Fraude e corrupção

O jornalista José Vegar em boa hora publicou, em parceria com Maria José Morgado, através da Dom Quixote, o livro intitulado “O inimigo sem rosto”.

Efectivamente “...Por detrás de reposteiros dourados, de sociedades fantasmas de certos escritórios, estão as comissões pagas para obter vantagens fabulosas em negócios de milhões, os dinheiros silenciosamente transferidos por certos políticos e dirigentes corruptos para paraísos fiscais, os circuitos financeiros ocultos da fraude e da corrupção, a aparente responsabilidade dos poderosos do crime organizado, o poder subterrâneo cimentado por pactos de silêncio, a paz traiçoeira da impunidade...”
Compreende-se assim, porque razão os políticos e poderosos deste mundo não querem acabar com tais “offshores”, paraísos de impunidade fiscal.
Também, no combate ao crime como na sociedade em geral, “...Nada se faz na vida sem percorrer um caminho de luta, sem métodos de trabalho correctos, sem aprendizagem com os que estão na linha da frente...”
Mais adiante MJM acrescenta que “...compreendemos que não é possível viver em democracia sem um, combate e denúncia intransigentes da grande corrupção e do crime económico-financeiro, que constituem hoje das maiores ameaças para um Estado de direito. Os resultados do combate à corrupção representam o julgamento da qualidade da própria democracia...”
“O inimigo sem rosto” é um livro de histórias ficcionadas a partir de realidades vividas que muito ajudam a compreender quanto trabalhoso e complexo é o combate ao crime e, não menos importante, tomarmos maior percepção de quanto esse “fenómeno” está entranhado, transversalmente, na sociedade portuguesa. Mina a democracia e as suas próprias raízes, desde logo a partir dos incidentes processuais, fenómenos de inoperância, dos tribunais e da corrosão das demais estruturas societárias nomeadamente dos podres democraticamente instituídos.
Uma sociedade onde imperem os fenómenos de corrupção e a justiça manietada na sua acção de julgar e punir, por forças estranhas ao seu normal funcionamento jamais pode ser uma sociedade justa e democrática.


Publicado por Zé Pessoa às 11:20 de 19.05.09 | link do post | comentar |

4 comentários:
De Privatizar e vender a democracia a 21 de Maio de 2009 às 13:08

Não é a crise que nos destrói. É o dinheiro
- Mário Crespo

Nada no mundo me faria revelar o nome de quem relatou este episódio. É oportuno divulgá-lo agora porque o parlamento abriu as comportas do dinheiro vivo para o financiamento dos partidos. O que vou descrever foi-me contado na primeira pessoa. Passou-se na década de oitenta. Estando a haver grande dificuldade na aprovação de um projecto, foi sugerido a uma empresária que um donativo partidário resolveria a situação. O que a surpreendeu foi a frontalidade da proposta e o montante pedido. Ela tinha tentado mover influências entre os seus conhecimentos para desbloquear uma tramitação emperrada num labirinto burocrático e foi-lhe dito sem rodeios que se desse um donativo de cem mil Contos "ao partido" o projecto seria aprovado. O proponente desta troca de favores tinha enorme influência na vida nacional. Seguiu-se uma fase de regateio que durou alguns dias. Sem avançar nenhuma contraproposta, a empresária disse que por esse dinheiro o projecto deixaria de ser rentável e ela seria forçada a desistir. Aí o montante exigido começou a baixar muito rapidamente. Chegou aos quinze mil Contos, com uma irritada referência de que era "pegar ou largar". Para apressar as coisas e numa manifestação de poder, nas últimas fases da negociação o político facilitador surpreendeu novamente a empresária trazendo consigo aos encontros um colega de partido, pessoa muito conhecida e bem colocada no aparelho do Estado. Este segundo elemento mostrou estar a par de tudo. Acertado o preço foram dadas à empresária instruções muito específicas. O donativo para o partido seria feito em dinheiro vivo com os quinze mil Contos em notas de mil Escudos divididos em três lotes de cinco mil. Tudo numa pasta. A entrega foi feita dentro do carro da empresária. Um dos políticos estava sentado no banco do passageiro, o outro no banco de trás. O da frente recebeu a pasta, abriu-a, tirou um dos maços de cinco mil Contos e passou-a para trás dizendo que cinco mil seriam para cada um deles e cinco mil seriam entregues ao partido. O projecto foi aprovado nessa semana. Cumpria-se a velha tradição de extorsão que se tornou norma em Portugal e que nesses idos de oitenta abrangia todo o aparelho de Estado.

Rui Mateus no seu livro, Memórias de um PS desconhecido (D. Quixote 1996), descreve extensivamente os mecanismos de financiamento partidário, incluindo o uso de contas em off shore (por exemplo na Compagnie Financière Espírito Santo da Suíça - pags. 276, 277) para onde eram remetidas avultadas entregas em dinheiro vivo. Estamos portanto face a uma cultura de impunidade que se entranhou na nossa vida pública e que o aparelho político não está interessado em extirpar. Pelo contrario. Sub-repticiamente, no meio do Freeport e do BPN, sem debate parlamentar, através de um mero entendimento à porta fechada entre representantes de todos os partidos, o país político deu cobertura legal a estes dinheiros vivos elevados a quantitativos sem precedentes. Face ao clamor público e à coragem do voto contra de António José Seguro do PS, o bloco central de interesses afirma-se agora disposto a rever a legislação que aprovou. É tarde. Com esta lei do financiamento partidário, o parlamento, todo, leiloou o que restava de ética num convite aberto à troca de favores por dinheiro. Em fase pré eleitoral e com falta de dinheiro, o parlamento decidiu pura e simplesmente privatizar a democracia.


De DD a 20 de Maio de 2009 às 00:03
A corrupção e o crime resultam em Portugal cada vez mais do impossível funcionamento da máquina da justiça, nomeadamente da lentidãso dos tibunais, cujos juízes nada resolvem nem querem resolver.
A Suécia com quase o mesmo número de habitantes que Portugal tem 14 mil pessoas a trabalhar na justiça; Portugal tem 84 mil e nada anda para a frente. Os próprios juízes não se dão ao respeito e processam tudo e todos.
A minha cunhada, procuradora adjunta, foi processada por um juiz porque a propósito de uma questão de adopção de uma criança fez referência a legislação de antes do 25 de Abril como sendo a que o juiz queria aplicar. O homem fez-lhe um processo a considerar que a minha cunhada lhe chamou fascista. E se tivesse chamado até não fugia à verdade.
Refugiados no segredo de justiça os juízes paralisam os processos e não se sabe de nada. Deixam o tempo correr até ao infinito, ou seja, à prescrição.
O caso do procurador Lopes da Mota vai demorar quanto tempo?
Provavelmente mais uma eternidade para se decidir muito pouco ou nada, até porque é caso de importância quase nula.
As sondagens mostram que a grande maioria dos portugueses não tem apreço pelos magistrados e estes procuram vingar-se nos políticos, acusando-os de tudo e, principalmente, de fazerem leis más, o que não é verdade. As leis portuguesas não são más, a sua lenta ou nula aplicação é que é má.


De Xa2 a 19 de Maio de 2009 às 11:36
Apoiado, totalmente de acordo.


De Xa2 a 19 de Maio de 2009 às 11:35
Apoiado.


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