De Domesticação da comunicação social a 19 de Novembro de 2009 às 14:48
'Que las hay, hay'

Uma estratégia bem sucedida de domesticação da comunicação social serve sempre o poder executivo, qualquer que seja a sua cor (e, consequentemente, fragiliza sempre a democracia).

1 - Os exercícios de autocitação têm sempre um quê de balofa presunção. Seja. Mas, na sequência das notícias publicadas no Correio da Manhã do passado sábado, que davam conta de conversas entre José Sócrates e Armando Vara sobre os destinos de vários dos grupos de comunicação social portuguesa, não resisto a lembrar o que escrevi, ainda há bem pouco tempo, aqui na VISÃO:

"Só por manifesta cegueira político-partidária não se entende que, ao longo dos últimos anos, aumentaram, e muito, a quantidade e a natureza das relações perigosas entre os interesses político, empresarial e mediático.
A promiscuidade dessas relações não toma, necessariamente, a forma de microfones em Belém nem de assessores de gabardina e óculos escuros, infiltrados em viagens de Estado.
Mas lança empresários e políticos numa dança macabra (em que não chega a perceber-se quem marca o passo e quem volteja graciosamente conduzido), domestica boa parte de uma comunicação social que - para ajudar à festa - vive uma das maiores crises da sua existência, condiciona o debate, marca - muitas vezes por omissão - a agenda política e, por conseguinte, atrofia a democracia."

2 - O primeiro-ministro fala do que bem entender, com quem bem entender. E pode bem ser que, devidamente contextualizada, a história relatada pelo CM nada tenha de escabroso.
Mas depois do folhetim que envolveu a venda da TVI, depois da novela Moniz/Manuela, depois de toda a polémica em torno da tese da "asfixia democrática", o eng.º Sócrates não pode, convenientemente, remeter-se a um institucional silêncio.
O que está em causa é, do ponto de vista democrático, grave demais. E este é um daqueles casos em que o silêncio corre o risco de se tornar ensurdecedor.

3 - Quem também não pode limitar-se a assobiar para o lado em toda esta história é o procurador-geral da República. Mais uma vez, trata-se de um silêncio absolutamente insuportável.
O País tem o direito de perceber por que raio, se é verdade o que noticia o Público do passado domingo, estiveram as certidões do Face Oculta quatro meses paradas na PGR.
É que, é bom lembrá-lo, não se trata de quaisquer quatro meses.
Durante esse período, ocorreram, em Portugal, nada mais, nada menos, do que dois actos eleitorais.

4 - Não foi por acaso que acima me referi a uma "cegueira político-partidária". Fi-lo porque entendo que esta é, antes de mais, uma matéria de regime.
O cerne da questão não é saber se eventuais manobras de condicionamento do sistema mediático foram conduzidas por um governo socialista ou social-democrata, de esquerda ou de direita.
O que é essencial perceber é que uma estratégia bem sucedida de domesticação da comunicação social serve sempre o poder executivo, qualquer que seja a sua cor (e, consequentemente, fragiliza sempre a democracia).

Desenganem-se, portanto, os que acham que não existe um certo PSD "mortinho" por tirar partido, quando chegar a sua hora, de qualquer sucesso que um executivo socialista possa conseguir nesta matéria.
Nestas coisas, diz a experiência, nenhum governo tem incentivo ou coragem para corrigir as asneiras dos executivos anteriores.
Estes feitiços sobrevivem a quaisquer feiticeiros.

- Pedro Norton, Visão, 12.11.2009


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