Nada é natural
por João Rodrigues, ionline,18.1.2010   
      Dois apelos ao leitor :  faça uma doação, por exemplo à AMI, e informe-se sobre o Haiti.   Perceberá rapidamente que nada é mesmo natural.

      Quando somos confrontados com uma catástrofe, como a que ocorre no Haiti, podemos procurar esperança na reflexão do filósofo liberal Stuart Hampshire: a acção política tem ganho fôlego ao longo da história à medida que um número cada vez maior de problemas deixa de ser visto como uma simples catástrofe natural para passar a ser visto como um fracasso político, eventualmente remediável.
      Também um terramoto não é, para aquilo que conta mais - a morte e o sofrimento humano evitáveis -, uma simples catástrofe natural. A história recente do Haiti ilustra isto mesmo: um Estado falhado sob ocupação internacional que, tal como quase todos os países das Caraíbas, não escapou à pobreza gerada, em parte, por ser o pátio das traseiras dos EUA.
       Um outro filósofo, versado nos problemas do pós-colonialismo e da história do Haiti, Peter Hallward, escreveu na semana passada um artigo no "The Guardian" onde argumenta precisamente que a pobreza deste desgraçado país foi o legado de um brutal regime de exploração colonial e de opressão pós-colonial. Recorrendo à esperança frustrada do ex-presidente haitiano Jean-Bertrand Aristide, eleito pelo povo haitiano e deposto por golpes preparados em Washington, de que o Haiti passasse da "miséria absoluta para a pobreza digna", Hallward faz uma comparação esclarecedora: os furacões do ano passado, que passam desapercebidos por Cuba antes de serem mediatizados na Florida, quase não causaram, nestas duas áreas, mortes.

       No Haiti morreram centenas de pessoas. Antes do terramoto, mais de 80% da população haitiana estava desempregada, não existia serviço de recolha de lixo e só menos de 40% da população, que na sua esmagadora maioria vive em bairros de lata, tinha acesso a água potável.


       O Haiti depende agora totalmente da solidariedade internacional. Apesar da habitual cobertura mediática, a verdade é que os EUA são dos países desenvolvidos que menos percentagem da sua riqueza dedica à ajuda internacional, num padrão que foi recentemente identificado:

quando mais igualitários economicamente são os países desenvolvidos, maior é a sua simpatia internacionalista, traduzida na afectação de mais recursos para ajudar os outros, os que não são daqui (Richard Wilkinson e Kate Pickett, "The Spirit Level", Penguin, Londres, 2009).

       Podemos esperar mais dos países escandinavos ou de Cuba, um país de "pobreza digna", e da sua experiência na ajuda a vítimas de catástrofes por todo o mundo. Seja como for, é bom ver que EUA e Cuba convergem agora na mesma acção política.
        Resta-me fazer dois apelos ao leitor :   faça uma doação, por exemplo à AMI, e informe-se sobre o Haiti. Chegará rapidamente a uma conclusão singela:   nada é mesmo natural.
                   Economista e co-autor do blogue Ladrões de Bicicletas



Publicado por Xa2 às 00:05 de 20.01.10 | link do post | comentar |

4 comentários:
De Avisos, sussurros ... e medo. a 21 de Janeiro de 2010 às 09:44
Pior que a ditadura. Pior que os ciclones. Os velhos do Haiti têm medo

- I online, em 21.01.2010
Em Port-au-Prince os que têm mais idade avisam:
é preciso que a ajuda humanitária seja rápida. E sussurram:
"Antes que os jovens enlouqueçam"

Os velhos do Haiti sabem do que falam. Nunca houve tempos piores que estes que agora se vivem em Port-au-Prince. Elneile Pierre tem 80 anos e nunca viu nada assim "na vida inteira". Sentada na sombra da entrada da casa rodeada por escombros, ao pé de um grelhador enferrujado, Elneile considera-se "protegida por Deus por estar viva".
Ela assistiu a vários ciclones, a confrontos armados, a outros tremores de terra. Mas como este terramoto de 12 de Janeiro, "jamais". À espera de ajuda humanitária, de alguém que lhe dê "alguma coisa, em espécie ou dinheiro", Elneile vive com a família de oito pessoas num bairro pacífico, perto do centro da cidade.
Pede, como todos os haitianos, que a ajuda chegue "rapidamente". E sussurra as palavras: "antes que os jovens enlouqueçam".

Elneilde não se assustou com o pequeno "tremblement" de ontem, "não foi nada" comparado com o terramoto da semana passada, quando viu famílias amigas "inteiras" desaparecidas e mortas por baixo dos escombros.
Com ela, "graças a Deus", nada se passou, nem com a prima, os netos e os filhos que vivem na mesma casa. Cheira a cadáver naquele bairro - é, pelo menos, o que me dizem ser o cheiro de cadáveres, ainda a apodrecer por baixo das casas que simplesmente se desvaneceram.

O neto de Elneide, que serve de intérprete do crioulo da avó para o francês da minoria de haitianos cultivados, é um orgulhoso "engenheiro informático".
Escreve no papel que lhe apresentamos, o título académico e o nome: "Ing. Seuffront Martiol". Tem 31 anos e "muita vontade" de voltar a trabalhar. O pequeno escritório em que funcionava o seu pequeno negócio por conta própria "desfez-se" mas espera voltar brevemente ao seu ofício: "Concepção de computadores e todo o trabalho de informática relacionado".

Irrita-se quando lhe digo que alguns dos desempregados que hoje estão nos campos de desalojados, um pouco por toda a cidade, já eram desempregados antes do sismo.
Ou que na Europa e na imprensa dos Estados Unidos da América há quem escreva que o terramoto apenas agravou um problema que já existia.
Garante-me que não é assim e que muitos haitianos "gostam de trabalhar e sempre quiseram trabalhar". Pelos seus números, se o desemprego atingia 50% a 70% da população, subiu agora vertiginosamente para "80% a 98%".
Sobre a situação da sua família, incluindo a sua avó, levanta o tom de voz: "Há pessoas que são mais vítimas do que nós, mas nós também somos vítimas".

Avisa que hoje são sobretudo os bandidos "de antigamente e de todos os dias" que fazem as pilhagens e os crimes na cidade, mas que se a situação se mantém, "um dia podemos ser todos".
...


De Dívidas de países... a 21 de Janeiro de 2010 às 09:27
A DESGRAÇA ENSINA-NOS MUITO

«País que doou mais dinheiro ao Haiti?
Os EUA. Normal, é gratidão - já explico.
Segundo país? Itália. Itália, o segundo país do mundo a dar mais dinheiro ao Haiti?
Bem, não foi bem dar, perdoou a dívida (55 milhões de dólares). O pobre do Haiti tem um terramoto devastador e o generoso do credor perdoa-lhe a dívida, é? Os haitianos vão comer o perdão?
Não brinquem, as dívidas marcaram o Haiti - também já explico.

Então, vamos lá às duas explicações.
A primeira, sobre a gratidão dos EUA. O Haiti ficou independente, em 1804, depois de os antigos escravos terem corrido com a expedição militar francesa. Daí saíram duas boas consequências para a América.
Os colonos brancos fugiram para Nova Orleães e introduziram uma das culturas, a do algodão, que construiu a sociedade americana.
Por outro lado, derrotado no Haiti, Napoleão decidiu abandonar o Novo Mundo: vendeu ao desbarato o território da Louisiana aos EUA. Nesse dia, os EUA dobraram a superfície (diz-se que foi o melhor negócio da História). Fica explicada a gratidão.

Em 1825, a França obriga o Haiti a pagar a independência, conseguida 20 anos antes: 150 milhões de francos-ouro (5 anos do orçamento da ilha).
Pagar a dívida destruiu a economia do Haiti para sempre. Fica explicada a dívida.
Os terramotos às vezes mostram-nos os caboucos do mundo.»
[Diário de Notícias, por Ferreira Fernandes, via O Jumento].


De Haiti sem Lei nem Ordem, nem alimentos, a 20 de Janeiro de 2010 às 11:25
Haiti sem lei.
Todos dão mas poucos recebem
por Rute Araújo, Publicado em 18 de Janeiro de 2010

No país pobre, a onda global de ajuda não está a conseguir passar pelo buraco da agulha logístico. Autoridades receiam mais motins

O Haiti é o ponto de colisão de dois tempos - de um lado a urgência dos sobreviventes, do outro a lentidão da ajuda. O país precisa de tudo. E tudo é demasiada carga para transportar por um porto fechado, um aeroporto sobrelotado, fronteiras condicionadas e carros sem combustível. O mundo continua a mobilizar-se em angariações, mas os donativos não passam pelo buraco da agulha das vias de comunicação disponíveis. Com milhares ainda por resgatar dos escombros, as autoridades começam a ser confrontadas com outra prioridade - evitar que o país sucumba à anarquia e às pilhagens. Para muitos sobreviventes, a saída para a espera só se estanca numa torrente de violência.
"O desafio neste momento é coordenar a enxurrada de contribuições", admitiu ontem o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, ao embarcar rumo "a uma das piores crises humanitárias de décadas". A ONU alimenta 40 mil pessoas por dia e espera aumentar esse número para um milhão nos próximos 15 dias.
Contudo, perante a dimensão da tragédia, os bens essenciais que vão chegando não chegam para nada. Há quase uma semana que os habitantes se alimentam da fome, do choque e do cheiro a morte. Pelas ruas, sucedem-se placards com a palavra "ajuda" escrita em várias línguas. São lidas por milhares via televisão, mas respondidas por poucos.
Há três milhões que continuam sem qualquer auxílio externo. Quando finalmente surge uma equipa de ajuda humanitária, traz com ela comida e distúrbios. Não há ordem possível que se sobreponha à impaciência da sede e da fome. Sucedem-se relatos de voluntários apedrejados por multidões enfurecidas. Dois elementos da ajuda humanitária da República Dominicana foram alvejados enquanto distribuíam comida. Um homem de 30 anos foi abatido a tiro no momento em que roubava produtos de um mercado. Ontem, um tanque dos bombeiros foi quase abalroado quando entrou num bairro de lata que desde terça-feira não via água potável.
"Olhe para isto. Só os mais fortes conseguem lutar por esta água. Os fracos, os doentes e os velhos, que são os que mais precisam, não têm hipótese. Passou muito tempo. Por esta altura, as coisas já deviam estar a ser bem feitas", diz Pierre Deny, citado pela Reuters. Sem segurança, os voluntários não podem trabalhar e o descontentamento das populações aumenta.
Não é apenas o desespero das populações que abala a lei e a ordem. Num país com poucas vitórias para inscrever na história recente, a prisão de gangues violentos é uma delas. Mas o esforço de pacificação de anos também caiu por terra. O terramoto devolveu às ruas os criminosos que a polícia tinha enclausurado. Três mil reclusos da Penitenciária Nacional estão agora à solta e as autoridades temem um retorno da violência a larga escala na Cité Soleil, um bairro de lata que alimenta a mitologia do Haiti com episódios de sangue, crime e cabecilhas de nome "Blade" a fazer tremer os já traumatizados sobreviventes. Desde terça-feira que fazem sentir a sua presença.
As armas usadas pelos guardas dentro da prisão servem agora os criminosos nas ruas. Ter ficado sem nada não é protecção para eventuais assaltos. "Estiveram aos tiros toda a noite passada", conta à Reuters uma residente. A polícia sabe que, perante um Estado desfeito em estilhaços, será fácil impor a lei da bala. "Temos 2000 polícias em Port-au-Prince que estão severamente afectados. E temos 3 mil bandidos que escaparam da prisão. Parece-me que isto dá uma ideia da gravidade da situação", sublinhou o presidente do Haiti, Rene Preval.
A ausência de autoridade faz a oportunidade em quem nunca sonhou ser ladrão. Honore Levy apressa-se a fugir de um supermercado em ruínas com embalagens de sabão. Servirão para vender em troca de comida e água para os seus cinco filhos. "Que escolha tenho eu?", grita no momento em que a polícia chega e dispersa os saqueadores a tiros e gás lacrimogéneo.
A Secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, esteve durante algumas horas na capital para garantir apoio com propósitos estritamente humanitárias.
...


De quem enriquecerá com a tragédia miséria a 20 de Janeiro de 2010 às 11:29

Jorge Ferreira
Estas tragédias vão enriquecer ou enriquecer ainda mais alguns personagens sinistros que aparecem sempre nestas ocasiões. Os peditórios ao povo anónimo vão muitas vezes cair nas contas em paraisos fiscais destes figurões. O que fazer?


Guerreiro Irène
^No meio disto tudo o que é do mais dramático que se possa ver o que eu acho terrivel é que o unico^sitio ( e vou ser muito dura) onde o terramoto nao fez estragos ( e foi uma pena) foi na prisao e assim sairam em liberdae 3000 pessaos que ainda estao a dar cabo ( se é que ainda hà algo para destruir) do que existe.Até a natureza é injusta na destruiçao. Pois é e sera sempre o inocente a pagar.Qto a mandar dinheiro estou de acordo qdo penso que se nao houver controlo vai haver bolsinhos a encherem-se. Até apostava que o palacio do presidente vai ser dos primeiros a ser reconstruido.Enfim é o ciclo da vida mas espero que este povo, que ja sofreu bastante, com o dinheiro que existe actualmente possa ter enfim uma vida que todo ser humano honesto merece.


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