Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

Onde estão os tempos em que todos clamavam por reformas estruturais? E em que todos criticavam o diálogo? Hoje ouvimos a líder de um dos mais importantes partidos do regime, o PSD, a afirmar que Portugal não precisa de reformas. E a dizer que a nova avaliação dos professores será concretizada em diálogo com eles.

Quase cinco anos a fazer o que todos os economistas e políticos pediam foi o suficiente para perceber… porque não se tinham feito antes as tão exigidas reforma estruturais. Quase cinco anos a mudar estruturas contra a vontade das corporações foi o suficiente para… apelar ao diálogo, atitude tão criticada a António Guterres.

À saída do último debate entre líderes partidários, Manuela Ferreira Leite afirmou que o país não precisava de um governo maioritário, entre outras coisas, porque não precisa de leis que passem pelo Parlamento nem de reformas, mas de uma outra política.

A opinião de Manuela Ferreira Leite não é única. É espantoso como, em cerca de dois anos, se tenha passado de um apelo desesperado e do elogio à coragem do actual governo, por fazer as reformas estruturais diagnosticadas como urgentes pela esmagadora maioria dos líderes de opinião, de economistas a políticos, para uma espécie de "já chega de reformas", já não são necessárias mais reformas.

O que se passou nestes últimos anos de era Sócrates é um extraordinário exemplo das dificuldades - e riscos - que se enfrentam na mudança de qualquer estrutura. Por isso as reestruturações são em regra adiadas quer nos países como nas empresas. O maior risco é a intervenção mexer, sem querer, num qualquer pilar que se revela determinante para mudar a opinião de toda a organização.

Durante décadas, praticamente desde que Aníbal Cavaco Silva deixou o Governo em 1995, clamou-se pela urgência de realizar mudanças estruturais na educação, saúde, justiça, segurança social, administração pública… Mudanças fundamentais para Portugal voltar a crescer acima da média comunitária, acabada que estava a possibilidade de aumentar o produto para níveis visivelmente mais elevados apenas pela construção de estradas.

Durante o Governo de José Sócrates, bem ou mal, foi isso que se fez. Os diagnósticos estavam feitos e as medidas elencadas, como também se disse várias vezes na era de Guterres e até na rápida passagem de Durão Barroso pelo Executivo. Era preciso meter mão à obra.

A obra iniciou-se com José Sócrates. Os resultados, todos o sabem com seriedade, nunca se poderiam ver no imediato. E fosse qual fosse o Governo, sabia que corria sérios riscos - muita gente ia perder benefícios.

O actual Governo teve essa coragem. Correu riscos. Nalgumas áreas as mudanças correram muito bem - como a simplificação administrativa e das carreiras na função pública - outras correram muito mal - como a justiça. Outras vão ter, assim parece, um elevadíssimo custo eleitoral - como na Educação.

Foram e são essas mudanças que permitem hoje dizer a Manuela Ferreira Leite e a muitos líderes de opinião que o país não precisa de reformas. Ou que explicam por que estamos todos fartos de reformas estruturais. Queremos agora alguma calma. Mas todos, com seriedade temos de reconhecer, que essas reformas eram necessárias. E que ainda há muito para fazer.

José Sócrates pode acabar por ser uma vítima das suas reformas - e obviamente também da sua atitude. Os tempos mudam e mudam também as vontades e os quereres. Já ninguém quer reformas, mesmo sendo necessária. E o diálogo volta a estar na moda. [Jornal de Negócios, Helena Garrido]



Publicado por JL às 00:05 de 17.09.09 | link do post | comentar |

1 comentário:
De DD a 17 de Setembro de 2009 às 20:41
Não é verdade que pessoas e partidos não queiram reformas. Querem sim, mas nunca esta reforma, mas uma outra, a outra, aquela que ninguém sabe o que é. Essa é que é a reforma ideal. De qualquer modo, a avaliar pelas sondagens publicadas hoje, a Manuela F. Leite e os outros partidos estão a abrir o caminho para um governo minoritário do PS sem reformas. Muitas reformas foram feitas e em quase todas há ainda algo a continuar. Os professores até querem ser avaliados, ligeiramente claro; não querem é quotas para os escalões mais elevados. Para dizer a verdade eu, se fosse professor, não queria quotas, desejaria sim, chegar ao décimo escalão ao fim de uns trinta anos de trabalho. E é justo porque o professor do último escalão faz o mesmo trabalho que o do primeiro escalão. Por isso, quem foi avaliado com bom deverá avançar de escalão.Claro, quem paga é o contribuinte, o trabalhador, as empresas, os consumidores com o IVA, etc., quem mais poderá pagar o ordenado de 150 mil professores do ensino não superior, ou seja, 23% do total de funcionários públicos. A questão dos professores é DINHEIRO como é a muitas greves que estão a ser feitas sob o pretexto de regulamentar horas extraordinárias, horários de trabalho, etc. Como a inflação é zero, os sindicatos comunistas incitam nestas questões que estavam regulamentadas há anos. Claro, toda a gente sabe que quando Sócrates formar um governo minoritário na AR, os Van Zellers e outros vão exigir reformas de direita, enquanto os sindicalistas comunistas reformas de esquerda e o PS, impávido e sereno, não poderá atender a toda a clientela, principalmente, porque as exigências são formas falsas de oposicionismo. Quem não estiver no poder terá que continuar a criticar tudo o que se faça e o que não se faça. É assim a política.

Nota: Nos EUA verificou-se que desemprego está a atingir muito mais os homens que as mulhres. Isto porque as fábricas de mão-de-obra feminina foram há muito deslocalizadas e as mulheres americanas exercem mais a profissões como professoras, enfermeriras, médicas, funcionárias públicas e privadas, etc. Tudo profissões menos atingidas pelo desemprego como a indústria automóvel, as bolsas, as finanças e a banca, onde aí também havia muitas mulheres, mas não tanto em funções directivas que foram muito afectadas pela crise.


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