Vitória de Sócrates

No debate entre Sócrates e Louçã é evidente que o Primeiro-Ministro saiu nitidamente vencedor e levou, sem dúvidas, Louçã às cordas ou, mesmo ao tapete.

Sócrates na qualidade de chefe do governo há 4,5 anos seria acusado de ser o “causador” de todos os males do País e deste Mundo, a começar pela crise, mas conseguiu com o programa bem estudado do BE levar Louçã à defesa e mostrar que este pretende acabar com as deduções ao IRS com despesas de saúde, educação, etc. Louçã não foi convincente na alternativa de tornar tudo absolutamente gratuito, porque a ser assim nunca mais se falaria de deduções fiscais. Os contribuintes não teriam facturas para juntar ao IRS e então nem seria preciso falar em deduções fiscais.

Ao falar nas nacionalizações, Louçã não foi capaz de explicar como as faria e com que dinheiro. É certo que as empresas como a PT, EDP, Águas Livres, Galp, etc. ganham dinheiro e muito porque são bem geridas e têm um grande espírito de iniciativa.

Diga-se, contudo, em abono da verdade que Louçã foi honesto na área do desemprego ao referir a existência de uma crise mundial. Não acusou directamente Sócrates de ser o culpado do desemprego e do próprio “crash” de Nova Iorque, mas disse que agora há mais desempregados que no início do governo.

Estes debates são muito curtos, as questões são debatidas em poucos minutos para ambas as partes, pelo que não é examinar o desemprego as exportações e a economia em geral em tão pouco tempo, mas ficaram algumas frases chaves como as nacionalizações e as deduções fiscais para um e outro lado.

Curiosamente, nos comentários feitos ao debate entre Ferraz da Costa e o fiscalista Saldanha Sanches, este mostrou não saber que as deduções à colecta do IRS para saúde e educação são limitadas a um certo montante que até nem é exageradamente alto. Saldanha Sanches fala numa eventual dedução 100.000 euros que não é verdadeira, é muito menor, parece-me que de poucos milhares de euros.

Por sua vez, Ferraz da Costa desconhece que as nas nacionalizações de 1975, os capitais estrangeiros ficaram de fora e havia muito pouco nos grandes grupos portugueses. O que foi nacionalizado indevidamente foram os capitais pertencentes aos trabalhadores através das então existentes Caixas de Previdência e que nunca foram ressarcidos dos valores perdidos para o Estado.



Publicado por DD às 23:01 de 08.09.09 | link do post | comentar |

2 comentários:
De jcg a 9 de Setembro de 2009 às 11:26
Vitória de Louçã no melhor debate.
-por JCG pedradohomem.blogspot.com

Louçã procurou encostar Sócrates à direita e à corrupção. Sócrates procurou mostrar o radicalismo de Louçã
Não vi o debate em directo mas os bons serviços da RTP permitiram-me visioná-lo antes de terminar o dia.
Foi o mais duro e o mais disputado de todos os debates ( não vi apenas o debate entre Portas e Jerónimo) a que assisiti. Julgo que este era o debate, o único que se situa num plano de igualdade, em termos da sua importância política, com o debate entre Sócrates e Manuela Ferreira Leite.
Sócrates é um político hábil que não treme na hora de fazer a definição do campo político de cada um e que tem uma aguda consciência do tipo de aceitação que as propostas mais "radicais" do BE podem despertar em amplos sectores da sociedade. Tentou usar esse facto para encostar Louçã a uma visão radical da economia e dessa forma assustar a classe média e mesmo sectores mais desfavorecidos da população. Pretendeu diminuir a influência do seu adversário junto de uma esquerda que estará por esta altura desavinda com o seu PS, mas que ele admite, ainda recuperar. Mas não foi bem sucedido. A utilização do programa do BE no capítulo das nacionalizações não revelou nada de novo. Sugeriu um tratamento idêntico para o sector financeiro, neste particular das nacionalizações, do que para o sector da energia e Louçã explicou o papel que atribui ao Banco Público na promoção de uma política pública de crédito não defendendo a nacionalização dos bancos comerciais. Na nacionalização da GALP, Louçã saiu-se bem como habitualmente, e Sócrates não foi convincente no argumento patriótico de que tinha evitado a venda da GALP à ENI, pois como se sabe vendeu-a a Amorim e à família Eduardo dos Santos.
Sócrates recorreu ao programa do BE para explicar estas propostas e para falar dos PPR's. Mas, a resposta - que alguns referiram ter sido menos clara - estava preparada. O BE quer anular as deduções num quadro de acesso gratuíto ao ensino e à saúde, o que se traduzirá numa vantagem consideradas as deduções actuais e os custos que os cidadãos suportam. Mas, este ataque provocará estragos junto da classe média e foi um dos mais eficazes de Sócrates.
No resto um desempenho firme e claro de Louçã que esteve quase sempre no ataque e que liderou claramente o debate. Parece-me que o líder do BE saiu relativamente bem das acusações de radicalismo e conseguiu dar uma ideia de equilíbrio, sensatez e de uma séria preocupação com a situação dos mais desfavorecidos acompanhada por uma proposta de mudança política. Mesmo quando referiu os impostos sobre as grandes fortunas e refriu os singelos 25 milhões que Amorim passaria a pagar anualmente sobre os seus 2,5 mil milhões esteve bem e deve ter merecido amplo apoio.
Sócrates deu luta mas a tarefa estava acima das suas possibilidades actuais.

PS - gostei de escutar a referência inicial de Louçã às diferenças entre o PS e o PSD. Gostei de escutar as referências de Louçã aos dislates de MFL sobre a "asfixia democrática". Gostei de escutar as referências de Louçã às convergências para a aprovação de leis importantes como a da IVG.


De debate a sério mas curto a 9 de Setembro de 2009 às 11:17
PS e BE disputaram eleitorado de esquerda em debate na RTP

Louçã procurou encostar Sócrates à direita e à corrupção. Sócrates procurou mostrar o radicalismo de Louçã
Público, 08.09.2009 - 23h34 São José Almeida

Foi o verdadeiro debate da esquerda. Conscientes de que há um eleitorado volátil à esquerda que pode estar em deslocação do PS para o BE, José Sócrates e Francisco Louçã empenharam-se em disputá-lo ao milímetro, usando todos os recursos para ganhar terreno ao adversário.

Uma disputa tão acesa que impediu ambos os líderes no final do debate de ontem – que passou na RTP1 e foi moderado por Judite de Sousa – de esclarecer se estão disponíveis para negociar uma eventual solução governativa. Nem Sócrates nem Louçã disseram que o farão, mas também não o negaram. O líder do PS procurando salientar o que classificou como radicalismo de Louçã; o líder do BE procurando encostar Sócrates e o seu Governo à direita e aos negócios de Estado que vê como menos claros.

E se Louçã manteve o mesmo tom acusador e inquiridor que o caracterizam nestes debates, foi manifesto que Sócrates se preparou de modo que não fez para debater com o líder do PCP, Jerónimo de Sousa, ao ponto de ter ido para o estúdio com o programa do BE sublinhado a amarelo, em vez de apresentar apenas as suas propostas.

O debate começou com Louçã ao ataque. Clarificando que não considera o PS e o PSD iguais, Louçã partiu para o ataque ao Governo e, depois de uma referência à “perseguição aos professores”, partiu para a enunciação de negócios de Estado que o BE considera “erros” e que apresentou como se o Governo tivesse querido favorecer o antigo dirigente do PS, Jorge Coelho. Citou então a entrega do Terminal de Alcântara à Mota-Engil, “sem concurso”. E o concurso para construção da auto-estrada entre Oliveira de Azeméis e Coimbra, ganho pela mesma MotaEngil, cujo conselho de administração é presidido por Jorge Coelho, empresa que duplicou o orçamento da obra, depois do concurso ganho.

Ao responder, Sócrates começou por vitimizar-se e por afirmar como “extraordinário” que o BE o eleja como alvo, quando a direita quer privatizar o Estado Social. E mais à frente é que recusou que a economia possa ser reduzida a “pequenos casos”. Isto intercalado com elogios ao fim da recessão técnica e com a defesa do investimento público e do apoio às pequenas e médias empresas como saída da crise.

E perante a insistência de Louçã na defesa de uma “economia transparente”, que faça concursos, bem como desvalorização feita pelo líder do BE do fim da recessão técnica, Sócrates saca do programa do BE para criticar a defesa de nacionalizações, que classificou logo de “estratégia clássica da esquerda radical”. Para afirmar que o investimento fugiria e que tais medidas não provocariam nem desenvolvimento nem combate ao desemprego.

Mas Sócrates não desarma e, de programa do BE na mão, volta a questionar Louçã, agora sobre a política fiscal do Bloco e a proposta de fim dos benefícios fiscais, nos PPR, na Educação e na Saúde, medidas que atacam a classe média e que lesariam esta em mais de mil milhões de euros, garantiu. Pelo caminho lá garantiu que não aumentará impostos.

Louçã levou demasiado tempo a conseguir reagir. Ainda insistiu na crítica à privatização da GALP beneficiando Américo Amorim e José Eduardo dos Santos, mas lá acabou por tentar explicar que o fim dos benefícios fiscais fazem parte de um modelo diferente da organização económico-social que asseguraria a gratuitidade da Saúde e do Ensino.

Já sobre o desemprego, Sócrates repetiu que esta é a sua principal preocupação e lembrou a política de investimento público e de apoio às empresas para a criação de emprego, bem como que o emprego cresceu até 2008, ou seja, até à crise internacional.

Salientando as políticas de apoio ao desemprego, afirmou que 90 mil desempregados são apoiados pelo Estado. Na resposta Louçã acusou-o de “até ao ano passado” ter reduzido o investimento público. E rematou afirmando que “os números não mostram a realidade”.


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