O buraco

Uma instituição nacional, o buraco. Existe desde os tempos mais remotos. Pelo menos, desde que os árabes viram que os Romanos estavam com problemas lá para os lados da Serra da Estrela e vieram correr com eles. De início, os buracos nem eram notados por aí além. Até que, pelo século XVI, um jovem endiabrado, de nome Sebastião, abriu um buraco tal de que, até hoje, ainda não conseguimos livrar-nos. Um autêntico buracão. Um poço. Algo que está de tal modo enraizado em nós que até usamos dizer que estamos no fundo do poço. Fizemos uns remendos aqui e além, é verdade. Mas o buraco, o grande buraco, esse nunca mais deixou de existir. E, o que é pior, temos passado o tempo todo, desde então, a fazer ainda mais buracos no buraco. Acrescentando o buraco original. São os buracos de segunda, de terceira, de quarta, e por aí fora, geração. Não há geração que não tenha o seu buraco. E o pior do buraco é que não há meios buracos nem quartos de buraco. Não há buraquinhos nem furinhos. Tudo é buraco. Um buraco é um buraco e pronto. Qualquer outro buraco que se abra no buraco só acrescenta o tamanho do buraco, nada mais. A fossa das Marianas que se cuide. Qualquer dia deixa o Guiness, substituída pelo nosso buraco.

Pela minha parte, limito-me a olhar e a meditar sobre os buracos abertos pelas demais gerações que me antecederam. Mas o buraco, o grande buraco, que a minha geração tem acrescentado ao buraco original, esse não, desse sou parte dele. Ademais, talvez porque o buraco já vai muito fundo, encontramos água. Já não é só o buraco. É que o buraco está a meter água por todos os lados. É água no orçamento, é água nos tribunais, é água na polícia, é água na balança, é água no emprego, é água nos ideais, é água nos comportamentos cívicos, é água por todo o lado. Por isso, é que eu louvo um senhor chamado Paulo Portas pela decisão que tomou de comprarmos submarinos. Com tanta água, só submarinos nos podem salvar. E o buraco é tão grande que comporta, perfeitamente, meia dúzia de submarinos nele a navegar. Devem mesmo ter alguma dificuldade para se localizarem uns aos outros no meio do buraco.

Foi no meio desta buracada toda que algo veio perturbar a minha razão. Uma senhora minha conhecida, que é telefonista numa empresa pública e que tem a mania de escutar os telefonemas de toda a gente lá na empresa, procurou-me, perturbada, a dar conta de um telefonema da administração que tinha escutado. Disse ela que foi mais ou menos assim:

- Tou…

- Tá, Zé? Ainda bem que te encontro…

- Eh pá! Já não te ouvia há muito tempo… A família está bem?..

- Ó pá, deixa lá a família que temos coisas mais importantes a conversar. Preciso dos teus serviços. Quero que dês uma palavrinha ao chefe do armazém lá da tua empresa para que ajude um amigo meu…

- Puxa… Não podes pedir-me isso, pá! Um presidente não pede favores ao encarregado do armazém…

- Mas eu não estou a falar para o presidente! Estou a falar para o meu amigo Zé…

- Pois… Mas o Zé e o presidente são duas coisas perfeitamente diferentes. Um não pode saber dos negócios do outro…

- Tás-me a enrolar pá! Mesmo que seja assim, achas que o Zé não pode dar uma palavrinha ao presidente?..

- Desculpa, Mando. Gosto muito de ti, mas não faço concessões desse género. Eu separo perfeitamente as águas. O Zé não sabe o que o presidente faz e vice-versa. Senão, caía aqui numa confusão do caraças…

- Ó pá! Mas é para aquele amigo nosso, o Claudino… Sabes, aquele que, quando precisaste de alugar casa, adiantou o dinheiro para o pagamento dos dois meses adiantados de renda… Tu agora já não precisas, mas na altura fez um jeitão…

- Ah… A esse não podemos dizer que não, não é?... Qual é o favor que ele quer, pá?

- Bom... É que ele negoceia em anilhas enferrujadas. E eu sei que tu tens aí na empresa muitas anilhas enferrujadas para vender… E o Claudino queria comprá-las… Mas queria isso num preço jeitoso…

- Ó Mando! Isso não é pedido que se faça!... Metes-me num sarilho do caraças… Se isto se sabe, quem fica anilhado sou eu…

- Ó Zé… Tu tens muita imaginação… Estou seguro de que encontras uma solução…

- Não é fácil, pá. Mas vamos fazer assim, então. Tu telefonas-me logo à noite, para casa, e fazes-me o mesmo pedido. Assim, protegemos o presidente que sou, que fica a não saber nada do assunto. E, como não sabe nada, amanhã pode dar a ordem para venda das anilhas. E até pode fazer isso dando à ordem um carácter de urgência, para não haver tempo para essa porcaria dos concursos públicos, que só atrasam o nosso desenvolvimento. Entretanto, eu logo digo-te para dizeres ao Claudino que apresente amanhã mesmo uma proposta para comprar as anilhas. Só não o digo agora, porque o presidente não pode fazer isso. Portanto tu só lhe podes dizer amanhã, senão isto fica escondido com o rabo de fora. Isso, combinado com a urgência com que o presidente vai pedir para a venda das anilhas, acho que vai solucionar o problema.

- Eu já sabia que tu encontravas uma solução, Zé. Obrigado, pá…

- Mas, já agora, diz-me uma coisa, pá… Que é que tu ganhas com isso, Mando?..

- Oh!... Nada pá. No máximo, o Claudino é bem capaz de me mandar um cabaz de sardinhas lá para a casa. E tu sabes como as sardinhas da zona dele são boas… Se ele fizer isso, pá, faço uma sardinhada lá em casa e convido-te… Ah!.. Ó Zé, se eu fizer a sardinhada, pá, quem é que eu convido?.. O Zé ou o presidente?..

 

A conversa que a curiosa telefonista me revelou, a ser verdade, levanta no meu espírito uma questão de muito difícil resolução. E digo “a ser verdade”, porque isto da verdade também é um grande buraco. A gente olha, olha, para a verdade e quanto mais olha, menos vê. Deve estar sempre muito funda, a verdade. No buraco. E a questão que me levantou a revelação é esta: os presidentes acham que nós somos mesmo estúpidos ou acreditam piamente nas suas construções mentais? É uma questão não gratuita. É que, das duas, uma: ou os estúpidos somos nós ou os estúpidos são eles. Não há meio-termo. Mas eu tenho uma premonição. Penso que os estúpidos são os accionistas de empresas como as que têm um presidente assim. Por uma razão simples. Pagam-lhes principescamente e não têm um presidente a full-time. Por exemplo, se houver um incêndio na empresa, a meio das noite, e o contínuo telefonar ao presidente, apanhando-o quando este está a fazer amor com a namorada ou com a mulher, corre bem o risco de ouvir uma voz sibilina e ofegante do outro lado do fio, dizendo:

- Não me chateie! Eu não sou o presidente a esta hora! A esta hora sou simplesmente o Zé!

[Poliscópio, Magalhães Pinto]


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Publicado por [FV] às 19:41 de 09.12.09 | link do post | comentar |

1 comentário:
De Zé T. a 11 de Dezembro de 2009 às 09:07
Bem esclarecedor da situação em Portugal ou da percepção que muitos cidadãos têm desta sociedade ... e, por mais que não se encontrem provas suficientes, ou existam problemas processuais técnico-jurídicos que as invalidem,... a verdade é que já ninguém acredita em declarações de ''não culpados'' e em palavras de ''inimputáveis'' ...


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