Sábado, 22 de Agosto de 2009

Fazer futurologia com a crise económica actual ou dar conselhos sobre alterações de paradigmas comportamentais representa um grande risco porque muito do que parece irrelevante neste momento pode ser decisivo no futuro.

A única coisa certa é, sem dúvida, o diagnóstico da situação actual que muitos não querem ver na sua plenitude. Mas, a partir daí tudo pode acontecer.

Alguns ou quase todos os economistas idosos tendem a ver o futuro como uma simples extrapolação da actualidade e consideram a saída da crise como a própria continuidade da crise por via da alteração dos hábitos de consumo e desaconselham mesmo o endividamento do Estado como factor para promover o crescimento económico e, como tal, para pôr um fim ao desemprego generalizado aos países industrializados e emergentes.

Os grandes institutos económicos e bancos centrais não sabem ainda em que crise estamos; tipo L, queda brutal como a verificada seguida de um longo período de estagnação; tipo V, queda um pouco menos brutal seguida de uma subida semelhante para o nível anterior; tipo U, queda, seguida de pequena descida e subida em curva para depois se chegar a um crescimento vertical para cima; tipo W, quedas e subidas sucessivas. Tudo sem que haja uma fórmula política a aplicar para dar resultados imediatos como a da injecção de massa monetária com resultados susceptíveis de se dizer que evitaram um eventual agravamento da crise. Mas, nada pode fazer regressar a economia mundial ao artificialismo e loucura financeira de há anos atrás.

De facto, os governos, incluindo a Reserva Federal Americana e o Banco Central Europeu, injectaram milhares de milhões de dólares e euros nos mercados através dos bancos. A banca em quase todos os países do mundo entrou na zona dos lucros, apesar de muitos bancos não terem ainda recuperado os capitais perdidos.

A banca tornou-se cautelosa, empresta pequenas quantias a juros relativamente altos, não favorece o crédito às empresas, cada vez mais arriscado por falta de clientes que permitam com as suas compras o pagamento das dívidas das empresas, e timidamente vai emprestando qualquer coisa para a compra de casa, mas só cobrindo uma parte do valor das mesmas, apesar da taxa Euribor ser hoje a mais baixa de sempre, inferior a 1% e muitas prestações que há um ano estavam nos 878 euros mensais estão agora a 564, isto para um crédito vigente e inicial de 150 mil euros. Os 1,4 milhões de portugueses que estão a pagar casas adquiridas nos últimos vinte e cinco anos estão a beneficiar de um suplemento de rendimento. Mas, os novos clientes enfrentam “spreads” mais altos e têm de entrar com dinheiro. Claro, estão, por outro lado, a usufruir de preços bastante mais baixos no imobiliário. O fenómeno é global em toda a Europa, EUA e muitos outros países. Os bancos não podem satisfazer plenamente a sua função porque a economia mundial não o permite e não podem regressar aos falsos créditos do passado recente, os verdadeiros fautores da crise. As PMEs são particularmente tocadas pelo fenómeno por não serem transparentes. Existem em número demasiado elevado em Portugal e o Mundo para que se saiba quem é honesto ou não e quem tem possibilidades de pagar ou não, mesmo sendo honesto.

A inflação tradicional está a dar lugar a uma deflação ou, no melhor dos casos, a inflações próximas dos zero ponto percentuais.

Por enquanto, os governos não se preocupam com a dívida pública pois acham que o marasmo económico reduz as receitas e provoca igualmente défices orçamentais, mesmo sem gastos públicos suplementares. A economia mundial parece ter caído numa situação em que o despesismo é perigoso e o seu contrário perigoso é. Todos temem o rebentar de uma possível bolha financeira estadual a nível quase mundial sem recurso a elementos salvadores e os estados a “falirem” vão cortar em despesas essenciais, provocando mais desemprego e acentuando a queda na insolvência.

Tudo porque a economia mundial viveu décadas de artificialismos baseados numa ideia errada de crescimento e exportações a todo o custo, principalmente para os EUA, em que os exportadores financiavam as importações americanas, trocando papel por produtos obtidos com o trabalho árduo dos seus operários e técnicos.

Japoneses, alemães e chineses financiaram as suas exportações para os EUA e União Europeia e, hoje, enfrentam o problema de uma queda acentuada das suas vendas associada à desvalorização dos títulos de tesouro, obrigações e outro papel adquirido nas praças norte-americanas.

O artificialismo dos movimentos económicos das últimas décadas leva a que muitos economistas digam que não há saída imediata da crise. Nada pode fazer o Mundo regressar às transacções de papel hipotecário e outro muitas vezes superior ao PIB mundial. A crise não resultou do crescimento, mas sim da especulação irresponsável de bancos e instituições financeiras, as quais promoveram crescimentos reais em muitas economias, nomeadamente nas dos países emergentes e movimentos não menos reais de milhões de contentores cheios de mercadorias que hoje não encontram compradores, a não ser a preços muito mais baixos que os anteriores.

Contudo, aparentemente, sem crescimento económico, as nações não podem ser governadas democraticamente dada a contínua pressão de sindicatos, partidos de oposição e corporações diversas para aumentar regalias sociais de todo o género e os próprios responsáveis têm de mostrar trabalho, que mais não seja em muitas rotundas, jardins, estradas, etc. De qualquer modo, o crescimento corresponde sempre ao valor do trabalho em função de um vasto conjunto de técnicas e consequentes modos operativos. O crescimento do futuro não pode deixar de assentar em novas técnicas, tal como o crescimento de todas as economias ao longo da história da Humanidade teve sempre como base algo de novo no processamento do trabalho; escravatura, serventia da gleba, técnicas elementares e tracção animal, máquina a vapor, máquinas eléctricas, motores de combustão interna, electrónica e informática e acrescente-se finalmente o crescimento da destruição do planeta que entra nas estatísticas económicas com o sinal positivo quando deveria ser altamente negativo.

Também as bases do crescimento não podem ser vistas apenas como percentagens. Repare-se o crescimento do PIB chinês em 1% implica o enriquecimento médio de cada cidadão em 1,8 euros, enquanto que o mesmo crescimento de 1% em Portugal implica cerca de 175 euros per capita, logo, quase 10 vezes mais. Interessa hoje é considerar o montante por cabeça do crescimento económico e não a percentagem.

Com os aparecimento dos países emergentes, nomeadamente os BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) com quase metade dos habitantes do planeta surge com premência a questão dos recursos para que estes países possam vir a ter, já não diga o nível dos EUA ou Alemanha, mas de Portugal, o que não seria nada mau para as respectivas populações.

Repare-se a este propósito que os EUA consomem 123 kg de carne por ano e por habitante, os europeus chegam aos 91 kgs, enquanto que os chineses andam pelos 54 kgs e os indianos ainda menos. Seria impossível que com as actuais técnicas pecuárias todos os habitantes do Mundo possam consumir a mesma carne que os norte-americanos. Para os economistas tradicionais, a questão passa pois pela redução do consumo dos países mais ricos, nomeadamente EUA e Europa. Para outros, o problema é de técnicas de produção, não apenas de carne, mas de alimentos alternativos e isso aplica-se a todo o tipo de produtos de consumo, incluindo automóveis, electrodomésticos, etc.

Aparentemente, parece bem mais difícil conseguir um equilíbrio entre países mais ricos e pobres do que desenvolver novas técnicas que permitam o crescimento sem desequilíbrio nem destruição ecológica. Veja-se que a electrónica de baixo consumo energético fez entrar nas casas de milhares de milhões de pessoas, televisores, telefones, rádios, computadores, etc. sem rebentar com os sistemas produtores de electricidade, precisamente porque a nova aparelhagem tem consumos quase irrelevantes por via dos semi-condutores. O mesmo poderá acontecer e está já a acontecer com o automóvel que será cada vez mais eléctrico e a electricidade cada vez mais produzida a nível mundial a partir da energia eólica e solar. Os alemães criaram já a empresa Desertec que vai construir no Saara  uma gigantesca central térmica que utilizará como fonte de calor o sol do deserto. A mesma vai ocupar um espaço não aproveitado, proporcionar ao país em for instalado rendimentos acrescidos e fornecer electricidade à Europa. Por enquanto, os espelho focalizadores das radiações solares são caros e também implicam consumo energético, mas tudo indica que a produção em grande escala a nível mundial vai torná-los mais baratos e mais rapidamente amortizáveis em termos de custos contabilísticos. Em Portugal, já foi iniciada a construção de uma fábrica desses espelhos, pois no sul do País como acontece já na Andaluzia, as condições são boas para a produção de electricidade solar não fotovoltaica e esta também pode vir a tornar-se muito mais barata com o aparecimento de novos materiais geradores de corrente directamente a partir das radiações solares.

Portanto, o crescimento do futuro não necessita de ser destruidor dos recursos naturais de modo a tornar impossível um nível de vida muito mais elevado das populações dos países mais pobres.

Portugal aposta forte na fileira eléctrica e pode não falhar, pela primeira vez, uma nova revolução industrial se não aparecer um governo disposto a rasgar todo o passado recente.

O paradigma do futuro não está no social ou no puramente económico, mas sim na física dos materiais e na bioquímica, além de algo mais que pode inopinadamente aparecer. Acrescente-se para finalizar que as apostas no futuro são sempre arriscadas, mas sem riscos não há proveitos no futuro. Não se pode esperar calmamente que outros façam primeiro tudo para sermos nós a importar a altos custos o que está feito.


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Publicado por DD às 18:38 | link do post | comentar

1 comentário:
De Zé T. a 24 de Agosto de 2009 às 12:13
Bom post, embora um pouco 'difícil de digerir'.


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