Domingo, 24 de Janeiro de 2010

 

      O discurso de muita direita e até de alguma esquerda sobre o emprego é tão hilariante que recupero com dificuldade dos ataques de riso que me causa a súbita preocupação com os desgraçados dos desempregados.

       Realisticamente, desconfio de quem não faz mais que “análises” superficiais acerca do mercado de trabalho com fins meramente politiqueiros.

      Sejamos claros.

      O desemprego não pode ser uma arma de arremesso política pela simples razão de que nenhum partido, associação, causa, sindicato — ou mesmo um grupo ad hoc dos 100 donos de Portugal aos quais misteriosamente acometesse a Nobre Preocupação de ajudar os trabalhadores — pode prometer acabar com ele hoje ou amanhã, ou mesmo minorá-lo.

 

Simplesmente, não é mais verdade que os grandes grupos económicos possam contribuir para resolver o problema do desemprego. Os grandes grupos económicos perseguem, sim, o desemprego. É genético. A maximização dos lucros tem como consequência inevitável, para não dizer desejável, cortar nos custos. Ora, o que não é politicamente educado dizer é que o trabalho humano é, cada vez mais, um custo dispensável. Na melhor das hipóteses, um mal menor, que felizmente custa cada vez menos.

 

      De um lado, a crescente automatização de todos os processos industriais e mesmo de uma quantidade cada vez mais alargada de tarefas dos serviços.

      De outro lado, os custos de produção que baixam por força das economias de escala e da informatização: a capacidade de processamento duplica a cada 18 meses mantendo-se o preço, a integração de chips no trabalho faz-se cada vez mais, e em cada vez mais sectores.

      De outro lado ainda, a deslocalização para as economias asiáticas das tarefas que ainda são executadas por mãos humanas, por uma questão de preço ou de facilidade.

      E finalmente as forças demográficas, imparáveis: os humanos vivem (e consomem) mais tempo, há mais humanos, ou seja, a oferta de mão de obra disparou nos dois extremos, tendo como consequência automática o embaratecimento do preço do trabalho.

 

Abundância de mão de obra + escassez de postos de trabalho + automatização de tarefas = cut the crap dos discursos sobre o emprego.

Sejam sérios.

      Comecem a pensar em novos formatos de redistribuição do lucro do produto gerado e em políticas hiperactivas de fomento do empreendedorismo, da iniciativa individual e do auto-emprego, mesmo que com sacrifício da protecção dos lucros dos pobrezinhos dos grandes grupos económicos, coitadinhos.

     Ou em passarem à clandestinidade.

 

Adenda: como aspirina de curto prazo, as obras públicas são um dos poucos instrumentos que restam a um Estado para não deixar a situação do desemprego descambar.

 

-por Paulo Querido, 16.1.2010 em Certamente


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Publicado por Xa2 às 00:05 | link do post | comentar

1 comentário:
De Zé das Esquinas o Lisboeta a 25 de Janeiro de 2010 às 12:19
Pois é, lá se vão os imigrantes da lusofonia e ex-soviéticos... Sim que isto de andarmos a pôr os filhos a estudar para doutores ou pelo menos com o 12º ano, não é para depois irem trabalhar para as obras. Mesmo que são as grandes obras públicas como o TGV ou o novo aeroporto. Sim que isso de criar trabalho não é a mesma coisa de criar emprego...
E de emprego é que o português precisa.
E não me venham com essa da agricultura, porque dá muito trabalho e ainda vem aí um temporal e f.. lixa tudo e o seguro não cobre. A não ser que estado pague. Se garantirem que paga, então até faço rezas para chova...


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