Em defesa da privacidade, da liberdade e do pensamento crítico
Orwell 60 anos depois. O Big Brother continua de olho em todos nós - vídeo
por Bruno Faria Lopes, i online, 21.01.2010
No dia 21 de Janeiro de 1950 morreu George Orwell, exemplo de pensamento crítico livre
 

George Orwell hoje não teria uma conta no Facebook ou no Twitter. Lutaria contra a cada vez menor privacidade das nossas vidas, enfraquecida por pequenas coisas como a informação que damos para subscrever um serviço de internet ou por outras maiores, como a arquitectura das casas transparentes. Teria corado de vergonha com a atribuição do Nobel da Paz a Barack Obama. Se tivesse carro (pouco provável) tremeria antes de comprar o chip electrónico para a matrícula (mas evitaria a multa, porque nunca foi muito abonado).  

Escreveria artigos ferozes contra o domínio cada vez maior do politicamente correcto, que apaga palavras da linguagem que usamos. Seria um feroz crítico da mansidão dos jornais perante a força das agências de informação do governo. Arrasaria a linguagem hermética e plena de advérbios de modo que domina os relatórios e discursos políticos. Não veria televisão (muito menos o "Big Brother"). Seria contra um pensamento económico único - seria, aliás, contra qualquer pensamento único e socialmente inquestionável.

 

Orwell poderia também não gostar deste texto - afinal, foi ele quem escreveu que "todos os santos devem ser julgados culpados até prova em contrário". Mas, 60 anos depois da sua morte, é difícil resistir à tentação de lembrar porque é que ler o escritor inglês que baptizou o Big Brother continua a ser importante. E a razão principal é esta: Orwell era um espírito crítico livre e ensina a sê-lo.

 

"Li-o ['1984'] pela primeira vez quando tinha 20 ou 21 anos, em 1984, ano em que foi muito falado em Portugal", conta o historiador Rui Ramos. Orwell teve grande impacto num país saído há pouco tempo do PREC, quando não era líquido que a União Soviética deixasse de existir, diz Rui Ramos. "Orwell era crítico em relação a todas as formas de condicionamento, direccionamento ou inibição do pensamento individual, que não são aspectos apenas das ditaduras - também podem fazer-se sentir nos regimes democráticos", explica o historiador.

 

O escritor que na verdade se chamava Eric Arthur Blair (Orwell era o nome do rio que passava em Suffolk, R.U., onde morava) conquistou o espírito crítico lidando com as contradições da vida.

Orwell nunca esteve totalmente inserido nos meios que ocupou: no elitista colégio de Eaton foi troçado pelo aspecto (era pouco atlético, muito alto e de ar alheado) e pela falta de "nome sonante"; ao serviço da polícia imperial na Birmânia não teve estômago para a realidade menos romântica do colonialismo; nas ruas de Paris e Londres, onde vagabundeou por opção, nunca foi um "deles"; no meio da esquerda intelectual, do qual não deixou de fazer parte, viu os seus livros censurados por serem demasiado críticos (da própria esquerda). Mas sobrou sempre o indivíduo Orwell, em defesa das suas ideias - em defesa de todos poderem defender as suas ideias.

 

"Mais do que a divisão entre esquerda e direita ele compreendeu que o problema da opressão nas sociedades modernas é geral: para Orwell a liberdade não é garantida, mas algo que se deve conquistar todos os dias", aponta Miguel Morgado, professor na Universidade Católica, em Lisboa.

É impossível dissociar Orwell da era em que escreveu - anos 30 e 40, marcados pelo avanço de Hitler, Estaline ou Mussolini - mas a mensagem é intemporal. "Não é com a morte de Estaline ou de Hitler que desaparece a tentação do poder político, a mobilização de máquinas de guerra, tudo num contexto actual de uma sociedade tecnológica, que torna mais fácil o controlo", acrescenta Morgado, que destaca o livro "1984". "Todos os anos, dedico meia aula no curso de ciências da comunicação ao livro, sobretudo por causa da 'novilíngua'", conta ao  i . "O impacto que tem nos estudantes é incrível."

 

Esta influência terá sobretudo a ver com a cultura de contrapoder que Orwell assume nos seus livros. No ensaio "Política e a Língua Inglesa", publicado em 1946 (no qual fixa as regras de boa escrita que são hoje base do livro de estilo da revista The Economist), o escritor desconstrói a linguagem cada vez mais complexa usada pelos políticos para "defender o indefensável".

"Hoje como no tempo dele, a linguagem política é feita para mentir ou ocultar a verdade - ainda por cima nesta altura de assesores e spin doctors", afirma Henrique Raposo, investigador na área de Ciência Política e História, que leu 1984 e a Quinta dos Animais.

"O politicamente correcto é outra máquina de ocultar a verdade, de nem sequer olhar para certos factos porque são incómodos - Orwell reagiria hoje a isso certamente", junta.

 

Para os fanáticos do escritor - e há muitos - os primeiros livros são aqueles onde estará o verdadeiro Orwell, pioneiro no jornalismo de imersão: quando experimenta as condições de vida dos mineiros ('O Caminho para Wigan Pier') ou quando escreve sobre como é ser pobre ('Na Penúria e na Miséria em Paris e Londres'). Aqui está o Orwell que a esquerda gosta de citar. Quando escreveu 1984 e A Quinta dos Animais, os seus livros mais conhecidos, Orwell já tinha conhecido o lado negro do regime russo na guerra civil de Espanha - e este é o Orwell que a direita gosta de mencionar. Apropriável por todos, o homem que incrivelmente gostava da cozinha inglesa nunca perdeu a independência.



Publicado por Xa2 às 00:05 de 22.01.10 | link do post | comentar |

2 comentários:
De O fim da linha ... a 2 de Fevereiro de 2010 às 14:08
O texto de Mário Crespo que não foi publicado
O Fim da Linha
Mário Crespo

Terça-feira dia 26 de Janeiro. Dia de Orçamento.

O Primeiro-ministro José Sócrates, o Ministro de Estado Pedro Silva Pereira, o Ministro de Assuntos Parlamentares, Jorge Lacão e um executivo de televisão encontraram-se à hora do almoço no restaurante de um hotel em Lisboa.

Fui o epicentro da parte mais colérica de uma conversa claramente ouvida nas mesas em redor. Sem fazerem recato, fui publicamente referenciado como sendo mentalmente débil (“um louco”) a necessitar de (“ir para o manicómio”). Fui descrito como “um profissional impreparado”. Que injustiça. Eu, que dei aulas na Independente. A defunta alma mater de tanto saber em Portugal.

Definiram-me como “um problema” que teria que ter “solução”. Houve, no restaurante, quem ficasse incomodado com a conversa e me tivesse feito chegar um registo. É fidedigno. Confirmei-o.

Uma das minhas fontes para o aval da legitimidade do episódio comentou (por escrito): “(…) o PM tem qualidades e defeitos, entre os quais se inclui uma certa dificuldade para conviver com o jornalismo livre (…)”.
É banal um jornalista cair no desagrado do poder. Há um grau de adversariedade que é essencial para fazer funcionar o sistema de colheita, retrato e análise da informação que circula num Estado. Sem essa dialéctica só há monólogos.

Sem esse confronto só há Yes-Men cabeceando em redor de líderes do momento dizendo yes-coisas, seja qual for o absurdo que sejam chamados a validar. Sem contraditório os líderes ficam sem saber quem são, no meio das realidades construídas pelos bajuladores pagos. Isto é mau para qualquer sociedade. Em sociedades saudáveis os contraditórios são tidos em conta. Executivos saudáveis procuram-nos e distanciam-se dos executores acríticos venerandos e obrigados.

Nas comunidades insalubres e nas lideranças decadentes os contraditórios são considerados ofensas, ultrajes e produtos de demência. Os críticos passam a ser “um problema” que exige “solução”. Portugal, com José Sócrates, Pedro Silva Pereira, Jorge Lacão e com o executivo de TV que os ouviu sem contraditar, tornou-se numa sociedade insalubre.

Em 2010 o Primeiro-ministro já não tem tantos “problemas” nos media como tinha em 2009.
O “problema” Manuela Moura Guedes desapareceu.
O problema José Eduardo Moniz foi “solucionado”.

O Jornal de Sexta da TVI passou a ser um jornal à sexta-feira e deixou de ser “um problema”.

Foi-se o “problema” que era o Director do Público.

Agora, que o “problema” Marcelo Rebelo de Sousa começou a ser resolvido na RTP, o Primeiro Ministro de Portugal, o Ministro de Estado e o Ministro dos Assuntos Parlamentares que tem a tutela da comunicação social abordam com um experiente executivo de TV, em dia de Orçamento, mais “um problema que tem que ser solucionado”. Eu.

Que pervertido sentido de Estado. Que perigosa palhaçada.


Nota: Artigo originalmente redigido para ser publicado hoje (1/2/2010) na imprensa.


De citador a 27 de Janeiro de 2010 às 18:52
"Não queiras conhecer tudo, deixa um espaço livre para te conhecer." (Vergílio Ferreira)


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