No país da sucata

Jorge Coelho, presidente executivo da Mota-Engil, a maior empresa de construção nacional, deu uma entrevista ao semanário Sol em 18 de Setembro pas­sado que talvez nos ajude a entender as nebulosas relações entre negócios e política no nosso país. Quando lhe foi perguntado se achava que a em­presa que dirigia era beneficiada ou prejudicada nas adjudicações, disse: "Muito do que se passa na política, por detrás de coisas que são feitas... se os portugueses soubessem, ficavam com ainda menos respeito pela vida política." Os jornalistas quiseram saber se ele se referia a todas as alas políticas, ao que ripostou: "Tudo, tudo, tudo". Interrogado sobre quando é que tudo isso se ia saber, a resposta foi curta: "Nunca".

Ele, que antes de ser empresário foi político durante quase 30 anos ("conheci muita gente e tenho conheci­mentos ao nível da banca portuguesa e internacional que são fundamentais na minha profissão", informou noutro passo da entrevista), deve saber do que estava a falar. Nós, que não sabemos, temos de nos limitar a imaginar. E não é difícil imaginar, porque o ex-ministro de Estado e do Equipamento Social de um Governo do PS, não dizendo nada de concreto, disse mais do que diria dizendo. A mim, pelo menos, não me custa muito imaginar que Jorge Coelho converse, pelo telefone ou ao vivo, com os seus amigos e conhecidos no Governo ou na banca e não tenha de esperar para ser não só atendido como bem atendido.

Certo é que, à data da entrevista, pouco an­tes das eleições legislativas, as acções da Mota-Engil estavam a subir a pique, tendo continu­ado a subir até atingir, em 9 de Outubro, nas vésperas das eleições autárquicas, o máximo de 4,53 euros (mais do dobro do mínimo re­gistado este ano, em 5 de Março). A cotação da Mota-Engil constituiu, para alguns analistas, um bom previsor dos resultados eleitorais. Essa foi, de facto, uma verdadeira sondagem, cuja margem de erro se revelou menor do que a das sondagens convencionais.

Nada disto é novo. A promiscuidade entre negócios e política é entre nós antiga e será uma das razões pelo desrespeito que os portugueses têm pela vida política, desrespeito que Jorge Coelho, aliás, reconhece. Esse mal-estar não é uma impressão difusa e não-quantificável, pois há dados sociológicos que exibem com clareza a nossa desconfiança em relação ao funcionamento das empresas e instituições. A organização Transparency Internacional acaba de divulgar o seu relatório anual sobre a percepção da corrupção num grande número de países, e continuamos em queda nesse ranking mun­dial da corrupção. Se no ano transacto tínhamos caído do 28.° para o 32.° lugar (eram invocados os casos do Apito Dourado e do financiamento ilícito da Somague ao PSD), agora caímos do 32.° para o 35.° lugar, onde estamos a par com Porto Rico e logo antes do Botswana (não foram desta vez adiantadas explicações, mas pode-se adivinhar quais são).

[Público, Carlos Fiolhais]


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Publicado por Izanagi às 10:14 de 23.11.09 | link do post | comentar |

1 comentário:
De Pedro Camacho a 23 de Novembro de 2009 às 18:39
A pergunta de um milhão de dólares não é se as escutas são válidas ou inválidas, mas se apanharam ou não matéria incriminatória

O caso Face Oculta ocupa-nos há já várias semanas. É mais um escândalo com contornos graves, pelo menos até que apareça outro escândalo igualmente grave. A prova acabada do funcionamento da nossa democracia e da liberdade do nosso regime político reside aqui, na capacidade de abrir processos - e com pompa, circunstância e nomes a condizer. Ou as coisas ficam piores. Os casos não andam, e acabam mesmo por perder-se, ou perder o seu sentido, no dia em que são engolidos pela abertura explosiva de outro qualquer megaprocesso.


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