De mal a pior

Que me lembre, nunca a actividade político-partidária vegetou tão baixo no lamaçal da incompetência, do embuste e do egoísmo.

Os eleitos são de extracção cada vez mais medíocre e o que trazem à agenda política – e o modo como o tratam – demonstra geralmente as mais preocupantes carências de conhecimentos, verticalidade e carisma. Vivem da chicana partidária (com raras excepções) e do maldizer permanente, fazendo, muitas vezes, dos corredores do poder meras sucursais dos seus negócios e vendendo-se a troco de um qualquer prato de lentilhas.

A política partidária que se prossegue entre nós não é, também, uma actividade posta inegavelmente ao serviço do interesse nacional. Visa, directa ou indirectamente, quase sempre, apenas a conquista ou a manutenção do poder, que há-de, depois, ser distribuído aos famélicos dos aparelhos partidários, que é quem nos governa na realidade.

O egoísmo – e o individualismo – tomaram conta, por outro lado, do quotidiano político, num “salve-se quem puder” em que tudo vale. A corrupção instalada, como se tem visto, a todos os níveis do Estado (e manipulada por aqueles que o servem ou serviram um dia) é uma expressão perfeita de que o país está em declínio moral, à míngua de princípios e valores que rejam as relações entre governantes e governados.

Acontece, porém, que é disto que certa comunicação social miserabilista gosta e daí que lhes garanta a publicidade que almejam. E, com publicidade garantida, está meio caminho andado para levarem por diante reiteradamente os seus interesse pessoais e partidários.

Neste mefistofélico arco-íris, os políticos, acossados pelo poder judicial, vitimizam-se e, enquanto podem, vão-se aguentando no barco, desprezando a ética que deveriam ser os primeiros a dar o exemplo.

O poder judicial, por seu turno, carece de meios, humanos e materiais, para cumprir cabalmente a sua missão nos quadros da lei e do princípio democrático, mostrando-se, também, por vezes, assaltado por esporádicas tentações para descambar para uma “república dos juízes”.

Assim, a judicialização da política e a politização da justiça são hoje reais ameaças à democracia, cujos pilares vacilam, também, no meio de uma profunda crise económica e financeira.

A vida cívica não está, pois, fácil e a democracia corre perigo a prazo, também porque a ingovernabilidade do país já se evidencia na assunção de poderes exorbitantes por um Parlamento que não governa (nem deve) nem deixa governar (e devia).

Vamos de mal a pior cada dia que passa. E se alguns nem consciência têm das consequências dos seus actos, outros exercem os poderes que lhes foram atribuídos numa perspectiva meramente destrutiva de quanto pior, melhor.

No tempo em que vivemos, neste país saído recentemente de eleições democráticas, recrudescem as paixões e os ódios e rarefazem-se os princípios e os valores de uma comunidade solidária em busca de um destino colectivo e melhor. Também se esvai a expectativa de um outro futuro baseado em ideias e ideais inspiradores do amanhã. Afinal o que conta, para uns, é ter poder e distribuí-lo pela família e, para outros, destruir esse poder, sem apresentar porém, alternativas sadias ao estádio actual da sociedade. E é neste jogo de soma nula que nos vamos consumindo, sem expectativas de sair do declínio presente.

As grandes batalhas políticas de hoje cingem-se a pequenas traições e a grandes manipulações em que o interesse nacional já não conta para nada. O eclipse político de Portugal aproxima-se a passos largos.

[Vida Económica, António Vilar]



Publicado por [FV] às 16:04 de 21.12.09 | link do post | comentar |

6 comentários:
De Izanagi a 22 de Dezembro de 2009 às 00:35
“O poder judicial, por seu turno, carece de meios, humanos e materiais”
Carece? Temos um rácio de juízes por habitante que é o maior ou dos maiores da Europa.
O mesmo acontece com os efectivos do Ministério Público.
Para a Polícia Judiciária, sempre que um Ministro da Justiça toma posse, uma das primeiras medidas é o reforço financeiro e de meios materiais para a PJ. A nossa Justiça é das mais caras da Europa e com uma das piores eficácia.
Mais meios? Temos é que ter melhor gestão dos meios ao dispor que devem ser mais do que suficientes e exigir a eficiência dos mesmos e não optar pela solução mais fácil que é a exploração (eufemismo de roubo) dos cidadãos.


De Zé T. a 23 de Dezembro de 2009 às 14:04
Creio que todos têm (alguma) razão :
- DD : com as críticas ao ''dumping'' (social e ambiental) e aos exploradores do 3º?2º? mundo (China, Índia, ...), ...;
- Marcadores: com o assinalar da falta/degradação de valores éticos e sócio-económicos, ...;
- Izanagi: com a (subentendida) crítica às falhas de organização, legislação e de afectação de recursos da nossa economia e administração (Justiça, ...).

Compartilho destas análises. Em conjunto, por razões:
- externas/globais (e falhas nas organizações internacionais- ONU, OIT, OCM, FMI,...UE e grandes potências- em impôr/fiscalizar outras regras e políticas, mais justas);
- internas, de que são exemplo as escandalosas diferenças de rendimentos e tratamentos entre cidadãos (de 1ª, 2ª e 3ª), de nepotismo (directo e cruzado, amiguismo, cunha, corrupção, tráfico de influências, ...), da legislação má/lacunar/complexa/exagerada/... , da falha dos princípios de transparência, ética e boa gestão, da apologia de valores mercantis, de consumismo, de 'marketing' (incluindo o político), de 'show-off', de espectáculo, de engano-ilusão, de ''pão e circo'', ... e que tem levado (desde séculos) a que a maior (e das melhores) das exportações de Portugal sejam PESSOAS/ emigração (com a correspondente entrada de divisas), ... porque os governantes (e famílias de barões/ oligarcas) não lhes têm oferecido/ permitido condições condignas de vida e de cidadania plena e justa.


De Izanagi a 22 de Dezembro de 2009 às 00:24
“O homem não sabe que Marrocos exporta cenouras, cebolas, feijão, etc. a preços que impedem os agricultores portugueses de produzirem e venderem.”
Porque será que os nossos vizinhos agricultores espanhóis não ficam impedidos E não só investiram em Espanha como compraram grandes propriedades em Portugal, para trabalharem a terra, quer na produção de produtos frescos, quer na exploração da olivicultura e outras explorações arbóreas e curiosamente receberam menos subsídios que os agricultores portugueses?
Seria também interessante que DD explicasse quem, no quadro que apresenta, vai comprar os tais produtos cuja produção foi deslocalizada para países onde a classe trabalhadora (entre 80 a 90% da população) não tem poder de compra e com a falência da classe média europeia, americana e asiática (Coreia, Taiwan, Japão, Austrália) o que vai acontecer a esses produtos e a esses capitalistas?
Ficamos a aguardar a resposta que concerteza terá.


De DD a 23 de Dezembro de 2009 às 20:31
A realidade é que a produção tende a tornar-se extremamente barata, enquanto os serviços de marketing, distribuição e venda ultrapassam largamente o valor da produção e originam uma classe média que se paga a si mesmo.

A informação que possuo dos baixos preços dos produtos agrícolas oriundos de Marrocos vem precisamente dos agricultores espanhóis, nomeadamente das zonas das estufas de El Egido que têm protestado vivamente contra a entrada dos produtos marroquinos na Península Ibérica. No MARN são vistos cada vez mais produtos marroquinos.

A Espanha está com uma taxa de desemprego da ordem dos 19,5% da população activa.

Ninguém pense que aquilo que parecia estar menos mal há dois ou três anos atrás continua na mesma. Está tudo muito pior que então.


De DD a 21 de Dezembro de 2009 às 21:45
É lamentável que alguém a escrever num jornal sobre economia não veja que os problemas do País são económicos e estes não se resolvem com mais lei ou menos lei, mais decisão competente ou menos decisão da parte dos governantes.

Portugal insere-se numa Europa em crise, por sua vez, inserida num Mundo globalizado em que o crescimento económico é uma função unívoca da maximização da taxa de exploração do trabalho.

O homem não vê as empresas do Terceiro Mundo a comprarem as do primeiro Mundo, Europa e EUA, porque aqui a taxa de exploração do trabalho é quase zero e eles compram a tecnologia para depois fecharem as empresas do primeiro Mundo..

O estúpido não sabe que a Mercedes está a deslocalizar o fabrico dos seus carros da classe C para a África do Sul e para a China, onde o trabalhador ganha uma hora para si e dez para o patrão, enquanto em Singelfingen, o trabalhador trabalha em média apenas dez minutos para o patrão por dia, o resto até às 8 horas é para ele. Isto na produção de bens susceptíveis de serem adquiridos pelas classes trabalhadoras que fazem em quase toda a Europa parte das classes médias em termos de rendimentos e standard de vida.

Os países ditos desenvolvidos estão a transformar-se em economias de serviços, mas só daqueles que não são deslocalizáveis.

O tal de Vilar não pensou ainda porque razão, Portugal é um País bem fornecido de serviços modernos e eficazes e possui uma capacidade produtiva cada vez menor. Simplesmente porque a taxa de exploração do trabalho é no Terceiro Mundo mais de dez vezes superior à portuguesa. O homem não sabe que Marrocos exporta cenouras, cebolas, feijão, etc. a preços que impedem os agricultores portugueses de produzirem e venderem. O homem não sabe que a Europa já tem mais de 25 milhões de desempregados e, enquanto não colocar barreiras aduaneiras, terá um dia 50 a 100 milhões de desempregados e a sua tecnologia produtiva terá morrido.

Chegou a hora de ler Karl Marx e ver a realidade a nível mundial e ousar criticar esta obscena incongruência que é a máxima exploração do trabalho na China dita comunista e marxista.

Marx estudou o capitalismo e ensinou os marxistas a via efectiva do capitalismo. Tudo o que ele criticava no capitalismo foi absorvido pelos comunismos no poder multiplicada por n vezes mais.

Portugal com a Europa tem de defender a sua sustentabilidade, impondo direitos aduaneiros ao dumping social da China e outros países.

A escolha é dura, mas única, ou vamos todos para o desemprego e o Terceiro Mundo também, ou encontramos um meio de funcionar em termos de justiça em que deixará de haver salários de escravatura na Índia ou na China para que uns oligarcas terceiro mundistas comprem o Mundo todo.

Temo que pugnar pela defesa dos salários e empregos europeus, não deixando os postos de trabalho serem destruídos pelos de fora.


De marcadores a 23 de Dezembro de 2009 às 11:41
"É lamentável que alguém a escrever num jornal sobre economia não veja que os problemas do País são económicos .."

São económicos nos resultados, mas não na origem.
Os verdadeiros problemas do País e do chamado mundo global, são de valores ou até de educação.

Temos cada vez mais doutores " mas cada vez menos pessoas de bem.
Falta educação o que sobre em conhecimento académico.
Não o conhecimento académico não faz mal nenhum só por si, mas é extremamente perigoso quando desacompanhado da educação, porque leva facilmente ao abuso, ao vale tudo e até à crise de valores e social, que por sua vez, trouxe o caos económico e financeiro.

Tivessem os conhecimentos dos mercados e dos "doutores " sido aplicados com moral e no real, em vez de na especulação e no virtual, e estaria o mundo e nós próprios concerteza bem melhores do que estamos.

Não não é como diz e bem mostra que tem muitos e bons conhecimentos, pena é o amigo utilizá-los habitualmente de forma tão tendenciosa e falaciana (de falácia).
Acaba muitas vezes, mesmo quando tem alguma razão, por perdê-la.


Comentar post

DESTAQUE DO MÊS
14_04_botão_CUS
MARCADORES

todas as tags

CONTACTO

Email - Blogue LUMINÁRIA

ARQUIVO

Novembro 2019

Junho 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Online
RSS
blogs SAPO