Sábado, 1 de Agosto de 2009

O Estado Novo deixou na sociedade portuguesa a vergonha de assumir que se é de direita. E os partidos não fogem a isso.

Numa democracia pluralista, a direita é tão importante como a esquerda. Aliás, uma não teria sentido sem a outra. É claro que o espaço político dos regimes pluralistas é mais complexo que a visão simplificada que esta dicotomia permite: há muitas direitas e muitas esquerdas. Mas a questão essencial a ter aqui em conta é que cada um dos lados da dicotomia necessita do outro. Apesar desta evidência, em Portugal a maioria das pessoas de direita continua a ter vergonha de se afirmar como tal. O leitor faça a seguinte experiência: pergunte a alguns amigos se se consideram de direita ou de esquerda. Muitos darão respostas do tipo "não me situo nessa dicotomia", ou então "a dicotomia esquerda/direita está ultrapassada". Aqueles que assim responderem serão, quase infalivelmente, de direita. Com efeito, o receio das pessoas de direita de se identificarem como tal é tão grande que isso as leva a negar a própria dicotomia esquerda/direita, apesar de toda a gente a usar. Isso deve-se, provavelmente, à vinculação da direita portuguesa ao Estado Novo e à necessidade que ainda sente de desmentir essa identificação. Nos países socialistas, após a queda do Muro de Berlim, passou-se muitas vezes o contrário: aqueles que eram de esquerda, para não se afirmarem como tal e se afastarem da herança do "socialismo real", diziam frequentemente - e alguns ainda dizem - não ser de esquerda nem de direita.

Uma outra forma de verificar a vergonha que a direita tem da sua própria posição política consiste em atentar nos nomes dos partidos desse lado do espectro parlamentar, gerados no pós-25 de Abril. A força política situada mais à direita intitula-se partido do "Centro Democrático" e, como se isso não bastasse, também "Social", o que não anda muito longe de "socialista".

O partido mais representativo da direita portuguesa, o partido de Ferreira Leite, chama-se "Social-Democrata", ou seja, tem a designação habitual dos partidos da esquerda socialista na Europa.

O discurso corrente dos partidos da direita mantém e alimenta o mesmo tipo de equívoco. É certo que Paulo Portas em algumas ocasiões se afirmou conservador e procurou ligar essa identificação ideológica a causas específicas, como os combates contra o rendimento mínimo ou a despenalização da IVG. Porém, a maior parte das vezes os dirigentes do CDS, e sobretudo os do PSD, têm um discurso que, por ignorância ou desonestidade intelectual, esconde o seu conservadorismo de base e insiste na linguagem enganadora da "social-democracia", do "liberalismo" ou do "centrismo". Note-se que no PSD é fácil encontrar pessoas que se situam numa direita extremamente conservadora, por vezes com posições mais radicais que as do CDS. Mas dificilmente o reconhecem e em nenhuma ocasião o explicitam. Também ao nível do discurso corrente, a direita portuguesa tem vergonha de si mesma. [ i , João Cardoso Rosas]


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As nossas sociedades vivem sob o espectro do envelhecimento.

Não deixa de ser paradoxal que o que durante muito tempo foi uma ambição quase utópica, uma vez concretizado, se tenha transformado na questão social dominante.

O efeito conjugado da melhoria dos cuidados de saúde, do ‘baby-boom' do pós-guerra e da actual baixa da natalidade, criou um mundo em que, pela primeira vez, o número de pessoas com mais de 65 anos superará o de crianças com menos de cinco. Esta é uma história de sucesso, mas torná-la sustentável passou a ser um desafio difícil de enfrentar.

Portugal encontra-se, a este como a muitos outros respeitos, numa situação particularmente preocupante: combina traços de modernidade (é um dos países mais envelhecidos) com marcas do passado persistentes. O que faz com que estejamos a envelhecer mais depressa do que a enriquecer, muito por força de taxas de emprego elevadas, mas assentes em baixos salários, o que tem levado a um declínio da fertilidade. Precisamos, por isso, de continuar a aumentar a qualidade de vida dos nossos idosos - libertando-os da pobreza e garantindo melhores cuidados de saúde - mas temos de criar condições para que seja possível compatibilizar trabalho com a possibilidade de ter filhos. A escola a tempo inteiro e a universalização da rede de pré-escolar foram passos decisivos nesse sentido. O desafio agora é, por exemplo, aumentar a taxa de cobertura de creches, dos actuais 30% para um valor que permita de facto compensar o envelhecimento da população com o nascimento de mais crianças. [Arquivo, Pedro Adão e Silva]


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