Teóricos e oferta

Análise concreta da situação concreta?

Daniel Bessa, no Público, decidiu armar-se em economista “leninista”. Versão capitalismo de guerra. Só não diz quem tem realmente as responsabilidades concretas pela situação concreta.

Tem uma vez mais a palavra João Pinto e Castro, numa posta que dava um bom livro:

“Esta recomendação [de Vítor Bento, mas serve para Daniel Bessa] é uma variante do ‘faz força, que eu gemo’.

Certos economistas empurraram o país para uma camisa-de-onze-varas e, depois de ele lá estar enfiado, exortam-no a desenrascar-se.

Por outras palavras, eles congeminam uma política muito certinha no papel, mas não cuidam de ponderar as condições políticas e sociais indispensáveis à sua consecução. É, aliás, em boa medida nesta despreocupação que consiste a alegada ‘pureza científica’ desta forma de conceber a teoria económica.

Eles dizem como é; quanto ao resto, os políticos, os empresários e os trabalhadores que resolvam.

 

Oferta que cria a sua procura?

“O Estado português tem vindo a ser desmantelado pelas privatizações, resultado da importação pacóvia de uma ideologia liberal.” João Confraria no último Expresso da Meia-Noite na SIC-Notícias, que contou também com Carlos Figueiredo, Miguel Frasquilho e Henrique Neto.

Raras vezes se assiste a isto na televisão e por isso mais vale referir tarde do que nunca. Estado predador ou Estado estratego?

A questão não desaparece. Espero que debates como este se possam repetir. Um debate não é um plano inclinado.

Gostei de ver Henrique Neto contestar as certezas “estatísticas” de Miguel Frasquilho, a propósito da necessidade de “flexibilizar” ainda mais as regras laborais.

Neto, um arguto observador com ampla experiência industrial, defende que tal não é necessário, a não ser que queiramos continuar na mesma mediocridade económica.

Uma lição de economia institucionalista a reter: as regras laborais exigentes são uma arma da modernização económica.

Neto assinalou ainda a falta de rumo deste governo em termos de política industrial. Captura pelos sectores rentistas?

Enfim, parece haver espaço para algum debate económico na SIC-Notícias, para além da vulgata catastrofista dos Medina Carreiras: a tonteria com eco televisivo vende “livros”, mas estou certo que os verdadeiros debates, aqueles onde diferentes visões se confrontam, resultam melhor.

A pergunta de Pedro Lains parece-me insuficiente: “Por que é que Medina Carreira e Ernâni Lopes têm tanta audiência?”

Talvez a questão esteja mais do lado das decisões de oferta televisiva, que, em certa medida, alimentam a sua própria procura e a dos outros suportes…

[Ladrões de Bicicletas, João Rodrigues]



Publicado por Xa2 às 00:01 de 13.11.09 | link do post | comentar |

2 comentários:
De Bessa ou B... a soldo? a 13 de Novembro de 2009 às 11:05
OS GRANDES VOTOS

«Sem preocupações de grande rigor, poderia começar por afirmar que, de modo geral, queremos todos mais ou menos o mesmo: paz, amor, felicidade, viver bem (conforto, segurança). [- os ''grandes votos'']
...
O problema é que os "grandes votos" fazem parte do aspiracional, para não dizer do ilusório, ou, noutra linguagem, do metafísico e do transcendental. São bonitos mas servem para pouco, se se trata de responder a uma outra questão: que fazer?
...
A análise concreta da situação concreta revela que, infelizmente [ !! ], os portugueses vivem bem demais [ !! ]- vivem, pelo menos, muito acima das suas possibilidades. Produzem um pouco menos de 90 por cento dos bens que absorvem seja para consumo (em família, ou através do Estado) seja para investimento (em casa, nas empresas ou, de novo, através do Estado).
Porque esta situação se prolonga desde há muitos anos, encontram-se muito perto dos limites do endividamento, diariamente confrontados com restrições ao crédito (degradação de ratings, aumento de spreads, aqui e ali, as primeiras restrições quantitativas).

A análise concreta da situação concreta aponta para um único caminho:
produzir mais (e não gastar mais), dar toda a prioridade à produção (e não à distribuição).
Com a escala global que o problema atingiu (o défice e as dívidas são de todos nós), [- calma aí: eu não devo nada ao banco, nem ao fisco, nem à segurança social, nem a fornecedores...]
e num mundo tão aberto e tão globalizado como aquele em que viemos a viver (os credores são externos) não há outra forma de seguir o caminho preconizado que não seja: exportar, exportar, exportar...

Exportar, investir para exportar, criar emprego em actividades (indústrias e serviços) exportadoras, consumir internamente (começando pelos rendimentos gerados nas actividades exportadoras), aumentar a cobrança de impostos por parte do Estado (começando pelo rendimento gerado nas actividades exportadoras, sem aumento das taxas dos impostos [-aos bancos e ... deveria ser cobrados impostos de % igual que as restantes empresas e singulares pagam e não apenas 15% !! ] )
é a única via que se oferece à sociedade portuguesa para começar a vencer os desequilíbrios económicos que a sufocam e, a mais longo prazo, começar a caminhar num sentido mais consentâneo com as suas grandes aspirações.

Que estas exportações tenham de ter um conteúdo tecnológico crescente, incorporando também cada vez mais inovação, em geral, faz já parte do procedimental (ditado por preocupações idênticas de "análise concreta da situação concreta"), não sendo para aqui chamado, neste momento.

O pior cenário é o de podermos partir para a realização dos mesmos "grandes votos" convencidos de que o caminho terá de ser o do aumento da procura interna - caminho já experimentado, com êxito, e porventura ainda experimentável, com o mesmo êxito expectável, em situações concretas muito diferentes das nossas: em grandes economias, muito mais fechadas (com baixo conteúdo de importação), de preferência menos endividadas.

A curto prazo, ...-->


De Grandes Votos a 13 de Novembro de 2009 às 11:34
...
A curto prazo, mesmo em Portugal, tudo correrá melhor. Haverá mais despesa, mais animação nos mercados, mais emprego.
Os fornecedores estrangeiros exultarão (sendo muito provável que os seus governos não lhes estraguem a festa, deixando-os vender, primeiro, para nos virem recordar, depois, que gastamos demais, e que temos de "apertar o cinto").
O mesmo sucederá com alguns fornecedores nacionais (refiro-me ao "exultarão"). O sistema financeiro internacional (leia-se, europeu, a começar pelo mais institucional) poderá esperar mais um pouco, não restringindo tanto, já, o crédito ao nosso país.

Repetir-se-ia, a ser assim, o erro que comandou a política económica portuguesa ao longo de toda a década de noventa do século passado.
E, um belo dia, alguém teria de fugir de um "novo pântano", desta vez pior, porque sobretudo económico (e não apenas ou predominantemente político). Ter-se-ia perdido, uma vez mais, a oportunidade de "regenerar" a economia portuguesa.»
- por Daniel Bessa, economista, no Público, via Jumento.
......................

[ Com a integração de Portugal na União Europeia e no sistema Euro, num mundo tão aberto, globalizado, capitalista (o que interessa é o dinheiro, o lucro),... termos/ conceitos como:
''nós'', ''país'', ''nacional'', ''empresas estrangeiras'', ''exportações'' ''importações'', ''PIB'', etc são grandes tretas completamente ultrapassadas...

o que ainda resta, ''de concreto'', de ''Portugal'' (e não de 'portugueses' ou de 'nacional'), são 'bens' pertença de pessoas concretas (que até podem ser estrangeiras ou ter dupla nacionalidade ou estarem emigradas) ou de uma determinada comunidade:
os campos, as estradas, as fábricas, os carros, os empregos, o dinheiro que recebem no final do mês ... ou não.
As ''fronteiras nacionais'' são cada vez mais um resquício anacrónico de que nos temos de libertar para assumirmos cada vez mais a nossa ''cidadania europeia'' e ''cidadania da Terra''.

Bem hajam os projectos transfronteiriços, os programas Erasmos, ... a Liberdade de circulação e trabalho na UE, e a Emigração - a que os nossos governantes de hoje e do passado nos OBRIGARAM, por não terem sabido... governar decentemente este país !!.
(e que qualquer dia espero ver sentados no banco dos réus do Tribunal Europeu !!)


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