Deixem-nos sacar à vontade !
O dinheiro em quatro andamentos
 
 
1. Numa recente reunião de banqueiros e de gente da alta finança, Fernando Ulrich, presidente do BPI, investiu contra o Banco de Portugal e contra o Governo: “Deixem-nos trabalhar!”
Isto traduzido para “banquês”, significa:   “ Deixem-nos sacar à vontade !  E não nos chateiem ! ”

Um ou dois dias depois, na primeira página do Diário de Notícias, escrevia-se: “Ter dinheiro no banco nunca valeu tão pouco”.

 

2. Há pouco mais de um ano, os banqueiros de todo o mundo – uns mais, outros menos – quase estoiravam com a economia do planeta: caos financeiro, falências, desemprego, fome. Estamos ainda – e vamos continuar – a sofrer as consequências da crise. A recuperação vai ser lenta e vai custar sangue, suor e lágrimas.

Em Portugal, os escândalos começaram com as roubalheiras no BCP de Jardim Gonçalves. Depois foi o BPN, um banco que – para azar de Cavaco Silva – foi erguido, construído e destruído por ex-ministros seus. E, finalmente, o BPP de João Rendeiro, que ao contrário de Madoff, continua alegremente à solta na sua mansão na Quinta Patiño.

A impunidade endémica, a justiça paralítica e a contratação dos melhores e mais caros advogados do País, conseguem eternizar os processos, adiar os julgamentos, e garantir uma “dolce vita” a essa corja de assaltantes do alheio.

Marimbando-se para os dramas de meio milhão de desempregados, para o encerramento diário de fábricas, para a falência em catadupa de pequenas empresas, os bancos continuam a declarar lucros provocatórios e exorbitantes.

Se bem repararem, eles nunca anunciam prejuízos. O que às vezes acontece é que, com lágrimas de crocodilo, declaram uma “diminuição de lucros”, isto é, qualquer coisa que reduz o escândalo para a infâmia, ou o assalto à mão armada para o roubo por esticão.

3. Recentemente, o Banco de Portugal tentou – muito timidamente e muito aquém do que seria justo e necessário – pôr cobro à chamada “usura da banca nacional. Para isso fixou limites máximos para a cobrança de juros de empréstimos. Para o crédito pessoal o máximo são 19.6%. Para o crédito automóvel, 16,1%. E, para os cartões de crédito, 32.8%. (Sim, não é gralha, são mesmo 32,8% ! )

Em contrapartida, quando um cidadão tem uma poupança para aplicar, por exemplo, num depósito a prazo, os mesmos bancos que cobram os juros atrás indicados oferecem-lhe entre 0,5% a 1% ao ano !

Vamos fazer uma simulação: eu tenho 10 mil euros para aplicar num depósito a prazo de um ano. Como me oferecem entre 0.5% e 1%, ao fim de um ano receberei entre 50 a 100 euros. Deduzindo, obrigatoriamente, 20% para o IRS, acabo por receber apenas entre 40 e 80 euros. Mas, como tenho um cartão de crédito, fui pagando despesas que atingiram um total também de 10 mil euros. Como tenho de pagar um juro de 32,8%, o banco vai cobrar-me a módica quantia de 3.280 euros!

Isto é, com os meus 10 mil euros – que são os que eu depositei a prazo – o banco paga-me, de juros, um máximo de 80 euros. Mas, simultaneamente, cobra-me 3.280 euros pelos créditos da utilização do cartão.

Em conclusão: com os meus 10 mil euros o banco, sem nenhum risco e menor trabalho, empochou a módica quantia de 3.200 euros! É como no totobola: “é fácil, é barato e dá milhões”. Ou, como dizia o outro: “É fartar, vilanagem!

4. Acompanhando o que já está a vigorar em países como a França, a Alemanha ou a Inglaterra, o Governo propõe-se aplicar uma taxa sobre os “bónus” que os banqueiros recebem para além dos vencimentos, e que constituem uma espécie de comissão sobre os resultados conseguidos.
Os valores destes “bónus” atingem montantes incalculáveis e chocantes. No Reino Unido o valor da taxa vai ser de 50% sobre todos os prémios. É a doer. Esperemos que, neste país de brandos costumes, a nossa taxa não venha a ter um valor simbólico (ou não seja efectivamente não cobrada !).

Para finalizar:

Não entendo a resistência do PS à “inversão do ónus da prova” em situações de “enriquecimento ilícito”.
O “meu” PS arrisca-se a ficar isolado no Parlamento, o que constituirá uma vergonha nacional, e entrará em colisão com a defesa dos seus valores mais profundos.

Não é passivamente, nem permissivamente, que se combate a corrupção. Nem para inverter o ónus da prova é preciso ter uma maioria absoluta.

- José Niza, O Ribatejo, 23.12.2009, via MIC - Movimento de Intervenção e Cidadania
                      Comentário de mario silva, 2009-12-27:

Qualquer cidadão atento e preocupado, subscreve esta análise. Os que detêm o poder politico também o sabem; contudo, em sede fiscal tratam os bancos de modo mais favorável que os outros sectores económicos.


A questão que se coloca é:

porque continuam os políticos apáticos em relação a esta realidade, principalmente os que advogam defender o ideal socialista?


Talvez o cinismo da realidade seja uma das respostas às questões...


Durante décadas se combateu o malfadado comunismo com a bandeira do capitalismo democrático, e afinal, este revelou-se tão perverso como aquele que combateu...


E, mordazmente irónico, esse capitalismo recorreu a instrumentos do ideário comunista-a nacionalização- para solucionar os prejuízos provocados pela avareza e ganância dos ditos banqueiros, inimigos fidagais da esquerda...



Publicado por Xa2 às 01:05 de 07.01.10 | link do post | comentar |

7 comentários:
De administradores/bolsa: 64 mil €/ mês !! a 14 de Janeiro de 2010 às 09:23
O Natal dos banqueiros
Data: 30-12-2009 , Por: José Niza - In ''O Ribatejo''

1. ... O homem põe. E a banca dispõe.
2. Um relatório há poucos dias divulgado pela CMVM – a Bolsa – deu-me um murro no estômago. Não é que eu tenha andado distraído da ganância e dos festins da nossa alta finança. Mas tudo tem que ter limites: os números revelados nesse relatório sobre os salários dos administradores dos bancos e das empresas mais importantes do País, para além de aterradores, são um insulto ao povo português e, em especial, aos mais de 500 mil trabalhadores que estão no desemprego.
3. O salário mínimo em Portugal é de 450 euros por mês. 90 contos por mês. 3 contos por dia. Muito pouco para pagar a renda da casa, a comida, as roupas, os sapatos, a água, a luz, os transportes, talvez o telemóvel…
Há um ano, o governo, as confederações patronais e os sindicatos, assinaram um acordo para, em 2010, aumentar o salário mínimo de 450 para 475 euros. Menos de 1 euro por dia! Mas agora, as tais confederações patronais – que assistem mudas e quedas ao escândalo dos vencimentos dos gestores – vêm ameaçar que se o salário mínimo subir para 475 euros será um desastre nacional. E, em contrapartida, propõem 460 euros! Isto é, uma subida de 33 cêntimos por dia!
4. O relatório da CMVM revela que o salário anual médio dos administradores da banca e empresas cotadas na bolsa foi, em 2008, de 777 mil euros, isto é, de 64.750 euros por mês (cerca de 13 mil contos mensais ou 426 contos/dia).
64.750 euros por mês equivalem a 136 salários mínimos. Isto é, para atingir o valor do ordenado mensal de um desses gestores, um trabalhador que receba o ordenado mínimo terá de trabalhar mais de 11 anos!!!
5. Mas ainda não é tudo. Há mais, bastante mais.
2008 – como todos nós sabemos – foi um ano de crise, de falências, de desemprego galopante, de apertar o cinto. Mas, enquanto a esmagadora maioria dos Portugueses fazia contas à vida, cortava nos gastos, fazia sacrifícios ou – nos casos mais dramáticos – passava fome, os senhores do dinheiro tiveram, em média, aumentos de 13 %.
13% sobre 777 mil euros são cerca de 100 mil euros, qualquer coisa como 20 mil contos por ano e para cada um. Só de aumentos!
2009 – um ano que agora se vai embora sem deixar saudades – foi também um ano de enorme crise na indústria automóvel. Mas nem tudo foram desgraças: no Vale do Ave, território dos têxteis e do mais alto desemprego do País, nunca se venderam tantos Porches. Quanto mais desempregados na rua, mais Porches na estrada!
Como se tudo isto ainda não bastasse, os próprios ex-administradores da banca – como é o caso do BCP – têm regalias e mordomias que ultrapassam todos os limites do imaginável: jactos privados para viajarem, seguranças, automóveis de luxo, motoristas, etc. Foi-me contado um caso em que a excelsa esposa de um banqueiro se deslocava regularmente a Nova Iorque – em Falcon privado pago pelo BCP – para ir ao dentista e fazer compras! E que o seu excelso marido (ex-presidente do BCP e membro da Opus Dei) dispunha de um batalhão de seguranças 24 horas por dia, também pagos pelo banco.
Será que uma pessoa com a consciência tranquila precisa da protecção de 40 seguranças? Nem Sadam Hussein tinha tantos…
6. Mas, afinal de contas, quem paga tudo isto?
Para além dos pequenos accionistas, é óbvio que são os clientes dos bancos, essa espécie sub-humana que a banca submete à escravatura e trata a chicote, essa legião de explorados que ainda olha para os bancos – e sobretudo para os banqueiros – com o temor reverencial de quem vê um santo como Jardim Gonçalves em cima de uma azinheira.
Quando um banco remunera um depósito a prazo com 1% de juros e cobra 33% nos cartões de crédito, é-lhe fácil conseguir dinheiro para cobrir todos os excessos e bacanais financeiros do sistema bancário. Quando um banco paga metade dos impostos de qualquer empresa em situação difícil, o dinheiro jorra, enche os cofres dos bancos e os bolsos dos banqueiros.
É nisto que estamos. Até quando?
Será que a um sistema que assim existe e que assim funciona – encostado ao Poder e protegido pela Lei – se pode chamar Democracia?
PS – E que ninguém, de má consciência, tenha a desvergonha de me vir dizer que isto é demagogia!

-por GRAZIA.TANTA@GMAIL.COM via http://militantesocialista.blogspot.com


De Pobres Paguem a crise ou ...Explosão. a 12 de Janeiro de 2010 às 11:23
Salgueiro em Belém ou "os pobres que paguem a crise"

Já todos repararam que a situação económica do país não vai bem. Às dificuldades estruturais somou-se a Grande Crise provocada pela economia mundial de casino, pela desregulamentação, pela alta finança especuladora, pelos banqueiros.
Para salvar o sistema financeiro (não para o reformar!) os governos socorreram a banca e os banqueiros com milhões de milhões de euros. Estes é claro conseguiram pôr a roleta e o casino a funcionar com uns retoques de maior seriedade na fachada e mais umas mãos cheias de prémios para os seus bolsos "por terem salvo a situação".
Mas à crise financeira seguiu-se, como era óbvio, a crise económica e todo o gigantesco roubo e brutal destruição de riqueza tem de ser paga por alguém.

Em suma é preciso apertar o cinto.
Mas o cinto de quem? Dos banqueiros?
Das famílias que medem os rendimentos mensais pela escala das dezenas de milhar de euros?
Ou apertar o cinto dessas classes ditas trabalhadoras mas que melhor seria dizer preguiçosas, cujas famílias se contentam com salários ou reformas de 400, 600, 1000, 2.000 ou 3.000 euros por mês?

Pois é preciso assustar a ralé e as classes médias baixas ou medianas.
É preciso convencê-las que é melhor apertarem o cinto do que morrer de fome ou "explodir".
É isso que João Salgueiro foi fazer a Belém.
Participar na campanha que leve os do costume:
os trabalhadores e as classes médias a pagar a crise. Não os ricos como se pedia em 1975 no PREC.

A situação está explosiva diz o PR. E Salgueiro e o grande patronato garante que sim.

Ora todos sabemos que a solução é a Economia. A produtividade. As exportações. Ganhar à concorrência. Melhores recursos humanos (em especial na classe empreendedora!) melhor Justiça, menos burocracia, etc, para atrair investimento externo.

Já gastámos dezenas de milhões em estudos desde o Porter para descobrir o busilis.
Mas enquanto a situação não melhora é necessário ir buscar o dinheiro com que se socorreu a banca a alguma lado.
Tenho uma boa solução. Fazer como o norte-americano Franklin D. Roosevelt fez nos anos 30 e 40 e outros continuaram até aos anos 70.
Apertar o cinto dos 20% mais ricos com escalões abundantemente progressivos de IRS, com maiores taxas nas mais-valias, aumento graúdo do imposto sucessório mas só para as grandes fortunas.

Isto digo eu que não sou especialista mas os especialistas em emagrecer os baixos rendimentos aposto que se quiserem sabem como ir buscar mais dinheiro às fortunas.

Salgueiro apontou para o perigo em que estão no futuro as reformazitas.
Ora eu propunha para já uma forte redução das principescas pensões que tantos por aí auferem das empresas públicas e... privadas.
Apenas com uma moralizadora taxa adequadamente progressiva de IRS.
A situação, garanto, ficava menos "explosiva".

# posted by Raimundo Narciso, PUXA PALAVRA, 12.1.2010


De Estados devem ''apertar'' os banqueiros. a 7 de Janeiro de 2010 às 17:13

Sócrates acusa bancos de serem responsáveis pela crise
07.01.2010 - 16h11 -por Lusa, Bruno dos Reis / Público

O Primeiro-Ministro reagiu hoje às declarações de ontem do presidente do BPI, Fernando Ulrich, e acusa os bancos de serem “os causadores da crise financeira”.

A afirmação de José Sócrates surge um dia depois de o líder do BPI ter dito aos jornalistas que a dívida pública consolidada do Estado já atinge os 100 por cento do Produto Interno Bruto, PIB.

"Aqueles que foram os causadores da crise financeira são os primeiros a queixar-se das acções do Estado que permitiram a resolução dessa crise", afirma o primeiro-ministro português, que se encontra em Paris, onde participa num simpósio de dois dias.

Ulrich, que apresentou à imprensa um estudo do banco ao qual preside sobre as finanças públicas portuguesas, explicou que “a dimensão dos problemas é tal que não se pode resolver tudo num ano”.

José Sócrates diz que "o Estado esteve disponível e com vontade de não permitir uma catástrofe do sistema financeiro” e acrescentou mais à frente que “é muito curioso que sejam agora os bancos a queixarem-se".

O chefe do Executivo português considera ainda que "o sistema financeiro portou-se muito bem. Portugal foi dos países que gastaram menos com o sistema financeiro", concluiu.


De falta pôr em prática 'Melhor Estado' a 7 de Janeiro de 2010 às 17:24


José Sócrates defende "governo económico da Europa" em Paris
07.01.2010 - 11:29 Por Lusa/ Público

O primeiro-ministro José Sócrates defendeu hoje em Paris um "governo económico da Europa" e afirmou que a resposta à crise mundial provou a importância do "bom e velho estado".

"A resposta à crise esteve à altura das circunstâncias", considerou o primeiro-ministro português na abertura do simpósio "Novo Mundo, Novo Capitalismo", realizado na Escola Militar em Paris, durante dois dias.

José Sócrates e o chefe de Estado francês, Nicolas Sarkozy presidiram à segunda edição deste simpósio, organizado pelo ministro da Imigração e da Identidade Nacional francês, Éric Besson.

"A resposta à crise teve em conta as lições da História", afirmou José Sócrates.

"No século XX foram cometidos erros que já não se cometeram no século XXI. Aprendemos alguma coisa", frisou o primeiro-ministro.

"Regressou o bom e o velho estado. O que seria de nós sem o estado?", questionou José Sócrates na sua intervenção de abertura do simpósio.

"O ano de 2009 foi uma grande lição para os que desconfiam do papel e da intervenção do Estado", acrescentou José Sócrates.

José Sócrates afirmou que a eficácia da resposta à crise "dependeu da existência de Europa".

O primeiro-ministro português defendeu, porém, que a integração de políticas económicas e mecanismos de coordenação em vários sectores tem que ser aprofundada.

"A melhor resposta é mais Europa e não menos Europa", afirmou José Sócrates.

"É com profunda tristeza e desolação que vejo que em todos os fóruns internacionais, a Europa está sempre representada por várias vozes e tem variadas posições", sublinhou José Sócrates.

"É preciso reagir à ideia de que tudo vai bem e de que agora podemos voltar às 'boas práticas' do passado", alertou também José Sócrates, para quem a crise "ainda não acabou".

O primeiro-ministro português tem hoje encontros com o seu homólogo francês, François Fillon, e, de novo, com o Presidente Sarkozy, no Eliseu.


De Zé das Esquinas o Lisboeta a 7 de Janeiro de 2010 às 18:06
Canta bem, mas não me alegra.
É o chamado discurso do 'engate'.
É só falinhas mansas e tu-ru-tu-tu , mas depois, na prática, é que se vê.


De gerar empregos uteis a 7 de Janeiro de 2010 às 09:16
Até quando?

[Segundo o Ministro das Finanças] o governo pretende “fazer um esforço de redução do défice público já a partir deste ano.” Ao que parece, ter-se-á comprometido com “uma redução de cinco pontos percentuais do défice entre 2010 (inclusive) e 2013.” “Se for assim será o terceiro ritmo de consolidação anual mais violento a nível europeu e o maior da história das contas públicas portuguesas.” (Jornal i, 28 Dez. 09, p. 23)

A lógica desta insistência na redução imediata do défice decorre do facto de o peso da dívida pública no PIB estar a subir para níveis considerados “perigosos” do ponto de vista das agências de notação financeira. Para estas agências, que falam a uma só voz com Claude Trichet, presidente do BCE, e com o comissário europeu das finanças (até há pouco o espanhol Almunia), os juros da nova dívida, e da reciclagem da anterior, tenderiam a ser insustentáveis.

Pelo contrário, em meu entender, o Governo deveria adoptar a proposta de Paul Krugman: para além dos programas de formação já em curso que melhoram a empregabilidade dos desempregados (mas os deixam em casa no desemprego, com um subsídio mas deprimidos),
deveria criar um grande programa gerador de empregos com evidente utilidade social, tanto quanto possível ajustados às qualificações dos actuais desempregados. As remunerações deveriam ser baixas e, no momento em que a economia começasse a criar empregos estáveis no sector privado, os beneficiários do programa seriam levados a abandoná-lo de forma apoiada através de preparação específica para as novas tarefas. A ideia não é original e tem sido defendida nos EUA (ver aqui).

Como diz Krugman, “Tudo isto custaria dinheiro, … e faria aumentar o défice orçamental a curto prazo. Mas há que ter em conta o enorme custo de nada fazer contra a situação de emergência social e económica.” Ou, como diz noutro artigo, “Se não fizermos descer o desemprego em pouco tempo, pagaremos o preço de uma geração.”

Perguntar-me-ão: e a subida dos juros da dívida no mercado de capitais por via da desclassificação aplicada pelas tais agências? A proposta que faço é uma “jogada de risco” que pressupõe uma mobilização diplomática destinada a criar uma frente de países dispostos a assumir unilateralmente o seguinte compromisso: a redução do défice só tem início após dois anos consecutivos de crescimento do PIB igual ou superior a 2%. A meu ver, uma ruptura política organizada nestes termos constituiria uma “terapia de choque” com resultados positivos para a UE. Entre outros, traria de volta o pleno emprego como prioridade da política económica. A alternativa será, mais tarde ou mais cedo, a implosão da actual Zona Euro, um cenário que já aqui admiti como muito provável se as autoridades permanecerem cegas pela doutrina neoliberal.

Como Keynes ensinou, é o crescimento do produto que permitirá reduzir, e mesmo eliminar, o défice público. Em recessão, reduzir o défice só diminui o crescimento, acabando por gerar no final do ano um défice ainda maior que o inicial. No entanto, a actual prioridade das várias instâncias da UE é que todos os países comecem a reduzir os seus défices públicos.

Sublinhe-se que para um programa europeu de relançamento da procura interna a UE parece não conseguir gerar convergências e passar à acção. Nem para emitir dívida europeia para ajudar países com dificuldades financeiras. Remete-os para o FMI. A concretizar-se esta orientação, o agudizar da crise estaria garantido assim como o crescimento dos próprios défices. Infelizmente, quase todos os jornalistas com formação em economia aparentam desconhecer as mais elementares noções do pensamento de Keynes.

Também por isso, os Portugueses (e restantes cidadãos europeus) estão hoje reféns do pensamento único na Economia, sobretudo através da poderosa influência da televisão. Estão confusos e sem esperança em melhores dias. A abstenção continuará a aumentar nas eleições. Até quando vai manter-se este impasse?

--Publicada por Jorge Bateira em 6.1.10 Ladrões de Bicicletas


De + trabalho com utilidade produtiva e soc a 7 de Janeiro de 2010 às 09:19
Anónimo Bruno Silva disse...

Sempre defendi a criação desse tipo de programas e não me sinto menos liberal por isso.. deveria?

Não concordo com a obsessão do pleno emprego, é um conceito simplista, o que deve ser procurado é o pleno "trabalho produtivo", não há sentido nenhum em ter pessoas empregadas, de facto, mas em funções nada produtivas (seja no privado ou no público).

É também curioso o facto deste blog ignorar constantemente a balança comercial negativa. Talvez seja por um lado por defenderem, como solução, o impopular proteccionismo ou, por outro, por terem o tabu de não defender/apoiar o empreendedorismo e a indústria privada. Uma balança estruturalmente negativa é ponto de fuga de massa monetária e, bem assim, diminuidora do efeito multiplicador e do dinamismo de uma economia. Como sabem disto, simplesmente omitem a menção a esta rubrica, pois tal os obrigaria a moderar os incondicionais apoios ao aumento do já desequilibrado rácio Trabalhadores Públicos/Trabalhadores do Privado (para uma economia com a competitividade da nossa), o que era uma chatice para a propaganda que fazem..

6 de Janeiro de 2010 15:22
Blogger João Pinto e Castro disse...

O Jorge Bateira está enganado em várias coisas, e uma delas é esta: Krugman não defende isso para países na situação de Portugal. Convém ler o que ele tem escrito sobre a Espanha, propondo uma redução geral dos salários. Não concordo com o Krugman, mas é o que ele diz.


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