ESTRANHO QUOTIDIANO | A corja
Uma vantagem da crise foi livrar-nos da petulância dos economistas liberais. Eles, que nos anos 90 sonhavam um mundo perfeito comandado pelo Mercado, que apregoavam as vantagens do Estado mínimo, que viam como crime a injecção de moeda pelos bancos centrais, que apontavam como modelo a Islândia e a Irlanda, que achavam seguros os negócios do Lehman Brothers, calaram-se e esconderam-se quando viram tudo isso ruir numa crise que não souberam prever.

Quando apareciam, envergonhadamente, era para pedir a salvação dos bancos e felicitar os governos que o faziam. Já aceitavam a injecção de dinheiro, achavam bem a nacionalização dos bancos e que os Estados se endividassem para os salvar. Até pediam ética na actividade económica, chegando a criticar os ordenados milionários e a existência de offshores.

Foi assim que os bancos foram salvos e a sua crise acabou. Mas continua a crise das empresas a quem eles cobram juros elevadíssimos, aumentando, por arrasto, o desemprego. O problema já não é dos bancos, mas sim dos governos que perdem receita e gastam na protecção social. Mas o pior é que estão aí de novo os economistas em todo o seu esplendor.

E o que dizem eles agora? O mesmo que há 10 anos, quando glorificavam a Islândia e a Irlanda: que o Estado não se pode endividar e, como perde receita e aumenta a despesa, só lhe resta vender-se. Vender-se, a começar pelas escolas e hospitais, dizem eles. A mim, dá-me vontade de dizer que nos livrem dessa gente. O seu receituário já fez mal que chegue.

[J.L. Pio Abreu, Psiquiatra]


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Publicado por [FV] às 11:22 de 12.01.10 | link do post | comentar |

11 comentários:
De grosso da DÍVIDA externa é PRIVADA a 14 de Janeiro de 2010 às 09:46
Os défices de uns são os excedentes dos outros

Terminou há pouco programa Contas à Vida na TVI24 horas, conduzido pelo jornalista António Perez Metelo, com a participação dos ex-Ministros Braga de Macedo e Pina Moura e, esta semana, com o João Rodrigues.

O debate andou essencialmente à volta de dois temas – as tensões de política macroeconómica que se vivem na zona euro e a questão das contas públicas em Portugal.

O João disse aquilo que temos dito neste blog:

1) que a arquitectura da gestão macroeconómica na UE não permite fazer face a crises que afectam assimetricamente os estados membros;

2) que os discursos sobre os défices externos das economias periféricas esquecem que eles são espelho dos excedentes de outros países, pelo que os dois problemas têm de ser vistos em conjunto;

3) que é um erro, por sinal nada ingénuo, confundir o défice externo com a política orçamental em Portugal, já que o grosso da dívida externa é privada - e, já agora, indissociável do processo de construção da UEM; e

4) que a retórica recorrente que culpabiliza cada economia em dificuldade e não o regime de gestão macroeconómica da UEM pelas crises conduz a um estado permanente de austeridade e à erosão do estado social.

Pina Moura surpreendeu-me pela fraqueza dos seus argumentos. Ao afirmar que não é um problema a Europa não ser uma zona monetária óptima, pois esta será um resultado do próprio processo de integração, ignora não apenas os custos de ajustamento como a ausência de factos que corroborem aquela afirmação.
E ao sugerir que a UE saberá encontrar formas de melhorar gradualmente a deficiente arquitectura económica, persiste na ilusão que dominou grande parte da social-democracia europeia (como e o João aqui discutimos em detalhe) – a de que é possível obter os consensos, previstos nos Tratados, entre os governos dos 27 estados membros para introduzir as mudanças necessárias (e.g., um orçamento comunitários com funções de estabilização, a harmonização da fiscalidade directa, o fim dos paraísos fiscais, a coordenação das políticas sociais e laborais, etc.). Sinceramente, não consigo perceber se se trata de um acto de fé (as coisas vão melhorar, só podem melhorar) ou de ocultação deliberada das implicações da UE na sua versão actual. Vindo de quem vem, ignorância não é concerteza. mas os argumentos não são convincentes.

Publicada por Ricardo Paes Mamede em 14.1.10 , Ladrões de bicicletas.


De Zé das Esquinas o Lisboeta a 14 de Janeiro de 2010 às 10:42
"Vindo de quem vem, ignorância não é com certeza"...
Repare que Fé, vindo de quem vem não é com certeza, a não ser 'má fé'.
Mas, vindo de quem vem, também já nada me admira.


De A frase: economistas 'zandingas' a 13 de Janeiro de 2010 às 17:10
"A última crise demonstrou que a economia tem muito pouco de ciência exacta e que os economistas são mais alquimistas amadores.
Ou seja, no que toca a previsões acertam mais por acaso do que por sabedoria."
Bruno Proença, "Diário Económico", 13-1-2010


De [FV] a 13 de Janeiro de 2010 às 17:19
Por isso é que há aquela piada popular sobre "o que fazem os economistas?"
- Metade do tempo a fazerem previsões económicas;
- E a outra metade, a justificarem porque é que as previsões falharam...


De Economistas do costume... a 13 de Janeiro de 2010 às 16:45
Portugal assistiu ontem espantado a um comício dado por um tal João Salgueiro, cidadão comum com ar de aposentado, à saída de uma audiência de chá e bolachinhas dada pelo candidato presidencial Aníbal Silva que ostenta o título de Presidente da República.
Ninguém percebeu muito bem a que título Cavaco convidou um velho amigo e manda-os entrar pela porta principal para onde foi convocada a comunicação social.

Cavaco pode muito bem beber chá com quem entender mas seria conveniente que o hall de entrada do palácio não se transforme num Circo Chen onde as velhas glórias do PSD vão fazer palhaçadas por encomenda.
João Salgueiro não representa nada nem ninguém e foi recebido sem se perceber a que título, quando sabemos que muitas entidades bem mais representativas pediram audiências ao Presidente da República e nunca foram recebidas.

É evidente a estratégia de Cavaco Silva, já não dá entrevistas a dizer que está preocupado, agora convida amigos para irem a Belém para que à saída façam comícios. Só ex-ministro das Finanças dos seus governos Cavaco pode convidar meia dúzia pois, como se sabe, Cavaco mudava de ministro das Finanças como quem muda de camisa.
----O Jumento-------

#
assis
"(João Salgueiro) foi, dez anos mais tarde, Ministro de Estado e das Finanças e do Plano, durante o VIII Governo Constitucional, entre 1981 e 1983." Depois disto veio o fmi para pôr as contas em ordem. ou seja o homem que levou o país à quase bancarrota anda agora a moralizar....
#
Excelente, Assis. Excelente!
Jumento, as únicas preocupações que Cavaco tem e teve são a sua reeleição e ter alguém no governo que lhe permita não ter que fazer nada a não discursos bonitos, viagens e assinar sem ler.

É que, conforme as coisas estão, ele é obrigado a fazer análises para as quais [já] não está qualificado (se é que alguma vez esteve). Ao fim ao cabo, os problemas económicos de falta de competitividade e produtividade foram criados pelos governos deles que investiu em betão (a maior parte dele desnecessário - Centro Cultural de Belém, por exemplo) e em industrias com fim de vida à vista (têxteis e afins). Nos anos 80, já toda a gente sabia que o futuro do país não eram os baixos salários. Esse futuro era apenas futuro para quem fazer dinheiro com a exploração dos trabalhadores e da riqueza do país. Hoje pagamos pelo bom investimento dos governos de Cavaco.

É por isto que ele chama os amigos, porque ele não sabe o que fazer. Não o soube na altura e não o sabe agora. Talvez haja algum amigo que saiba mas...
#
Espero que Cavaco convide os seus amigos para o melhoramento da sua imagem mas, todos os seus amigos, incluindo Dias Loureiro, Oliveira e Costa e outros tantos.

Não é usual dizer-se que os amigos são para as ocasiões e que se vêem nos momentos difíceis.


De Zé das Esquinas o Lisboeta a 13 de Janeiro de 2010 às 17:24
Neste Blog, no post BOA SOCIEDADE de 04.01.10 :
"...Os problemas económico-financeiros que as sociedades ditas ocidentais hoje apresentam foram criados pelos economistas, isto é, pelas políticas económicas aplicadas por estes ou outros ditos pensadores e fazedores das economias dos países.
São estes senhores 'engenheiros da moeda' que ao raciocinarem (mesmo que de boa fé) sobre as sociedades destas formas económico-financeiras, que levaram a todo este global descalabro.
E vêm agora com receitas e medicamentação do mesmo veneno que aplicaram à sociedade. O problema e solução, neste caso são faces da mesma moeda, logo terá de se repensar o que levou a sociedade a este caos.
...os 'economistas' não estão no lote dos que podem agora opinar, quanto mais pensar."


De AAA em Descaramento: a 13 de Janeiro de 2010 às 14:16
Já muito foi dito neste blog sobre o papel lamentável que têm tido as agências de rating. Agências independentes de qualquer fiscalização pública, nacional ou internacional, mas absolutamente dependentes dos interesses que se movem nos mercados financeiros. Por exemplo, aqui, aqui, e aqui. Também Nicolau Santos arrasou estas entidades (de 'rating' ) no seu último artigo no Expresso:

"[...] a S&P avisou quatro países da zona euro de que o seu rating estava sob vigilância e, menos de uma semana depois, a três deles (Grécia, Espanha e Portugal) baixou-lhes o rating para AA+ sem apelo nem agravo. O quarto, a Irlanda, cujas previsões de recessão (-5%), défice orçamental (-11%) e situação do sistema financeiro são bem piores do que em Espanha e em Portugal, continua a manter a classificação de AAA. Também o Reino Unido mantém o triplo A, confirmado a 13 de Janeiro, apesar de em termos relativos a economia inglesa se ter afundado muito mais e da banca estar falida e à beira de ter de ser nacionalizada. Isto é injusto, incoerente, não tem qualquer justificação e afecta profundamente a vida dos cidadãos dos países a quem a S&P, como os imperadores romanos, decide que têm de pagar mais do que outros em situação pior. Além do mais, a S&P falhou redondamente na crise do crédito imobiliário nos Estados Unidos, tendo de rever, no mesmo dia, a notação de mais de 90 (!) activos financeiros ligados aquela área de actividade. E falhou no rating da AIG, da Lehman Brothers, da Islândia. Falhou, falhou, falhou."

Agora, um dos executivos da Moody's veio ameaçar Portugal com uma descida do rating, caso não fossem tomadas medidas "significativas e credíveis" no controlo do défice. É notável que as avaliações de agências que se celebrizaram por cometer erros do tamanho desta crise sejam agora utilizadas para justificar o regresso às políticas que nos trouxeram ao Estado actual.

A chatice é que as agências de rating já não valem o que valiam. Os erros de avaliação grosseiros, o escrutínio crescente sobre as suas motivações e o enviesamento ideológico evidente das recomendações destas entidades afectaram a sua credibilidade e arriscam-se a colocar as suas recomendações e "outlooks" ao nível dos do Zandinga. Aliás, os ratings tem seguido (selectivamente), mais do que propriamente previsto, as evoluções dos mercados de dívida e não parece que isso se vá alterar nos tempos mais próximos. Ainda bem que assim é. Hoje, uma das pré-condições para uma retoma económica sustentada e duradoura na Europa é a completa desacreditação destas agências e a sua substituição por entidades mais fiáveis, sob supervisão pública.
-por José Guilherme Gusmão em 12.1.10 , Ladrões de Bicicletas.

Tiago Santos disse...

Vamos criar uma agência de Rating da credibilidade das agências de Rating...

12 de Janeiro de 2010
Anónimo disse...

As agências de rating são um estupores, uns vendidos (ou uns comprados, se preferir), uns azelhas que nos tramam a vida.

Por que razão é que lhes dão atenção? Por que é perdem tempo com esses gambozinos?

Esqueçam!
13 de Janeiro


De Izanagi a 13 de Janeiro de 2010 às 16:09
O trilpo A em descaramento pode ter carradas de razão na sua análise, mas quer queira quer não, o que vai definir a taxa de juros que Portugal terá que pagar pelos empréstimos que terá que recorrer, são as avaliações dessas agências.
O que acontece é que o triplo A em Descaramento está a analisar o problema na perspectiva errada. Repare, se Portugal tivesse uma economia competitiva, como devereia ter face ao investimento que o país fez, quer com recurso a capitais próprios quer com com capitais oferecidos pela comunidade europeia, seguramente que a avaliação dessas agências de rating seriam irrelevantes. O problema não está na agências está no país e nos portugueses e desfocarmo-nos do problema não ajuda a resolvê-lo.


De Marcelo Salles a 12 de Janeiro de 2010 às 20:09
Com o objetivo de fidelizar leitores e atrair visitas para o seu Blog a empresa Comunica Geral lançou o serviço de gerenciamento de conteúdo de blog

Publicação periódica de postagens, atualização de conteúdo e relatórios de visitação.

Saiba mais em: http://comunicageral.wordpress.com/servicos-de-blog/



De [FV] a 12 de Janeiro de 2010 às 14:17
Enquanto não se modificar a perspectiva sociopolítica dos governos ditos ocidentais, não há, na minha opinião, solução. A economia não é a solução em si mesma. A economia só é válida enquanto uma mera ferramenta a usar pelas sociedades.
Enquanto não funcionar a vertente dos valores sociais - família, vizinho, bairro , cidade, país, por esta ordem, não vamos a lado nenhum. A educação, o trabalho e a justiça têm de estar à frente da instrução, emprego e jurisprudência, e, não vale a pena continuar a usar as palavras educação para o ministério da instrução, para nos levarem a pensar que é a mesma coisa, porque não é. A manipulação dos conceitos/palavras, a que assistimos pela insistência quer nos media, quer no quotidiano ou nas instituições, funciona mas não nos ajuda em nada enquanto boa sociedade. Conduziu-nos a este beco aparentemente sem saída em que nos encontramos e que infelizmente não estamos sozinhos. Urge dizer não a todo este caminho de vocação económica ou financeira em que caminhámos nos últimos anos e voltarmo-nos para a afirmação dos verdadeiros valores do ser humano a que me referi em cima. E já agora, em política de partidos, é preciso perceber que as democracias só funcionam com democratas e na nossa sociedade parece haver bem poucos.


De Pobres Paguem a crise... ou façam BUUM ! a 12 de Janeiro de 2010 às 11:26
Salgueiro em Belém ou "os pobres que paguem a crise"

Já todos repararam que a situação económica do país não vai bem. Às dificuldades estruturais somou-se a Grande Crise provocada pela economia mundial de casino, pela desregulamentação, pela alta finança especuladora, pelos banqueiros.
Para salvar o sistema financeiro (não para o reformar!) os governos socorreram a banca e os banqueiros com milhões de milhões de euros. Estes é claro conseguiram pôr a roleta e o casino a funcionar com uns retoques de maior seriedade na fachada e mais umas mãos cheias de prémios para os seus bolsos "por terem salvo a situação".
Mas à crise financeira seguiu-se, como era óbvio, a crise económica e todo o gigantesco roubo e brutal destruição de riqueza tem de ser paga por alguém.

Em suma é preciso apertar o cinto.
Mas o cinto de quem? Dos banqueiros?
Das famílias que medem os rendimentos mensais pela escala das dezenas de milhar de euros?
Ou apertar o cinto dessas classes ditas trabalhadoras mas que melhor seria dizer preguiçosas, cujas famílias se contentam com salários ou reformas de 400, 600, 1000, 2.000 ou 3.000 euros por mês?

Pois é preciso assustar a ralé e as classes médias baixas ou medianas.
É preciso convencê-las que é melhor apertarem o cinto do que morrer de fome ou "explodir".
É isso que João Salgueiro foi fazer a Belém.
Participar na campanha que leve os do costume:
os trabalhadores e as classes médias a pagar a crise. Não os ricos como se pedia em 1975 no PREC.

A situação está explosiva diz o PR. E Salgueiro e o grande patronato garante que sim.

Ora todos sabemos que a solução é a Economia. A produtividade. As exportações. Ganhar à concorrência. Melhores recursos humanos (em especial na classe empreendedora!) melhor Justiça, menos burocracia, etc, para atrair investimento externo.

Já gastámos dezenas de milhões em estudos desde o Porter para descobrir o busilis.
Mas enquanto a situação não melhora é necessário ir buscar o dinheiro com que se socorreu a banca a alguma lado.
Tenho uma boa solução. Fazer como o norte-americano Franklin D. Roosevelt fez nos anos 30 e 40 e outros continuaram até aos anos 70.
Apertar o cinto dos 20% mais ricos com escalões abundantemente progressivos de IRS, com maiores taxas nas mais-valias, aumento graúdo do imposto sucessório mas só para as grandes fortunas.

Isto digo eu que não sou especialista mas os especialistas em emagrecer os baixos rendimentos aposto que se quiserem sabem como ir buscar mais dinheiro às fortunas.

Salgueiro apontou para o perigo em que estão no futuro as reformazitas.
Ora eu propunha para já uma forte redução das principescas pensões que tantos por aí auferem das empresas públicas e... privadas.
Apenas com uma moralizadora taxa adequadamente progressiva de IRS.
A situação, garanto, ficava menos "explosiva".

# posted by Raimundo Narciso, PUXA PALAVRA, 12.1.2010


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