O novo avatar do neoliberalismo luso

 

“Vivemos acima das nossas possibilidades" parece ser o novo avatar dos defensores do neoliberalismo e das teorias econó­micas monetaristas em Portugal. Quem vê, ouve e lê os arautos da direita dos interesses e dos interesses da direita descobre uma estra­nha unanimidade. Cavaco Silva ou João Salgueiro, Vítor Bento ou Daniel Bessa, Augusto Mateus ou Silva Lopes, Fernando Ulrich ou Francisco Vanzeller, Silva Lopes ou Nogueira Leite (para só citar alguns), todos, como que com um só pensamento e a uma só voz, proclamam, tonitruantes, "vivemos acima das nossas possibilidades!". Curiosamente, ou talvez não, todos (ou quase) apresen­tam algumas características comuns.
 
Desde logo o facto de assumirem (ou terem assumido) responsabilidades governativas ou de direcção do "sis­tema". Cavaco Silva, por exemplo, entre outros cargos desempenhados, foi ministro das Finanças e ainda é o primeiro-ministro mais anos (8) em funções. João Salguei­ro, ex-presidente da Associação Portuguesa de Bancos, entre outras coisas também já foi, recorde-se, técnico do Banco de Fomento, director do Departamento Central de Planeamento, vice-governador do Banco de Portugal, pre­sidente do Banco de Fomento, presidente da Caixa Geral de Depósitos, subsecretário de Estado do Planeamento (entre 1969 e 1971), ministro de Estado e das Finanças e do Plano (de 1981 a 1983). E a lista é infindável.
 
Em segundo lugar, comportam-se todos como virgens vestais. Quem os ouve e lê parece que não têm, nem tive­ram, nada a ver com o estado de coisas a que o país chegou. Só que a nossa memória não é curta. Finalmente, mas não menos importante, todos sem excepção recebem mensal­mente vencimentos equivalentes a 20,30,40,50,100 e mesmo mais salários mínimos nacionais. Mês após mês, ano após ano. E isto sem falar das alcavalas como viatura, cartões de crédito da empresa, etc, etc, etc.
 
"Vivemos acima das nossas possibilidades"? Mas quem?, pergunta-se. Os dois milhões de portugueses que vivem abaixo do limiar da pobreza (o que significa que vivem com menos de 406 euros/mês)? Os 12% dos portugueses que têm emprego mas que estão também em risco de cair numa situação de pobreza? Os 700 mil desempregados reais, mais de um terço dos quais sem direito a receber qualquer subsídio? Os 450 mil que trabalham e recebem apenas o Salário Mínimo Nacional? Os mais de 40% dos trabalhadores por conta de outrem com um rendimento inferior a 600 euros? Os 35% dos portugueses que não têm rendimentos suficientes para manter um sistema de aquecimento em casa? Os 64% que não conseguem uma semana de férias fora de casa?
 
"Vivemos acima das nossas possibilidades", os aumentos salariais não podem passar a fasquia dos 1,5%, dizem. Entretanto os lucros aumentam e o negócio da compra e venda de acções registou um crescimento em cerca de 34% no valor das 20 principais empresas cotadas em bolsa. O que significa uma concentração de 66,5 mil milhões de euros nos accionistas de apenas 20 empresas. Mas uma realidade que não deve ser dita, escrita ou divulgada nos meios de comunicação social. Tal como o facto de, segundo os dados disponíveis do INE, reportados a 2007 a taxa de rentabilidade dos capitais próprios das empresas com excepção do sector financeiro, ter sido de 10,17%. Isto significa que comparativamente ao ano anterior houveuma melhoria dessa taxa em cerca de 6,6%. Valor esse que supera em muito aquilo que foram os aumentos médios salariais do sector privado da economia. Facto que desmonta a hipócrita teoria de que é preciso primeiro criar riqueza para depois a distribuir. Estamos conversados.
 
Público

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Publicado por Izanagi às 00:10 de 23.01.10 | link do post | comentar |

2 comentários:
De DD a 23 de Janeiro de 2010 às 21:51
É verdade e os mais pobres não têm tido poder reivindicativo. Nenhuma centra sindical se preocupa com eles.
Greve fazem os pilotos da TAP, os professores, os maquinistas do Metro e Soflusa e outros que ganham bastante acima dos mil euros mensais.

Os mais pobres com salários de 450 a 500 euros não conseguem fazer greve porque os sindicatos não estão com eles, não tanto por culpa dos sindicatos, mas porque trabalham nas pequenas e médias empresas que, segundo os políticos, empregam a maior parte dos trabalhadores portugueses, mas com salários de miséria.

E querem os partidos de direita que o Estado apoie as PME quando os seus patrões são bem apoiados pelos baixos salários que pagam. Além disso, quase todas as muitas pequenas empresas são de serviços locais tipo restauração, lojeca, mediador de propriedades, pequena oficina, etc.

A maior parte das médias empresas também são de serviços como o são muitas das grandes.

Fabricantes mesmo e exportadores são cada vez menos.

Gastaram-se rios de dinheiro com a escolaridade e universidade para quase todos, mas as empresas não quiseram aproveitar, não se modernizaram muito, excepto na informática que está em casa de quase toda a gente.

Se não fosse o duplo salário do casal, a miséria da população era total.´Mais de 40% dos portugueses nem casa tinham.


De Hipocrisia e Falsos Moralismos a 23 de Janeiro de 2010 às 21:13
Bem visto, é preciso alertar as consciências e combater todo o tipo de excessos:
· Os excessos de rendimentos seja qual for a forma de os obter;
· O excesso de pobreza, de excluídos e vilipendiados, de todos os direitos incluindo o da dignidade de ser pessoa, que começa pela exclusão do direito ao trabalho;
· O excesso de hipocrisia sobretudo daqueles que, sem separar as águas, afirmam muito simples e genericamente que "vivemos acima das possibilidades".
Talvez até tenham razão, porque dizem "Vivemos..." porque não abdicam dos seus excessos e excedentes? Alguém os impede? Se tivessem o mínimo de consciência e alguma vergonha ou se calariam ou tomariam a lógica medida de abdicar de parte dos seus rendimentos em favor dos que mais precisam.
Juntem-se e criem uma fundação que promova o equilíbrio económico e social. Tomem medidas e deixem-se de balelas e falsos moralismos. Basta.


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