Denegrir o Progresso do Ensino em Portugal

 

 

 

Para denegrir o imenso progresso escolar realizado nos país de todos os portugueses em um pouco mais de 30 anos, alguns pseudo-intelectuais vieram dizer que  no ensino: “Portugal está no mesmo ponto de partida de há 50 anos”.

 

A frequência completa do ensino secundário passou de 1,3% há meio século para mais de 60% hoje e o mesmo aconteceu com o primário, nomeadamente o segundo ciclo em que a subida ainda é maior pois mais de 99% dos jovens completam o nono ano da escolaridade.

 

Para quem andou no liceu Camões há mais de 50 anos, recorda que então só havia dois outros liceus de estado para rapazes a norte do Saldanha, o liceu de Santarém e o de Leiria. Eu lembro-me de ter colegas que se levantavam às 5.30 da madrugada para estarem às 8.15 no liceu pois vinham de Torres Vedras e outras localidades ainda mais distantes

 

Quando fiz o exame da quarta classe na escola primária de São Sebastião da Pedreira só fui encontrar no liceu dois colegas do conjunto de turmas que tinham feito aquele exame ao mesmo tempo que eu.

 

Enfim, há 50 anos não havia propriamente ensino para os portugueses em geral, apenas algumas escolas e liceus para um percentagem ridícula da ordem de 1,3% do número de jovens em idade escolar.

 

Ninguém pode dizer que Portugal está muito atrasado no ensino só porque alguns, muito poucos países, têm percentagens superiores e o país caminha para a generalização do ensino secundário (12º ano) daqui a dois ou três anos. Claro, com o ensino profissional que muita falta faz e que pode permitir a um aluno não muito interessado em seguir uma carreira académica aprender a ser um bom cozinheiro, um bom pedreiro, mecânico, administrativo, informático, treinador de futebol, etc., etc.

 

O que se pode dizer é que o nível dos alunos com o nono ano da escolaridade é hoje inferior aos que então tinham completado o chamado quinto ano dos liceus e que não chegavam a 1,5% da população jovem.

 

O ensino fascista era selectivo; chumbava-se na quarta classe, no segundo ano dos liceus, no quinto e no sétimo para não falar noutros anos. Daí que se tivesse havido então um estudo PISA sobre o nível dos alunos com o nono ano, esse revelaria valores muito superiores aos actuais como acontece com os países mais atrasados no ensino generalizado, nomeadamente Brasil, México, Peru, Mali, etc. que estão à frente da Alemanha, Luxemburgo, França, EUA, etc. Nos países em que o ensino é para todos e não para 1,5% dos jovens, é natural que o nível de conhecimento obtidos em nove anos seja mais baixo. Mas, o importante não é ter uma elite de 1 a 2% e o resto analfabeto ou apenas com a quarta classe. É sempre possível haver uma selecção natural dos melhores a partir da totalidade de uma população do que a partir de uma percentagem diminuta de filhos das classes médias e altas. De resto, Portugal está muito bem no ensino universitário em termos de percentagens de jovens a frequentar e aí temos cursos bons e menos bons e alunos que completam e outros que desistem. O país não necessita de ter 100% de licenciados, a não ser que as licenciaturas de Bolonha sejam também de profissões mais simples, as quais tendem a complicar-se e a exigir mais saber quanto melhor se queira ser nessas profissões.

 

O professor Santana Castilho diz, estupidamente, que a qualidade não acompanhou a massificação como se fosse possível vestir as populações do Mundo com seda natural, algodão puro e lã natural. Não fossem as fibras sintéticas e as pessoas pobres andavam descalças e rotas como recordo bem de há 50 anos atrás. E se há algodão em certa quantidade é porque 40% dos pesticidas fabricados no Mundo são consumidos na protecção dos respectivos cultivos, ou julgam os ecologistas que as suas camisas caem do céu. Isto como exemplo de que a massificação pressupõe alterações na forma como se fornece o serviço ou o produto.

 

O ensino pré-escolar para todos será um importante passo em frente para a melhoria da qualidade do ensino, pois oiço muitos professores queixarem-se que as criancinhas chegam à escola sem nada saberem. Na verdade, entram analfabetas no primeiro ano da escolaridade e, coitadas, saem das barricas maternas sem saberem falar. Foi um professora universitária, Fátima qualquer coisa, que se queixou na televisão que os alunos chegam às escolas e universidades sem saberem o suficiente, como se a escola e os professores servissem para outra coisa que não ensinar aquilo que os alunos obviamente não sabem. Se soubessem não necessitávamos de professores.

 

Também foi preciso denegrir o facto de Portugal ter 1 professor para menos de 10 alunos. Claro, há professores a exercer outras tarefas como o Nogueira que não dá aulas há vinte anos e continua a ganhar o salário pago pelos contribuintes., mas representam um pequena percentagem dos 140 mil professores, pelo que os que dão aulas e os conselhos directivos tinham a obrigação de distribuir melhor o seu trabalho e obter melhores resultados.

 

 

 



Publicado por DD às 20:28 de 21.01.10 | link do post | comentar |

8 comentários:
De citador a 27 de Janeiro de 2010 às 18:55
"Educação - Se os teus projectos forem para um ano, semeia o grão. Se forem para dez anos, planta uma árvore. Se forem para cem anos, educa o povo." (Provérbio chinês)


De Professor deve ser autoridade pública a 25 de Janeiro de 2010 às 12:45
Madrid dará al maestro rango de autoridad pública

"Los docentes serán autoridad pública en la Comunidad de Madrid. Es una de las medidas que introducirá la futura Ley de Autoridad del Profesor que la presidenta madrileña, Esperanza Aguirre, va a anunciar mañana en la cámara regional, según fuentes de su Ejecutivo, y cuyo texto llevará al hemiciclo en las próximas semanas. La iniciativa de elevar el rango de los maestros ya la asumió el año pasado la Comunidad Valenciana y existe también, aunque sólo para los directores de los centros escolares, en Cataluña, desde hace unos meses. En el caso de Madrid persigue el objetivo de reforzar la figura del maestro. Al ser reconocidos como autoridad pública, los profesores -al igual que jueces, policías, médicos o los pilotos y marinos al mando de una nave- cuentan con una protección especial. La agresión a uno de ellos está tipificada por el Código Penal como atentado contra la autoridad en los artículos 550 a 553, que recogen penas de prisión de dos a cuatro años.(...)"

Para quem tem alguma rejeição à língua de Cervantes, eis a tradução de dois parágrafos:

"Ao serem reconhecidos como autoridade pública, os professores - tal como os juízes, polícias, médicos e pilotos e comandantes de navios - contam com uma protecção especial. A agressão a um professor está tipificada pelo Código Penal como atentado contra a autoridade"

"Além de serem autoridade pública, têm presunção da verdade, o que significa que a sua palavra tem mais valor do que a de outro cidadão"

Em Portugal nestes quatro anos foi o que sabemos. Quão diferente é o "socialista" Sócrates do seu homólogo Zapatero..."


De Zé das Esquinas o Lisboeta a 25 de Janeiro de 2010 às 14:15
Não sei se isso de ser comparado a juízes, polícias e etc. em Portugal, é bom...
Isso de em regime republicano haver cidadãos em que a palavra deles, vale mais do que a de outros, apenas porque têm outra profissão... conheço muito filho da p* com profissões bem honoráveis.
Mas como diz o povão 'de boas intenções, está o inferno cheio' ou como se diziz lá no meu bairro: O que tu queres sei eu...


De marcadores a 25 de Janeiro de 2010 às 14:38
O amigo deve ser 'professor'...
E então acha bem que a sua 'verdade' valha mais do que a dos que não o são...
E então nos voto, quero dizer nas eleições republicanas e democráticas, também quer que o seu voto valha quantos?
Coitado do São José que era carpinteiro...
Tenha juízo.


De Izanagi a 22 de Janeiro de 2010 às 01:05
Moçambique teve um crescimento de 6,8 do PIB. A Alemanha não chegou a 1%. Bem, mas 1% alemão é bastante mais que 6% Moçambicano. O esmo acontece com o crescimento do ensino em Portugal, um país o existia o maior analfabetismo na Europa. Passar a ter 99% num país que anda pelos 95% é mais difícil do que passar de 30 para 60%. Portanto só podemos comparar o que é comparável e o que é comparável é o rácio de professores por aluno e os resultados obtidos e aí Portugal está no topo no que respeita ao número de professores por aluno e no topo no que respeita ao abandono escolar, só que estes resultados são antagónicos e não correspondentes.
“o país caminha para a generalização do ensino secundário (12º ano)” mas não podemos ter uma memória muito curta que nos faça esquecer o porquê do surgimento do 12º ano, que veio substituir o serviço cívico. O 12º não é uma mais valia prática, isto é, em termos de conhecimentos para quem ingressa na universidade e muito menos para quem termina por ai os seus estudos e envereda por uma actividade profissional. Mantém-se o 12º , um desperdício dos dinheiros públicos, para reduzir a taxa de desemprego, quer dos alunos quer do excesso de professores. Mas num país com recursos financeiros tão escassos, manter o 12º e pior, alargá-lo ao ensino obrigatório, é um luxo que vai sair muito dispendioso aos cidadãos. O país que faz gastos sem retorno, é um país não adiado mas pior: é um país sem futuro.
Felizmente hoje já se percebeu que o deficiente funcionamento da justiça é senão o principal factor de empobrecimento do país, um dos principais. Mas há duas áreas igualmente importantes onde é necessário fazer rapidamente correcções: uma prende-se com a omissão de informação e outra com a falta de rigor da informação disponibilizada. Não se podem projectar estratégias a partir de bases erradas, e a ausência de rigor em muita informação levará a resultados prejudiciais para as empresas e para o país. O mesmo acontece com a omissão pura da informação, que não acontece por negligência, mas sim de forma intencional, como meio de defesa de interesses quase sempre obscuros e penalizadores dos contribuintes.
A outra área importante que necessita também de uma reformulação profunda centra-se no ensino superior e aqui sobretudo no seu quadro docente. A qualidade do ensino superior é péssima e o resultado verifica-se ao nível da actividade económica. Temos um sector empresarial em que grande parte não sai das universidades: as empresas são na sua maioria pequenas e médias, portanto ao nível dos serviços mais básicos, como restauração, limpeza, quiosques, pequenas actividades na construção civil e pouco mais, ou seja, sem grande ou mesmo pequena diferenciação tecnológica. Das áreas das ciências empresariais não saem empresários e nas áreas de engenharias não surgem produtos que pela sua inovação e necessidade produzam riqueza a quem os fabrica. Temos muitos investigadores, bolseiros (mais uma camuflagem á taxa de desemprego) que gastam sem retorno. Até quando o poderão fazer, já que gastaram o seu dinheiro e estão a gastar o crédito que ainda lhes é concedido. Volto a perguntar: até quando é esta situação sustentável.
Estas correcções, imprescindíveis para que Portugal retome um crescimento sustentável, que possa proporcionar uma melhoria da qualidade de visa dos seus cidadãos só será possível se tivermos a coragem de não andarmos a fazer a apologia da mediocridade e a tentar tapar o sol com uma peneira.


De DD a 21 de Janeiro de 2010 às 23:06
Vem agora à minha memória a maneira como a Mocidade Portuguesa no Liceu Camões iniciou-me na via do socialismo e da esquerda em geral. Claro, a mim e a muitos colegas.

Nos primeiros anos do liceu diziam-nos para no Natal trazermos de casa pacotes de comidas diversas como arroz, massas, latas de sardinha e brinquedos e roupas para irmos dar aos pobrezinhos.

Assim, nos sábados já de férias de Natal eu fazia parte dum grupo que ia sempre para as barracas do caneiro de Alcântara, ainda abrto e sujo, entregar os presente aos pobrezinhos. Íamos com a farda da MP e o S no cinto.

Eu, como era de família alemã e os alemães tinham uma grande tradição de dar brinquedos aos filhos, recebia muitos aos quais nem ligava quase nada, pelo que os dava ainda com as caixas de origem, etc. e, como tal, era desejado pelo professor de Moral e pelo chefe da MP que um dia até me pediu um automóvel Schuko.Isto com alguma irritação do meu pai que além de comprar brinquedos também fazia ele próprio muita coisa para os filhos brincarem, desde os comboios de madeira e depois de lata a máquinas a vapor, motores eléctricos, galenas, barcos de brincar e, mesmo, um caiate de lona para andar no Tejo.

Durante a distribuição as pessoas queixavam-se das suas condições de vida e mostravam-nos as suas paupérrimas barracas.

No regresso vínhamos a falar uns com os outros, mesmo com 11, 12 e 13 anos, a dizermos como era possível viver daquela maneira tão miserável. É que as pessoas, além da falta de casa condigna, tinham muita falta de roupa que era cara na época para os mais pobres, pelo que andavam descalços e esfarrapados.

Enfim, começávamos a falar de política e a dizer mal do Salazar e do sacana do reitor, o Dr. Sérvulo Correia, que descobriu que aquilo tinha efeitos perniciosos para o regime e bons para a educação social dos alunos, pelo que acabou com a tradição pouco tempo depois.

Uma das razões do meu optimismo democrático foi ter visto com olhos abertos a miséria de outros tempos e ter tido muitos contactos com as pessoas mais pobres, pois vivia perto daquilo que é hoje a Praça de Espanha e antes era um bairro miserável.

A grande obra social do salazarismo foi chutar as pessoas daquela zona e do caneiro de Alcântara para as Musgueiras e, por isso, sou um fanático do realojamento, do rendimento mínimo garantido, do complemento social dos idosos, da porta 65 e de todas as medidas sociais muito criticadas pela direita.


De marcadores a 23 de Janeiro de 2010 às 18:23
Estas vivências aqui narradas na primeira pessoa pelo DD, fizeram-me lembrar as minhas próprias idênticas em muita coisa, mas diferentes sobretudo nas conclusões.
Também eu fiz a entrega do "bodo" aos pobres pelo Natal, quando andava na "Bufa" do Liceu Gil Vicente, mas o bairro de lata era nas traseiras do Convento de São Vicente de Fora. Só que estávamos em 1960 e para além das degradantes condições das "barracas"
também reparava televisão que já lá estava com a antena no telhado de zinco e da varinha mágica na precária cozinha. E quando chegava a casa se queria ver TV tinha de ir à Sociedade ou ao Clube lá do bairro, porque em minha casa que era das mais compostas do bairro popular, ainda não tinha havido 'gaita' para a comprar. Talvez que pagar renda de casa, ter o 'menino' calçado e a estudar, fossem outras prioridades dos meus pais.
Comigo andavam a estudar no liceu com outros amigos de infância do bairro, filhos de gente bem do povo, o Né filho do empregado da padaria e é oficial do exército, o João, filho do 'Borradinho' que foi para médico, etc., claro que também haviam muitos que se ficavam pela 4ª classe ou 5º ano do liceu, porque os pais os punham a aprender um ofício e a ajudar ao sustento da família. Lembro-me do João que foi para um talho, para ao pé do irmão, o Rui para um escritório, fazer recados, o 'Cilíca' que foi para um armazém de sapatos, o Alberto, vender balanças com o primo...
Todos nós hoje temos emprego, casa própria, carro, casámos (com mulheres) e tivemos filhos (pagámos-lhes os estudos para doutores) e somos avôs...
E alguns que com apenas a 4ª classe se tornaram empresários e têm os seus negócios onde hoje até empregam os filhos doutores mas que não arranjaram empregos na área para que estudaram em democracia.
Todos os regimes valem o que valem e têm os seus podres e as suas glórias.
Mas agora a época é outra e são outras histórias.
Mas ser “um fanático do realojamento, do rendimento mínimo garantido, do complemento social dos idosos, da porta 65 e de todas as medidas sociais muito criticadas pela direita” porque quando era da “bufa” ia dar “bodo” aos pobres é só para rir ou para chorar…

Como é que uma pessoa com tantos conhecimentos e vivências pode dizer um disparate destes?


De Zé T. a 25 de Janeiro de 2010 às 09:38
descrições e experiências 'próximas', sobre o mesmo assunto, de 2 avôs diferentes, e com conclusões/ perspectivas bem diferentes. - por aqui se vê a riqueza do pensamento próprio e democrático.

Todos nós passámos (vamos vivendo) experiências diferenciadas, ricas e pobres, boas e más, ... e as opções que fazemos (quando podemos !), os caminhos que seguimos e as perspectivas que temos e defendemos vêm-nos disso mesmo.

daí a minha adesão aos princípios de
Democracia, da Res Pública, da Tolerância, da Liberdade, da Justiça, e do '' Ousar servir-me do meu próprio entendimento '' ( ''Sapere aude !'' - a divisa de Kant que consagra a fé no Homem como ser de Razão. ).


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