Sexta-feira, 30 de Abril de 2010

«Um testemunho pessoal:

De cada vez que ia ao centro de emprego fazer a apresentação periódica de 15 em 15 dias, pensava em mim como um criminoso sujeito a apresentações periódicas às autoridades para não cair no crime.

Entrava com vergonha, com os olhos postos no chão, mas ainda assim reparava que a maioria dos que ali estavam faziam o mesmo e estavam ali pelo mesmo motivo que eu.

É o que sentimos ao princípio, esse desamparo do rótulo "desempregado"... Podemos ser 600000, mas cada um de nós se sente sozinho no mundo. Depois sentimos culpa, é por nossa culpa que estamos assim, ou porque não somos produtivos, ou inteligentes... depois sentimos raiva porque todos conhecemos alguém com emprego com muito menos mérito do que nós... depois queremos denunciar as cunhas e os amigos que remetem alguns para um caminho fácil e aos outros para o fundo de(o) desempregro.

 

Por último se somos jovens como eu, sentimos vergonha dos nossos pais... queremos dar-lhes a alegria que sempre ambicionaram de verem o filho com a vida encaminhada agora que a sua se aproxima do fim. Se formos velhos, imagino eu, sentiremos a mesma vergonha olhando para os nossos filhos porque falhamos a nossa obrigação em dar-lhes um futuro melhor.

Não me importo que me tirem dinheiro. É questão de apertar mais o cinto.

O que não suporto é que me tirem a dignidade a cada conferência de imprensa.

Se não têm solução ofereçam-me empatia, ou permitam que partilhemos o nosso destino com quem está igual a nós. Se não têm solução, não repitam que a culpa é nossa, não façam de nós escravos, não façam de nós ilhas...

 

Quando chegamos a este ponto, nós já nem queremos trabalho, ou vencimento, queremos uma oportunidade para mostrar o que valemos, queremos ser úteis, ter orgulho, chegar ao fim do dia e saber que o pão que comemos é pago com o nosso suor.

 

Não é um subsídio que nos levanta a cabeça, são as vossas palavras que não nos deixam levantar do chão.

um desempregado»

  - comentário anónimo em 30.04.2010, L.Bicicletas '' O ataque às vítimas da crise, ou o triunfo da imoralidade ''



Publicado por Xa2 às 08:07 | link do post | comentar | comentários (7)

Segundo temos lido e ouvido Portugal está a ser atacado pelos mercados!

Estes, segundo alguns analistas, estão “turbulentos” ou “nervosos” porque temem que Portugal não pague as suas dívidas!

É uma linguagem “engraçada” para falar dos mercados financeiros e da sua malvadez especulativa e manipuladora!

Dezenas de comentadores e analistas argumentam até à saciedade que é preciso medidas duras para “acalmar” os mercados, tal como os antigos povos acalmavam os deuses que exigiam a sua quota de vítimas! Os oráculos falaram, o poder reuniu e decidiu tomar já uma medida para acalmar os ditos mercados: alterar as regras do subsídio de desemprego.

 

Esta medida e uma reunião do Primeiro Ministro com um tal senhor chamado Passos Coelho eleito há pouco tempo chefe de um partido da oposição irão acalmar os mercados que estão sedentos de juros altos! No fundo passa a ideia de que a nossa situação crítica se deve a esses milhares de “malandrecos” que estão no desemprego e nunca mais querem trabalhar!

Ouvindo alguns senhoritos como o Miguel Sousa Tavares e outros comentadores bem instalados na vida a culpa é dos desempregados, dos que estão integrados no rendimento mínimo e dos trabalhadores absentistas!

Ao que chegaram estes senhores que em tempos andaram de cravo vermelho ao peito e que agora são loquazes sacerdotes dos tais mercados que não olham a meios para destruir o projecto europeu começando pelos países mais vulneráveis!

 

Lamentavelmente o PS está desarmado ideologicamente!

Entreteve-se a gerir o poder e a usufruir do mesmo todos estes anos!

Agora para se salvar incorpora as miseráveis reivindicações de uma direita socialmente xenófoba que prega o ataque aos pobres e aos trabalhadores como salvação da pátria!

Reivindicações que são ouvidas aqui e acolá pelas gentes mais variadas como de senso comum se tratasse ... Mas não são!

Em situação de crise uma parte dos portugueses sempre encontra um bode expiatório nos mais fracos e sempre apelou para medidas autoritárias!

 É mais fácil sustentar e defender ideologicamente o banco alimentar contra a fome! É a caridade que é defendida, o amor aos pobrezinhos!

 

O direito a ter um mínimo para a sobrevivência, independentemente da situação relativamente ao trabalho não está suficientemente enraizado e trabalhado.

É uma questão cultural a que a esquerda nunca deu grande importância! Há que aprofundar!

- por A.Brandão Guedes em Bem Estar no Trabalho, 29.04.2010


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Publicado por Xa2 às 00:07 | link do post | comentar | comentários (1)

Quinta-feira, 29 de Abril de 2010

Acabo agora de ouvir as bacoradas da burra da Judite de Sousa na RTP 1. Diz a imbecil que a partir de Maio os bancos portugueses vão ter ir ao estrangeiro buscar dinheiro e pagar juros a 6 ou 7% ao ano. Ora, não é preciso ser inteligente para se saber que a esse juro, os bancos teriam no mercado interno todo o dinheiro que necessitam. Actualmente, os bancos pagam juros inferiores a 1% a prazo de um ano e ninguém acredita que vão buscar dinheiro a 6 ou 7%. A realidade deve ser bem outra; ou os juros de fora são mais baixos ou a banca finge que vai buscar imenso dinheiro fora para emprestar a juros muito altos o dinheiro nacional que paga a menos de 1%.

 

Diz a Judite que os bancos não emprestam mais o valor das casas, mas apenas 70 a 80% do mesmo, mas a realidade é que o preço das casas, principalmente em segunda mão e são muitas que estão à venda, estão hoje a um nível quase 50% abaixo dos valores de há dois anos ou mais.

 

Além disso, o País possui 6 milhões de unidades habitacionais para cerca de 4 milhões de famílias e muita gente como eu vive em prédios quase vazios, apesar de bem mantidas e com uma qualidade razoável. Eu vivo há anos num piso de três apartamentos completamente só. Por cima de tenho um único vizinho e por baixo há também apenas um.

 

Portugal não necessita de construir nos próximos anos mais de 250 mil apartamentos por ano como aconteceu no passado recente. Actualmente estão em construção menos de 10% do máximo, portanto, aqueles jornalistas que estão a falar agora na RTP e dizem que o País viveu nos últimos vinte anos acima das suas possibilidades estão a mentira por ignorância, pois não vão ser construídos dois milhões de apartamentos nos próximos dez anos. Quanto muito serão construídos 200 mil unidades.

 

Com os automóveis passa-se um pouco o mesmo, o país possui igualmente mais de 5 milhões de viaturas e não necessita de comprar tanto como o fez no passado e diria que com outros bens não imediatamente consumíveis acontece quase o mesmo. Desde 1982 que a natalidade está abaixo da taxa de reposição, pelo que as pessoas com menos de 28 anos de idade são em quantidade inferior aos seus pais, podendo ser herdeiros dos valores acumulados ou das casas adquiridas a prazo no passado.

 

Portugal viveu acima das suas possibilidades como o fizeram muitos outros países e isto porque se exportou pouco. A indústria e agricultura portuguesa basearam-se sempre em mão de obra barata e apesar dos salários serem baixos chegam a ser 10 vezes superiores aos pagos pelo capitalismo comunista da China e daí a dificuldade de exportar. A indústria nacional vive de nichos de mercado, pequenas séries em que a proximidade dos mercados europeus tem algum valor e pouco mais.

 

Até nas obtas públicas o País não necessita de muito, ou mesmo, de quase nada. As declarações de hoje do Ministro das Obras Públicas são mais fogo de vista que outra coisa. O TGV, a ponte e o aeroporto eram para estarem já em construção e ainda não se fizeram concursos. Além disso, o TGV para Madrid depende daquilo que a Espanha fizer e parece que os espanhóis não estão a construir o seu TGV para Badajoz. Enquanto não iniciarem a obra não vale a pena aos portugueses fazerem o nosso TGV e a terceira travessia da ponte.

 

Claro, o chamar viver acima das possibilidade significou postos de trabalho na construção civil e nas indústrias conexas, pelo que a salvação de muitas empresas está na exportação, tanto de bens transaccionáveis como de serviços e projectos, o que não é fácil dada concorrência do capitalismo comunista chinês.

 

Portugal não necessita de adquirir divisas para pagar as suas importações, pois pode fazê-lo com o seu stock de moeda que é uma divisa mundial, só que a redução do stock de moeda implica a sua valorização. Menos moeda, menos compras e menores lucros para continuar a vender, logo preços mais baixos. Os importadores não têm alternativa a não ser reduzir os preços dos computadores, automóveis, etc..

 

Em macroeconomia, a teoria quantitativa da moeda mostra-nos que o nível de preços é proporcional ao stock de moeda segundo a fórmula P= VxM/Y, sendo V a velocidade-rendimento ou o número de vezes em que a moeda muda de mãos, P o nível de preços, M o stock de moeda e Y o nível do produto interno. Desde que o conjunto dos agregados monetários denominados M sofram uma redução, os preços têm de sofrer igualmente uma redução. Acontece isso com os preços das casas, bens informáticos e até carros. Mas, se o produto Y aumentar mais que o VxM, então os preços sobem.

 

Quer dizer, o verdadeiro produto Y(PIB) pode não aumentar numericamente e crescer pelo facto de o valor interno da moeda crescer por via da quebra dos preços. O curioso é que no âmbito de um vasto espaço de moeda única, a valorização de um menor stock de moeda por via da desvalorização (redução) dos preços equivale no mercado internacional a uma desvalorização da moeda.Os produtos nacionais podem tornar-se mais baratos ou para evitar esse emabaratecimento, os produtores nacionais têm de exportar para fora e assim trazer para o país mais moeda. Verificou-se isto nos primeiro trimestre deste ano em que as exportações subiram mais de 7% quando no OE estava previsto um cresceimento de 3,5%.

 

O problema da redução do stock monetário é apenas grave para os bancos, para os quais a moeda não é apenas constituída por unidades de conta e troca de trabalho, mas sim uma matéria prima comprada a um preço e vendida a prazo a outro preço mais alto. Por isso, os bancos querem refinanciar-se no estrangeiro a utilizarem o stock nacional de moeda.

 

Economistas! Fujam da aritmética. A moeda não é aritmética porque varia de valor real momento a momento.

Para conhecer bem a problemática da moeda é aconselhável estudar a "Macroeconomia" de R. Dornbusch, S. Fischer e R. Startz, editada pela McGraw-Hill, sem publicidade porque nada tenho a ver com o negócio de livros, excepto daquele que publiquei recentemente e que nada tem a ver com estes assuntos.

 

Infelizmente, não vi nenhum economista falar da problemática de um stock monetário no âmbito de uma vasto espaço com a mesma moeda.

 

 



Publicado por DD às 22:12 | link do post | comentar | comentários (5)

Corria o ano da graça de 1962. A Embaixada de Portugal em Washington recebe pela mala diplomática um cheque de 3 milhões de dólares (em termos actuais algo parecido com € 50 milhões) com instruções para o encaminhar ao State Department para pagamento da primeira tranche do empréstimo feito pelos EUA a Portugal, ao abrigo do Plano Marshall.

O embaixador incumbiu-me – ao tempo era eu primeiro secretário da Embaixada – dessa missão.

Aberto o expediente, estabeleci contacto telefónico com a desk portuguesa, pedi para ser recebido e, solicitado, disse ao que ia. O colega americano ficou algo perturbado e, contra o costume, pediu tempo para responder. Recebeu-me nessa tarde, no final do expediente. Disse-me que certamente havia um mal entendido da parte do governo português. Nada havia ficado estabelecido quanto ao pagamento do empréstimo e não seria aquele o momento adequado para criar precedentes ou estabelecer doutrina na matéria. Aconselhou a devolver o cheque a Lisboa, sugerindo que o mesmo fosse depositado numa conta a abrir para o efeito num Banco português, até que algo fosse decidido sobre o destino a dar a tal dinheiro. De qualquer maneira, o dinheiro ficaria em Portugal. Não estava previsto o seu regresso aos EUA.

Transmiti imediatamente esta posição a Lisboa, pensando que a notícia seria bem recebida, sobretudo num altura em que o Tesouro Português estava a braços com os custos da guerra em África. Pensei mal. A resposta veio imediata e chispava lume. Não posso garantir a esta distância a exactidão dos termos mas era algo do tipo: "Pague já e exija recibo". Voltei à desk e comuniquei a posição de Lisboa.

Lançada estava a confusão no Foggy Bottom: - não havia precedentes, nunca ninguém tinha pago empréstimos do Plano Marshall; muitos consideravam que empréstimo, no caso, era mera descrição; nem o State Department, nem qualquer outro órgão federal, estava autorizado a receber verbas provenientes de amortizações deste tipo. O colega americano ainda balbuciou uma sugestão de alteração da posição de Lisboa mas fiz-lhe ver que não era alternativa a considerar. A decisão do governo português era irrevogável.

Reuniram-se então os cérebros da task force que estabelecia as práticas a seguir em casos sem precedentes e concluíram que o Secretário de Estado - ao tempo Dean Rusk - teria que pedir autorização ao Congresso para receber o pagamento português. E assim foi feito. Quando o pedido chegou ao Congresso atingiu implicitamente as mesas dos correspondentes dos meios de comunicação e fez manchete nos principais jornais. "Portugal, o país mais pequeno da Europa, faz questão de pagar o empréstimo do Plano Marshall"; "Salazar não quer ficar a dever ao tio Sam" e outros títulos do mesmo teor anunciavam aos leitores americanos que na Europa havia um país – Portugal – que respeitava os seus compromissos.

Anos mais tarde conheci o Dr. Aureliano Felismino, Director-Geral perpétuo da Contabilidade Pública durante o salazarismo (e autor de umas famosas circulares conhecidas ao tempo por "Ordenações Felismínicas" as quais produziam mais efeito do que os decretos do governo). Aproveitei para lhe perguntar por que razão fizemos tanta questão de pagar o empréstimo que mais ninguém pagou. Respondeu-me empertigado: - "Um país pequeno só tem uma maneira de se fazer respeitar – é nada dever a quem quer que seja".

Lembrei-me desta gente e destas máximas quando há dias vi na televisão o nosso Presidente da República a ser enxovalhado pública e grosseiramente pelo seu congénere checo a propósito de dívidas acumuladas.

Eu ainda me lembro de tais coisas, mas a grande maioria dos Portugueses de hoje nem esse consolo tem.

Estoril, 18 de Abril de 2010
Luís Soares de Oliveira


Publicado por [FV] às 18:27 | link do post | comentar | comentários (9)

O nosso barco

 "Não rema mais, porquê ?!!" "Não estamos todos no mesmo barco ??"

O Diário Económico de hoje apela na sua manchete aos líderes dos dois maiores partidos de forma clara:

"Entendam-se!".

Na sequência de mais uma descida do rating, a Direita procura agravar a política recessiva do PEC e o PS presta-se a um papel lamentável: centrar os sacrifícios nas prestações sociais.

Da reunião entre Passos Coelho, saíram duas conclusões:

1) antecipar a política de redução das prestações sociais e

2) antecipar os cortes no subsídio de desemprego.

 

Partilha de sacrifícios, nem vê-la.

O Bloco Central tenta criar um clima de grande unidade nacional em torno de um programa que exige tudo àqueles que sempre pagaram o Estado em Portugal e que, não tendo tido responsabilidade na crise, são mais uma vez chamados a pagá-la.

Não é falta de imaginação. É falta de vontade política.

- por José Guilherme Gusmão, em 28.4.10 Ladrões de Bicicletas

 

Onde é que já ouvi isto?

«As pessoas aqui gostam mais de gastar do que de trabalhar».

«A febre dos juros baixos levou a um endividamento insustentável das famílias.»

«Os produtores locais não se dão ao trabalho de procurar mercados externos, preferem viver da procura local.»

«A evasão fiscal é enorme e os serviços de finanças não se dão ao trabalho de combatê-la.»

Estas são algumas explicações que tenho ouvido em Atenas, onde me encontro, sobre as razões da crise que afecta a Grécia.

 

Tal como em Portugal, é mais difícil encontrar quem diga que a política monetária única conduzida pelo BCE desde a fundação do euro reflectiu sistematicamente as condições dos países centrais da UE em detrimento das suas periferias (aqui como noutros países a taxa de juro deveria ter sido substancialmente mais elevada durante boa parte da última década).

Já poucos discutem que o nível cambial adoptado à entrada do euro foi excessivo e que, associado à valorização do euro face ao dólar, desincentivou o investimento em sectores transaccionáveis.

Ou que a sobrevalorização do euro (na perspectiva das periferias) se juntou a uma política comercial europeia que abriu os mercados externos às economias emergentes, prejudicando os sectores mais tradicionais (que dominam as economias das periferias) para obter como contrapartida o acesso das exportações de bens intensivos em capital (que dominam economias mais avançadas, como a Alemã) aos apetecíveis mercados emergentes.

Poucos referem também o impacto que a promoção do mercado interno de serviços financeiros e a liberalização dos fluxos de capitais teve sobre a facilidade de fuga ao pagamento de impostos de alguns sectores importantes das sociedades europeias.

Ou como a ausência de harmonização fiscal na UE vem erodindo a capacidade de financiamento dos estados membros.

 

Usar a propensão individual para o pecado como explicação para a instabilidade que actualmente se vive nas economias europeias revela-se uma estratégia eficaz – na Grécia como em Portugal, e suspeito que noutros países – e muito ao gosto de certos comentadores.

Infelizmente, o apelo à auto-culpabilização fará muito pouco pela resolução dos problemas estruturais do modelo de integração europeia.

- por Ricardo Paes Mamede, em 29.4.10 http://Ladrões de Bicicletas.blogspot.com

 

 À espera de um milagre na Alemanha

"Ao ‘eixo’ partido da União Europeia junta-se a passividade dos estados que estão na primeira linha para um agravamento dramático da sua dívida pública. Portugal é apenas um deles.

Em suma, a menos que ocorra um milagre na Alemanha, o agravamento da crise ecónomica e financeira acabará por fazer saltar a faísca detonadora de uma crise política na UE no próximo ano. A interacção das várias crises conduzirá ao desmoronar da Zona Euro por insustentabilidade social, financeira e política.

Nessa altura não vai haver condições para ponderar sobre o que será melhor para o futuro de cada estado-membro (benefícios e custos de ficar ou sair do euro).

A partir de um dado momento a dinâmica dos acontecimentos será imparável."

 Este texto foi escrito em Julho do ano passado. Na altura foi lido por muitos como uma especulação despropositada. No entanto, nessa data toda a informação disponível já apontava para este cenário. O problema, como sempre, reside nos óculos com que se lê a informação.

 

Hoje Angela Merkel vai fazer uma declaração solene destinada a 'acalmar' os especuladores. De pouco servirá se a seguir não forem dados passos concretos para uma nova política de crescimento pela procura interna na eurozona e uma nova regulação do sistema financeiro que o ponha ao serviço da 'economia real'.

Em suma, só medidas que nos aproximem de uma nova constituição económica da UE podem travar a desagregação da eurozona.

É que sem crescimento significativo na eurozona não há receitas fiscais que cheguem para pagar os salários nos hospitais, escolas, polícia, exército, tribunais, embaixadas,... reformas, pensões e todo o tipo de prestações sociais nos vários países.

Um PEC recessivo aplicado a toda a eurozona fará retrair a procura interna de todos os produtos europeus, quer dizer, do nosso vestuário, calçado e hotéis ... e também dos automóveis e equipamentos alemães e franceses.

Se os Alemães perceberem isto, então ocorrerá o tal milagre. Contudo, nas palavras do Prof. Paul De Grauwe, "Angela Merkel não quer dar um euro antes da eleição de 9 de Maio, e nem sequer é claro o que é que fará depois."

Realmente só um milagre pode salvar o euro. Sim, porque esta crise não diz respeito apenas aos países da Europa do Sul. Esta crise é o grande teste da viabilidade do euro e da actual arquitectura institucional da União Europeia.

Dito de outro modo, ou nos salvamos todos ou nos perdemos todos. Só isto.

-por Jorge Bateira, em 28.4.10 Ladrões de Bicicletas


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Publicado por Xa2 às 08:05 | link do post | comentar | comentários (10)

Quarta-feira, 28 de Abril de 2010

 Alguns comentadores e opinadores irão dizer que o centrão está a ser reeditado ou que não havendo casamento existe, pelo menos, uma união de facto entre o PS e PSD.

Não será caso para menos tendo em conta o resultado da reunião que “correu bem”, segundo José Sócrates, que afirmou “o Governo e o principal partido da oposição decidiram trabalhar em conjunto” perante um "ataque especulativo sem fundamento" dos mercados internacionais.

Na expectativa que tal ainda pode ser feito (na verdade quem está ao leme não pode dar sinais de fraqueza), o primeiro-ministro garantiu que “o país fará tudo o que deve ser feito” e “tudo o que for necessário” para que “os objectivos de consolidação orçamental sejam cumpridos”.

Sócrates afirmou, ainda que o Governo e o PSD vão “dialogar” e “acompanhar com regularidade” a evolução da situação nos mercados internacionais, antes de anunciar a antecipação já para este ano de algumas medidas previstas no Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC) para 2011.

Por seu turno Passos Coelho manifestou a disponibilidade do PSD em "cooperar com o Governo" para "inverter o sentimento de desconfiança" e demonstrar que os interesses do país estão acima das "divergências políticas".

Garantiu ainda, o líder do maior partido da oposição que tudo “Faremos o que estiver ao nosso alcance e o que se revelar necessário para que o país, de acordo com as medidas que o Governo entende serem mais prioritárias, possa ver cumpridos os seus objectivos internacionais".

Por mais declarações que se façam e por melhores que sejam as intenções (o que nem sempre é o caso) a realidade que nenhum país por si só será capaz de responder, eficazmente, às agressões especulativas dos mercados e/ou das agencias de notação, tanto mais que elas são ou estão submetidas a especuladores exteriores à Europa ainda que aqui tenham aliados.

É conhecida a ameaça (já com factos e acontecimentos concretos) de fazer desaparecer o euro através de intervenções cirúrgicas sobre ecomomicas nacionais de certos países.

É, no mínimo, estranha a atitude de Inglaterra, que se colocou fora da zona euro, agora da Alemanha em relação à Grécia e até do Banco Central Europeu - BCE, que não emite uma palavra que seja em defesa da moeda que justifica a sua própria existência.

São cada vez menos a certezas e maiores a dúvidas em relação ao futuro. A um mundo globalizado só serão eficazes resposta igualmente globais, tudo o mais não passarão de paliativos enganadores.

MARCADORES: crise, sociedade, trabalho


Publicado por Zé Pessoa às 16:39 | link do post | comentar | comentários (4)

Precisamos deste espírito

Em tempos de crise surge com redobrada força o discurso do “estamos todos no mesmo barco”. Este discurso, que exprime uma ideia de destino comum, de solidariedade partilhada no sacrifício e na austeridade, deve ser levado a sério. Se for sério, o que se calhar é raro, só pode conduzir a reformas igualitárias profundas, dada a distância abismal que separa o ideal de uma comunidade política inclusiva da realidade socioeconómica de um país imensamente fracturado.
É por estas e por outras que a edição portuguesa deste livro - O Espírito da Igualdade - Por que razão sociedades mais igualitárias funcionam quase sempre melhor - não podia ser mais oportuna (um excerto pode ser lido aqui).

Repito o que escrevi quando saiu a edição britânica. Richard Wilkinson e Kate Pickett, dois reputados especialistas internacionais na área dos determinantes sociais da saúde, não só sistematizam na obra décadas de investigação empírica, que há muito que indica que os países mais desiguais têm, globalmente e para os vários escalões sociais, piores resultados na área da saúde pública e níveis muito superiores de sofrimento social evitável, como alargam o leque das relações abordadas: da população prisional aos níveis de confiança, passando pelos resultados escolares.

Como bons cientistas sociais, os autores não confundem correlação com causalidade. A sua análise estatística mostra um padrão claro de associação entre cada um dos problemas abordados e as diferenças entre ricos e pobres, mostrando também que nenhuma outra variável exibe o mesmo comportamento. Este é um ponto de partida para uma detalhada exploração dos mecanismos causais que permitem dizer que as desigualdades de rendimentos são a principal causa dos problemas escrutinados.

Os autores dão uma grande importância à forma como as desigualdades de rendimento criam um filtro que dificulta as relações sociais entre os indivíduos, que aumenta a conflitualidade, o sofrimento, o consumo defensivo, a comparação invejosa, o preconceito de classe e que impede a descoberta de soluções cooperativas que substituam mecanismos de dominação, a descoberta de regras e de instituições comuns menos hierarquizadas, que são a base material do florescimento humano, da felicidade.

O Rui Tavares também escreveu sobre este livro. O sítio que Wilkinson e Pickett criaram está cheio de referências e de dados sobre os impactos sociais negativos da desigualdade económica. Quem quiser saber mais sobre a área dos determinantes sociais da saúde, pode ler o relatório da OMS: a injustiça social faz muito mal à saúde e as utopias de mercado que a geram também.

em 24.4.10 Ladrões de Bicicletas e, em simultâneo, no Arrastão

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Publicado por Xa2 às 00:07 | link do post | comentar | comentários (3)

Terça-feira, 27 de Abril de 2010

NOVE EM DEZ SÃO PRECÁRIOS!


"Em cada dez novos empregos, nove são precários e raras vezes desembocam em contratos permanentes.  São sobretudo ocupados por jovens, por norma mais qualificados,  o que distorce a regra segundo a qual mais instrução melhora a situação profissional.

O facto de a esmagadora maioria dos empregos criados serem precários e ocupados pelos mais habilitados foi realçado por Nuno Alves, Mário Centeno e Álvaro Novo para justificar o pedido de medidas que ajudem a valorizar a educação. Num estudo publicado pelo Banco de Portugal, defendem que a educação traz benefícios para quem a tem (salários mais altos) mas, sobretudo, para a sociedade. Por exemplo, referem, Portugal não poderá ser mais rico enquanto os trabalhadores e empresários tiverem um nível de qualificação global tão baixo quanto têm agora."(Do dia)

Nota: A continuarmos assim estamos a permitir que várias gerações de trabalhadores não sejam mais do que descartáveis.
Há que pôr cobro a esta situação. Aquando do debate sobre o Código do Trabalho dizia-se que se iriam tomar medidas neste sentido.
A situação piorou e os recibos verdes existem inclusive no Estado em grandes quantidades!!
Isto quando o Ministério do Trabalho está ocupado por uma ex-sindicalista!!

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Publicado por Xa2 às 07:05 | link do post | comentar | comentários (2)

  OIT ALERTA PARA RISCOS EMERGENTES NO TRABALHO!

   “Riscos emergentes e novas formas de prevenção num mundo do trabalho em mudança” é o slogan da OIT (Organização Internacional do Trabalho) para as comemorações do DIA 28 de Abril deste ano. O Relatório desta Organização Internacional aborda de forma especial a questão dos riscos novos e emergentes no mundo do trabalho.

   Segundo a OIT os novos riscos profissionais podem ser causados pelas inovações técnicas ou mudanças sociais e organizacionais, com destaque para:

   -Novas tecnologias e processos de produção como as nanotecnologias e biotecnologias;

   -Novas condições de trabalho, cargas de trabalho mais elevadas, intensificação das tarefas, condições de trabalho deficientes devidas ás migrações e economia informal;

   -Formas emergentes de emprego como o emprego independente, externalização, contratos temporários, teletrabalho;

 

   Efectivamente as nanotecnologias e nanomateriais são hoje um novo e importante desafio para a prevenção e promoção da saúde no trabalho. Prevê-se que até 2020 cerca de 20% de todos os produtos fabricados no mundo sejam realizados graças às nanotecnologias.

   Ora, apesar dos progressos alcançados, ainda são pouco conhecidos os riscos inerentes ao fabrico e utilização destes materiais e tecnologias.

   Por outro lado, emergem também com grande impacto os riscos ligados à biologia e ás biotecnologias, nomeadamente em sectores como a saúde, agricultura e gestão de resíduos.

   Certos riscos biológicos têm hoje um particular impacto social e na saúde das populações e, em particular, em alguns sectores de trabalhadores. Estão neste caso algumas doenças infecciosas emergentes como a gripe H1N1, tuberculose, paludismo e VIH/SIDA.

   Os produtos químicos continuam a ser utilizados em grande escala nas nossas sociedades com todas as consequências negativas e positivas para a saúde e para o ambiente. Nos últimos 20 anos a utilização destes produtos em todo o mundo aumentou consideravelmente tornando-se numa preocupação crescente quanto às respectivas consequências, nomeadamente nas ameaças á reprodução com efeitos hormonais, imunitários e no sistema nervoso.

 

   Finalmente há que considerar as tendências do emprego que estão a mudar nas últimas décadas, contribuindo para a emergência de novos riscos para os trabalhadores. Temos a reorganização do trabalho, o emagrecimento dos efectivos, a subcontratação, a externalização e a economia informal, entre outros, que têm inevitavelmente repercussões sobre as condições de trabalho.

   Estas mudanças, associadas a outros factores, têm provocado o aumento dos riscos psicossociais, nomeadamente do stress relacionado com o trabalho.

   Os estudos mais recentes têm demonstrado que o stress está na origem de 50 a 60% de dias de trabalho perdidos, sendo considerado como uma das principais causas perturbadoras da saúde na União Europeia, afectando 22% dos trabalhadores.

   Perante esta situação a OIT apela a novos esforços no domínio da prevenção e gestão dos riscos profissionais e a uma abordagem multidisciplinar integrada da segurança e saúde no trabalho, tendo como objectivo o bem estar físico, mental e social de todos os trabalhadores de todos os sectores económicos.

     - por A.Brandão Guedes em 10:54 Bem Estar no Trabalho, 13.04.2010



Publicado por Xa2 às 00:30 | link do post | comentar | comentários (1)

Vi há dias na SIC Noticias uma entrevista ao gestor da TAP, Dr. Fernando Pinto, pessoa que conduz os destinos daquela companhia de bandeira portuguesa há mais de 10 anos.

Se a memoria das pessoas, especialmente de certos outros gestores, não fosse tão limitadamente curta, lembrar-se-iam qual era a situação de permanente conflitualidade laboral e de ruptura financeira em situação de pré-falência.

Lembrar-se-iam, ainda, se a memoria não fosse tão curta, que há 10 anos e sem que a situação do país e da economia mundial não tivesse atingido a gravidade dos dias que correm, o então ministro que tutelava a TAP ter dito a Fernando Pinto que não poderia cumprir o que com ele havia sido acordado pedindo-lhe que aceitasse a redução na sua remuneração fixa em 25%. Como publicamente foi divulgado o brasileiro, compreendendo a situação crítica que o país enfrentava para a diminuição do deficit público, aceitou o sacrifício.

Se a memória não fosse tão, exageradamente, curta toda a gente se lembraria que tal pedido foi feito pelo portuguesíssimo(?) António Mexia, exactamente, essa mesma figura que agora não prescinde de receber (não remuneração fixa) o bónus atribuídos pela EDP, uma empresa de monopólio em nada comparado com a concorrência internacional que a TAP tem de enfrentar.

Ética, memoria, princípios..., tudo muito bonito mas bom de aplicar a terceiros. Com Gestores à portuguesa está provado que este país não vai longe, não vai não.



Publicado por Zé Pessoa às 00:22 | link do post | comentar | comentários (4)

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