Debates

E a cereja? Faltou a José Sócrates dizer aos portugueses que não admite fazer uma coligação governamental com o Bloco de Esquerda para que tivesse feito o pleno na sua indiscutível vitória no debate entre os dois líderes partidários.

Sócrates não pode de modo enfático desmascarar a esquerda radical, populista e trauliteira representada pelo BE sem que daí retire a consequência mais óbvia, qual seja a da impossibilidade de arranjos pós eleitorais com aquela força política.

O debate entre os dois representava para José Sócrates um exercício difícil qual fosse o de se demarcar do BE sem descapitalizar votos à esquerda, conseguindo, por junto, abrir espaço ao voto da classe média, por natureza central, moderado e útil. Conseguiu fazer este exercício, não apenas pela contra argumentação que utilizou para se defender das habituais rasteiras políticas utilizadas por Louçã - em regra alicerçadas em casos que marcam a diferenciação entre os poucos ricos e os muitos pobres - mas acima de tudo pelo ataque que levava bem preparado quanto à inadequação da política de nacionalizações e quanto ao atentado ao bolso da classe média por via das deduções fiscais propostas no programa do BE. Este documento atravessou todo o debate, esteve em cima da mesa, foi por Sócrates escalpelizado nos itens que mais lhe interessavam para que todos percebessem o significado do que ali está escrito e o embuste que representa o discurso político do BE.

Faltou-lhe colocar a cereja em cima do bolo. Em vez disso, optou pelo tacticismo e nessa medida não foi esclarecedor. Julgo que teria ganho mais em expressar de forma linear e inequívoca a impossibilidade de convergência com uma força política absolutamente antagónica à sua própria concepção económica, política e até social do país.

Boleia inconveniente. Até se admite que Alberto João Jardim diga que leva quem entender no carro oficial do Presidente do Governo Regional da Maneira, mas custa entender que Manuela Ferreira Leite se permita escolher a pior oportunidade para se meter nesse carro. Não estou a dizer isto em função da utilização do carro e do que a isso se possa apontar de errado. É um ‘fait divers' de campanha transformado em facto relevante, sem significado que o justifique. O que não percebo é como é que se pretende fazer a conjugação do discurso da asfixia democrática precisamente naquele local e ao lado de tão especial protagonista. Não há diferentes tons de asfixia democrática. Não é uma coisa matizável. E por isso é tão má e tão condenável, exista ela no continente, nas ilhas, no Governo da Nação ou nas Autarquias. Porque, não nos equivoquemos! Com um Estado hiper-dimensionado e um enorme número de pessoas dele dependentes, em termos de emprego e de composição do orçamento familiar, não será difícil encontrar constrangimentos a nível de liberdades de escolha ou de expressão. Agora o que não se pode pretender é que um discurso desta natureza possa apenas ter um alvo. Para que o discurso fosse coerente e eficaz haveria que o alargar, falando em termos de sistema e não apenas na circunstância decorrente do exercício do poder por parte deste ou daquele partido. Ganharia muito mais a democracia se, quando se lhe apontam os seus podres, se fizesse de modo que abarcasse as situações que os demonstram em vez de afunilar a mensagem a benefício de um ganho político de mera circunstância. [Diário Económico, Rita Marques Guedes]



Publicado por JL às 00:03 de 12.09.09 | link do post | comentar |

1 comentário:
De DD a 13 de Setembro de 2009 às 00:55
É curiosa a resposta de Manuela F. Leite de que Alberto J. Jardim foi eleito pela população como se o PS e Sócrates não tivessem também sido eleitos.

MFL mente quando fala na asfixia democrática. Ela pensa no caso de um professor que trabalhava na DREP e continuamente tratava o PM de f. da p. e outras coisas do género e à campanha odiosa da Manuela Moura Guedes que foi posta na rua pelos espanhóis da Prisa. Espanhóis que a MFL deu a entender que detesta como se a Espanha fosse a Prisa ou, mesmo, o PSOE, se é que este teve alguma influência. Se tivesse tido, há muito que a Manuela Guedes tinha ido para a rua.

Por outro lado, MFL mente quanto à questão da MPMEs.
Elas são mais de 255 mil e a maioria não necessita de ser apoiada; algumas têm falta de clientes, mas não vejo o Estado a fornecer os clientes tirados do Ministério da Clientela que a MFL irá talvez criar.

Sócrates reduziu o IRC das pequenas empresas para metade no lucro até 12.500 Euros por ano. O que não tem muita importância para as que ganham muito como uma pequena sociedade de dois ou três advogados, mas é imporante para as muitas milhares de pequeníssimas empresas espalhadas pelo País.

De qualquer modo, a questão das empresas não é controlável pelo Estado. Repare-se que todas as lojecas que vendiam computadores fecharam. A Vobis, Worten e Media Mark fazem preços que os pequeno não podem acompanhar. As lojecas podem vender acessórios informáticos, mas já nem programas, pois os grandes vendem o Office 2007 a preços imbatíveis. Também as lojas de electrodomésticos têm fechado como muitas outras devido à concorrência das grandes unidades.
O mesmo se passa desde o aparecimento dos supermercados e grandes superfícies há mais de 40 anos. Foram liquidando milhares de pequenas mercearias, frutarias, etc.

Será que a MFL, o Louçã e o Jerónimo vão proibir as Worten de vender um Acer portátil a 429 Euros, por exemplo, ou um Asus de 17" a 600 ou 700 euros.

Sim, neste caso não há indústria nacional ou europeia de portáteis. Vem tudo da China.
Manuela F. Leite não definiu o que são para ela as MPMEs e que tipo de apoio pretende conceder. Claro, o BE e o PCP também não explicam nada sobre o apoio que querem igualmente dar às MPMEs (Micros, pequenas e médias empresas).

Enfim, toda a gente sabe criticar, mas não vejo ninguém com propostas credíveis e vontade de fazer algo com o dinamismo do Sócrates.


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