14 comentários:
De U.E., PS e esquerda: ilusão ou solução ? a 2 de Dezembro de 2014 às 16:18
O discurso de António Costa e vir trabalhar para a solução
(-por F. Louçã, Público, 1/12/2014)

AC fez ontem um dos seus melhores discursos. Levantou o partido, deu-lhe alma e argumentos. Evitou a questão Sócrates, que sabe que o vai atormentar durante meses. Teve momentos emocionantes, como a homenagem às mulheres assassinadas. Corrigiu erros passados, como a recusa da adopção de crianças em nome de um modelo discriminatório de família. Apresentou oposição a políticas sociais das direitas. Foi um domingo em cheio. O problema é a 2ªf e depois tudo o resto.

Passada a festa, o dilema do PS resume-se bem no desafio que faz à sua esquerda: abandonem a comodidade do protesto e venham trabalhar para a solução. O problema é que o PS é hoje um partido de protesto porque não apresenta solução e, por isso, o convite convida-se a si próprio antes de mais nada.

A falta de solução da Agenda para a Década manifesta esse paradoxo: nem é para a década (porque não resolve os problemas da austeridade imposta pelo Tratado Orçamental, que vai durar toda a década) nem é para 2015 (porque não apresenta nenhuma resposta para a crise permanente das contas públicas). AC referiu-se com rara clareza a este constrangimento que são as regras europeias durante a década, ao apelar a uma Europa que “corrija as assimetrias do euro”, “transformando uma moeda única em moeda comum” e “diminuindo o risco sistémico de novas crises do euro”. Mas como? Costa respondeu que, em Portugal, não se pode esperar que os responsáveis da austeridade corrijam a austeridade e que, por isso, não se aliará à direita, mas acrescentou logo que espera que os responsáveis da austeridade na Europa façam o milagre de se corrigir a si próprios e espera aliar-se com eles. Pede-lhes para tanto um “plano de recuperação da economia e do emprego”, como se Juncker não tivesse já apresentado esse “plano” – que Costa sabe, como todos os leitores sabem, que é uma fraude. A Europa politicamente benevolente e financeiramente generosa de Costa não existe e por isso não vem trabalhar para a solução. Por algum motivo desconfia dela.

Aliás, Costa tem disso tanta consciência que propõe que a “agenda europeia” do PS seja “defender os interesses de Portugal na Europa”, ou seja, defender o particular de um país contra o interesse geral determinado em Bruxelas e Berlim. É o primeiro líder do PS a tomar esta posição, que contrasta com toda a sua história. O que fica então desse passado? Europeísmo? Europa unida? Costa avisa que cada um deve ir por si. Portugal pedirá dinheiro mas quer tratar da sua vidinha, evidente desistência de todo o discurso anterior sobre solidariedades europeias. Será porventura uma análise realista mas, mais uma vez, como é que isto se faz? E o que quer dizer Costa quando refere esse “novo equilíbrio na Europa” que permitiria defender os interesses nacionais? Merkel coligada com os socialistas alemães, Juncker, Cameron, Hollande, Renzi, Rajoy, Draghi, mas de que é que ele está mesmo a falar?

Seria possível disputar uma nova relação com a Europa se o PS escolhesse o caminho duro: se rejeitasse o Tratado Orçamental que, pelo contrário, apoia, com o perverso propósito de o melhorar, mesmo sabendo que esse objectivo é inviável. O facto é este e é implacável: a Europa não vem mesmo trabalhar para a solução. Não existirá nenhuma solução para Portugal sem perceber que a Europa não é solução, é um problema.

Ora, sendo o primeiro dirigente socialista que enuncia assim o problema europeu, mais estranha se torna a ambiguidade do discurso de Costa: ele propõe ficar à espera que a Europa acorde e que floresça o “novo equilíbrio”. Essa estratégia não tem dado bom resultado, porque só tem conduzido a uma longa abdicação que destrói a União, pois começou em Maastricht e foi por aí fora, com o euro, com o Tratado de Lisboa, com o Orçamental, e estamos agora aprisionados.

Por isso, o que é mesmo trabalhar para a solução? Se o governo estiver atado no Orçamento, se os juros continuarem a estrangular Portugal, só sobreviveremos e viveremos para trabalhar para as rendas financeiras. Até 2034 teremos inspectores dos fundos europeus a vigiarem o Orçamento e a dizerem ao parlamento o que lhe é permitido votar. Não haverá entretanto recuperação de salários nem de investimentos, ...


De PS, austeridade e nova política ? a 2 de Dezembro de 2014 às 16:22

O discurso de António Costa e vir trabalhar para a solução

...
...
... Não haverá entretanto recuperação de salários nem de investimentos, nem dos contratos a longo prazo do Estado com os reformados, nem redução substancial do desemprego, nem defesa dos bens comuns, nem democracia que cuide dos seus. Haverá austeridade.

Ao chamar outros para virem trabalhar para a solução,
a Costa só faltou dizer se tem alguma proposta para essa solução, para deixar de ser um acomodado partido de protesto.
Porque ele tem que ter uma solução, tem que ter mesmo.
Só que o que o seu discurso insinuou é que não acredita suficientemente nela e por isso ela nem pode ser enunciada.
Pagar e não pagar não é resposta, pedir dinheiro não é destino, esperar pela Europa é triste sina.
E, por isso, essas soluções não vêm trabalhar para a solução.

Esse é o único ponto de partida para tudo o que se conversar em Portugal a partir de hoje, 2ªf.


De -Cidadão activo ou 'tuga comido' ? a 2 de Dezembro de 2014 às 17:00

E agora?

Agora há um vazio. Partidos políticos que estão no lugar que há muito ocupam embora tenham perdido a confiança de grande parte dos seus apoiantes.
Um governo que está a usar a proteção da União Europeia e das suas troikas para transformar a sociedade portuguesa em benefício de uma ínfima minoria.

Agora há uma maioria no poder que nas próximas eleições deverá ser afastada, mas nada de sólido e confiável para a substituir.

Agora queremos diferentes coisas. Coisas contraditórias.
Segurança, por um lado. Mudança, por outro.
Não queremos correr riscos. Queremos corrê-los para que tudo não fique na mesma.
Sabemos que a política não é pêra doce, nem nada que seja sempre bonito de se ver.
Não queremos meter-nos na política. Queremos meter-nos porque se não haverá outros (eventualmente os menos recomendáveis) que o farão por nós.
Sabemos que a política nesta União Europeia deixou de ser a arte do possível. Sabemos que se não houver quem queira arriscar o (quase) impossível, outros continuarão a fazer o que dizem ser a única possibilidade.

Agora há um vazio político que começa a preencher-se. Vemos nascer novos movimentos políticos, partidos, candidaturas, muitos deles exprimindo sincera vontade de mudança.
Vemos gente que se mobiliza e organiza. Alguns trazem consigo experiências anteriores. Outros chegam agora.
Concordam, discordam, discutem, unem-se, dividem-se, aprendem. Não são super-homens, nem super-mulheres com estômago para tudo. São frágeis como é normal.
Ainda bem que assim é. Talvez haja lugar para muito mais gente nessa política de gente frágil.
Dessa forma não ficamos dependentes de heróis com estômago de aço.

(-por José M. Castro Caldas, Ladrões de B., 30.11.14 )


De ONU: austeridade prejudica a maioria. a 5 de Dezembro de 2014 às 09:25
Comité dos Direitos Económicos Sociais e Culturais, das Nações Unidas (ONU) considera que a «ajuda externa» teve um "impacto adverso" em Portugal, em particular nos direitos dos trabalhadores, segurança social, habitação, saúde e educação ... defendendo a necessidade de ir abandonando as medidas de austeridade ...



De .O desafio de PS/ Costa às Esquerdas . a 2 de Dezembro de 2014 às 17:12

----- O desafio de António Costa às esquerdas portuguesas

No discurso de encerramento do XX Congresso do PS, confirmou-se que António Costa quer apresentar-se aos eleitores como líder de um partido de esquerda.

Já não está apenas em causa a defesa do Estado Social, que sempre fez parte da agenda dos socialistas – independentemente de como esta foi sendo, na prática, interpretada pelos sucessivos governos em que marcaram presença. O discurso de Costa foi mais além do que as lideranças do PS nos habituaram, seja em questões de valores (como a adopção por casais do mesmo sexo) ou na postura em relação à Europa (como na referência crítica à união monetária).

O líder socialista não se limitou a desafiar o espaço de afirmação programática dos partidos à sua esquerda: António Costa desafiou-os a “sair do conforto do protesto” e a serem “parte da solução”.

PCP e Bloco de Esquerda reagiram mal ao desafio – e têm bons motivos para isso. Em primeiro lugar, porque a esquerda não pode menorizar o papel do protesto. Mesmo em contextos históricos em que a esquerda governa, ter um forte movimento social disponível para o protesto em defesa dos interesses gerais da população constitui uma defesa fundamental contra as múltiplas pressões a que qualquer governo está sujeito e que têm pouco a ver com a defesa do bem comum. Isto é ainda mais importante num contexto em que países como Portugal enfrentam uma chantagem sem precedentes das instituições europeias, as quais vêm como única saída para a situação actual a delapidação do Estado Social, a perda de direitos sociais e laborais, e a contínua degradação de salários e pensões. Dado este contexto externo, PCP e BE afirmam não ver qual “a solução” de que deveriam estar disponíveis para fazer parte em conjunto com o PS.

Dito isto, o desafio de António Costa não deixa de ser politicamente eficaz. Por muito que se reveja nos diagnósticos que a esquerda vem fazendo, a maioria das pessoas anseia por respostas. Quando PCP e BE afirmam que não há soluções com o PS, estão apenas a dizer a quem os ouve que não há soluções à vista. Face a isto, restam duas possibilidades a grande parte dos eleitores: ou desistem de votar, ou votam no mal menor.

No entanto, o desafio lançado por António Costa é também, necessariamente, um desafio às próprias fileiras socialistas. A partir do momento que o líder socialista sugere que as pressões europeias inviabilizam o desenvolvimento do país, as pessoas querem saber o que pretende o PS fazer em relação a isso. Por outras palavras, Costa expõe-se ainda mais à crítica da falta de clareza sobre as soluções que preconiza. E também desafia o PS a analisar criticamente as opções políticas que fez ao longo das últimas décadas.

O desafio maior, porém, é dirigido a todas as pessoas que se revêm nos princípios de uma sociedade decente e que não desistem de procurar as melhores soluções, sem se resignarem perante a força das pressões externas. A estratégia de António Costa tem a vantagem de tornar mais claro que Portugal e os portugueses vão enfrentar no futuro próximo escolhas muito difíceis. Cabe-nos a todos, enquanto cidadãos, ajudar as explicitar essas escolhas e as suas implicações – e tomar decisões sobre os riscos que estamos ou não dispostos a assumir.

Estes ainda podem vir a ser tempos interessantes.

(-por Ricardo Paes Mamede, Ladrões de B., 2.12.14 )


De .Desafio de PS/ Costa e Propostas do PCP a 2 de Dezembro de 2014 às 17:16

---- Rogerio G. V. Pereira :

Embora pareça que não, o seu texto cola-se, no essencial, ao discurso de Costa. Justifica e aceita que PCP e BE devam ser "partidos de protesto" mas, como Costa, entende que devam ser mais que isso.
Isto é,"Ignora", como Costa, que o PCP tem vindo há muito a propor a discussão do que considera opções fundamentais.
No seu texto (tal como Costa, no seu discurso) passa ao lado desse facto. Retenho que, em outras oportunidades, Costa tem considerado tais propostas radicais e irrealistas, rejeitando liminarmente a sua discussão.

Relembro as seis opções fundamentais propostas pelo PCP:

1- A renegociação da dívida nos seus montantes, juros, prazos e condições de pagamento, rejeitando a sua parte ilegítima;

2- a defesa e o aumento da produção nacional, a recuperação para o Estado do sector financeiro e de outras empresas e sectores estratégicos;

3- a valorização efectiva dos salários e pensões e o explícito compromisso de reposição dos salários, rendimentos e direitos roubados, incluindo nas prestações sociais;

4- a opção por uma política orçamental de combate ao despesismo e à despesa sumptuária, baseada numa componente fiscal de aumento da tributação dos dividendos e lucros do grande capital e de alívio dos trabalhadores, dos reformados, pensionistas e das micro, pequenas e médias empresas;

5- uma política de defesa e recuperação dos serviços públicos, em particular no que concerne às funções sociais do Estado;

6- a assunção de uma política soberana e a afirmação do primado dos interesses nacionais.

Estou em crer que se Costa desse abertura para negociar a concretização de algumas destas linhas orientadoras num programa comum,
teríamos os tais "tempos interessantes" que refere no final do seu texto...


De Convergência de Esquerdas ou PS + ? a 2 de Dezembro de 2014 às 17:50
Olhar diferente para o mesmo alvo

O artigo que José Vítor Malheiros (JVM) escreve hoje no Público,
“Pela convergência de uma esquerda plural”,
é, como sempre, articulado e intelectualmente honesto.
As minhas discordâncias são, principalmente, por a minha perspectiva geral ser diferente. Os eixos de visão são dois:
o do sistema partidário e da política no plano convencional, com rearranjos do sistema;
o de uma superação radical desse sistema, esgotado, que eu perfilho e que, como já escrevi aqui em muitas entradas, significa a diferença entre criar um “novo partido” e um “partido novo”.
Fica isto para uma entrada a seguir.

Isto está bem expresso no que se passa em Espanha com o Podemos.
Numa entrevista que merece atenção, diz Pablo Iglesias que o essencial para a esquerda é atingir as pessoas e que isto ultrapassa a simples constituição de frentes, que se limitam a reuniões convencionais de organizações de esquerda.

Eu próprio, que não sou burro e só uso como definição para isso a incapacidade de reflectir e avançar nas minhas ideias, defendi até há pouco tempo – e até me mexi para isso na net – uma táctica centrada na conjugação de forças partidárias e sociais, sem perda de coesão e consequência.

O pequeno manifesto dessa página recolheu, modestamente, 125 apoios. Não é isto que me faz desistir.
Como combinado com os apoiantes, vai ser enviado aos partidos de esquerda à esquerda do PS e a movimentos sociais.

No entanto, reflectindo muito, atormentadamente em fim de vida útil, ou vencido da vida, não me parece que essa seja a via para o êxito.
É preciso estar sempre a aquecer a caldeira das ideias novas.
Para quem viu um filme que aí passa, vai ser preciso um buraco de minhoca a abrir um caminho para nova dimensão espaço-tempo da políica.

JVM começa por discutir a fragmentação da esquerda (ou à esquerda), com o que estou inteiramente de acordo.
Nada tenho contra o aparecimento de novas formações, que podem enriquecer o debate, desde que, pelas regras do sistema, não enfraqueçam o poder eleitoral do conjunto.

Também vejo com simpatia a visão generosa do desejo de convergência de toda esta diversidade de movimentos e grupos de esquerda.
Sou é mais cínico e penso sempre no namoro mais ou menos encapotado ao PS, afinal a atração do poder, nem que seja de uma pequena sinecura à mesa do orçamento de Estado.

Escreve JVM que “A convergência, o compromisso, a criação de uma plataforma comum ou de uma frente comum são acções que não exigem identidade entre as organizações mas apenas a partilha de alguns princípios essenciais.
O entendimento é possível e necessário entre o que é diferente, com a manutenção de identidades diferentes entre organizações que cooperam, desde que possuam um entendimento estratégico e táctico compatível.” (itálico meu)

Este é o nó górdio de toda a discussão emaranhada que tem havido sobre a unidade de “esquerda”.
Vamos crer, generosamente, que toda a esquerda (à esquerda do PSD) se entende miraculosamente sobre a necessidade e propostas práticas para uma política de emprego, de reposição das perdas salariais e d reformas, de ressustentação do estado de bem-estar, de investimento, de aumento da procura interna, de substituição de importações.
A pergunta inevitável (que a direita faz, atrapalhando o PS) é “onde se vai buscar o dinheiro?”.
A resposta passa obrigatoriamente pelo serviço da dívida, logo pela reestruturação, pelo tratado orçamental, pelo controlo da banca, eventualmente
– pelo que isso não pode ser tabu – pela saída do euro.
Este movimento que apareceu agora, mas que se adivinhava, aponta claramente para um entendimento governativo com o PS (e em relação de forças muito desfavorável, quase de enfeite).
Subscreveste-o. Muito amigavelmente, e como diria o Mário de Carvalho, “Era Bom que Trocássemos Umas Ideias Sobre o Assunto”.

(-por João Vasconcelos-Costa, 18/12/2014, http://no-moleskine.blogspot.pt/2014/11/olhar-diferente-para-o-mesmo-alvo.html )


Comentar post