A grande burla

 

Num Post aqui publicado no dia 22 com o título “Denegrir o progresso do ensino em Portugal” da autoria de DD, fiz um comentário onde alerto para o problema do ensino superior.
Um recente inquérito coordenado pelo Prof. Vítor Crespo, referido na crónica de Vasco Pulido Valente, ontem, 24, no jornal Público, vem confirmar o que afirmei.
Não é com tentativas de iludir a realidade que vamos encontrar soluções para os problemas nacionais.
Agora a crónica:

Pela primeira vez, uma alta personagem do Estado - o governador do Banco de Portugal, Vítor Constâncio - reconheceu que o problema do nosso perene "atraso" é um "problema histórico". Falta agora reconhecer que o regime democrático que, não sem dificuldade, saiu do "25 de Abril tratou esse problema com erros também "históricos", que complicaram tudo e resolveram muito pouco. Desses erros, dois sempre se distinguiram desde o século XIX: a política de educação e a política de obras públicas. Da política de obras públicas não vale a pena falar, quando o desastre é mais do que patente. Mas vale a pena falar da política de educação, que se tornou o tropo obrigatório da retórica ortodoxa e que governo sobre governo tomaram, ou disseram que tomaram, como prioridade absoluta.

 

Fiquemos por enquanto pelo ensino superior. Segundo um inquérito recente do prof. Vítor Crespo, antigo ministro de Sá Carneiro, Portugal é hoje o país da Europa com mais instituições de ensino superior por milhão de habitantes (17) e, naturalmente, com mais cursos (4870). Existem por aí 825 licenciaturas diferentes (não se imagina em quê) e 133 só em engenharia. Parece que este caos se criou porque, nas doutas palavras de Sobrinho Teixeira, "os jovens de Bragança, Beja ou Covilhã têm (...) o mesmo direito" a uma vida decente do que os jovens de Lisboa, do Porto ou de Coimbra. Claro que, se os sentimentos são louváveis (embora, no caso, sem sentido), a qualidade é baixa e a "excelência" rara ou até nula. Ultimamente foi criada uma "Agência de Avaliação e Acreditação" para limitar ou reduzir esta catástrofe. Mas, como declarou o respectivo presidente, se houver "rigidez", quer ele dizer na sua, um mínimo de exigência, não fica nada, ou quase nada, aberto.
Ou seja, apesar do palavrório e dos trémulos de voz (quem não se lembra de Guterres com o coração na boca?), o Estado nunca de facto se preocupou em educar os portugueses. Ou porque não sabia o que era a educação (coisa provável e muitas vezes manifesta no pessoal dirigente) ou porque se limitou a ceder a pressões - regionais, corporativas, económicas, partidárias - com um total desprezo pelo resultado. Neste capítulo, o grande "esforço" oficial, como eles gostavam de chamar à falcatrua, não passou na prática de puro fingimento. Não admira que estejam hoje no desemprego entre 40 e 50.000 "licenciados". Nem que a produtividade não aumente. O que admira é que ninguém perceba que Portugal fabricou a sua própria miséria: por desleixo, corrupção e militante estupidez.
Público


Publicado por Izanagi às 10:12 de 25.01.10 | link do post | comentar |

6 comentários:
De Zé T. a 26 de Janeiro de 2010 às 11:41
«... por desleixo, corrupção e militante estupidez.»

não concordo com tudo ... mas a conclusão está boa.
E, no caso da «militante estupidez» (de vários partidos mas principalmente nos do 'arco do poder') convém incluir os fanáticos, os que votam sempre no mesmo ''clube'' apesar das políticas, das jogadas, das lideranças, ...
estejam ou não inscritos num determinado partido, paguem quotas ou não, participem ou não nas reuniões e decisões (propostas, votações, moções, listas de candidaturas, ...manifestações).

Os partidos estão ''de rastos'' e a militância 'activa' nas secções concelhias e distritais é quase nula (exceptuam-se, às vezes, os ''líderes''/ presidentes/ coordenadores das comissões e secretariados - que têm a ''obrigação de ter de ir a todas'', para não perderem tachos e hipóteses de novos tachos...).

A única militância política e/ou partidária (...) que ainda existe é a de uma minoria (mais ou menos independente ou + - engajada, por diversas razões) que LÊ e ESCREVE /comenta em páginas da net e em blogues (pessoais, colectivas, de jornais, ...)
... pelo que mais valia ENCERRAR a maioria das SECÇÕES Partidárias (locais e sectoriais) e
'ABRIR' várias CIBERSECÇÕES partidárias (secções que funcionam via internet, independentemente do local de residência ou de trabalho).


De marcadores a 26 de Janeiro de 2010 às 13:02
De rastos?
De rastos não estão os partidos, de rasto estão quem acredita ou continua a acreditar nestes partidos.
Encerrar secções?
Mas não estão já na prática encerradas.
São como jazigos de famílias nos cemitérios. Só lá vai alguém em dias de memórias ou comemorações.
Se isto não é estar 'mort0'/encerrado...


De militante às vezes... a 26 de Janeiro de 2010 às 14:17
Do Comunicado da Mesa da Assembleia Distrital onde constam as informações relativas ao acto eleitoral para os órgãos distritais do PSD de Santarém, realizado em 22 de Janeiro,...

Só por curiosidade dos números :
de 5000 inscritos só cerca 1000 tinham capacidade eleitoral activa.
Destes votaram menos de 400:
Mais, as quotas (1/3 de mulheres) não foram cumpridas. ...
(e porque é que este pormenor haveria de ser cumprido ?! )

E no PS ? e nas Secções? algo semelhante.
Nos últimos actos eleitorais internos, em média, votam 5% a 15% dos inscritos (filiados) e
vão às reuniões regularmente 2% a 3% !! muitos dos eleitos (dos efectivos !! porque quanto a suplentes... já nem se conhecem de tão raros são ...) faltam à maioria das reuniões
- verdade seja dita que estas reuniões também não valem um caracol ! é uma perda de tempo, de paciência e de bom senso.

As reuniões partidárias (das secções e mesmo das concelhias e até de alguns congressos) são mal conduzidas (por vezes anti-democráticas ou com irregularidades várias, e manipuladas pela mesa) ,
não são preparadas minimamente, muitas vezes sem ordem de trabalhos, nunca começam à hora marcada ( mas só 30 a 60 minutos depois !!) nem acabam a horas decentes,
sem documentação de assuntos, com debates estéreis ou fora da o.t./assunto, com acusações pessoais primárias e descabidas,
inconclusivas sobre a maioria dos assuntos ou problemas a tratar, e quando (raramente) se fazem deliberações estas não são levadas avante...
o raro debate de posições/ideias é tão baixo, o ambiente é tão pouco digno e tão desmotivador ... que os incautos que lá põem o pé duas vezes desistem de lá voltar ... e desligam-se da militância do partido.!!


De DD a 25 de Janeiro de 2010 às 19:46
É o velho choradinho de muitos; é mau ter escolas, politécnicos e universidades e é igualmente mau não ter. É mau chegarem todos ao 12º ano e é mau não chegarem. É mau ter mais instituições de ensino que a média da UE e é mau não ter, é mau ter auto-estradas, a barragem de Alqueva e outras quase 100 barragens e é mau não ter, é mau ter mais de 5 mil torres eólicas e é mau não ter, é mau ter quase 6 milhões de unidades habitacionais independentes e é mau não ter, é mau ter muitos engenheiros, nomeadamente a fazerem a gigantesca do alargamento do canal do Panamá (Somague Engenharia), é é mau não ter, é mau ter engenheiros e construtores a construirem auto-estradas na Polónia e é mau não ter, é mau ter parques eólicos nos EUA e é mau não ter, é mau ter 5,8 milhões de viaturas ligeiras e é mau não ter, é mau ter mais de dez milhões de telemóveis e é mau não ter, é mau ter défice e seria mau não ter, é mau gastar dinheiro e é mau não gastar.
Enfim, para uns é tudo mal.
.


De marcadores a 26 de Janeiro de 2010 às 09:30
Não, não é ser “preso por ter cão e preso por não ter”.
Há alternativas.
O bom senso. Equilíbrio. Visão estratégica a curto, médio e longo prazo.
Sentido de estado. Responsabilidade e competência.
E até podia não chegar, mas ajudava bastante.
Porque uma coisa é certa – na vida existe mais do que cara e coroa, como dizem os economistas, sim e não, como pensam os ditadores, existe o preto e o branco mas entre eles uma panóplia infinita de cinzentos.


De marcadores a 25 de Janeiro de 2010 às 12:01
Recentemente os Bastonários das Ordens de Advogados e de Médicos criticavam a proliferação de cursos de Direito e de Medicina, respectivamente.
Diziam estes senhores que o mercado não justifica a existência de tantos licenciados... Então e os outros cursos superiores? O mercado justifica a existência de tantos economistas, engenheiros, biólogos, psicólogos, arquitectos, designers, etc., etc.?
Então o que fazer com esta questão do ensino para todos e pelos vistos obrigatório até ao 12º ano, segundo o que para aí já ouvimos dizer?
E depois quem selecciona (sem discriminar) os que vão para as universidades dos que não vão? São as notas? Então quem tem 18,5 de média no 12º será porventura um melhor advogado ou médico de um que teve 14, 15 ou 18 independentemente da idade em que obtêm essas médias? Quem pode afirmar ou garantir isso? E o que fazer aos jovens que com 15 e 16 anos acabam o 12º sem nunca terem reprovado ou terem notas e média brilhantes? Fica excluído do sistema do ensino superior?
E o que fazer com todos esses jovens que hoje se arrastam pelas universidades públicas e privadas quase até aos 30 anos e até mais, vão para um mercado de emprego que não existe?
E por favor deixem de chamar Educação ao Ensino.
Parece mas não é a mesma coisa. Isto de 'escolas' é ensino, ok?


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