Sri Lanka: A tragédia Tâmil

Tristes Tigres: a tragédia tâmil

Ao fim de décadas de conflito, de 26 anos de guerra civil e 70 mil mortos, a tragédia do Sri Lanka, antigo Ceilão, está num ponto de viragem. A guerrilha dos Tigres Tâmiles parece à beira do aniquilamento, o que há um ano era inconcebível. No entanto, mesmo que a guerra acabe, o conflito persistirá.
Estão em confronto um Estado democrático (assente numa “ditadura da maioria”) e uma poderosa guerrilha terrorista, os Tigres de Libertação do Eelam Tâmil (LTTE). De um ponto de vista histórico, trata-se de dois nacionalismos irredutíveis, o cingalês (ou sinhala) e o tâmil. Um bom indício é o fracasso das tréguas e negociações, sempre rompidas, sobretudo pelo LTTE, mas que de facto não agradam a nenhuma das partes: ambas querem a vitória total.
Os cingaleses (maioritariamente budistas) e os tâmiles (maioritariamente hindus) coabitaram durante séculos. Os primeiros chegaram ao Ceilão, vindos do Norte da Índia desde o século V a.C.; os segundos vieram do Sul da Índia (actual Tâmil Nadu), ao longo do primeiro milénio da nossa era. Ambos organizados em castas, separa-os a religião e a língua. Cristãos e muçulmanos são minoritários nas duas comunidades.
Quando os portugueses desembarcaram no Ceilão (1505), encontraram reinos que se guerreavam mas não a fractura étnica, de posterior fabricação. Deixaram a herança de muitos nomes e uma minoria católica, a que a posterior ocupação holandesa juntou um ramo protestante. Os ingleses ocupam a ilha em 1796 e vão colonizá-la metodicamente.
Do ponto de vista dos cingaleses, o problema começa aqui. Por um lado, os ingleses “importaram” em massa tâmiles da Índia, de baixas castas, para trabalho forçado nas plantações de chá (“tâmiles da montanha”). Por outro, favoreceram nas universidades e na administração os tâmiles do Norte, autóctones, tal como os muçulmanos, despertando a cólera da maioria cingalesa, dirigida por monges budistas.
A instauração do princípio “um homem, um voto”, em 1944, sem prever uma federalização, permitiu o monopólio do poder pela maioria cingalesa após a independência (1948). É então que se manifesta o virulento nacionalismo cingalês, vindo do domínio britânico, associando o anticolonialismo a um revivalismo budista. Desde então, o poder cingalês, de esquerda ou direita, recusa liminarmente a ideia de federação ou sequer de uma autonomia tâmil. As primeiras vítimas são os “tâmiles da montanha”, a quem é recusada a cidadania (apenas concedida em 1986, após a maioria ter sido repatriada para a Índia). O verdadeiro conflito é com as elites tâmiles do Norte. Em 1956, o Parlamento e o Governo de esquerda de Salomon Dias Bandaranaike impõem a “cingalização total”, fazendo do cingalês a única língua oficial. Bandaranaike será assassinado por um monge, pois os radicais budistas exigiam muito mais. Em 1961, os tâmiles vêem a suas escolas nacionalizadas e são obrigados a aprender o cingalês. O budismo passa a ser religião de Estado. Para os cingaleses, era a mera justiça. Para os tâmiles, é o começo da revolta pela língua, pela igualdade e pela autonomia.
Tudo muda a partir de 1974, quando jovens radicais tâmiles passam a exigir a independência e optam pela luta armada. O personagem-chave é Velupillai Prabhakaran, um jovem tâmil originário das elites do Norte, que funda o LTTE. Em 1983, depois de várias acções terroristas, começa a guerra civil. Os Tigres não são uma guerrilha vulgar. No fim dos anos 90, controlam e administram 15 por cento do território, no Norte e no Leste: um proto-Estado. É uma guerrilha única, com “força aérea” e “marinha”. A primeira permite fazer bombardeamentos simbólicos, a segunda, com lanchas rápidas armadas, ameaça seriamente a navegação comercial do Sri Lanka. A diáspora e o estado indiano do Tâmil Nadu, tal como os habituais tráficos, asseguram o seu financiamento. Mas o traço central dos Tigres, imposto por Prabhakaran, “tigre supremo” e “deus sol”, é o culto da morte. Usam uma cápsula de cianeto, para morrer em caso de prisão, em sacrifício ao chefe. É ele quem pessoalmente escolhe os membros da sua arma de elite, os “Tigres Negros”, comandos suicidas.
O site do FBI lançou uma adivinha. Que grupo terrorista lidera e aperfeiçoou o uso dos bombistas suicidas? Quem inventou o cinturão explosivo e as mulheres bomba? Quem assassinou, assim, dois líderes mundiais? Não são islamistas, não é a Al-Qaeda, nem o Hezbollah, nem o Hamas. São os Tigres Tâmiles. Nos últimos anos, fizeram mais atentados suicidas do que todos aqueles grupos juntos. A sua ameaça parecia não ter limites.
Em 1991, assassinam o primeiro-ministro indiano, Rajiv Gandhi, no primeiro atentado por uma mulher-bomba. Em 1993, matam o Presidente do Sri Lanka, Ranasinghe Premadasa, num ataque igual. Hoje, Prabhakaran perdeu todos os bastiões e está encurralado pelo exército numa estreita faixa de terreno, protegido por um “escudo humano” de 50 mil pessoas, através do qual tenta negociar um cessar-fogo. Como chegou aqui? Cometeu demasiados erros nos últimos anos, dizem analistas indianos.
O primeiro, antigo, diz respeito à Índia. No fim dos anos 80, Nova Deli enviou uma força militar para o Sri Lanka, a fim de fazer de “tampão” entre os dois campos e negociar uma autonomia tâmil. Prabhakaran atacou-os e forçou uma evacuação humilhante. Seguiu-se o assassínio de Gandhi, que lhe alienou a simpatia indiana.
Hoje, Nova Deli, que quer uma autonomia tâmil no Sri Lanka mas opõe-se frontalmente à independência por temor de um surto de nacionalismo tâmil na Índia, arma e treina e exército cingalês.
Segundo, não percebeu o pós-11 de Setembro: o LTTE passou a ser incluído na lista das organizações terroristas. O seu despotismo levou à ruptura do seu exército no Leste, quando o lendário “general Karuna” se revoltou em 2004 e passou para o campo do Governo. Karuna defendia o cessar-fogo em vigor e queria negociar a autonomia com o primeiro-ministro Ranil Wickremasinghe.
Erro supremo será o das eleições de 2005. Wickremasinghe era o líder cingalês mais aberto a conceder uma razoável autonomia aos tâmiles para pôr fim à guerra. A população tâmil do Leste desejava votar nele. Prabhakaran “dissuadiu-a” pelo terror. Foi eleito, como ele desejava, um radical, Mahinda Rajapaka. Calculou que o seu extremismo o isolaria e não desejava a autonomia proposta por Wickremasinghe. O “tigre supremo” subestimou a determinação de Rajapaka e o apoio da Índia ao exército cingalês.
A partir de Janeiro, é a derrocada. O que se segue é uma incógnita: os Tigres mostraram sempre uma imensa capacidade de resiliência. A causa tâmil é mais premente do que nunca e os Tigres são o maior obstáculo à sua realização.[Jorge Almeida Fernandes, Público]


Publicado por Xa2 às 19:12 de 18.05.09 | link do post | comentar |

2 comentários:
De Herculano a 19 de Maio de 2009 às 12:57
Erros e críticas muitas há... fazer BEM é muito difícil mas deve ser esse o caminho.

O importante era que este país (Sri Lanka, ex-Ceilão) e as autoridades (vencedores) integrassem todos os elementos da sua sociedade, incluindo os vencidos (tamiles, tigres ou não), os hindus, os cristãos, os muçulmanos, os budistas, os pobres, os desprotegidos, os injustiçados, ... respeitando as suas diferenças, culturas, autonomias e liberdades.
Isso é que demonstraria a grande superioridade ética do país e seus governantes.

O mesmo se pode dizer relativamente a Israel / Palestina, ao Iraque, à China ou a qualquer outro país com as suas minorias étnicas, religiosas, sociais ou económicas.


De DD a 18 de Maio de 2009 às 22:23
Os Humanos são bichos iguais em toda a parte. No Tibete, os budistas são perseguidos e massacrados; no Sri Lanka perseguem e massacram os tamiles hindus e em toda a parte os grupos de resistência excessivamenteradicais e fanáticos alienam apoios e não conseguem negociar pacificamente com ninguém.
Os colonialismos uniram muitos povos, sendo que alguns não queriam ser unidos, principalmente quando tinha uma identidade perfeitamente definida em termos de língua, religião e hábitos. Daí pois numerosos conflitos que permaneceram até aos dias de hoje.

A Europa aprendeu com numerosas guerras. Mas, por enquanto, pois nunca se sabe quando é que o passado será esquecido e um qualquer nacionalismo voltará violentamente à superfície.

O artigo é bom, mas hoje, graças à Net, é fácil escrever bem sobre assuntos internacionais. A Wikipedia diz-nos tudo e o novo motor de busca www.WolframAlpha.com responde a quase tudo. Aqui é preciso praticar um pouco no modo de colocar as perguntas.


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