Terça-feira, 22 de Setembro de 2009

Segundo a teoria da escolha pública, que considera o votante um decisor racional, seria expectável uma vitória clara do PS. E todavia, apesar de duas séries de sondagens espaçadas de uma semana para tal apontarem, nada ainda parece claro.

A maioria dos portugueses acha que o PS vai ganhar. Pelo esforço reformador para um país melhor: na menor dependência energética, principal causa da dívida externa; nas finanças públicas, reduzindo ou controlando o gasto público e aumentando a eficiência na saúde, na educação, na administração pública, na acção social; na sustentabilidade garantida às pensões; e na luta contra a crise que nos conduz agora a sinais de abrandamento. Na comparação europeia somos o segundo país com mais elevado esforço no combate à crise, sendo um dos com mais consistentes sinais de melhoria. Também as sondagens indicam que uma maioria relativa, mais sólida que a do voto directo, considera Sócrates como futuro primeiro-ministro, por ser o mais bem preparado e mobilizado para tais funções. Ou seja, as alternativas tornam-se claras. Mas tudo pode acontecer, desde uma reversão da tendência, até um seu acentuar, levando o PS bem acima dos 40%.

A razão da incerteza assenta em factos incontestados e em opiniões emotivas. Vamos aos factos: o desemprego, ainda contido, mas que irá aumentar; as zangas com professores, juízes, magistrados, notários, profissionais liberais prejudicados por um fisco mais justo e mais duro; as derivas de comunicação social com escassa responsabilidade social, nem sequer a do mercado, só nesta fase tardia a reequilibrar tendências anárquicas de "há governo, sou contra"; cartas anónimas em "media" de pouco escrúpulos democráticos; ou aprendizes de feiticeiro que, sob invocação de respeitável nome institucional, instilariam mirabolantes espionagens em inocentes jornais.

O Governo fez coisas necessárias e positivas, mas teria sido arrogante: na saúde, na educação, no fisco, nas obras públicas. E no entanto os resultados aí estão, com trabalho à vista e melhor, mais eficiente e mais sustentada protecção social. Firmeza, confundida com arrogância. Se o Governo parasse e regredisse sempre que uma oposição se erguesse, os que hoje clamam contra a arrogância clamariam contra a inacção. A história do velho, do rapaz e do burro.

Provavelmente o PS não vai alcançar maioria absoluta. Mas quem pode afirmar que sem a crise e sem " a crispação" ela seria atingível? A única certeza que temos é que boas reformas contra corporações e contra o pessimismo, valem bem uma redução da maioria seguinte, mesmo com o custo da instabilidade. A história europeia recente demonstra que também esta pode ser vencível. [Diário Económico, António Correia de Campos]



Publicado por JL às 00:03 | link do post | comentar

2 comentários:
De Racional? eu,? quem diria! a 22 de Setembro de 2009 às 13:03
"Segundo a teoria da escolha pública, que considera o votante um decisor racional, seria expectável uma vitória clara do PS"
Houve na frase um lapso , onde se lê : vitória clara; deve ler-se "vitória por maioria clara".

Para aquilatar da qualidade do autor junto texto publicado no Jornal Público de 4 de Setembro de 2009
Resposta a Correia de Campos

Dei uma entrevista ao jornal i que foi publicada no dia 11 de Agosto, dia em voei para Nova Ior¬que. Não soube atempadamente que Correia de Campos (C.C.) me desancava, pessoalmente, no dia 13. Nem o jornal me avisou, nem tive ne¬nhuma outra informação. Apenas, hoje, dia 31, um amigo me deu o recorte. Fiquei surpreendido mas por pouco tem-po. Correia de Campos é uma pessoa de grande dedicação ao serviço público, colocando os seus interesses e o seu pensamento de lado para servir a causa pública.
Tal como C.C. afirmava, também sou amigo dele na mes¬ma e exacta medida. Tal como ele, me lembro das nossas discussões no Senado da Universidade Nova de Lisboa
Recordo-me que perdi sempre, contra ele, todas votações, pelo menos aquelas que recordo como mais importantes. Nesse tempo, por amor à causa pública tentou ser Director da sua Escola e, infelizmente, não conseguiu, porque ela bem precisaria de alguém como ele. No Senado defendeu o indefensável, sacrificou-se por amor à sua Escola, ten-tando assim cativar apoios, porque sabia que poderia ser • um bom Director. Mas não chegou a ser.
Quando ministro, C.C. iniciou um conjunto de reformas importantes e necessárias mas desapareceu, vítima dos partos nas ambulâncias. Todos os dias havia um caso. Facto interessante, desde que foi substituído pela nova Ministra, esses casos desapareceram dos jornais. O que diz muito da nossa comunicação social e levanta a questão de quem estava por detrás da campanha. De facto, tal campanha não vinha dos partidos da oposição, porque a campanha desapareceu, o Governo é o mesmo, mas os partos nas ambulâncias continuam.
Não desanimou com a sua demissão e, dias depois, apareceu em comícios governamentais. Mais uma vez se sacrificou e arriscou a crítica fácil à sua pessoa, porque sabia que deveria estar no Parlamento europeu a dar um contributo fundamental.
E estou certo que o fará.
Infelizmente, sou diferente: aprecio em demasia a mi¬nha independência (embora historicamente próximo do PS) de não filiado partidariamente para dizer o que penso. Sem medir consequências.
Vejamos de que me acusa: falta de informação e de imodéstia. Falta de informação porque, primeiro, não li o Programa do PS. De facto, quando dei a entrevista (quase uma semana antes dela sair), por excesso de trabalho, não tinha tido essa oportunidade. Mas, passadas as férias, vou ler, sublinhar e meditar.
C.C. acusa-me, ainda, de falt^de informação por su¬gerir uma baixa (temporária) da taxa social única, que o Governo já tinha levado a cabo para as PME. Mas porque é que foi só para as PME? E porque é que veio tão tarde? E a minha sugestão de mexer (temporariamente) no IRS?
Acusa-me de imodéstia mas para esta acusação não te¬nho defesa; sou pouco modesto, ou melhor, não tenho falsas modéstias. De facto, as medidas de combate ao dé¬fice orçamental foram tomadas (e foram duras) quando eu lá estive e os resultados viram-se em 2006. Em 2007, os poucos ganhos que ainda os houve, foram em perda de fôlego. E desde inícios de 2008 que se entrou em campanha eleitoral: desde logo com a demissão de C.C. de Ministro da Saúde; e, logo depois, com a descida do IVA de 21 para 20%. Fui contra (e tive uma reacção descabelada de Cadilhe, a que não respondi) porque era necessário acautelar o que pudesse advir ao sistema financeiro, já nessa altura. Não podia ter tido mais razão, como se viu, meses depois.
Acusa-me, ainda, de nada ter feito sobre os impostos sobre os rendimentos do capital. Agora é C.C. que está mal informado: criei e dei posse a uma comissão para a reforma do IRS-IRC (e outra para o IVA); em quatro me¬ses não dava para mais. Até porque nesses meses, para além das cerimónias da praxe, tive de, à pressa, fazer um OE rectificativo, elaborar (e fazer aprovar) as medidas de combate ao défice e (fazer e) fazer aprovar em Bruxelas o Programa de Estabilidade até 2009 que nos garantia, pela primeira vez, três anos para consolidar as conta


De A possível maioria de esquerda a 23 de Setembro de 2009 às 11:55
A possível maioria de esquerda

É certo que as clivagens entre os partidos de esquerda em Portugal (PS, BE e PCP) – ainda expressão tardia dos traumas do PREC –, não auguram grande optimismo para acordos parlamentares estáveis. Porém, os previsíveis resultados eleitorais justificam algum voluntarismo. Antes de mais, é legítimo esperar que, no dia seguinte às eleições, surjam alguns sinais de abertura dos principais protagonistas para compromissos políticos que garantam a necessária governabilidade. A confirmar-se a esperada vitória do PS, com maioria relativa, resta-nos como possibilidades ou um governo minoritário ou de maioria de esquerda. Em qualquer dos casos, seja na base de acordos pontuais ou de uma aliança de médio prazo, parece inquestionável que alguns entendimentos terão de ocorrer, para que o futuro governo PS não caia pouco tempo depois de tomar posse.

E aqui, entre uma cultura de rigidez e de autismo como é a do PCP (um partido que, queira-se ou não, está em processo lento de implosão) e uma cultura de maior dinamismo e democraticidade interna como é a do BE (um partido que, queira-se ou não, está em fase de consolidação como terceira força política), terá por isso mais lógica esperarmos uma aproximação entre o PS e o Bloco (caso consigam, em conjunto, uma maioria de deputados).

Se admitirmos que os socialistas e o seu actual líder já se deram conta de alguns dos erros políticos cometidos nesta legislatura, não só no estilo e no diálogo com a sociedade, mas também em áreas políticas decisivas (como a educação, o trabalho, etc), é razoável esperar que algumas concessões ocorram nesses domínios, tendo em vista um possível acordo parlamentar à esquerda. Idealmente, esse acordo deveria abranger o PCP e o BE, mas tal parece irrealista. Assim, uma aproximação entre o PS e o BE será o requisito minimo para um governo estável e de esquerda.

Para o PS isso ajudaria, e muito, a uma possível reconciliação da sua actual liderança com aqueles segmentos desiludidos do seu eleitorado que nestas eleições votarão mais à esquerda ou abstêm-se. Para o Bloco de Esquerda, seria uma fantástica oportunidade de mostrar ao eleitorado o seu sentido de responsabilidade, assumindo-se, de facto, como uma força alternativa, que não apenas cresce para protestar ou gritar mais alto, mas que é capaz de colocar no seu horizonte a governação (sem esquecer que o seu crescimento eleitoral é sobretudo à custa do PS).

Acresce que a eventual influência do BE no governo (com ou sem a ocupação de pastas no executivo) poderia garantir mais transparência e eficácia na acção reguladora do Estado, e, em contrapartida, essa eventualidade significaria que o Bloco assume o reformismo e a economia de mercado como eixos estruturantes da organização socioeconomica. É claro que isso teria um preço elevado. E certamentente entraria em choque com a praxis e a linguagem radical de alguns sectores bloquistas. Mas, a verificar-se, tal cenário pode significar um decisivo virar de página na história da esquerda e da democracia portugues.

(Artigo originalmente publicado no Público de 21 de Setembro.)
Etiquetas: be, esquerda, legislativas, ps
um uivo de Elísio Estanque, em caocomotu.net


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