Não digas. Não cuspas…

É talvez uma das notas do provincianismo português, que já Pessoa detectava nos basbaques que se maravilhavam de boca aberta das monumentalidades alheias. O sentido pacóvio dos espantos alarga-se muitas vezes à ideia do país como uma espécie de fatalidade do mal, onde só o que é pulha triunfa. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. É verdade que esse traço persistente de desvalorizar tudo à nossa volta, essa menorização do país, essa ideia de que tudo o que é nacional é mau, refinou-se de forma surpreendente. Alguns por puro analfabetismo, outros por sobranceria intelectual, outros ainda por um sentimento de inveja (visível, apesar de disfarçado), dão curso a essa retórica pacóvia e vazia de apoucamento. Parece que não gostam do sol, nem do mar, abominam a realidade e inventam universos em que, provavelmente, eles são reis e felizes na doce ilusão de um paraíso perdido para consumo próprio. Muitos deles têm responsabilidades no estado a que chegámos, mas falam como se jamais tivessem posto a mão na coisa pública. Dizem nada aos costumes. É um discurso que, geralmente associado a um catastrofismo idiota, rende apaniguados do quanto pior melhor, trampolim para a glória dos painéis de comentadores de televisão (sempre os mesmos, claro) ou para colunas de cátedra de jornais onde destilam venenos (Vasco Pulido Valente) e dilúvios (Medina Carreira). Também ilustres milionários, que dilataram cifrões à sombra do Estado, à mínima beliscadela nos seus interesses logo se apressam a ameaçar com a ida para o estrangeiro.

 

Ainda a semana passada, Vasco Graça Moura retomava o seu registo apocalíptico da actualidade: ele só vê porcaria na banda dos socialistas, que derrotaram por voto popular o partido em que milita VGM e de onde, por sinal, tantas porcarias têm emergido (basta lembrarmo-nos dos figurões do BPN). Mas essas serão porcarias quimicamente puras… «O país votou nessa cambada. O país prefere a porcaria. Já está formatado para viver nela e com ela», escreve Graça Moura. Faziam bem, ele e os outros arautos que gostam de parir ideias abaixo de zero, em parar um pouco para lerem um aviso de Virgílio Ferreira (Escrever, página 215), que aqui com gosto e a custo zero, lhes ofereço: «Não digas. Não digas mal do país, ou seja, de ti. Terás talvez a ideia de que o dizeres mal te separa do resto e te alça a ti a uma posição altaneira. Não penses. Fazes parte daquilo em que cospes, és pertença dessa sujidade. A grandeza de uma ofensa tem que ver com ela própria. A grandeza do cuspo é o escarrador que és tu. Aprende o orgulho de ti na grandeza ou na miséria. E se queres condenar a miséria que também é tua, fala um pouco grosso que não te fica mal. Podes talvez lamentar mas não escarnecer. Se cospes tornas visível o cuspo naquilo em que cuspiste. Como queres que os outros te respeitem se tu mesmo não o fizeres? Para o lixo há recipientes apropriados em que esse lixo não se vê. Não cuspas mais no país para que os outros não se enojem do cuspo em que revelas a terra que é tua e que, portanto, és tu». Não digas. Não cuspas...

[A Escada de Penrose, Rui Herbon]



Publicado por JL às 19:34 de 12.12.09 | link do post | comentar |

DESTAQUE DO MÊS
14_04_botão_CUS
MARCADORES

todas as tags

CONTACTO

Email - Blogue LUMINÁRIA

ARQUIVO

Junho 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Online
RSS
blogs SAPO