BE desqualifica profissão de professor

1. No programa eleitoral partidário do BE procurei e encontrei com facilidade o ataque ao estatuto da carreira docente dos professores do ensino básico e secundário. Encontrei, em particular, a rejeição da categoria de “professor titular” que o BE considera “fracturar” o corpo docente. Não admira pois que o BE declare comprometer-se com a “defesa [...] do fim da fractura entre professores de primeira e de segunda”, leia-se, com o fim da hierarquização da carreira.

2. No programa eleitoral do BE procurei mas não encontrei a contestação da fractura dos professores universitários em três categorias ou, usando a linguagem do BE, da fractura entre professores de primeira, segunda e terceira. Pelo contrário, encontrei uma defesa explícita dessa hierarquização no quadro da crítica do BE ao estatuto da carreira docente no ensino politécnico. Citando: “o Bloco de Esquerda rejeita a proposta governamental de Estatuto do Politécnico e exige a equiparação com as universidades, do ponto de vista dos percursos e dos processos de qualificação do pessoal docente”.

3. Para esta dualidade de critérios só encontro duas explicações plausíveis. A primeira, será uma desvalorização, pelo BE, da profissão de professor não universitário. Recusando atribuir-lhe o estatuto de qualificação que reconhece à carreira de professor universitário, o BE trata a profissão docente no ensino básico e secundário como uma ocupação indiferenciada, e portanto não hierarquizável. Em rigor, o BE opera assim uma deslocação do seu critério de professores de “primeira” e de “segunda” para a oposição entre professores universitários e “profissionais da educação” (do básico e secundário). O elitismo implícito só supreenderá quem não tiver dado a devida atenção a outras propostas do BE.

4. A segunda explicação baseia-se no pressuposto de que o Partido dos professores catedráticos Francisco Louçã e Fernando Rosas sabe ser demagógico qualificar a hierarquização das carreira docentes como fractura entre professores de primeira e de segunda (e de terceira). O compromisso público do BE com a reivindicação de eliminação da categoria de professor titular configuraria, neste caso, uma estratégia oportunista de caça ao voto sem princípios.

5. Não sei o que me incomoda mais nesta proposta do BE, se o seu eventual elitismo se o seu possível oportunismo político. O que sei é que, objectivamente, o BE prova assim ter em muito baixa consideração o estatuto profissional dos professores do ensino básico e secundário. Pois mesmo a aceitação da hipótese do oportunismo requer uma desvalorização das suas consequências, por desvalorização da missão da escola pública. Ou, então, uma nova explicação: a de total irresponsabilidade do BE em relação às consequências das suas propostas. [Canhoto, Rui Pena Pires]



Publicado por JL às 00:03 de 15.09.09 | link do post | comentar |

3 comentários:
De Zé das Curvas o Alfacinha a 15 de Setembro de 2009 às 23:46
BE: professores & hierarquias

Como Rui Pena Pires explica aqui, os professores do ensino básico e secundário são alvo de discriminação por parte do BE. Porquê? Porque, diz o programa eleitoral do BE, a categoria de professor titular divide os docentes «entre professores de primeira e de segunda». Ao arrepio do que pretende o BE, quanto percebi, uma das causas do descontentamento da classe reside na dificuldade (introduzida pelo actual governo) de acesso à categoria de professor titular.

Na mesma linha de raciocínio, «o Bloco de Esquerda rejeita a proposta governamental de Estatuto do Politécnico e exige a equiparação com as universidades, do ponto de vista dos percursos e dos processos de qualificação do pessoal docente». Não deixa de ser curiosa a preocupação com os politécnicos.

Por outro lado, o programa eleitoral do BE mantém «a fractura dos professores universitários em três categorias [...] professores de primeira, segunda e terceira.» Os catedráticos /os associados / os auxiliares. Há que preservar o estatuto de Francisco Louçã e Fernando Rosas, professores catedráticos.

Isto reforça «a desvalorização, pelo BE, da profissão de professor não universitário. Recusando atribuir-lhe o estatuto de qualificação que reconhece à carreira de professor universitário, o BE trata a profissão docente como uma ocupação indiferenciada, e portanto não hierarquizável. Em rigor, o BE opera assim uma deslocação do seu critério de professores de “primeira” e de “segunda” para a oposição entre professores universitários e “profissionais da educação” (do básico e secundário). O elitismo implícito só supreenderá quem não tiver dado a devida atenção a outras propostas do BE.»

Acaso a Fenprof leu o programa do BE?

Eduardo Pitta in “Da Literatura”
(http://daliteratura.blogspot.com/2009/09/be-professores-hierarquias.html)


De Zé T. a 15 de Setembro de 2009 às 10:03
Este texto do 'Canhoto' RPP é claramente faccioso, porque:

a- BE defende as posições da maioria dos docentes, tanto os do básico e secundário como os do superior (politécnico) - embora se possa considerar eleitoralista... tal como qualquer outra proposta em programa eleitoral.

b- Tanto no básico-secundário como no superior, a carreira docente tem hierarquia (tal como em qualquer profissão por conta de outrem ... que se desenvolve por muitos anos de exercício, experiência, formação e avaliação, especialmente se desempenhada por um grande grupo de profissionais.

c- No básico e secundário, a carreira docente estrutura-se em escalões (agora mudaram, passando de 10 para 5 creio) e em situações vinculativas diferenciadas (não efectivo/ contratado, ... efectivo de quadro de zona, efectivo de quadro de escola/agrupamento, ...) e os docentes ''comuns'' têm ''acima'' deles o coordenador (de estabelecimento, de disciplina, de grupo, ... o avaliador ( interno ou externo ou seus pares/comissão...), o director de agrupamento (ex-presidente do conselho executivo da escola), o director regional de educação, o secretário de estado, o ministro...

d- no ensino superior, a carreira docente estrutura-se com níveis e designações próprias: monitor, doc. convidado, doc. ..., (docente com licenciatura, com mestrado, com doutoramento) ..., docente titular da disciplina/cadeira (regente, catedrático), ... supervisionado pelo conselho científico, e pelo director de departamento, pelo reitor...



De DD a 15 de Setembro de 2009 às 23:27
Na carreira universitária os escalões passam por provas muito sérias e difíceis como doutoramento, agregação, etc.
Os escalões no ensino não universitário resultavam praticamente do factor anos de serviços. Tempos houve em que se exigiam alguns factores curriculares como trabalhos especiais e formação adicional em determinados cursos especializados e geralmente curtos. Mas, num governo anterior ao actual isso foi abandonado.
No ensino politécnico não vejo que um professor tenha de ser doutorado. Em engenharia e em cadeiras especializadas, o interessante é ter professores com a dupla prática do trabalho no terreno ou na fábrica e do ensino.
Uma amiga professora de físico-química muito católica apresentou como elemento curricular para chegar ao último escalão um curso dado pela Igreja sobre teologia e não sei o que mais e apresentou um certo número de anos de professorado em Moçambique na base de testemunhas que foram ao Ministério dizer que sim que sabiam que a senhora foi professora no Maputo, mas eram amigas que nem sabiam ao certo o que ela tinha feito antes de 1974.


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