeiro.

 

Ainda a semana passada, Vasco Graça Moura retomava o seu registo apocalíptico da actualidade: ele só vê porcaria na banda dos socialistas, que derrotaram por voto popular o partido em que milita VGM e de onde, por sinal, tantas porcarias têm emergido (basta lembrarmo-nos dos figurões do BPN). Mas essas serão porcarias quimicamente puras… «O país votou nessa cambada. O país prefere a porcaria. Já está formatado para viver nela e com ela», escreve Graça Moura. Faziam bem, ele e os outros arautos que gostam de parir ideias abaixo de zero, em parar um pouco para lerem um aviso de Virgílio Ferreira (Escrever, página 215), que aqui com gosto e a custo zero, lhes ofereço: «Não digas. Não digas mal do país, ou seja, de ti. Terás talvez a ideia de que o dizeres mal te separa do resto e te alça a ti a uma posição altaneira. Não penses. Fazes parte daquilo em que cospes, és pertença dessa sujidade. A grandeza de uma ofensa tem que ver com ela própria. A grandeza do cuspo é o escarrador que és tu. Aprende o orgulho de ti na grandeza ou na miséria. E se queres condenar a miséria que também é tua, fala um pouco grosso que não te fica mal. Podes talvez lamentar mas não escarnecer. Se cospes tornas visível o cuspo naquilo em que cuspiste. Como queres que os outros te respeitem se tu mesmo não o fizeres? Para o lixo há recipientes apropriados em que esse lixo não se vê. Não cuspas mais no país para que os outros não se enojem do cuspo em que revelas a terra que é tua e que, portanto, és tu». Não digas. Não cuspas...

[A Escada de Penrose, Rui Herbon]



Publicado por JL às 19:34 de 12.12.09 | link do post | comentar |

Sombrio Saraiva

Aconteceu qualquer coisa ao Saraiva do Sol. Apercebi-me disso, quando numa das minhas peregrinações televisivas deparei com o inefável Crespo a conversar gravemente com um juiz, sobre umas tantas perguntas que alguém teria feito ao desusado arquitecto Saraiva.

A coisa terá sido grave. Não consegui saber o que foi. Busquei no sítio do Sol, na esperança de compreender. Em vão. Ainda agora, estou para saber quem realmente lhe perguntou o quê.

Em compensação, deparei, no referido sítio, com um texto ferocíssimo do azougado arquitecto contra Sócrates. Não me espantou a veemência dos ataques, já que é natural e nada tem de espantosa, vinda de quem vem.

Mas espantou-me o seu contorcionismo intelectual, que mistura factos com insinuações, hipóteses com evidências, numa caldeirada que, verdadeiramente, não é mais do que um arremesso de lama a um político de quem o arquitecto não gosta. É um dos textos intelectualmente mais desonestos que alguma vez me foi dado ler.

Por exemplo, sublinha a implicação de Sócrates no processo “ Face Oculta”, quando a única coisa que se sabe, sobre uma qualquer conexão do Primeiro-Ministro com o processo, é o facto de ele ter sido escutado por tabela, através de um dos arguidos, tendo sido público que nas escutas não transpirara nada que tivesse, fosse o que fosse, a ver com esse processo. Portanto, a implicação de Sócrates no “Face Oculta” é uma simples invenção insultuosa. Depois, meteu Sócrates, que não foi sequer constituído arguido em qualquer processo, no mesmo saco de Isaltino, que já foi condenado num julgamento, em primeira instância.

Por fim, sugere que o conteúdo das escutas ilegais, difundido ilegal e ilegitimamente, devia levar à demissão do primeiro-ministro, pelo modo como ele se refere não sei bem a quê nem a quem.

Fazendo-se passar por tonto, o arquitecto espanta-se pelo facto de que tantos notáveis socialistas, que ele generosamente carimba de honestos, defendam Sócrates, sugerindo ainda que são essas opiniões favoráveis a única coisa que, verdadeiramente, o segura como chefe de governo.

Ou seja, o imaginativo arquitecto começa por inventar uma desqualificação insultuosa para Sócrates, para, em seguida, retirar das suas próprias invenções insultuosas a drástica consequência política de uma possível demissão do governo.

[O Grande Zoo, Rui Namorado]



Publicado por JL às 00:01 de 12.12.09 | link do post | comentar | ver comentários (1) |

O novo Pelourinho

Exigiu-se a Vara que abandonasse o BCP debaixo de acusações graves que não se confirmaram.

Quando rebentou nos jornais o caso ‘Face Oculta’ e apareceram nas primeiras páginas personalidades como Armando Vara, José Penedos e outros, apodados de corruptos, com notícias, textos de opinião e transcrições de escutas telefónicas, aparentemente comprometedoras, a generalidade dos portugueses convenceu-se que a situação era grave e que o envolvimento em acções como as que vinham descritas só podia redundar num castigo exemplar, que todos subscreveriam. Quando a poeira assentou, depois da refrega nos jornais, apareceu um cenário completamente diferente a exigir nova meditação e conclusões distintas. Talvez o caso que emergiu com maior nitidez seja o de Armando Vara, que optou por se afastar da administração do BCP ao mesmo tempo que ia afirmando a sua inocência. Aqui chegados, olhamos para as discrepâncias entre o que se dizia e o que realmente o juiz de instrução decidiu.

O Ministério Público pretendia uma caução superior a cem mil euros. O juiz decretou 25 mil. A "acusação" inicial era a de corrupção, associação criminosa, tráfico de influência, etc., etc.. A decisão final ficou-se apenas por "tráfico de influências". Foram caindo por terra, uma a uma, as principais acusações a Armando Vara. Recebeu um saco de Manuel Godinho, afinal o saco continha um equipamento do Clube de Futebol Esmoriz. Numa outra ocasião "arrecadou" uma "prenda" suspeita. O que era? Uma caixa de robalos frescos.

Sobre José Penedos, que preferiu manter-se em silêncio, preservando o recato da sua defesa, anoto o que disse o seu advogado, esse grande senhor da advocacia, José Manuel Galvão Teles: "Em praticamente 50 anos de exercício de advocacia, dificilmente se encontrará decisão judicial tão distante e contraditória com a realidade dos factos e com os elementos probatórios constantes do processo." A montanha parece ter parido um rato. Mas não é isso que me constrange. O que de facto me violenta como cidadão é constatar que é possível enxovalhar nas primeiras páginas dos jornais qualquer pessoa, para menos de um mês depois se verificar que o "crime" foram uns robalos e um equipamento de futebol. Exigiu-se a Armando Vara que abandonasse a vice-presidência do BCP debaixo de acusações graves que não se confirmaram. Está tudo reduzido ao "tráfico de influências" sem se saber bem quem foi influenciado por Armando Vara e em que condições. Arre que é demais!

[Correio da Manhã, Emídio Rangel]



Publicado por JL às 19:02 de 05.12.09 | link do post | comentar |

Pacheco Pereira e o seu sósia

José Pacheco Pereira escreveu inúmeras páginas contra a tentação tão portuguesa de denegrir a função política e que cede às mais básicas pulsões populistas, tendo servido de fermento à ditadura. José Pacheco Pereira escreveu inúmeras páginas sobre a necessidade de introduzirmos racionalidade no debate político português, evitando as infiltrações extremistas susceptíveis de corroer o nobre mas frágil edifício institucional da democracia.

Pensava nisto enquanto concluía que não podia ser o mesmo Pacheco Pereira aquele que se desgrenhava no ecrã à minha frente, atirando argumentos cheios de carga emocional e populista para a fogueira da discussão na Quadratura do Círculo. Fogueira que praticamente só ele alimenta, na permanente tentativa de falar em cima dos restantes intervenientes, procurando a todo o passo travar-lhes o raciocínio. É um Pacheco Pereira que parece sempre à beira do delito passional, agarrado a duas ou três teses férreas das quais não se demove um milímetro em função dos argumentos alheios, o que no fundo inviabiliza qualquer debate. Lobo Xavier, nas raras vezes em que o companheiro de mesa lhe permite falar, é muito mais hábil na defesa dos pontos de vista que interessam ao PSD para se firmar como eficaz partido de oposição. António Costa mal consegue juntar duas frases sem ser de imediato atropelado pela torrente verbal de Pacheco, ao melhor estilo das reuniões gerais de alunos de há várias décadas. Carlos Andrade parece todo o tempo investido da ingrata missão de procurar reduzir o ruído que este irreconhecível Pacheco Pereira provoca em estúdio, olhando nervosamente para o cronómetro, com a angústia do guarda-redes antes do penalti.

O "debate", nesta Quadratura, é nulo: tudo se esgota no incessante martelar das teclas de Pacheco, cada vez mais prisioneiro das suas obsessões, cada vez mais transfigurado pelo ódio cego a José Sócrates. E nestes instantes vou sentindo uma irreprimível nostalgia do Pacheco antigo, que nos mandava tomar as devidas precauções contra o frenesim populista, inimigo desbragado dos "políticos" e de todo o debate travado em moldes racionais. Nada a ver com esta penosa reencarnação do outrora ilustre pensador, tão mal representado pelo seu sósia, que parece desdizer hoje tudo quanto o Pacheco original dizia outrora.

[Delito de Opinião, Pedro Correia]



Publicado por JL às 00:02 de 28.11.09 | link do post | comentar |

Credibilidade informativa

Gostaria de saber qual vai ser a leitura que os directores dos jornais que veicularam informações falsas, como a existência de escutas em que Armando Vara pedia 10.000€ para traficar influências, ou a recusa do Juiz de Aveiro em acatar as ordens do Procurador-Geral da República, por exemplo, vão fazer da sua credibilidade informativa, do serviço que prestam aos cidadãos, e quais as consequências destes factos. Ou será que apenas os políticos devem assumir as responsabilidades dos seus erros?

[Defender o Quadrado, Sofia Loureiro dos Santos]



Publicado por JL às 00:02 de 26.11.09 | link do post | comentar |

Corrupção, habituação

Siga o leitor o guião da peça, para melhor compreender o que se passa na nossa democracia. Ou, quiçá, para dar largas ao seu protesto, sempre que ela voltar a ser exibida num teatro perto de si.

Primeiro acto. Alguém denuncia suspeitas de corrupção, anónima ou assumidamente, a uma autoridade policial ou judiciária. A dita entidade põe-se em campo. Investiga, mexe e remexe. Enfrenta resistências, apura indícios, constitui arguidos, formula acusações. Até aqui, nada de anormal: cada um cumpre o papel que num Estado de Direito lhe está destinado.

Segundo acto. É encenado em função do suspeito. Se é um pé-rapado - que tontice, um pé-rapado não se mete em corrupções; quando muito pratica a cunha, o mais popular dos desportos nacionais... - ficam as coisas na discrição dos gabinetes da Judiciária ou do Ministério Público, até chegar a um julgamento de que só dois ou três vizinhos do dito se aperceberão. Estando em causa alguém poderoso, o mais provável é que, por baixo da mesa, o caso chegue a um jornal ou a uma televisão. Em regra, partes da realidade ou da aparência dela, como extractos de escutas telefónicas. Sempre a coberto do confortável anonimato, para obviar o risco de violação do segredo de justiça. Muitas vezes com os jornalistas a servirem de simples mensageiros, abdicando do escrutínio crítico do material a que têm acesso.

Terceiro acto. O suspeito queixa-se de que está a ser alvo de um julgamento na praça pública e cuida de contratar um bom advogado. O aparelho de Justiça faz a revisão da matéria, para verificar se não cometeu um deslizezinho processual capaz de deitar tudo a perder. Mais um par de fugas de informação, cirurgicamente soltas, contribui para baralhar o jogo, perturbar a percepção que se tem do processo ou, simplesmente, desviar as atenções.

Quarto acto. O caso ganha volume e ramificações até então desconhecidas. Seja o suspeito um político e a classe movimenta-se. Alguns (poucos, que ninguém quer más companhias) saem em sua defesa. A maioria jura combate sem tréguas à corrupção, propõe uma - mais uma - alteração legislativa capaz de a reduzir de vez ao perdão de uma dívida fiscal de cinco euros em troca de um pequeno-almoço no bar da esquina. E, pela enésima vez, fala-se em punir a sério o enriquecimento ilícito ou levantar o sigilo bancário.

Quinto acto. Com o tempo, o escândalo desaparece do espaço mediático, talvez substituído por outro, que repetirá o mesmo guião.

A corrupção segue imperturbável. Tão nociva e viciante como o tabaco. Como ele, corrói a saúde; como ele, gera habituação. Habituação a uma "dramaturgia democrática" em que o sexto acto, a condenação em tribunal, raramente sobe à cena.

[Jornal de Notícias, Paulo Martins]



Publicado por JL às 00:01 de 20.11.09 | link do post | comentar | ver comentários (1) |

O refém

Durante meses, José Sócrates foi escutado e tudo o que conversou com Armando Vara está agora nas mãos de uma dúzia ou duas de portugueses. São agentes da PJ, procuradores, juízes e jornalistas. São pessoas de quem o primeiro-ministro está refém. Ele sabe, como sabemos todos, que a qualquer momento partes das conversas que manteve podem tornar-se públicas. E tanto faz que as escutas tenham sido ilegais, no que a ele diz respeito, como existir um segredo de justiça para respeitar.

Os avisos estão dados, com umas pingas que caíram no CM e no Sol. Há quem tenha o relato de todas as conversas e esteja disponível para o passar aos jornalistas, fazendo valer a justiça da rua, onde a dos tribunais parece não poder julgar.

Imaginemos até que nada do que faz partes dessas conversas acabará por se tornar público. Continuarão a existir uma dúzia ou duas de pessoas que sabem, de trás para a frente, o que disse Sócrates sobre a TVI, o presidente da República, os seus adversários políticos e tudo o mais que lhe ocorresse dizer numa conversa com um amigo. No segredo da amizade, o que tiver dito de pouco vale, mas nos corredores do poder pode ser insustentável.

Mas o pior até já está feito. O que Sócrates tiver dito está gravado e não pode ser desmentido, mas o que possa significar o que disse não terá defesa possível se a lei determinar que as escutas são nulas e, portanto, o Supremo der ordem para as destruir.

O primeiro-ministro está também refém do tipo de comunicação que fizerem os agentes da Justiça. E o que se tem visto até agora é demasiado confrangedor.

Verdade ou mentira, o que a Procuradoria e o Supremo têm passado para a opinião pública é a ideia de que pode haver matéria com relevância criminal. É absolutamente necessário esperar pelos esclarecimentos do senhor procurador. Uma palavra sua pode ser suficiente para crucificar politicamente o primeiro-ministro mais citado em polémicas de que há memória.

Bem diz o presidente do Supremo que é preciso mudar o modo como se faz a investigação em Portugal, pensando talvez em retirar alguma da autonomia ao Ministério Público. Mas o país precisa também que se mude muita coisa no modo como se julga em Portugal e no modo como as polícias de investigação queimam na praça pública quem não conseguem levar a tribunal por falta de provas.

Desta vez, sabemos que as polícias tiveram todos os meios possíveis e imaginários para investigar esta teia, não deveria ser perdoável que o processo ruísse por azelhice jurídica de quem tem que fazer tudo dentro da lei para condenar nos tribunais quem for culpado. Só que, às vezes, até parece que os investigadores só querem construir casos nos jornais. É mais fácil e pode ser feito a coberto do anonimato que se vende como investigação jornalística.

Convinha que as montanhas não continuassem a parir ratos. Se assim for é preciso deixar de generalizar sobre a culpa da classe política no fenómeno da corrupção e começar a responsabilizar as polícias e o Ministério Público pela incompetência demonstrada nestes casos, que valem novelas na comunicação social, mas não servem para condenar ninguém nos tribunais.

[Jornal de Notícias, Paulo Baldaia]



Publicado por JL às 00:01 de 19.11.09 | link do post | comentar |

O pântano institucional

O presidente da República transformou-se numa das figuras centrais da campanha eleitoral em curso. Os esforços, assumidos pelo próprio, de se manter à margem da luta partidária caíram ontem por terra, com a exoneração do seu assessor principal e companheiro político de mais de duas décadas, Fernando Lima. Ao deixar cair o jornalista, Cavaco Silva assume que algo de muito grave se passou no intitulado "caso das escutas". Independentemente das circunstâncias (talvez nunca as venhamos a conhecer na totalidade) que conduziram a este desfecho, o chefe de Estado sai deste (ainda inacabado) episódio com a sua imagem bastante fragilizada.

Porquê? Porque uma de duas: ou Cavaco foi enganado pelo seu ex-assessor, o que é grave (e um pouco inverosímil); ou não foi enganado e geriu pessimamente o caso, o que é ainda mais grave. Aliás, se a segunda possibilidade fosse a correcta, estaríamos perante um jogo de tal forma ínvio que a hipótese de se avançar para uma impugnação do mandato do presidente da República não seria, a meu ver, uma mera hipótese académica.

Em qualquer país com boa tradição democrática este caso seria investigado até ao limite. E daí retiradas as devidas consequências. Em Portugal, a excessiva reverência com que habitualmente são tratados os detentores do poder (primeiro-ministro e presidentes da República antes de todos os demais) servem de travão ao aprofundamento de responsabilidades.

Os factos são o que são. Quando foi pela primeira vez confrontado com a manchete do DN que dava conta de ter sido Fernando Lima a colocar no jornal "Público" o "caso das escutas", o chefe de Estado respondeu: depois das eleições, trataria de saber em que estado se encontra a segurança do país. Isto é: Cavaco deu imediata cobertura à tese dos que achavam que a "conspiração" envolvia escutas, espionagem e entusiasmantes coisas afins. Ao fazê-lo - e sobretudo ao dizer que não acreditava que a urdidura partisse de Belém -, o presidente da República defendeu o seu ex-assessor.

O que mudou no curto espaço de uma semana? O chefe de Estado concluiu que Lima actuou à sua revelia? Lima não lhe mentiu, mas o chefe de Estado entendeu que o nome do presidente passou a estar em causa e viu-se na iminência de sacrificar alguém? Cavaco sacrificou um inocente? Por que razão disse que só falaria depois das eleições e, afinal, actuou antes? Por que não "matou" o assunto à nascença? Ao não fazê-lo, permitiu a ilação mais grave de todas: tudo parece ter sido feito à medida para incomodar o Governo.

Eis-nos no pântano institucional a poucos dias das legislativas. O senhor presidente devia dizer-nos como sair daqui. [Jornal de Notícias, Paulo Ferreira]



Publicado por JL às 00:05 de 23.09.09 | link do post | comentar |

A conspiração

O Presidente da República afirmou aos jornalistas, a propósito de eventuais escutas em Belém, que um dos seus traços não é a ingenuidade.

Ora, depois da decisão de afastar um assessor e da confirmação oficiosa da conspiração a partir de Belém para derrotar o PS nas eleições legislativas, vale a pena dizer ao Presidente que os portugueses também não são ingénuos.

O que se está a passar é mau demais para ser verdade, é a asfixia democrática que ninguém imaginava possível, é a fragilização de um órgão de soberania, o Presidente da República, com a conivência do próprio, por acto ou omissão, mas seguramente por actos e omissões mal explicados, contraditórios, suspeitos. Por isso, a demissão de um assessor, o seu afastamento, a sua responsabilização pública só explica parte da história, a de que houve uma tentativa de golpe palaciano para prejudicar o PS e José Sócrates em plena campanha eleitoral. Mas continuam a faltar outras explicações de Cavaco.

O silêncio ambíguo de Cavaco Silva quando foi publicada a primeira notícia, no "Público" a 18 de Agosto, sobre as suspeitas de que o Governo andava a espiar a sua actividade, através de escutas colocadas no Palácio de Belém, causaram perplexidade. Afinal, não era um disparate de Verão? Quando o DN noticiou, na passada sexta-feira, que o assessor Fernando Lima tinha encomendado uma notícia sobre estas escutas, através do mesmo jornal, a resposta ambígua de Cavaco Silva serviu apenas para confirmar que, afinal, era mesmo verdade, o Presidente suspeitava da existência de escutas. Até porque, nessa resposta, afirmou-se atento "às questões da segurança" e disse que não era ingénuo. A declaração do director do "Público", José Manuel Fernandes, de que o SIS poderia estar envolvido na notícia do DN, porque citava um ‘email' trocado entre o referido assessor e um jornalista do "Público", só serviram para adensar o trama.

O primeiro a desmentir-se foi o director do "Público", porque, afinal, não teria existido uma violação do sistema informático do jornal. O segundo foi o próprio Presidente ao demitir o assessor Fernando Lima, a forma encontrada para dizer ao país que a conspiração não tinha tido a sua participação ou conhecimento e limitar, assim, os danos deste caso, já óbvios.

A decisão de demitir Fernando Lima - que não é um caso particular da Presidência, como afirmou Manuela Ferreira Leite para justificar o seu silêncio sobre o caso - confirma a existência de uma conspiração a partir de Belém contra o primeiro-ministro, afecta a imagem do "Público" neste processo pela forma como o seu director assumiu ‘as dores' da Presidência, arrasta o PSD neste pântano institucional e partidário e, mais grave, põe em causa a sua própria autoridade e independência políticas.

A decisão de Cavaco Silva serve, apesar de tudo, para responder à pergunta colocada ontem neste espaço: os portugueses podem confiar nas ‘secretas' portuguesas e o regime democrático não está em causa, porque, afinal, não há escutas promovidas pelo SIS ou outro órgão de informação a mando do Governo. Se existissem, o Presidente já teria, com toda a certeza, actuado... [Diário Económico, António Costa, (Director)]



Publicado por JL às 00:03 de 23.09.09 | link do post | comentar |

Crime Público

Portanto, o Governo está a espiar a Presidência da República! Gravíssimo! Que fazer? Há várias alternativas para um presidente espiado. Denunciar o Governo espião e dar-lhe um ralhete exemplar em público (nunca no "Público") utilizando uma comunicação nacional na TV como o fez com irrepreensível dramatismo e inigualável teatralidade com o estatuto dos Açores. Desta vez, teria de incluir a demissão do Parlamento e a convocação de novas eleições. O caso não seria para menos. Um governo a usar serviços secretos do Estado para espiar outro órgão de soberania exige demissões e eleições. Mas não. O presidente da República, o mais alto magistrado da nação, o comandante em Chefe das Forças Armadas, sabe que está a ser espiado. Tem a certeza disso porque, da sua doutrina passada ficou o axioma de que "raramente se engana e nunca tem dúvidas". Estando a ser espiado qual é a actuação realmente presidencial para este caso? Exigir do procurador-geral da República uma investigação imediata? Convocar o Conselho de Estado (já com a respeitabilidade recuperada desde a saída de Dias Loureiro)? Fazer uma comunicação ao Parlamento como é seu privilégio e, neste caso, obrigação? Nada disso! A Presidência de Cavaco Silva, através da sua Casa Civil, decide encomendar (mandar fazer in: Dicionário Porto Editora) uma reportagem a um jornal de um amigo.

Como os jornalistas são por vezes um bocado vagos e de compreensão lenta, a Casa Civil da Presidência da República achou por bem ser específica na encomenda dando um briefing claro a pessoa de confiança no jornal. "Vais falar com fulano e pergunta-lhe por sicrano, vais aqui, vais ali, fazes isto e aquilo e trazes a demasia de volta". O homem ainda tentou cumprir com a incumbência, mas a coisa não tinha pés nem cabeça e parece que lhe disseram isso repetidamente.

Por isso, logo, por causa disso, houve mais um ano e meio de fartar espionagem enquanto no Pátio dos Bichos continuavam todos a ouvir vozes

Cavaco Silva deve ter tido uma birra monumental com a sua Casa Civil e mandou perguntar ao amigo do jornal: "Sócrates está quase a ser reeleito e essa notícia não sai"? Como o que tem de ser tem muita força, a história lá saiu. Mal-amanhada, mas era o que se podia arranjar. Lá se meteu a Madeira no meio porque, como ninguém gosta do Jardim, gera-se logo um capital de boa vontade. Depois, como tinha pouca substância, puseram na mesma página duas colunas ao lado a dizer que, há uns anos, o procurador-geral da República tinha dito que também estava a ser escutado, e a encomenda ficou mais composta. Que interessa que tudo isto seja bizarramente inverosímil? Nos média, o que parece, é. Cavaco Silva julga que está a ser escutado, portanto, está a ser escutado, tanto mais que o seu recente depoimento presidencial é que "não é ingénuo". Com tudo isto, fica-me uma certeza. O trabalho de reportagem do "Diário de Notícias" é das mais notáveis e consequentes peças jornalísticas na história da Imprensa em Portugal. O e-mail com registos claros da encomenda feita por Fernando Lima não é "correspondência privada" que se deixe passar pudicamente ao lado. É uma infâmia pública de gravidade nacional que exige denúncia.

Invocar aqui delações, divulgação de fontes ou violação de correspondência é desonesto. Ao ver o presidente e a Casa Civil metidos nisto fica-me também uma inquietante dúvida. Aníbal Cavaco Silva, referência do PSD, ainda tem condições para continuar a ser o presidente de Portugal depois de causar uma trapalhada desta magnitude a dias das eleições? [Jornal de Notícias, Mário Crespo]



Publicado por JL às 16:57 de 22.09.09 | link do post | comentar |

DESTAQUE DO MÊS
14_04_botão_CUS
MARCADORES

todas as tags

CONTACTO

Email - Blogue LUMINÁRIA

ARQUIVO

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Online
RSS
blogs SAPO