As contradições do Portas

No debate desta noite, Paulo Portas marcou logo de início a contradição absoluta dos seus argumentos.

Começou por defender a descida dos impostos, sem especificar, com a ideia de que menos impostos implica um desenvolvimento económico e, logo, mais receitas nos impostos baixos. É evidente que no limite extremo não deixa de ser verdade, isto é, com IRC, IRS e IVA próximos do zero ou, pelo menos, a menos de metade. Mas, as descidas possíveis de alguns pontos percentuais não implicam o aparecimento de um maior poder de compra dirigido a produtos nacionais, tanto mais que muitos impostos incidem nos lucros ou rendimentos das pessoas, os quais tendem a baixar em períodos de crise. Hoje verifica-se em todo o Mundo uma quebra no comércio internacional da ordem dos 25% relativamente ao ano anterior.

Depois, Portas orientou todo o debate para as tradicionais insuficiências, exigindo mais apoios às PME, mais apoios sociais, mais segurança policial, enfim, mais tudo, logo mais e mais despesa. Criticou a falta de subsídio de desemprego para os jovens que quase não trabalharam, etc. e quando há despesa social esta é criticada como é o caso do Rendimento Mínimo que, segundo Portas, é algo de mau. Claro, se não existisse, Sócrates seria criticado por não apoiar os mais pobres e, nestes, as famílias mais numerosas.

Tivemos a experiência do governo Durão Barroso que prometeu um choque fiscal em termos de descida de impostos e subiu logo o IVA e outros impostos, nada tendo descido. E não o fez por maldade ou falta de vontade, mas, sim devido à total impossibilidade de agir de outro modo, pelo menos, a curto ou médio prazo.

A estratégia do Portas e toda a oposição é atacar o governo actual pelo que fez e pelo que não fez sem apresentar um verdadeiro projecto alternativo, a não ser nesse aspecto vago de querer descer os impostos e as receitas da Segurança Social à direita e aumentar os impostos dos chamados ricos à esquerda. Em ambos os casos, é possível mexer numas coisinhas, mas sem que daí venha qualquer solução milagrosa para o País, principalmente em termos de crise.

Sócrates teve a ocasião de dizer que já tinha apoiado este ano mais de 40 mil PMEs quando o Governo Durão Barroso/Santana só apoiou umas 2 mil pequenas e médias empresas.

Enfim, Paulo Portas não apresentou qualquer solução para crise e quase se limitou a criticar o Governo, fingindo que não há nem houve um vastíssimo conjunto de programas que melhoraram a Administração e a relação do cidadão com o Estado e, além disso, houve a introdução do complemento social para idosos, dos apoios aos jovens alunos, do complemento ao subsídio de desemprego, de programas de formação nas empresas para evitar o despedimento ou lay of, etc.

Hoje, temos menos Estado em tudo o que se refere a documentação; desde o cartão do cidadão, passaporte, certidões, cadernetas prediais, registos prediais, etc.

O Portas voltou a defender a escolha livre da escola com a possibilidade de o estado pagar as escolas privadas. Era o que mais faltava nas zonas em que há escolas do Estado que são praticamente todas no País.



Publicado por DD às 23:35 de 02.09.09 | link do post | comentar |

3 comentários:
De novo Japão? outra perspectiva a 3 de Setembro de 2009 às 16:56
«Banzai 4
A imprensa portuguesa parece não se ter interessado muito pelo terramoto político japonês. Não se percebe bem porquê. As sondagens apontavam, nos últimos meses, para a hecatombe do partido há mais de meio século no poder;
Yukio Hatoyama oferecia, em clima de crise desesperada, a esperança da mudança, combatendo a visão estreita dos fundamentalistas do mercado, e preconizava uma alteração radical das relações externas com a criação de uma nova área político-económica (Japão, China, Coreia e Taiwan) com moeda comum.

Tim Kelly, na FORBES, ridiculariza o ideário do futuro 1º Ministro do Japão, insinuando que ele não consegue perceber o que se passa à sua volta. Tim contraria, caso a caso, a exequibilidade das grandes linhas estratégicas que Hatoyama propõe. Chama-lhe, no seu artigo desdenhoso, a "Ilha da Fantasia de Hatoyama" (ver aqui: Hatoyama's Fantasy Island).

Kelly parte do princípio de que a China não está interessada na criação de um espaço como o teorizado por Hatoyama;
que as empresas japonesas não sobreviverão fora do globalismo (deturpando a categorização de Hatoyama);
e que não é realista alterar os termos em que se baseiam as relações do Japão com os Estados Unidos da América.

Sempre que a mais leve crítica do sistema capitalista emerge, as reacções oscilam entre o silêncio e a ridicularização.
Será porque Hatoyama foi longe demais na caracterização da desumanidade do fundamentalismo capitalista?
Ou porque foi menos cuidadoso do que muitos dos actuais líderes de partidos socialistas e sociais democratas da Europa?

Provavelmente por ambas as razões...

# posted by Manuel Correia, PuxaPalavra


De Puxa !! a 3 de Setembro de 2009 às 16:52

«Temas e debates I
...
Líder determinado, prosélito confortado.

Portas está determinado a crescer, apontando os pontos fracos da governação socialista, e tem de crescer bastante para poder ganhar algum espaço de manobra. Se o que as sondagens lhe dão estiver em consonância com os votos que receber nas urnas, não se vê porque razão Manuela Ferreira Leite haveria de querer uma aliança à direita. Esse desespero reflectiu-se na prestação de Portas: mais agitado e frenético do que Sócrates.

Sócrates está determinado em permanecer no governo, justificando as suas políticas e responsabilizando a oposição de direita pelo despautério da sua governação anterior e a oposição de esquerda pelo botabaixismo irresponsável. Sustenta que fez tudo bem e uma ou outra coisa menos bem mas cheio de boas intenções.

Suspeita que ninguém lhe vai perguntar porque é que partiu em cruzada contra os direitos dos que vivem do seu trabalho (direitos adquiridos, diziam alguns amantes da piada fácil) e preferiu, com a crise internacional já a morder-nos as canelas, as medidas de carácter assistencialista.
Está quase certo que ninguém lhe vai fazer a demonstração que essa desregulação que o governo do PS veio acentuar no mundo do trabalho, tem o selo neoliberal que diz agora repudiar.

Neste aspecto, Paulo Portas não estava interessado em irritar o 1º Ministro. Teria de ser mesmo Bagão Félix...

# posted by Manuel Correia , PuxaPalavra, 3.9.2009


De Zé T. a 3 de Setembro de 2009 às 12:30
''Governo de esquerda'', precisando o que interessa: com políticas/ práticas de esquerda (e não apenas com designações ou palavreado).

Para um Governo de Esquerda (...): é necessário primeiro obter a maioria de votos, seja só com um partido (PS) ou com 2 ou 3... (PS+CDU+BE), desde que se entendam e cooperem (antes ou pós eleições, com acordos ou com posições pontuais concertadas)- é difícil, sim, mas é possível... existe em vários países democráticos e, se tal não acontecer, é por culpa de todos os partidos de esquerda, dos seus dirigentes e deputados (e, em menor medida, também por culpa dos eleitores portugueses: se os elegem merecem os governantes que têm).

Quanto a possíveis ou impossíveis eleitorais ... tudo é possível. Agora, Japão, os eleitores cansaram-se de votar sempre nos mesmos de ''direita'' (no poder há mais de 50 anos !!) e deram uma gigantesca vitória ao partido ''centro esquerda''.

Quanto à R.P. China e outros... com o seu ''dumping social e económico'' é verdade [concordo com DD], mas pouco ou nada há a fazer... lá, ... mas cá (na UE ) podem-se tomar algumas medidas 'restritivas a produtos importados/ produzidos em 'dumping'' e tomar medidas 'fomentadoras do consumo de produtos ''made in UE''... e fomentadores de uma maior consciência social de produtores, importadores, vendedores e consumidores ...

As leis e códigos e o poder regulador do Estado é que nos poderão dar alguma segurança e confiança ... social, económica, judicial, ... concorrencial (anti-cartel, anti-oligopólio e anti-monopólio privados)... e até económica (por via do seu sector produtivo de bens e serviços, e das participações estatais em empresas privadas).

E note-se que, actualmente, a produção de serviços (financeiros, turísticos, médicos, educacionais, software, ...) é tanto ou mais importante (em termos de balança comercial) do que a produção de bens (fábricas, frigoríficos, automóveis, cimento, casas, ... - em que Portugal e o mercado ocidental até já está próximo da saturação,...) e,

por outro lado, também não podemos argumentar com a falta de recursos naturais ... (era bom que tivéssemos petróleo e diamantes, ... mas não temos, … e a Suiça, Andorra, Dinamarca, Israel, etc. também não os têm e vivem bem...) e nós temos sol, vento, território, floresta, rios, praias e um mar imenso, que até vai mais que duplicar em termos de Zona Económica ... -

provavelmente, o que temos em défice é a capacidade de organização, de gestão, de cidadania, de literacia, de ciência, de investigação e desenvolvimento.


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