Quarta-feira, 19 de Agosto de 2009

A  entrevista concedida por Ferro Rodrigues, no passado fim-de-semana, ao "Expresso" eriçou o histórico Manuel Alegre. Melhor: deve ter eriçado muito mais gente, mas só o deputado-poeta se deu ao trabalho de traduzir em palavras o pensamento dos "camaradas". Em traço grosso, Ferro defendeu que, no caso de o seu partido vencer as eleições legislativas sem maioria absoluta (cenário bastante provável), deve procurar fazer uma coligação com o PCP ou com o Bloco de Esquerda, virando-se para o PSD apenas e só se as duas primeiras tentativas saírem frustradas. Alegre respondeu-lhe com o óbvio: como comunistas e bloquistas já disseram não estar interessados no "negócio", o ex-secretário--geral do PS está a propor a reedição do bloco central.

Como se sabe, Ferro Rodrigues não está sozinho. Figuras gradas da democracia como Jorge Sampaio, Mário Soares e Cavaco Silva já abordaram o tema. A própria Manuela Ferreira Leite, que começou por dizer que só passando ao estado de "doida" (sic) aceitaria trabalhar com Sócrates no Governo, foi amenizando a linguagem, ao ponto de nos confundir. Quer ou não quer? Aceita ou não aceita?

O mais provável é que não queira e não aceite. Por uma simples e prosaica razão: Sócrates e Ferreira Leite odeiam-se cordialmente. O que os separa, na atitude, no pensamento e na forma de agir é muito mais forte do que aquilo que eventualmente os pudesse unir. Eles sabem disso. Eles sabem que um acordo PS/PSD duraria pouco, muito pouco tempo. Eles sabem que as consequências para o país de uma rápida crise pós-eleições seria devastadora. Nem um nem outro estão disponíveis para carregar esse ónus durante o resto das suas vidas.

Deste cenário só há duas saídas. Ou o PS se coliga com o PCP e com o BE, ou Sócrates e Ferreira Leite cedem o passo a quem se consiga entender. A primeira possibilidade é um susto: o país não pode dar-se ao luxo de ter no Governo quem lute ainda hoje pela nacionalização da Banca e de empresas consideradas estratégicas, como a Galp, a EDP ou a PT. Acresce que, no caso do Bloco, o partido deixaria de ter graça e perderia a hipótese de usar diariamente a demagogia. Ou seja: daria um passo em direcção ao abismo.

Resta a segunda possibilidade. O país chega, depois das legislativas, a um impasse que obriga Cavaco Silva a intervir. Sócrates e Ferreira Leite não cedem. PS e PSD procuram novos líderes. É neste quadro que devem ser lidas intervenções como as de Ferro Rodrigues ou do seu apaniguado Paulo Pedroso. É neste quadro que devem ser lidas intervenções e posicionamentos de "barrosistas" como Nuno Morais Sarmento. Paulo Portas assiste a tudo sereno. À espera que lhe caia um naco de poder no colo. [Jornal de Notícias, Paulo Ferreira]



Publicado por JL às 00:02 | link do post | comentar

3 comentários:
De Um País de hipóteses perdidas a 19 de Agosto de 2009 às 13:00
Hipóteses há muitas. Em política as hipóteses quer de governação como de desgoverno são tantas que nem têm conta.

Eu aponto aqui, agora uma quanta hipótese que, alias não é nenhuma novidade de, a governação à moda do queijo limiano. Lembram-se?

É claro que a mais acertada seria a de entendimento à esquerda. Seria interessante tanto o bloco como o PC esfriarem amenamente os seus ímpetos demagógicos aumentando os seus comportamentos de responsabilidade e o PS a tornar-se mais coerente no governo com as seus compromissos e declarações quando se encontra na oposição ou em tempos de campanhas. Uns e outros teriam de ceder em coisas consideráveis, mas o pais e os portugueses sairiam beneficiados.


De DD a 19 de Agosto de 2009 às 21:04
Não chega a ser uma verdadeira formação política, um partido que recuse participar num governo de coligação na base de um programa detalhadamente estudado que não será a imposição de um partido sobre o outro, mas sim um acordo em que dois ou três partidos prescindem de parte dos seus programas para realizarem um bom trabalho de governação sem se traírem mutuamente.
Em quase toda a Europa há governos de coligação e em Portugal pode dizer-se que nenhum deputado eleito é leproso, pelo que todos se podem entender sobre um governo.
O essencial é estudar previamente o programa com todos os detalhes de modo a evitar surpresas e mal-entendidos futuros.
Hoje, a questão mais à esquerda ou mais à direita na prática não é tão importante porque as margens de manobra governativas são restritas.
Uma coisa é reivindicar o que qualquer grupo quer, outra coisa é dar a todos o que exigem e acham que tem direito. Dar a todos é impossível..


De Militantância do equilibrio a 20 de Agosto de 2009 às 09:15
Dar a todos não será impossível , se a todos for dado o que seja justo numa sociedade que se queira equilibrada em dignidade e justiça, tanto económica como social.

Não chega para todos se continuarmos a cultivar uma sociedade de pedintes e reivindicadores sem o mínimo de respeito pelo Estado e este não respeitando os contribuintes .

É necessário acabar com vícios e maus hábitos de exigir e dar apenas direitos e nenhumas obrigações nem responsabilidades. Veja-se o que se passa dentro dos bairros de realojamentos (Programas Especiais de Realojamentos-PER´s).


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