Fim do trabalho ? 'Substitutos' em vez de cidadãos ?!
Para a compreensão da crise
Esta crise apresenta-se com uma dimensão de tal modo original, que tem deitado por terra a generalidade das explicações, quer no ponto de vista da interpretação quer no entendimento dos seus efeitos. Só agora se começa a observar algum acerto, surgindo as primeiras teses sustentadas a partir de olhares mais cuidados.

 

Esta crise apresenta-se com uma dimensão de tal modo original, que tem deitado por terra a generalidade das explicações, quer no ponto de vista da interpretação quer no entendimento dos seus efeitos. Só agora se começa a observar algum acerto, surgindo as primeiras teses sustentadas a partir de olhares mais cuidados.

 

Alguns Indicadores de referência O relatório do Parlamento Europeu, de Setembro último, refere que o flagelo da pobreza está a crescer na Europa. Este documento confirma o que há muito se receava:

a política social europeia não tem conseguido responder de forma eficaz ao problema da pobreza e das desigualdades sociais;

 

O último relatório da Organização Internacional do Trabalho (Outubro último) apresenta um conjunto de relevantes conclusões onde evidencia o progressivo alargamento do fosso entre os trabalhadores mais bem pagos e os menos bem pagos. É o dramático aumento das desigualdades sociais. Segundo a OIT tal é particularmente visível em países entre os quais Portugal, mas afecta também países antes considerados verdadeiros modelos de equidade social como a Dinamarca e a Suécia.

 

Um recente relatório da ONU diz que o mundo reflecte modelos de organização social que fracassam a cada dia. O reflexo é de um mundo onde os 20% mais ricos do planeta dividem 82% das receitas mundiais e os 20% mais pobres apenas têm acesso a 1,4% desses mesmos recursos. Os restantes 16,6% dos recursos são derramados pelos outros 60% que competem entre si pela sua pequena parte que lhes permita não serem pobres. Contrariando as tendências até há poucos anos, os índices indicadores de desenvolvimento humano, de pobreza e de desemprego agravam-se todos os dias. Os indicadores económicos que se vão publicando são piores do que os anteriores.

 

O que está a mudar? Começa a tornar-se evidente que nos aproximamos de uma grave seca de recursos financeiros em oposição a gente e máquinas demais para produzir de menos. Tudo parece indicar que a solução passa por refundar o trabalho. Mas como fazê-lo, em que bases e em que sentido?

Uma característica fundamental da modernidade é a centralidade do trabalho enquanto motor da vida societária, eixo da integração social, sentido para a vida pessoal, espaço privilegiado para a participação do cidadão no progresso material. Hoje é evidente o questionamento compreensível deste paradigma da centralidade do trabalho na integração social. Cresce a tensão entre a centralidade do trabalho e um mundo onde crescentemente se vai tornando descontínuo e reduzido. "O trabalho já não pode fornecer um uso seguro na configuração de definições de si, identidades e projectos de vida", diz Z. Brauman.

 

Existem diferentes olhares sobre o desemprego e o futuro do trabalho, sobre o papel do trabalho na socialização e vínculos sociais, sobre concepções de justiça, sobre a dimensão individual e comunitária e sobre a construção da sociedade.

 

Mas há olhares que com mais frequência se vão cruzando e confirmando a ideia de que a crise financeira e a crise económica são pequenos produtos de uma crise civilizacional sem paralelo que só agora começa a vir à tona, por líderes e dirigentes não terem sido capazes de fazer as interpretações dos sinais de mudança e aplicar reformas adequadas.

Não ouviram os avisos de sábios pensadores, investigadores e académicos que há muito vêm dando conta dos sinais dos tempos. Cresce a convicção de que as sociedades pós-crise ditarão modos de vida e um mundo muito diferente do conhecido. O modo e as razões que orientarão a nossa agenda de vida amanhã, terão pressupostos bastante diferentes dos de hoje.

Em parte dependerá de como se iluminar o caminho, ou seja, da capacidade e competência dos nossos líderes para interpretar e gerir os necessários processos de transformação. Mas dependerá também e muito, de processos e acontecimentos não controláveis. Pela primeira vez é uma crise de dimensão global. Ocorre num mundo em acelerada transformação onde as mudanças são tão rápidas que nem o cidadão médio consegue acompanhar.

Vivemos todos os dias fazendo opções e agindo desfasados do conhecimento que vai ditando as novas formas de entender a vida e os seus mecanismos de organização. Consequências:

Conflitos, políticas desadequadas ou fora de prazo, mais conflitos, crescendo a sensação de vivermos numa sociedade sem futuro, que nos virou as costas, onde um pequeno número de parasitas sugam recursos que são de todos.

 

Que fazer? Porque lidar com a pobreza é a maneira mais eficaz para lidar com a crise económica, o Fórum Social Mundial sustenta que para prevenir desemprego em massa e miséria a prioridade deve ser:  Investimentos produtivos, trabalho formal e protecção social.

 

Sendo evidente a substituição crescente do mundo do trabalho humano na produção de bens e serviços, pelo mundo da crescente inovação tecnológica, nesta fase de transição em que entrámos e porque o modelo de organização social que estruturou as actuais sociedades se centra no trabalho, importa continuar a investir no trabalho, alterando o seu quadro institucional para que mais pessoas tenham acesso. Entretanto um outro modelo de redistribuição dos recursos precisa-se urgentemente.

 

Diz Rifquin, à volta do qual se anima o debate sobre o drama do fim do trabalho, que os objectivos hoje colocados serão os de evitar a frustração e o descontentamento social e canalizar para os sectores mais socialmente activos, energias para preencher o vazio deixado pelo recuo ou incapacidade do Estado social. Aos sectores desprotegidos proporcionar canais de estabilidade social.

 

Aos que não conseguem por si próprios condições que lhes permitam um patamar mínimo de dignidade humana, o Estado deve assegurar os recursos básicos. Mas quem recebe a solidariedade do Estado não deve simplesmente viver no ócio. O Estado tem de criar mecanismos que permitam aos cidadãos apoiados serem parte positiva na sociedade.

 

O actual estádio civilizacional consolidou valores de humanidade que não podem ser perdidos… E os riscos são grandes. Nas crises anteriores o discurso apontava o Estado como o problema.

Hoje o Estado é a solução. Mas tem de chamar à mesa do debate em particular os especialistas das Ciências Sociais, mas todos os que ousem inovar pensamento, porque o pensamento tradicional está desajustado dos exigentes desafios que hoje se colocam.

 

Finalmente atenção ao papel central das novas gerações:

A serem deixados à deriva, como crescentemente vem acontecendo, serão uma perigosa energia negativa; devidamente integrados, proporcionando-lhes condições de realização pessoal e de futuro, serão os epicentros positivos dos abalos que aí vêm.


Três interrogações:

- Simples crise financeira?

- Grave crise económica?

- Ainda e só pré-crise social - prenúncio de uma crise civilizacional a anunciar convulsões sociais e profundas transformações sem paralelo com outras crises ocorridas nas sociedades humanas?

 

José António Cardoso, M ! C,  2.1.2010



Publicado por Xa2 às 00:05 de 08.01.10 | link do post | comentar |

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