Segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

Todos temos plena consciência que a pobreza é actualmente um daqueles flagelos que, atravessando sucessivas gerações, mais atormenta a humanidade por não permitir a satisfação das necessidades mais básicas do ser humano.

Com efeito, uma das terríveis consequências da pobreza é reconhecidamente a fome, uma tragédia que hoje em dia vem atingindo cada vez mais gente, mesmo em países considerados ricos e desenvolvidos.

Não será demais lembrar que outra das possíveis consequências da pobreza igualmente inquietantes, é a sua influência na formação da personalidade de cada cidadão atingido que, na sua condição de marginalizado, pode levar à alteração da estabilidade social e psicológica de toda uma comunidade.

Ninguém tem dúvidas que neste momento a pobreza não é já um fenómeno específico dos países pobres do chamado Terceiro Mundo, como certas zonas do Continente Africano e do Sudoeste Asiático, mas infelizmente uma catástrofe que afecta já milhões de cidadãos em todo o globo.

Equivale isto a dizer que a pobreza, vista à escala mundial, deixou de ser derivada apenas da falta de recursos de alguns países e passou paralelamente a ser uma clara consequência das políticas que têm sido levadas a cabo pelos governos e os agentes económicos mundiais.

Creio que toda a gente já entendeu que a luta contra a pobreza não tem sido a prioridade das prioridades de quem tem responsabilidades na condução dos destinos dos povos, já que não se lhes reconhece uma firme determinação em orientar as políticas sociais e económicas no sentido de uma mais equitativa e justa distribuição da riqueza produzida. Não basta a atribuição de subsídios, é preciso reorientar os sistemas económicos.

O que me parece claro, e agora face à crise mais ainda, é uma predominante preocupação com a competitividade das economias que, apostada sobretudo no aumento do volume dos negócios, relega para segundo plano a sua função social, condição indispensável para um combate eficaz à pobreza.

Naturalmente que não se espera nem se exige que o combate à erradicação da pobreza em cada país dependa unicamente da actuação dos seus governos.

Cabe também, e em larga medida, aos detentores dos meios de produção, as classes empresariais, que deveriam ter uma visão mais abrangente do seu papel e não se limitarem a exercer uma gestão empresarial unicamente orientada para a maximização dos lucros que depois só uns quantos privilegiados arrecadam.

Aqui bastaria para modificar este estado de coisas, uma mudança de atitude dos empresários, desses mesmos que à mínima dificuldade conjuntural não têm pejo nenhum em recorrer à única receita que conhecem, a dos despedimentos, uma das grandes senão a maior causa da pobreza mundial. Na realidade, não se vê que as graves consequências sociais do desemprego lhes tirem o sono.

É por razões como estas que se torna singular e surpreendente, ouvir agora os empresários (talvez fôssemos mais precisos se disséssemos o patronato, porque na realidade empresários dignos desse nome não há assim tantos) clamar por cada vez maior intervenção e ajudas do estado, desse mesmo estado que, em tempo de vacas gordas, despudoradamente consideravam como um estorvo às suas actividades.

No que a nós diz respeito, de modo nenhum contesto a intervenção “socorrista” do nosso estado. Mas também direi que apreciaria grandemente que o nosso governo, recentemente empossado, não esquecesse em momento algum a pobreza em Portugal e a elegesse como uma das suas principais bandeiras.

As estatísticas oficiais disponíveis apontam para uma taxa de pobreza em Portugal em redor dos 18% da sua população, mas há quem defenda, e provavelmente com razão, que se for analisada com mais rigor ela será bem mais elevada e tenderá a aumentar ainda mais.

Perante um horizonte destes tão carregado de nuvens negras e uma vez que temos a época Natalícia a aproximar-se a passos largos, julgo ter cabimento perguntar se o nosso governo já terá pensado bem na angústia e na indignação sentidas por muitos dos nossos concidadãos que, como toda a gente, gostariam de a celebrar condignamente mas estão irremediavelmente impossibilitados de o fazerem por absoluta falta de meios?

Já se terá dado conta de quão injusto e contrário ao espírito cristão, de que tantos por aí se reclamam, é a recusa dessa vivência festiva a tanta gente que a insensibilidade e a falta de escrúpulos (há quem torne as culpas à crise e só a ela) empurraram para as margens da sociedade?

Ainda muito recentemente num congresso dos economistas, Fernando Nobre, presidente da AMI e cidadão impoluto, chamava a atenção do auditório, em boa parte constituído por gente com responsabilidades no destino do país, para a pobreza que grassa em Portugal e considerava a situação vergonhosa e de todo inaceitável.

E avisava que se nada for feito, as próximas gerações inevitavelmente acusarão as actuais de lhes terem outorgado uma sociedade em perigo. Foram sem dúvidas palavras avisadas, só é pena que tenham caído em saco roto.

Tenho para mim que a pobreza com os níveis que já atingiu é uma condição social tremendamente injusta e difícil de explicar num Mundo de abundância como o actual, ainda que em crise.

E não tenho dúvidas em considerá-la como uma situação de tal modo chocante que só a consigo ver como geradora de tensões e sentimentos de revolta que, confesso, muito me admira sejam reprimidos em silêncio no interior de cada um dos que a sofrem.

C. Quintino Ferreira



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