Sindicalismo europeu na encruzilhada (II)

Qual a grande encruzilhada afinal do sindicalismo Europeu? Poderíamos falar de várias encruzilhadas. Saliento aquela que me parece a mais dramática: o modelo social europeu construído após a segunda guerra mundial está a ser progressivamente destruído e o movimento sindical não tem as armas necessárias para se opor a tal desígnio ou, pelo menos, construir um outro modelo globalmente favorável aos trabalhadores e à cidadania económica e social.

A crise financeira e social que, entretanto, estamos a viver, embora exigindo uma maior intervenção dos estados poderá favorecer a curto e médio prazo a dinâmica neo-liberal de destruição do Estado social, reforçando a flexibilização das relações laborais a redução do investimento público e a desprotecção social!

O Movimento sindical europeu procura a salvação, ou seja, travar a regressão social através do "diálogo social" procurando convencer a Comissão Europeia e o grande patronato europeu da bondade das suas teses, ou seja, que a Europa será mais competitiva se preservar o seu modelo social com mais emprego estável e com direitos sociais.

Porém, está cada vez mais claro que hoje a Comissão, os governantes e o patronato não estão interessados nesta tese que os obrigava a uma maior repartição da riqueza e dos custos da globalização.

Estão mais convencidos da tese contrária. O desemprego e a precariedade geridos no limite permitem baixos salários e uma sobreexploração do trabalho dos assalariados. Os ritmos do trabalho são cada vez mais intensos, os níveis de segurança e saúde estão a diminuir em vários sectores.

O stress e a ansiedade provocados pelos ritmos de trabalho e pelo assédio psicológico estão a provocar doenças e a conduzir ao suicídio dos que não se adaptam a esta ordem capitalista (France Telecom).

Por outro lado, e apesar da crise são várias as empresas, nomeadamente financeiras, que voltaram aos lucros e ao salários escandalosos de gestores e dividendos aos accionistas.

Perante esta situação o sindicalismo europeu (CES) tem a liberdade de falar e de fazer uma ou outra euromanif de carácter folclórico em cada ano. É pouco para quem tem no seu passado tempos gloriosos, conquistas essenciais para a dignidade do ser humano e em particular dos operários das indústrias.

Perante a situação que se vive e a erosão da dimensão social da Europa exige-se mais do sindicalismo europeu.

Está na hora de se ultrapassarem divisões e mobilizar os trabalhadores e desempregados de todos os países à volta de questões que nos afectam como é o desemprego para uns e a ameaça do mesmo para outros, horários e ritmos de trabalho que permitam criar emprego e preservar a saúde mental e física e a vida familiar e social.

Não poderemos aceitar que a Europa assente a sua competitividade no desemprego crescente na precariedade do trabalho e da vida dos jovens, nos horários á moda antiga, no endeuzamento da empresa e na destruição da nossa saúde.

O que estamos a enfrentar é um retrocesso civilizacional! Merece uma ofensiva coordenada a nível europeu. Uma luta que não poderá ser apenas dos sindicatos mas de outras organizações e movimentos políticos.

Quererá e poderá a CES ser a protagonista deste combate social e político?

Tem condições para o fazer? Ficará para outra crónica, claro.

[Bem Estar no Trabalho, A. Brandão Guedes]



Publicado por Xa2 às 10:07 de 21.12.09 | link do post | comentar |

4 comentários:
De Confed. Eur. Sindicatos III a 4 de Janeiro de 2010 às 11:44
SINDICALISMO EUROPEU NA ENCRUZILHADA (III)

Mas tem o sindicalismo europeu capacidade para sair das encruzilhadas do presente, algumas das quais abordadas nas crónicas anteriores? Poderá a Confederação Europeia de Sindicatos (CES) contribuir para superar favoravelmente esta situação de degradação social e política na UE e no mundo? Poderá passar á ofensiva contra este “novo capitalismo” que tem a precariedade, a globalização e o “pensamento único” como elementos essenciais?

O quadro não é, de facto, risonho! Pelo contrário! Todavia, não se pode continuar a trabalhar como se o capitalismo europeu e mundial não tivesse mudado nas últimas décadas e não fosse necessário gizar um outro caminho.
Tem a CES condições internas para uma outra estratégia de mobilização dos trabalhadores e de confronto com a as políticas neoliberais da maioria dos governos, comissão europeia e patronato?
A resposta é, ainda não! É necessário um maior distanciamento político e ideológico(ruptura) relativamente ao pensamento da Comissão. Antes de mais nada é preciso deslegitimar de forma mais clara o pensamento único que advoga a desregulação e a flexibilidade como novo paradigma das relações laborais na UE e no mundo. Não é verdade que a flexibilidade e desregulação criem mais emprego....criam sim, mais emprego sem direitos!

Alguns documentos da CES quase parecem escritos pelos escribas comunitários! Existe uma espécie de retórica comunitária que é partilhada pelas instituições e por muitos sindicalistas!
Os sindicalistas mais combativos da CES não conseguiram até agora virar a situação. Também não conseguiram mudar a orientação da confederação que continua numa de negociação a todo o custo, evidenciando assim a sua debilidade! A negociação em determinados momentos não é mais do que submissão! Só como interlocutores fortes se pode negociar, caso contrário a negociação é sempre a dominação de um dos “parceiros” negociadores! Ora, o diálogo europeu, no actual contexto, está claramente inquinado!

São os montantes das subvenções comunitárias um entrave, um ópio? A Confederação e as centrais nacionais já não podem sustentar a burocracia sindical sem esses milhões de euros? É tempo de se reflectir sobre esta magna questão! Sindicalismo preso pelo bolso não é sindicalismo! A Comissão não abrirá mais os cordões à bolsa pelo facto do “bom comportamento” da CES.

Claro que a CES tem ainda outras vulnerabilidades. Diferentes concepções sindicais, diferentes países com diferentes histórias! Mas também aqui está uma parte do seu potencial! Neste momento mobiliza quase cem por cento do sindicalismo europeu e tem representantes nas mais importantes multinacionais.

Todavia , cada central sindical tem que ultrapassar nacionalismos serôdios, sem sentido num mudo globalizado. Uma nova dinâmica de internacionalização sindical e de alianças é essencial nos dias de hoje, perante as características do “novo” capitalismo, como veremos na próxima crónica.

Publicada por A.Brandão Guedes , Bem estar no Trabalho, 30.12.2009


De DD a 21 de Dezembro de 2009 às 19:33
A crise financeira que vivemos, nós e toda a Europa, só pode ser resolvida em Novembro de 2004, data em que entra emn vigor o clausulado do Tratado de Lisboa sobre as decisões do Conselho da União Europeia.

A partir dessa data, a Europa pode libertar-se da ditadura da Alemanha com a conivência da França que impuseram a livre circulação de mercadorias de fora para dentro da Europa. Em Dezembro de 2004, 55% dos Estados membros com 65% da população podem impor direitos aduaneiros sobre os produtos fabricados com mão-de-obra quase ESCRAVA da China, Índia, etc.

Segundo a "Asia Floor Wage Alliance" que tenta agrupar os sindicatos dos países pobres da Ásia, na China, o trabalhador trabalha uma hora para o seu sustento e 10 horas para o patrão, o que permite esmagar as indústrias europeias em que a Taxa de Mais Valia ou Exploração do Trabalhador situa-se nos 2% do salário do trabalhador mais segurança social, 13º e 14º ordenados, férias, etc.

Na China, há uma semana de férias e um a dois dias de descanço por mês.

É curioso que na história do capitalismo nunca se foi tão longe na exploração do Trabalhador como na China dirigida pelo maior Partido Comunista do Mundo e, tanto a Coreia do Norte como o Vietname, não lhe ficam atrás, pois os salários e os produtos adquiridos pelos trabalhadores ainda são em menor quantidade..

Na Coreia do Norte chega a não haver a comida essencial para os trabalhadores se alimentarem.

A China já produz 10 milhões de automóveis por ano e pode vir a fabricar em 2005 mais de 50 milhões de carros com preços tais que levarão à falência toda a indústria automóvel europeia.

A Intel fabrica os processadores de todos os computadores do Mundo na China e possui um conjunto de fábricas com 600.000 trabalhadores, incluindo várias escolas de formação e uma Universidade de Tecnologia Informática em Beijing. A Intel confirma a tese de Lenine que dizia que "o capitalista é capaz de vender a corda em que será enforcado".

Actualmente, os EUA são já uma economia de serviços e o seu único sector produtivo é o militar e, curiosamente, a empresa que fabrica nos EUA a viatura militar "Hummer" é já propriedade de capitais chineses. Os chineses têm dinheiro para comprar a Boeing e até a McDonald.

Alguém sabe que a Siderurgia Nacional (em Portugal) é proriedade de uma empresa indiana que possui dezenas de siderurgias espalhadas pelo Mundo e ganhou rios de dinheiro, explorando a mão-de-obra escrava da Índia e Bangla Desh.

Os escravos do Terceiro Mundo estão a liquidar as indústrias ocidentais. O comunismo chinês destrói a economia social de mercado da Europa com as armas do mais voraz dos capitalismos e nós, parvalhões, preocupamo-nos apenas com os salários de meia dúzia de administradores bancários.

O INIMIGO do trabalhador português e europeu é o Partido Comunista da China e o seu Capitalismo.


De DD a 21 de Dezembro de 2009 às 19:44
Corrijo; Novembro de 2014, não de 2004.


De Triste vida ... a 21 de Dezembro de 2009 às 10:43
FORAM 4 MIL POR DESPEDIMENTO COLECTIVO !

Despedimento colectivo abrangeu mais de quatro mil trabalhadores até Novembro.

Até Novembro, 4.213 pessoas perderam o seu posto de trabalho na sequência de um despedimento colectivo, mais 27% em comparação com o mesmo período do ano passado.De acordo com os dados da Direcção- Geral do Emprego e das Relações de Trabalho (DGERT), foram 314 as empresas a concluir este tipo de procedimento, contra 211 no período homólogo. Por outro lado, nestes onze meses, 682 empresas iniciaram novos processos abrangendo 10.509 trabalhadores.
(notícia do dia)
- A.Brandão Guedes, 17.12.2009, Bem Estar no Trabalho


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