Sábado, 27 de Março de 2010

Stout is out

As marcas de cerveja já nos habituaram à piada brejeira fácil, como se apenas o universo de consumidores de cerveja se resumisse a homens com mentalidade machista. Mas, ocasionalmente, alguns reclames ultrapassam todos os limites do mau gosto. Foi assim com a campanha do "orgulho heterossexual" da Tagus, que deve ter agradado imenso aos skinheads do PNR, e é assim com a nova campanha da Stout.

Para publicitar a nova garrafa de abertura fácil, a Unicer lá foi buscar a piada brejeira. Nada de novo, ainda me lembro de anunciarem as primeiras garrafas de abertura fácil, da Cristal, com um reclame que exibia umas costas com um soutien e dizia "se tudo fosse tão fácil de abrir como uma Cristal...". Mas esta campanha consegue ir ainda mais longe.

Mostrando um torso (porque a cara é irrelevante) de uma mulher magra, de seios inchados pelo Photoshop, e vestida com um roupão, a Super Bock diz que "é só puxar". Melhor ainda, para que não sobre dúvidas quanto ao conteúdo da mensagem, a Super Bock esclarece que o prazer é todo meu, não fosse aquele torso feminino revelar-se como um ser capaz de ter desejo, prazer e vontade própria.

A campanha é, obviamente e acima de tudo, insultuosa para as mulheres, reduzidas a bonecas insufláveis. Mas é também insultuosa para os homens, reduzidos a Cro-Magnons que conquistam fêmeas dando-lhes uma mocada e arrastando-as pelos cabelos para a sua caverna.

 

Este é um exemplo claríssimo de como a publicidade não se limita a informar os consumidores, ao contrário do que defende a ortodoxia económica. O marketing, é uma "engenharia do consentimento", para usar a expressão de Edward Bernays, o percursor das relações públicas que esteve por detrás das campanhas que puseram as mulheres a fumar e convenceram os cidadãos dos EUA que o governo da Guatemala que ousou enfrentar a poderosa United Fruit era um alvo terrorista a abater. O marketing é, portanto, um meio de produção de ideologia, valores, concepções e representações e de criação de modas, hábitos e rotinas. Faz parte da superestrutura, para usar um termo cunhado por um velhinho barbudo cujos ensinamentos foram banidos das faculdades de economia, e serve para legitimar e perpetuar a ideologia dominante.

Assim se recalcam as desigualdades de poder entre homens e mulheres. Não há reclame com homens objecto, a la Coca-Cola Light, que anule isto.

  - Publicada por kandimba em 2010.03.01 Profunda Ignorância



Publicado por Xa2 às 00:07 | link do post | comentar | comentários (3)

Sexta-feira, 26 de Março de 2010

Gestores publicos ameaçam colocar o governo em tribunal. Estes funcionários do Estado socorrem-se, como argumento para tal, putativa, iniciativa o Decreto-Lei 71/2007 de 27 de Março, “Estatuto do Gestor Publico”, onde estão previstas as atribuições de prémios. Para estes abnegados funcionários não há crise que valha e as leis são para cumprir. È assim Mesmo!

Eu estou tanto de acordo que até lhes sugiro, se também já têm os Juízes, porque não?, que criem um sindicato e elejam para presidente o administrador da Galp, da REN ou da Parpública.



Publicado por Zé Pessoa às 16:55 | link do post | comentar

 

"Vaticano defende decisão de não sancionar padre que abusou de 200 crianças"

Joseph Ratzinger, então arcebispo de Munique, recebeu um duplicado de um memorando dizendo que o padre – que tinha sido submetido a psicoterapia para ultrapassar o seu problema de pedofilia – voltaria ao trabalho pastoral dias depois de ter iniciado o tratamento, diz o "New York Times". O padre acabou por ser condenado por molestar menores numa outra paróquia.

Uma declaração inicial feita no início deste mês pela Arquidiocese de Munique responsabilizava o “número dois” de Ratzinger, Gerhard Gruber, pela decisão de permitir que o padre regressasse ao trabalho. Mas há documentos, diz o "New York Times" citando dois responsáveis da Igreja sob anonimato, mostrando que o futuro Papa presidiu à reunião de Janeiro de 1980 em que a transferência do padre foi aprovada e ainda que Ratzinger foi sendo informado da recolocação do padre.

Os responsáveis do Vaticano, incluindo o Papa, são acusados de ter tido informações sobre o caso mas estarem mais preocupados sobre como evitar um escândalo do que com as vítimas dos alegados crimes do padre.

 

Cardeal português José Saraiva Martins, conselheiro do Papa, justifica o silêncio: 'É o que acontece em todas as famílias. Não se lava roupa suja em público'.

[Público]


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Publicado por [FV] às 10:16 | link do post | comentar | comentários (4)

PEC - poupar afundando os submarinos

[Publicado por AG, em Causa Nossa, 25.03.2010]

 

Os portugueses sentem o impacto cruel (sobretudo se medido em desemprego) desta crise sem precedentes na Europa e no mundo que, em boa parte, explica o desequilibrio das nossas contas publicas a que o Programa de Estabilidade e Crescimento visa responder, com duras medidas a aplicar por vários anos.

Os portugueses aceitarão fazer sacrificios se perceberem que o PEC implica estabilização orçamental, mas também lança caminho para a economia crescer. E que os impostos que lhes serão exigidos são socialmente justos e fiscalmente rigorosos. E que os cortes na despesas incidem, antes de mais, sobre tudo o que é supérfluo ou desperdício.

 

É por isso que, a par de outras vozes, venho defendendo (fi-lo na TVI-24 no passado dia 15 e na RDP dia 16) que o Governo cancele a aquisição dos dois submarinos encomendados ao “German Submarine Consortium”, pelos quais vamos pagar mais de mil milhões de euros, a sobrecarregar-nos pesadamente o défice das contas públicas por muitos e muitos anos.

Bem sei que a Marinha não os considera brinquedos supérfluos, apesar de não serem equipamento prioritário para cumprirmos as nossas obrigações no quadro da NATO ou da Politica Europeia de Segurança e Defesa. E até aceito que façam sentido para um país que tem os interesses marinhos e maritimos (incluindo os submersos, de incalculado valor económico) que Portugal tem e há décadas vem perdulariamente negligenciando.

Mas também sei que a aquisição dos submarinos foi feita através de um negócio corrompido, com um preço grotescamente inflaccionado (mais de 35%, já aqui o escrevi) à custa do erário público – ou seja, à custa dos contribuintes que pagam impostos e a quem agora vão ser pedidos mais; e dos portugueses mais pobres, agora em risco de perder apoios sociais.

Mas também sei que a aquisição dos submarinos foi preparada pelo governo PSD/CDS encabeçado pelo Dr. Barroso e decidida pelo curto governo PDS/CDS do Dr. Santana Lopes, passando pelo crivo da Ministra das Finanças Dra. Manuela Ferreira Leite, depois de uma negociação conduzida sob a responsabilidade do Ministro da Defesa Paulo Portas, que entregou o “encargo negocial” que devia ser assegurado pelo Estado (para isso pagamos a quadros públicos no MDN) a uma empresa - a ESCOM, do Grupo BES – que só pela sua intervenção se cobrou (nos cobrou) uns astronómicos 30 milhões de euros.

Uma negociação que passou pela AR – a compra foi aprovada em Lei de Programação Militar – logo, terá de ter passado pelos partidos com assento parlamentar, incluindo o PS certamente (como, é questão pertinente, sobre a qual nada sei mas não desisti de saber). E também sei que este negócio fraudulento, tornado suspeito pelos súbitos depósitos nas contas do CDS feitas por devotos acompanhantes de um tal Jacinto Leite Capelo Rego, desencadeou uma investigação judicial que se arrasta há anos na obscuridade.

Ah, e também sei que os chamados “offsets” – os contratos de contrapartidas, supostos trazer tecnologia inovativa para dinamizar diversas indústrias nacionais – negociados com os fabricantes dos submarinos pela “especializada” ESCOM, deram entretanto com os burrinhos na água: segundo a estatal CPC - Comissão de Contrapartidas, em Dezembro de 2009 nem 25% estavam ainda em execução, tornando o contrato dos submarinos "inexequível" . Incumprimento que também se verifica a nivel preocupante nas contrapartidas dos helicopteros EH101, que o Ministro Paulo Portas também teve a responsabilidade de negociar: como me observou um chefe militar (e qualquer soldado raso percebe) - “mas já viu alguma empresa séria e sustentável vender-lhe material, e ainda lhe entregar máquinas e tecnologia de valor superior ao que você acordou pagar?”.

Ora sucede que o PEC vai implicar um corte de 40% nas despesas em equipamentos militares que deviam constar da Lei de Programação Militar e ser adquiridos até 2013 – isto é, podemos achar-nos com os submarinos reluzentes mas estacionados no Alfeite, sem dinheiro para o combustível para os pôr a navegar... E quem diz os submarinos que ainda não chegaram, diz os helicopteros que regularmente canibalizamos para os por a voar, os C-130 a modernizar, as Pandur ainda por entregar (outro negócio suspeito a renegociar), etc....

 

"O Estado português deve assumir os seus compromissos contratuais, é uma pessoa de bem, que goza de crédito nos mercados e nada faria pior à credibilidade do Estado português incumprir compromissos que assumiu" diz a LUSA que o Ministro da Defesa Nacional disse esta semana, para justificar a manutenção da encomenda dos submarinos.

Eu vejo a coisa ao contrário:

o Estado português não pode ser pessoa de bem se não puser rapidamente fim a este negócio corrupto, que sabe envolver grossa fraude, já estar a implicar elevadissimos custos para o Estado, comprometer a aquisição de meios essenciais para as nossas Forças Armadas poderem justificar a sua existência, e por se traduzir numa autêntica e descarada roubalheira, se for por diante. Uma roubalheira ainda menos imperdoável em tempos de crise, em que o Estado vai exigir mais sacrificios a cada português que sustenta... o Estado.

É, de facto, a credibilidade do Estado português que está em causa, incluindo diante dos mercados, a quem não falta perspicácia para topar quem é corrompível ou tanso. O crédito a dar pelos mercados também tem em conta a capacidade de cada um (de cada Estado) defender os seus interesses.

Ao Estado português não faltam argumentos substantivos para denunciar imediatamente o contrato dos submarinos, em defesa dos interesses portugueses, num momento em que se encontra (nos encontramos colectivamente) em estado de necessidade. E o governo português não tem que temer reacções alemãs, à conta do Consórcio fornecedor que, parece, se extinguiu entretanto... É que será fácil explicar à Senhora Merkel que não há corruptos, sem corruptores!

Tanto mais que a Comissão Europeia promoveu e conseguiu fazer aprovar em 2009 duas directivas destinadas a dar transparência, moralizar e racionalizar as compras de equipamentos de defesa na UE. O governo português pode, assim, contar com aliados de peso: por um lado, o Parlamento Europeu. E, por outro, com o Presidente da Comissão Europeia, pois claro.



Publicado por Xa2 às 00:05 | link do post | comentar | comentários (2)

Quinta-feira, 25 de Março de 2010

O fim do romance europeu

por João Rodrigues*, publicado em 22.3.2010,  ionline

 

A Europa comunitária está numa encruzilhada:

ou acaba o euro e cada um trata de si, ou forma-se um governo económico europeu comum.

 

Nas últimas duas décadas, as elites intelectuais e políticas nacionais viveram um romance europeu.

Do "pelotão da frente" de Cavaco ao "porreiro, pá" de Sócrates, todas as más opções de política foram justificadas em nome de amanhãs europeus que cantavam: da convergência nominal dos anos noventa que minou a competitividade das nossas exportações até à aprovação de um Tratado de Lisboa que confirma a impotência da União no combate à crise económica.

Um romance que nunca ousou escrutinar ou criticar a viragem neoliberal da construção europeia desde Maastricht, na origem de muitos dos actuais problemas socioeconómicos europeus e nacionais.

 

O resultado é que Portugal é um dos países mais desiguais da Europa e uma das economias mais dependentes. Agora, com o PEC, procura-se uma inglória saída pelas exportações através da compressão dos salários, facilitada pela brutalidade de um desemprego de dois dígitos e por cortes nas despesas sociais.

As elites já nem fazem promessas: a austeridade assimétrica - alguém se lembra de uma medida dirigida à banca? - é apenas um sacrifício no altar da intocada financeirização da economia responsável pela crise. A União realmente existente alimentou-a e agora exige-se aos assalariados, desempregados e pobres que paguem a crise. Quando os países europeus tentam fazer recair sobre estes grupos sociais o fardo do ajustamento, o resultado perverso à escala europeia é uma contracção do mercado interno europeu.

 

Alguns economistas, uma minoria, na realidade, alertaram e alertam para a insustentabilidade deste processo e propuseram e propõem alternativas. Um recente relatório do Research on Money and Finance (RMF) (disponível em www.researchonmoneyandfinance.org), rede ligada à Universidade de Londres, e de que é co-autor o economista português Nuno Teles, aponta precisamente a compressão dos salários como uma das chaves para se compreender o problema europeu. A Alemanha, a maior economia europeia, foi o país mais bem sucedido neste processo sacrificial.

Em Portugal, o crescimento dos salários reais esteve globalmente alinhado com a evolução da produtividade, como deve ser, mas as desigualdades salariais aumentaram.

 

A acumulação de excedentes comerciais pela Alemanha, que têm como contrapartida necessária défices elevados nas periferias europeias, sinaliza o jogo vicioso europeu. A recusa do BCE em dar aos Estados a mesma ajuda que deu aos bancos simboliza o esgotamento desta UE.

 A partir daqui os cenários do relatório do RMF são claros: saída do euro e reforma igualitária de economias nacionais mais protegidas ou construção de um governo económico europeu com orçamento e políticas económicas e sociais à altura. Escolhas realistas numa bifurcação para lá do romance europeu.

*Economista e co-autor do blogue Ladrões de Bicicletas



Publicado por Xa2 às 00:05 | link do post | comentar | comentários (3)

Quarta-feira, 24 de Março de 2010

 

Há quem afirme que o Subsidio de Desemprego em Portugal é muito generoso e que por via disso os desempregados se recusam a aceitar empregos oferecidos por “generosos” empresários. Vejamos então a generosidade do calculo e a «sacanagem» que está por detrás de tais afirmações.

O montante diário é igual a 65% da remuneração de referência e calculado na base de 30 dias por mês.

Ninguém pode receber mais de três vezes o IAS - Indexante dos Apoios Sociais, que este ano está fixado em 419,22 euros (o mesmo de 2009). Ou seja, o valor máximo que se recebe de subsídio de desemprego é 1 257,66 euros por mês. Ninguém pode receber mais mas menos pode. Para fazer as contas é preciso saber quanto ganhou em 12 meses (SB=salário bruto, prémios, horas extraordinárias). Se, nesse período, recebeu os subsídios de férias e de Natal, multiplique o seu salário base mensal por 14. Ora se o valor base de cálculo for menor, menos receberá de subsídio e, consequentemente, menor será o encargo da segurança social. Também aqui o Estado (governo) tira vantagens na precarização das relações de trabalho.

QUANTO RECEBE DE SUBSÍDIO SOCIAL DE DESEMPREGO

1. Beneficiários sozinhos: €335,38 (80% do IAS fixado para 2009) ou o valor da sua remuneração de referência líquida (o que for mais baixo).

2. Beneficiários com agregado familiar: €419,22 (100% do IAS fixado para 2009) ou o valor da sua remuneração de referência líquida* (o que for mais baixo).

*A remuneração de referência líquida é quanto a entidade empregadora declarou à Segurança Social que lhe pagou em média nos primeiros 6 meses dos últimos 8 (a contar do mês anterior àquele em que ficou desempregado) menos os descontos para a Segurança Social e os impostos.

PERÍODOS DE ATRIBUIÇÃO

O número de dias a que tem direito a Subsídio de Desemprego e Subsídio Social de Desemprego varia em função da idade e do número de meses com registo de remunerações no período anterior à data do desemprego.

Pelo exposto várias e diferentes conclusões se podem elidir, algumas aqui ficam:

  • Com o desemprego ninguém chega a rico;
  • O desemprego gera e alimenta a pobreza dos cidadãos e da sociedade em geral;
  • A política dos baixos salários não faz crescer a riqueza nacional nem o desenvolvimento económico do país;
  • Um sistema destes, assim alimentado, apenas poderá servir a selvajaria de um capitalismo sem regras nem escrúpulos. Há que combate-lo. Os socialistas não podem fazer de Pilatos sob pena de sermos julgados pela história dos acontecimentos próximos futuros.


Publicado por Zé Pessoa às 00:08 | link do post | comentar | comentários (9)

Terça-feira, 23 de Março de 2010

Para um Estado estratega

"Ao prever a privatização de serviços públicos essenciais como a Rede Eléctrica Nacional (REN) e os CTT, ainda por cima rentáveis, não se está a pretender uma melhoria da sua gestão e uma resposta ao interesse público, mas apenas a querer obter rapidamente uma receita extraordinária. Estas privatizações, a concretizarem-se, comprometem talvez irremediavelmente o chamado Estado estratega, ou seja, a função estratégica do Estado. A via que se está a seguir, embora possa ter medidas positivas e outras inevitáveis, tem um custo social excessivo que vai recair sobre a classe média e média baixa. Perante desigualdades como as que hoje existem na sociedade portuguesa, é um risco muito grande para a coesão social do país. Dir-me-ão que se trata de medidas decorrentes de obrigações definidas no seio da União Europeia. Mas então é preciso repensar os critérios monetaristas que estão a contaminar a Europa."  Manuel Alegre
em 21.3.10  Ladrões de Bicicletas

... E contra os predadores

«O Programa de Estabilidade e Crescimento que o Governo apresentou ou vai apresentar à Assembleia da República é um dos actos mais gravosos da história da República, de consequências incalculáveis, por tudo o que ele contém de sacrifício inútil imposto por pessoas que se demitiram de pensar, incapazes de aceitar e compreender qualquer ideia que não sejam as veiculadas pela ideologia dominante.
(...)
Independentemente dos votos, o PEC tem de ser derrotado na rua com medidas ainda mais radicais do que as postas em prática pelo povo grego.
Um programa que aponta como meta de futuro a degradação dos salários reais, a precariedade, o trabalho temporário, o aumento crescente e permanente do desemprego, a ansiedade como companheira inseparável da vida, a desagregação social, enfim, um sistema que não é capaz de criar as condições mínimas de vida em sociedade e relega uma parte considerável dos seus membros, ano após ano, para a periferia da vida, é um sistema que tem de ser derrubado por qualquer meio!»  (JM Correia Pinto, no Politeia)
em 19.3.10 Ladrões de Bicicletas


Publicado por Xa2 às 08:05 | link do post | comentar | comentários (24)

Segunda-feira, 22 de Março de 2010


 
Tenho umas perguntinhas a sugerir à nossa prestimosa comunicação social, que anda sempre com falta de assuntos e é muito distraída:

A quem é que Cavaco e a filha compraram, em 2001, 254 mil acções da SLN, grupo detentor do BPN?

O PR disse há tempos, em comunicado, que nunca tinha comprado nada ao BPN, mas «esqueceu-se» de mencionar a SLN, ou seja, o grupo que detinha o Banco.

Como as acções da SLN não eram transaccionadas na bolsa, a quem é que Cavaco as comprou?

À própria SLN?

A algum accionista?

Qual accionista? (Sobre este ponto, ver adiante.)

Outra pergunta que não me sai da cachimónia:

Como é que foi fixado o preço de 1 euro por acção?

Atiraram moeda ao ar?

Consultaram a bruxa?

Recorreram a alguma firma especializada?

Curiosamente, a transacção foi feita quando o BPN já cheirava a esturro, quando o Banco de Portugal já «andava em cima do BPN», ao ponto de Dias Loureiro (amigo dilecto de Cavaco e presidente do Congresso do PSD), ter ido, aliás desaconselhado por Oliveira e Costa, reclamar junto de António Marta, como este próprio afirmou e Oliveira e Costa confirmou.

Outra pergunta:

Cavaco pagou?

E se pagou, fê-lo por transferência bancária, por cheque ou em cash? É importante saber se há rasto disso.

Passaram dois anos.

Em carta de 2003 à SLN, Cavaco alegadamente «ordenou» a venda das suas acções, no que foi imitado pela filha. Da venda resultaram 72 mil contos de mais valias para ambos. Presumo que essas mais valias foram atempadamente declaradas ao fisco e que os respectivos impostos foram pagos. Tomo isso como certo, nem seria de esperar outra coisa.

Uma coisa me faz aqui comichão nas meninges. Cavaco não podia «ordenar» a venda das acções (como disse atrás, não transaccionáveis na bolsa), mas apenas dizer que lhe apetecia vendê-las, se calhasse aparecer algum comprador para elas. A liquidez dessas «poupanças» de Cavaco era, com efeito, praticamente nula. Mas não é que o comprador apareceu prontamente, milagrosamente, disposto a pagar 1 euro e 40 cêntimos de mais valia por cada acção detida pela família Cavaco, quando as acções nem cotação tinham no mercado.

E quem foi o benemérito comprador, quem foi?

Com muito gosto esclareço, foi uma empresa chamada SLN Valor, o maior accionista da SLN.

Cito o Expresso online:

«Cavaco Silva e a filha deram ordem de venda das suas acções, em cartas separadas endereçadas ao então presidente da administração da SLN, José Oliveira Costa. Este determinou que as 255.018 acções detidas por ambos fossem vendidas à SLN Valor, a maior accionista da SLN, na qual participam os maiores accionistas individuais desta empresa, entre os quais o próprio Oliveira Costa.»

Ou seja, Oliveira e Costa praticamente ofereceu de mão beijada 72 mil contos de mais-valias à família Cavaco. E se foi Oliveira e Costa também a fixar o preço inicial de compra por Cavaco, então a coisa é perfeitamente clara.

Que terá acontecido entre 2001 e 2003 para as acções de uma empresa que andava a ser importunada pelo Banco de Portugal terem «valorizado» 140 %?

Falta, neste ponto, esclarecer várias coisas, a primeira das quais já vem de trás:

1. a quem comprou Cavaco e a filha as acções?

2. terá sido à própria SLN Valor, que depois as recomprou?

3. porque decidiu Cavaco vendê-las? Não tendo elas cotação no mercado, Cavaco não podia a priori esperar realizar mais-valias.

4. terá tido algum palpite, vindo do interior do universo SLN, só amigos e correligionários, para que vendesse, antes que a coisa fosse por água abaixo?

5. terá sido cheiro a esturro no nariz de Cavaco? Isso é que era bom saber!

6. porque quis a SLN Valor (re)comprar aquelas acções? Tinha poucas?

7. como fixou a SLN valor o preço de compra, com uma taxa de lucro bruto para o vendedor de 140% em dois anos, a lembrar as taxas praticadas pela banqueira do povo D. Branca?

E já agora, se Cavaco Silva é tão preocupado com a pobreza e a inclusão dos cidadãos mais desvalidos, por que não aufere apenas o ordenado de Presidente da República?!

Será porque é mal pago e tem que acumular com as reformas de professor, do Banco de Portugal e de primeiro-ministro?!

Se estivesse sinceramente preocupado com os pobres e a recuperação das finanças do Estado, não deveria e poderia dar o exemplo e renunciar às reformas enquanto estivesse no activo?! Antes do Governo do dito senhor era assim, só se auferiam as reformas depois de deixar completamente o activo e os descontos eram englobados e pagas numa única prestação!

Que espera o professor para dar um exemplo de Catão como é o do seu apoiante Ramalho Eanes, o único que renunciou ao pagamento de muitos milhões que o Estado lhe devia? 

Afinal o dinheiro de todos e que é dos nossos impostos tem um valor muito diferente, consoante a moral dos governantes sérios e dos que se governam …

Por hoje não tenho mais sugestões de perguntas à comunicação social.
 



Publicado por DD às 11:13 | link do post | comentar | comentários (4)

Mais do que queixumes são necessárias ideias novas e iniciativas eficazes. A que surgiu há dias neste blog, a propósito do Lumiar, poderá, muito bem, ser exemplo.

Ouve-se, a miúdo, às mesas do café ou “queixumes” de amigos, que o processo de escolha dos listados para concorrer a muitas das autarquias foi, em demasiados casos, pouco transparente, muito filtrado por pequenos caciques, nada debatido e sem a mínima participação por parte dos militantes partidários.

Assim, a ser verdade, não será tão cedo, que aparecem alternativas credíveis à confrangedora pobreza política existente, aos vários níveis do exercício da representação(?).democrática(?).

Cidadãs e cidadãos, precisam-se, no mínimo, com menos contradições e menos egoísmos, no máximo, com mais convicções, mais sérios, com mais ética. Gente com novos ideários e preposituras, faz falta à refundação do exercício democrático, à implementação de novos e diferentes comportamentos que renovem a confiança perdida na política e bom governo da “rés pública”.

Para que possam surgir, na vida pública, tais cidadãos há que começar a praticar, esses princípios e hábitos, nos prédios onde habitamos, nas reuniões de condomínios, passando pelas associações do bairro, pela intervenção nas assembleias de freguesia...

Locais estes que têm sido um deserto de participação cívica, incluindo dos próprios e imediatamente interessados. A maioria está sempre à espera que alguém lhes resolva os problemas com os quais se deveriam preocupar, segundo os próprios e imediatos interesses.

Em vez de passarmos a vida a dizer mal uns dos outros, deveríamos olhar mais para cada um de nós próprios e interrogarmo-nos sobre a participação de cidadania, aos diferentes níveis e nas mais variadas possibilidades que existem ou podem ser criadas pela sociedade civil.

Paradoxo, dos paradoxos, é o facto dos portugueses, depois de terem sido libertados de uma ditadura que os oprimia, tornaram-se, genericamente, nuns Estado-dependentes. É o que temos sido, nos últimos 30 anos, individual e colectivamente em vez de cidadãos de plenos direitos e concordantes obrigações.

Se cada um responder, positivamente, segundo a sua quota-parte de responsabilidade, na dos problemas de todos, deixará de haver tanta "camarilha" e "boys-autarquilizados" à procura de “many for the boys”. Alias, haveria menos desemprego (que chega já próximo dos 10%) porque o espírito empreendedor seria bastante mais dinâmico, o que não acontece, desde logo, a partir do próprio exemplo de inércia que advém das autarquias e respectivo quadro de pessoal. É um acomodar quase absoluto.


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Publicado por Zé Pessoa às 00:04 | link do post | comentar | comentários (3)

Domingo, 21 de Março de 2010
Tal como já se previa , aí está a verdadeira factura da crise: o PEC! Durante um ano vimos um desfilar de medidas de combate á crise e as consequências da mesma reflectidas no encerramento de empresas, no desemprego em flecha, nos apoios ao sistema financeiro com pacotes de milhões!

 

Mas agora é que a maioria vai pagar verdadeiramente a crise! Em primeiro lugar, e como sempre, os funcionários públicos, em particular os de baixos salários. Estes trabalhadores nunca mais podem ver qualquer luz ao fundo do túnel! Espera-os uma situação de passarem de pobres para miseráveis! Em segundo lugar os desempregados que, ou não vão ter emprego, ou vão continuar sem subsídio ou com o mesmo diminuído!
Depois seguem-se os reformados com baixas pensões e todos os outros trabalhadores que pertencem á classe média baixa! É cortes nas deduções do IRS, subida das mensalidades na compra de casa, precariedade laboral!

 

Quanto ás classes altas continuam em alta! Apenas uma subida de IRS para algumas pessoas que não podem fugir ao fisco! Imposto sobre mais valias? Talvez! A ver veremos! Aos que colocaram dinheiro no exterior? Vamos dar-lhe a possibilidade de regressarem com a bolsa. Será que regressam?
Para amenizar a dívida e atingir as metas previstas para o déficit vamos privatizar, entregar a saldo o que resta com valor nas mãos do Estado!
Em resumo, vamos ter um PEC já aceite em Bruxelas e só agora é que vai ser debatido na Concertação Social! Para quê?

 

Não seria mais transparente dizer que neste quadro actual não há lugar para o diálogo social? Que a nossa soberania está mais do que limitada? Para quê fazer caricatura do diálogo social?
Será que não haveria alternativa a este PEC? Porque será que um governo socialista incorporou todas as reivindicações do centro direita e da direita no PEC? Diminuição drástica do investimento público, privatizações, medo de fazer pagar quem mais tem! Será que a culpa está toda na esquerda? De que tem medo o PS?
Por outro lado , será que a zona euro não terá que ser toda repensada?


Publicado por Xa2 às 00:05 | link do post | comentar | comentários (8)

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