Quinta-feira, 17 de Dezembro de 2009

Esta madrugada, já tinha passado a primeira hora do dia, Jerónimo acordou estremunhado e perguntou à mulher.

- O que é está acontecer? O Alpedrinha saiu com os pára-quedistas para a rua, querem matar-me? Há um golpe fascista sem me terem avisado?

- Não, Jeró, parece que é um sismo, vou acender a luz.

- Estás a ver as cortinas a mexerem-se e olha a foice e o martelo da parede,  moveu-se.

- Ah, pois é, vou levantar-me e ver se há estragos.

Jerónimo levantou-se e pensou, “vou mijar ou inspeccionar tudo primeiro. Não, vou ver se há estragos na cozinha”.

Foi à cozinha e estava tudo em ordem. Os pratos sujos estavam no local em que foram deixados, não havia copos caídos, nada.

- Bem vou à janela, - disse para a mulher que vinha atrás a dizer que não encontrava as chinelas.

Jerónimo abriu a janela e debruçou-se, dizendo: - está frio, porra, e ninguém à janela nem na rua. Terei sonhado? Vou à porta das escadas. Poça, ninguém acordou, ninguém abriu a porta, é preciso um comunista preocupar-se com esta m… toda. Com raios, isto é um povo de dorminhocos, por isso é que não votam na CDU, anda tudo a dormir.

Desconsolado Jerónimo voltou para a cama a pensar se podia haver alguma réplica.

Passado um bocado, Jerónimo dá um salto e põe-se em pé. A mulher que tinha adormecido acordou repentinamente e perguntou: - Outro tremor de terra Jeró, a casa vai abaixo?

- Não, mulher, lembrei-me de uma coisa. Vou telefonar ao Ruben.

Ao fim de um longo compasso de espera, lá atendeu o Ruben ensonado a perguntar quem é?

- Sou é, o Jerónimo.

- Ah sim, a uma hora destas.

- Sim pá, não sentiste o sismo?

- Eu não, porra, houve algum?

- Claro que houve, foi há uma meia hora atrás.

- Ah sim, Jerónimo, há estragos, tenho de ir para a Câmara?

- Não pá, foi ligeiro, nem os copos da cozinha se mexeram. Mas, não é isso, pá, é que me lembrei de apresentar aquele projecto antigo de obrigar o Governo a mandar inspeccionar todos os edifícios do país em relação às suas características anti-sísmicas. Tu que és da Câmara sabes disso. Vou falar disso amanhã, mesmo, antes de que o pessoal se esqueça que houve sismo.

- Está bem, mas se houve um sismo não senti nada.

- Se obrigarmos o Governo a mandar inspeccionar todos os edifícios, vai ser bom, óptimo mesmo. Sim, não porque os edifícios fiquem melhor, mas gasta-se uma porrada de dinheiro; não é verdade Ruben?

- Claro que é. Olha, temos 3,4 milhões de edifícios. Um boa inspecção implica um engenheiro mais uns técnicos a trabalharem, pelo menos, uns 3 a 4 dias. Para 3,4 milhões de edifícios são mais de 10 milhões de dias de trabalho para uma equipe ou 10 mil dias para mil equipes. Mesmo que sejam grupos de 3 pessoas, são 300 mil inspectores e tínhamos de dar formação especializada porque não temos engenheiros ou agentes técnicos disponíveis para isso.

- Não faz mal, Ruben, mandamos o Sócrates chefiar isso, o gajo não é engenheiro técnico?

- Está bem Jerónimo, mas sejamos um pouco mais realistas, começamos por apresentar a coisa só para os edifícios do Estado numa primeira fase e depois os restantes. Sempre pode haver por aí alguém que saiba que o País tem 3,4 milhões de edifícios e mais de seis milhões de licenças de utilização válidas. Isto de números grandes ninguém sabe, mas há sempre um carola qualquer que sabe de estatísticas, não na AR ou nos meios de comunicação, mas fora pode haver.

- Ruben! A malta aprova o diploma na Assembleia da República e depois ainda podemos dizer que o Governo não conseguiu inspeccionar tudo. Daqui a dois anos nem 1% inspeccionou. Sim, sempre são 34 mil edifícios. Porreiro, Ruben, mais uma coisa para lançar no ar e andava eu a ver se encontrava qualquer coisa e aparece este sismo a dar uma excelente ideia. Amanhã vai ter comigo à sede e vamos preparar já o diploma legal.


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Publicado por DD às 20:11 | link do post | comentar

1 comentário:
De E esta , hein?!!!! a 17 de Dezembro de 2009 às 23:42
Parabéns ao articulista pelo espírito, insuspeito, de humor


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