Segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

A existência de casos de violência no Colégio Militar, agora do conhecimento público, assume uma importância em termos de sociedade que vai além da dos incidentes particulares, já de si muito graves.

Em primeiro lugar porque, tratando-se de uma escola, coloca em questão a própria reprodução de valores fundamentais reclamados pelos militares, entre os quais avultam o civismo, o respeito pela vida humana, a lealdade, a verdade, a honra, a coragem.

Banhos gelados, agressões com moca, bofetadas, imposição de exercícios físicos violentos, maus-tratos recorrentes configuram situações em que a violência física anda de mãos dadas com a violência psicológica. E, sendo cometidos por alunos mais velhos, "graduados", sobre alunos mais novos, alguns destes ainda crianças, evidenciam, sem sombra de dúvida, comportamentos que substantivam exactamente o contrário do civismo, da lealdade, da coragem, da honra.

E o mais preocupante de tudo isto é que os casos conhecidos não são seguramente eventos isolados, porque não se vê como poderiam ocorrer desligados do costume próprio do Colégio e com desconhecimento da hierarquia. De resto, o que se lê nos jornais é que "os castigos são hábito normal" da instituição, em nome de um outro valor central da sociedade castrense, precisamente a disciplina.

Aos "graduados", base da cadeia hierárquica, cabe disciplinar os mais novos, o que significa imporem a sua representação do que é a cultura da disciplina, dominante no Colégio. Essa imposição, como é comum em contextos de reprodução da masculinidade, remete para o corpo, como território próprio para a produção da submissão.

Haverá, portanto, no Colégio Militar um código não escrito, fundador de uma prática que nos ajuda a compreender o facto de, num único ano lectivo, ter havido, segundo a Imprensa, cerca de 600 punições a alunos. Ou de os ministérios da Defesa e da Educação terem, já este ano, ordenado uma inspecção conjunta ao Colégio Militar e ao Instituto dos Pupilos do Exército.

As conclusões da diligência não são conhecidas e deviam ser. Porém, afirma-se que delas decorre o reconhecimento institucional da necessidade de medidas imediatas, capazes de garantir o bem-estar e integridade física dos alunos mais jovens. Elucidativo.

Bem pode o país interrogar-se como é possível, mais uma vez, que numa instituição gerida pelo Estado crianças e jovens estejam sujeitos aos mais abjectos maus-tratos, aos mais condenáveis abusos. Como, em nome de valores nobres, se produzem exactamente os seus contrários, imprimindo-os no corpo e no espírito de homens a quem, em tese, se pede que estejam disponíveis para a maior das generosidades, dar a vida em defesa da Nação.

[Jornal de Notícias, Mário Contumélias]



Publicado por JL às 00:02 | link do post | comentar

2 comentários:
De Turmas + pequenas e + autoridade pofs a 26 de Outubro de 2009 às 08:57
PROFESSORES de Madrid passam a ser AUTORIDADE pública.

"Ao serem reconhecidos como autoridade pública, os professores - tal como os juízes, polícias, médicos e pilotos e comandantes de navios - contam com uma protecção especial.

A agressão a um professor está tipificada pelo Código Penal como atentado contra a autoridade"

"Além de serem autoridade pública, têm presunção da verdade, o que significa que a sua palavra tem mais valor do que a de outro cidadão"

Em Portugal nestes quatro anos foi o que sabemos. Quão diferente é o "socialista" Sócrates do seu homólogo Zapatero..."

É BOM QUE ESTA MENSAGEM SEJA REPASSADA ATÉ CHEGAR AOS NOSSOS GOVERNANTES

(notícia completa, na língua de Cervantes:)
Madrid dará al maestro rango de autoridad pública

"Los docentes serán autoridad pública en la Comunidad de Madrid. Es una de las medidas que introducirá la futura Ley de Autoridad del Profesor que la presidenta madrileña, Esperanza Aguirre, va a anunciar mañana en la cámara regional, según fuentes de su Ejecutivo, y cuyo texto llevará al hemiciclo en las próximas semanas. La iniciativa de elevar el rango de los maestros ya la asumió el año pasado la Comunidad Valenciana y existe también, aunque sólo para los directores de los centros escolares, en Cataluña, desde hace unos meses. En el caso de Madrid persigue el objetivo de reforzar la figura del maestro. Al ser reconocidos como autoridad pública, los profesores -al igual que jueces, policías, médicos o los pilotos y marinos al mando de una nave- cuentan con una protección especial. La agresión a uno de ellos está tipificada por el Código Penal como atentado contra la autoridad en los artículos 550 a 553, que recogen penas de prisión de dos a cuatro años.(...)"
...............
E, no Reino Unido, os pais de alunos mal comportados são MULTADOS...


De Teletrabalho ou escravização ?! a 26 de Outubro de 2009 às 14:10
Professor call center. Está tudo louco?

Professores da Escola Secundária Monserrate dão explicações à noite via email e chat
Os alunos da Secundária de Monserrate, em Viana do Castelo, vão dispor, a partir de 26 de Outubro, de explicações "online" facultadas pelos próprios professores, anunciou hoje a directora pedagógica da escola.

"Na sua casa, à noite, o aluno poderá usufruir de um apoio tutorial 'online', para esclarecer uma dúvida, aprofundar um conteúdo disciplinar ou ver o seu exercício corrigido por um professor da disciplina", acrescentou Primavera Alves.

Segundo a responsável, esse apoio poderá ser prestado "em directo", via chat ou Messenger, ou "em diferido", através de e-mail. Fonte: Visão 21/10/09

Comentário
Com esta medida a direcção executiva da escola secundária Monserrate cria um novo tipo de docente:
o professor call center.

Já vi muita coisa, mas tive de esperar para chegar aos 54 anos para conhecer um tamanho disparate.
Isto é de loucos!
Será que a direcção da escola secundária de Monserrate perdeu o juízo?
E os professores da escola secundária de Monserrate ensandeceram?
Ou é apenas uma manobra de propaganda?
Se é tudo a fingir, ok. Lamento, mas percebo.

Se é a valer, isto viola o Código do Trabalho e os mais elementares direitos de qualquer profissional.
Se a moda pega, os professores ficam numa situação pior do que a dos escravos domésticos da Grécia Antiga.

Um professor do ensino secundário com 5 turmas, mais ou menos 125 alunos, terá de responder a centenas de emails por dia e passar várias horas no Google Chat ou no Messenger com os alunos.
E tudo isto em casa e à noite.
Digo com toda a franqueza: esta foi a pior notícia sobre educação que eu li no último ano.
Isto é matéria para queixas formais ao Provedor de Justiça e aos Tribunais de Trabalho.

O professor call center é um passo na escravização dos docentes.
O post "Está tudo louco? Professores da escola secundária de Monserrate dão explicações à noite por chat e email" provocou este comentário de Ricardo Silva (dirigente da Apede):

Totalmente de acordo relativamente aos efeitos perversos do Moodle e do "Entrega aqui o teu trabalho"!

Eu já esperava uma coisa destas (explicações à noite por chat e email) e há por aí muito Director com vontade de tentar impôr o mesmo.
O objectivo é claro:
arrancar a melhor classificação na avaliação externa para reforçar a sua gestão.
Grande parte da febre burocrática que se tem vindo a agravar deriva também daí.
Claro que isso se consegue à custa da "escravização" do professor. O fordismo está de volta (com excepção da melhoria dos salários) numa versão revista e actualizada.

Vergonhoso! O que me espanta é a incapacidade dos colegas em resistirem a tal situação.

A menos que venham dizer-me que foi ideia dos grupos disciplinares como estratégia de recuperação e remediação das dificuldades dos alunos e que esse trabalho nocturno vai ser pago como horas extraordinárias.
A ser assim, começarei mesmo a acreditar no Pai Natal.

Publicada por Ramiro Marques in “ ProfAvaliação”


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