Os partidos não são todos iguais

Em Portugal, há quem esteja convicto de que os partidos são todos iguais. Segundo reza este lugar-comum, os partidos de poder, isto é o PS e o PSD, são no essencial idênticos. São ambos seguidistas da ordem neo-liberal, querem acabar com o Estado-Providência e são submissos em relação aos ditames da UE. A ser assim, e tendo em conta que apenas os líderes destes dois partidos podem aspirar a tornarem-se primeiros-ministros, votar não faria qualquer diferença. Quer seja Manuela Ferreira Leite ou José Sócrates a liderar o próximo governo, não haverá diferenças substanciais na política.

Ora, tal discurso, que se ouve com frequência tanto em conversas de café como nos media, não é verdade. E no contexto de crise em que Portugal se encontra este lugar-comum é talvez ainda menos verdade do que habitualmente. As respostas à crise económica, desde o investimento público em grandes obras, à descida de impostos dividem os dois grandes partidos. Também a forma como os privados devem poder desenvolver as suas actividades em áreas como a Educação, a Saúde ou a Segurança Social separa o PS do PSD. Isto só para mencionar alguns dos temas mais relevantes do eixo Esquerda-Direita.

Mas há outros. De há uns anos para cá, tem-se debatido, e bem, questões de valores em Portugal. Temas como a descriminalização do aborto ou do consumo de drogas, da procriação medicamente assistida, ou o casamento dos homossexuais tornaram-se parte da agenda política. Mais uma vez, aqui, não há muitas semelhanças entre os dois principais partidos.

Embora o PSD se encontre por vezes dividido em relação a alguns destes temas ditos fracturantes, o seu posicionamento oficial, é contrário à liberalização dos costumes. Assim tem sido nas últimas duas legislaturas. O PS de Sócrates defendeu e conseguiu uma vitória no referendo ao aborto, promoveu o fim do divórcio litigioso e já se comprometeu em avançar com a legalização do casamento homossexual, caso seja governo depois das eleições.

Além destes dois partidos serem distintos, os pequenos partidos do arco parlamentar também o são. Este ponto é importante, tendo em conta que as probabilidades de coligação, seja formal, de incidência parlamentar ou mesmo ad-hoc, são elevadas. A não haver maioria absoluta, vai ser preciso fazer compromissos, e podemos prever o teor destes comparando o posicionamento dos partidos sobre os temas políticos mais relevantes. Se a coligação se fizer entre PS e PSD, ou entre o PS e o CDS provavelmente os temas fracturantes ficarão na gaveta. Se a coligação for entre o PS e a sua esquerda, serão algumas reformas mais liberalizantes na economia que ficarão esquecidas.

Muito está em jogo nestas eleições. Para contribuir para este debate, recentemente tenho estado envolvida, juntamente com uma equipa de politólogos do Instituto de Ciências Sociais, numa iniciativa que visa dar um modesto contributo para o esclarecimento do debate ideológico em Portugal.

Trata-se de uma aplicação para a Internet chamada Bússola Eleitoral, que irá estar disponível no início de Agosto. Ela permite ao utilizador através da resposta a um conjunto de perguntas sobre questões políticas importantes, posicionar-se no panorama político em Portugal, e visualizar graficamente a sua proximidade aos partidos políticos em Portugal.

Tendo agrupado os temas por assunto (por ex. economia, sociedade e ambiente) os utilizadores podem também seleccionar apenas os assuntos que lhes interessam e ver em que medida é que o seu posicionamento se compara com o dos partidos existentes. Cada um dos posicionamentos partidários é confirmado com uma citação de um documento oficial do partido.

Para mim este tem sido um exercício muito interessante. Ele serve para compreender quais são os temas que realmente dividem os partidos em Portugal, e os elementos que compõem o que é geralmente chamado de divisão esquerda-direita. Nunca fui daquelas que achavam que os partidos são todos iguais. Mas a Bússola Eleitoral vem demonstrar isso cabalmente. Só resta agora escolher, com informação, caro leitor. E boas férias! [Jornal de Negócios, Marina Costa Lobo]


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Publicado por JL às 00:09 de 25.07.09 | link do post | comentar |

2 comentários:
De perplexo a 27 de Julho de 2009 às 11:55
"Nunca fui daquelas que achavam que os partidos são todos iguais. Mas a Bússola Eleitoral vem demonstrar isso cabalmente."
Interessante. Antes de colocar no "mercado" as questões , já sabe o resultado.
Onde é que isto costuma acontecer?


De CORRECÇÃO a 27 de Julho de 2009 às 11:49
A defesa da legalização da Interrupção Voluntária da Gravidez (aborto) foi também defendida pelo BE, pela CDU e pelos Verdes, isto para falar dos partidos políticos com acento na Assembleia da República, mas sobretudo pela SOCIEDADE CIVIL.
O fim do divórcio litigioso, de que ainda desconhecemos os efeitos, não tem qualquer contributo expressivo para a sociedade portuguesa, já que os divórcios litigiosos não representavam 2% do total de divórcios praticados, ou seja, menos de 2000.
Quanto ao casamento entre homossexuais vai ser difícil, porque o conceito de casamento implica uma união entre pessoas do mesmo sexo. A verificar-se será sempre uma versão adulterada do casamento. Já será possível a atribuição dos mesmos direitos e deveres por via legal, á união entre pessoas do mesmo sexo. Mas também aqui há um forte apoio da sociedade civil e de outros partidos da esfera política nacional.


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