3 comentários:
De PIBs e economistas... diferentes a 23 de Dezembro de 2009 às 15:37
O PIB é uma medida da riqueza, mas o que é a riqueza?

Como quase sempre acontece, para responder temos de olhar para trás - para a história das ideias - e só depois para o presente.
Para Adam Smith a riqueza era “o conjunto dos bens necessários à vida e ao conforto produzidos pelo trabalho”.
Mas hoje em dia a maior parte dos economistas tenderá, segundo me parece, a discordar do “necessários” e do “trabalho”.
O economista típico dirá primeiro, “o que é necessário e desnecessário é subjectivo,
depende de um juízo de valor, e a Economia não faz juízos de valor”
e proporá uma primeira modificação à definição de Smith:
“o conjunto dos bens desejados pelos consumidores...”.

[Ele acha que a necessidade é subjectiva e dependente de valores;
já a desejabilidade, sendo igualmente subjectiva, objectivar-se-ia no momento em que o consumidor abre a carteira e paga sem que ninguém discuta os seus gostos].

Dirá depois, “nem só o trabalho cria riqueza” para logo propor como definição definitiva qualquer coisa como:
“o conjunto dos bens desejados pelos consumidores e produzidos pelos factores produtivos (terra, trabalho e capital)”.
[Como se sabe uma das tarefas da economia neoclássica foi exactamente atribuir ao capital virtudes produtivas].

Será que o assunto fica arrumado? Parece-me que não.
Sem discutir agora as virtudes produtivas da terra e do capital (as do trabalho ninguém nega) preocupo-me apenas com um problema da definição de Smith, (a), e outros dois da definição “actual”, (b) e (c).

(a) Não haverá “riqueza” que não é produto do trabalho humano? Florestas, rios, mares, habitats, vida...?

(b) Não existirão bens desejados pelos consumidores que, por existirem à custa de outros bens (por exemplo: florestas, rios, mares, habitats, vida...), representam mais “pobreza” do que riqueza?

(c) Se a resposta a (b) for positiva, não estarão os desejos tão sujeitos a juízos de valor como as necessidades?
[o que é mais importante, o desejo satisfeito ou os outros bens sacrificados? Que “peso” devo atribuir a cada um deles nas minhas escolhas?]

Estas são questões “metafísicas”, dir-me-ão. Serão.
Mas é com elas e com outras semelhantes que os economistas que actualmente estão envolvidos na reflexão acerca do Produto Interno Bruto (o famoso PIB) são obrigados a debater-se.

Publicada por José M. Castro Caldas em 21.12.09 Ladrões de Bicicletas


De Lugar-comum da ''competitividade'' ... a 23 de Dezembro de 2009 às 15:05
Pessimismo partilhado?

João Pinto e Castro e Carlos Santos, dois economistas que sigo com toda a atenção, convergem com a análise de João Ferreira do Amaral, aqui citada, sobre as necessárias alterações na arquitectura do governo económico europeu.
Pinto e Castro sugere um debate na AR. Proposta interessante:
estou convencido que BE, PCP e uma parte do PS (minoritária?) convergiriam no diagnóstico e nas propostas.
Se calhar teríamos surpresas noutras bancadas?

No entanto, a coisa está muito bem trancada a nível europeu.
O Tratado de Lisboa, agora aprovado pelo bloco central europeu, só consolida os “dogmas neoliberais que informaram Maastricht”.
É por esta e por outras que estou muito pessimista e não vejo como o que designei por paradoxo europeu possa ser politicamente superado (intelectualmente, a coisa é mais fácil...):
A história indica que o liberalismo económico tende a destruir o mercado porque não consegue vislumbrar os seus limites, nem pensar em políticas e instituições que contrariem a miopia dos interesses capitalistas.
As elites europeias, obcecadas com a construção do mercado interno, esqueceram-se a certa altura disto.

E esqueceram-se que um mercado interno equilibrado não é compatível com a compressão sistemática do crescimento dos salários, fruto de políticas públicas que fragilizam os assalariados, e com o aumento da desigualdade regional, fruto da quase ausência de mecanismos redistributivos à escala europeia.

E não é compatível com a estratégia da economia dominante – a Alemanha – que seguiu a via não-cooperativa de assentar o seu crescimento nas exportações:
os excessivos excedentes de uns são os excessivos défices de outros.
O drama é que estas questões, que são uma das chaves da dependência externa da economia portuguesa, não entram sequer na discussão pública sobre economia, dominada que está pela tribo dos economistas-2012 e pelo seu
lugar-comum da "competitividade" obtida à custa do
sacrifício dos salários,
da saúde e
da vida fora do trabalho.
De alguns, claro.

Publicada por João Rodrigues em 22.12.09 2 comentários


De Governar no interesse das PESSOAS a 23 de Dezembro de 2009 às 15:00
Quando os mercados têm sentimentos (não devemos ligar muito)

Vale muito a pena ler o artigo de Robert Skidelsky no FT de ontem:
«O governo tem de cortar agora na despesa, porque é isso que esperam 'os mercados'.
Os mesmos mercados que feriram o sistema bancário de tal forma que este teve de ser socorrido pelos contribuintes.
Agora exigem uma consolidação orçamental, como preço a pagar pelo seu apoio a governos cujas dificuldades orçamentais ajudaram a causar.

Por que raio devemos levar esse sentimento de mercado mais a sério do que aquele que conduziu ao deboche de 2007?
Diz-se por vezes que os mercados podem não saber o que dizem, mas os governos não têm alternativa senão obedecer.
Isto é inaceitável.
A obrigação dos governos é governar no interesse das pessoas que os elegeram e não no da City de Londres.»

Apesar de, como escreve Skidelsky, os comentadores conservadores terem recuperarado o fôlego e a confiança, o facto de jornais como o FT continuarem a publicar textos deste teor confirmam uma intuição:

os triliões de euros que ainda nos vão custar a todos os desmandos da finança descontrolada permitiram afastar, para já, a perspectiva do fim do neoliberalismo reinante nas últimas décadas;
ainda assim, é hoje mais fácil questionar este modelo do que era antes de 2007.

Há que manter esse debate aceso - e para isso é preciso repetir mil vezes:

a crise orçamental não resulta da insustentabilidades das contas públicas;

resulta da insustentabilidade de um regime económico de finança sem freios.

Publicada por Ricardo Paes Mamede em 23.12.09 Ladrões de Bicicletas


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