Segredo e Justiça

Haverá certamente quem pense que Armando Vara é culpado. Por mim, estou convencido de que é inocente. O mesmo penso de José Penedos, embora seja de Vara que cuido hoje. Não se trata de convicção emocional. Cheguei à conclusão da inocência por várias vias.

Em primeiro lugar, o insólito do caso. Vara seria a cabeça de um polvo corruptor, teria recebido dinheiro vivo, organizaria encontros e abriria portas ao tráfico de influências. Teria reuniões frequentes com uma "máfia" de transmontanos (conheci várias, ao longo de quarenta anos de vida pública e delas retirei sempre amizade e boa mesa). Abriria todas as portas com a gazua da proximidade a Sócrates. Aduziam-se resultados fantásticos de tecnologias de espionagem importadas de Israel. Pior que tudo, vindo de baixo, banqueiro activo e considerado, gera a inveja essencial para uma completa ficção. Não pude deixar de estabelecer a analogia com a rede de pedofilia anunciada como a mantra do "caso Casa Pia". Uma rede tentacular que atingiria grandes figuras, bastando a opinião vaga de testemunhas incredíveis, mirando fotografias com elevada densidade de dirigentes do PS, para se ser nela inscrito, logo suspeito. Mentiras cirurgicamente destiladas nos media, ou mesmo a prisão, precederam a pronúncia. Tudo, no mais inviolável, mas cronicamente violado segredo de justiça.

Em segundo lugar, a convicção da defesa de Vara. Enfrenta a adversidade com fibra. Pediu suspensão de funções, falou frontalmente aos media, transborda de determinação e garra, de quem não está disposto a deixar os seus créditos arrastados na lama. Pediu ou vai pedir, na parte que lhe diz respeito, a publicação de todos os elementos que o indiciam. Veremos se lhe darão esse direito, ou se argumentam com o prejuízo da investigação, ou, o que seria o cúmulo do cinismo, com a protecção da sua defesa. Vara já afirmou não pretender regressar às funções no banco, antes de tudo se esclarecer.

Em terceiro e último lugar, parece estar a esboroar-se a acusação. Não há provas de ter recebido qualquer quantia, agora apenas teria praticado tráfico de influências. O montante da caução, um sexto do que teria pedido o Ministério Público, dá conta de uma deflação acusatória, que em nada confirmaria a teoria da rede tentacular. Jornais já admitem que a Justiça tenha uma vez mais errado.

Não sabemos o que está para vir ou acontecer. Mas já não surpreende mais um erro.

Ao vir a um programa de grande audiência, Vara defendeu-se no terreno em que o atacaram os violadores do segredo de justiça. Mas com as limitações de quem cumpre a lei, a qual, neste caso só prejudica o arguido. Sabendo que a manipulação do segredo é o seu pior adversário, não a Justiça.

[Diário Económico, António Correia de Campos]


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Publicado por JL às 00:01 de 16.12.09 | link do post | comentar |

1 comentário:
De DD a 16 de Dezembro de 2009 às 12:00
O que está em causa por parte de certos agentes da "justiça" é deixar suspeitas no ar, ou antes, na comunicação social e isso basta como arma de arremesso político.

É agora o caso do Varas. É ainda o caso Freeport de que não se sabe nada de concreto ao fim de cinco anos de investigação.

No caso da menina Maddie, a justiça portuguesa abandonou prontamente o processo. Não encontrou cadáver e pronto, mas houve a realidade do desaparecimento da menina e não se quis apurar seja o que for.

No caso Freeport não há cadáver, há apenas uma carta anónima sem provas de nenhum carácter e com a informação de que na origem (Freeport, agora Carlisle) não há provas ou dados sobre quaisquer pagamentos de luvas a Portugal. Claro, como tudo, isso pode não ser verdade, mas é infantil da parte dos procuradores ter a ideia de que a direcção americana da Carlisle/Freeport esteja interessada em intervir na política portuguesa e considere o Sr.Palma ou outro procurador como pessoa mais importante que um PM.
Mas, sendo verdade ou não, os procuradores e investigadores têm de analisar provas, tal como o fizeram com o caso da menina Maddie. Nada têm contra José Sócrates, mas não querem por razões políticas, pôr um ponto final no processo.

Hoje, qualquer um pode escrever uma carta anónima contra aguém na política e desencandeia-se um processo como aconteceu recentemente contra um presidente de Câmara que nem sei de que partido é.

Eu posso admitir que o Cavaco Silva recebeu luvas dos construtiores da Ponte Vasco da Gama, pela simples razão de que a construção foi entregue a uma empresa que nada tinha a ver com obras, a empresa "Trafalgar House", pertença do marido da Sra. Tatcher que se limititava a traficar influências obtidas pela Sra Tatcher, enquanto chefe do governo britânico. Era um pequeníssimo escritório de comissões.

A Trafalgar House nunca construiu nada, não tinha engenheiros nem arquitectos ao seu serviço. Ganhou o concurso de maneira muito esquisita e entregou a obra a uma empresa francesa que utilizou os serviços de outras empresas suecas, holandesas, etc.

O curioso é que a "Trafalgar House" cessou as suas actividades ainda antes de terminada a obra e, precisamente, na altura em que os tablóides britânicos acusavam a "Trafalgar House" de estar na origem de casos de corrupção (luvas) com a venda de material de guerra britânico a vários países. Na altura, acusaram o filho da Sra Tatcher que trabalhava na TH de ser o culpado. Não, o rapaz foi apenas o bode espiatório e só gostava de andar em ralies.


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