Quinta-feira, 12 de Novembro de 2009

Se Isabel Alçada estava convencida de que ontem era o seu primeiro dia de "uma aventura com os professores" estava equivocada. Ao que ela deu início foi a "uma aventura com os sindicatos", coisa bem diferente. Acresce que esta nova etapa de "uma aventura" é desconhecida para Isabel Alçada e é um terreno mais ou menos minado, um teste muito duro para uma nova ministra.

Não sendo uma política, a ministra deve estar convenientemente "briefada" para estes embates e deve ter uma retaguarda de apoio a funcionar em regime de S.O.S. permanente. Mas nem assim será fácil. O conflito do anterior Governo com os professores chegou onde chegou e foi o principal tónico dos partidos da Oposição, pelo que a ministra, não podendo contar com facilidades dos negociadores sindicais, vai ter ainda de suportar o peso político dos partidos parlamentares, totalmente indisponíveis para cederem num terreno em que conhecem as enormes fragilidades que, nesta matéria, o Governo traz da anterior legislatura.

É evidente que a ministra pode sentar-se diante dos sindicatos e dar conta da disponibilidade para ceder dentro de determinados parâmetros. A boa vontade e o espírito de abertura chegariam se o Governo pudesse contar com a compreensão popular. Mas o Governo também perdeu essa batalha e sabe-se hoje que a opinião pública não apoiará finca-pés do Governo ou recuos mais ou menos simulados. Pelo que, das duas, uma: ou Isabel Alçada tem em mãos uma solução milagrosa que surpreenda os sindicatos e não deixe o Governo malvisto em relação ao passado recente; ou então, a par da manutenção das negociações em bom clima - é essencial que estes primeiros encontros recoloquem a confiança entre as partes -, Isabel Alçada terá de jogar em dois tabuleiros, porque não poderá descurar uma conveniente informação para o público em geral deixando claramente definidas as fronteiras em que se move e a razão de ser de tais limites.

O que tudo isto quer dizer é que ao seu peso específico, os sindicatos dos professores juntam hoje o apoio - quase incondicional - dos partidos da Oposição, bem como a simpatia de uma fatia significativa da opinião pública. Isabel Alçada tem a seu favor o facto de ser nova na tarefa, o ter sido professora e, por sinal, delegada sindical e, finalmente, o facto de pertencer a um partido que ganhou as eleições. Aos sindicatos, e até a certa Oposição, pouco interessará quem ganhou as eleições, porque vêem o problema pelo lado da perda da maioria absoluta. A verdade é que é tudo isto o que está nos pratos da balança. E se ela pender para um dos lados, seja por acção sindical, da Oposição ou do Governo, ai de quem provocar o desequilíbrio e prefira o confronto a uma solução. Os deslizes pagam-se caro.

[Jornal de Notícias, José Leite Pereira]



Publicado por JL às 00:05 | link do post | comentar

2 comentários:
De marcadores a 12 de Novembro de 2009 às 07:55
Isabel Alçada nem sabe onde se meteu.
Acho que esta análise está muito bem explanada, nomeadamente no que diz respeito à "aventura" que esta nova ministra vai ter, não ser com os professores, mas sim com os sindicatos.
Agora na minha opinião esta análise erra quando diz esta luta dos professores (sindicatos) tem a simpatia de uma fatia de opinião pública. Só se for uma fatia muito fininha...
Considero mesmo que parte dos bons resultados eleitorais do PS se devem em não terem recuado em relação a este assunto, como teria sido fácil, antes das últimas eleições.


De Zé T. a 13 de Novembro de 2009 às 09:41
Bom artigo .
mas
«...Não sendo uma política [[--erro do autor: pode não parecer, mas ela É política !! e de 1ºplano !!, embora num registo inesperado]],
... a ministra deve estar convenientemente "briefada" para estes embates e deve ter uma retaguarda de apoio a funcionar em regime de S.O.S. permanente. ...»

'' I.A. nem sabe onde se meteu'' - quanto a esta afirmação talvez 'Marcadores' tenha alguma razão ... mas não pelos argumentos que aduz.


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