Der Spiegel: “Ende der Landschaftspflege” Fim do Ordenamento Paisagístico

 

 

 

 

            Traduzo aqui o comentário de Christoph Schwennicke publicado na página 31 da Revista “Der Spiegel” Nr. 4 (papel), posta hoje á venda. O título é idiomático, sendo os termos “ordenamento paisagístico” utilizados na gíria como dinheiros dados a partidos e políticos para ordenar a “paisagem” dos grandes interesses financeiros.

 

            A Alemanha é novamente uma República de donativos partidários e de uma só vez com dois casos.

            A família hoteleira von Flick fez chegar ao FDP (Partido Democrático Liberal) e à CSU (União Social-Cristã) quase dois milhões de euros, antes e depois das eleições legislativas. Uma vez no governo, os dois partidos impuseram um descida de mais de 50% no IVA hoteleiro.

            O donativo “Mövenpick” (nome de hotéis e restaurantes) é tão legal como suspeito. A oposição vê nisso a compra de uma desejada lei e fala de “pagamento antecipado”. Por sua vez, a União (CDU-CSU) fala de pagamento a prazo quando os verdes receberam dinheiro das empresas de energia eólica por causa das leis sobre energias renováveis elaboradas na vigência da coligação vermelha-verde (SPD + Verdes).

            O acaso fez com que Karlheinz Schreiber esteja perante um tribunal alemão. (Nota: Este comerciante germano-canadiano foi acusado em 1999 de ter organizado no Canadá um sistema de pagamento de avultadas comissões da Airbus ao então chanceler alemão Kohl pela compra de aviões pela Lufthansa – o processo está longe do fim e já tem onze anos – o Medina Carreira deveria ser informado disto quando falta da justiça em Portugal).

            O nome de Schreiber – continua o articulista – desencadeia uma tempestade de recordações na cabeça das pessoas. Aparecem nomes como Kiep, Schäuble, Kohl. Vê-se o antigo tesoureiro do chanceler Kohl num parque de estacionamento a receber uma mala com um milhão de euros, vê-se o actual Ministro Federal das Finanças com um envelope cheio de notas de euros. Imagens da República Alemã do Bimbes (dinheiro no dialecto da região do Pfalz). “Ordenamento da paisagem política” dizia-se então nos círculos do magnata Flick.

            Seja legal- ou ilegalmente, os partidos recebem sempre donativos embebidos nos interesses dos dadores. Este problema é tão velho como a democracia pós-guerra. Alguns dos maiores escândalos tiveram a ver com a compra e venalidade dos partidos como a sua ganância pelo dinheiro e ausência de vergonha com que limpavam os seus balanços. Flick, Lambsdorf e Kohl – nunca mais o chanceler da unificação se livrará do facto de ter sido o padrinho de um sistema de dinheiro negro (sacos azuis) e que se recusou sempre a nomear os grandes contribuintes de donativos.

            A suspeita de tráfico de influência surge sempre que o dinheiro corre. Os grandes doadores, quer ilegalmente num parque de estacionamento ou legalmente por transferência bancária, não dão de dinheiro aos partidos por amor ao próximo como aqueles cidadãos que contribuem para as vítimas do Haiti. Um grande consórcio automobilístico dá dinheiro para que o transporte individual tenha a prioridade e o sector segurador para alargar o seguro privado de velhice.

            Os políticos não são necessariamente venais, as coisas não são tão simples. Mas fica sempre a suspeita que se fazem negócios de contrapartidas, mesmo quando depois se prova que uma suspeita era injusta. Por isso, os grandes partidos devem proibir os donativos das grandes empresas.

            “Mani pulite” – mãos limpas – chamou-se a operação das autoridades judiciais italianas contra um sistema partidário mafioso há alguns anos atrás. Também os partidos alemães devem lavar as suas mãos. Deverão aprovar no Parlamento Federal uma lei que não permita aos partidos dar donativos. E deverão fazer agora em que governo e oposição lançaram a sua “cavalaria” contra Suíça e o Lichtenstein para recuperar os “dinheiros negros” depositados nesses países. Assim, poderão ter mais credibilidade quando querem impor aos bancos o fim das “cartas em cadeia” e o não pagamento de bonificações obscenas aos seus administradores.

            Durante a crise financeira, a política foi o socorrista e controlador dos bancos. Ganhou notoriedade. Agora pode avançar com bons exemplos e promover relações limpas. Não se trata aqui de uma exigência do reino das ilusões, pois não existe só o exemplo desencorajador dos EUA em que só é presidente quem mais dinheiro consegue recolher. Também há um exemplo positivo da nossa vizinha França em que, desde 1995, as empresas não podem financiar os partidos políticos. Uma proibição assim é necessária para a Alemanha. Seria bom para os partidos e para a cultura política.

            Os resultados para os tesoureiros dos partidos seriam muito pesados porque desaparecia uma fonte de receita. Mas isso seria grave? Os cartazes gigantescos colocados nas bermas das ruas não fazem falta a ninguém. As campanhas batalhadoras acabariam. Os partidos deveriam pedir mais aos seus militantes, o que seria possível se as quotas fossem deduzíveis nos impostos sobre os rendimentos. Além disso, o financiamento estatal das campanhas eleitorais deveria ser aumentado.

            Isso seria sempre melhor que a situação actual, pois seria melhor que os partidos recebam directamente do Estado sem interesse especial que das empresas sempre a troco de algo.

            Os partidos tinham mais a ganhar que a perder. Ganhavam independência e reforçariam a democracia da qual e para a qual vivem.

 

 

 



Publicado por DD às 00:17 de 26.01.10 | link do post | comentar |

7 comentários:
De marcadores a 26 de Janeiro de 2010 às 21:54
Eu gosto de ler os posts de DD.
Quase sempre gosto das suas reflexões e desenvolvimento de pensamento.
Mas as conclusões/soluções que geralmente apresenta deixam-me embasbacado.
Então como também se passa casos de corrupção na Alemanha e noutros países, não tem mal e não devemos desancar nos nossos?
Então o mal dos outros perdoa ou ameniza os nossos males?
Valha-me São Gregório!


De Izanagi a 26 de Janeiro de 2010 às 18:20
Quando ainda ingenuamente pensava que vivia num estado de direito, não via inconvenientes em que os particulares (pessoas singulares ou colectivas) também financiassem os partidos. Quando tomei consciência que estava enganado quanto ao estado de direito, passei a defender um financiamento exclusivamente público, com a única excepção das quotas dos militantes, que pelo seu valor, meramente simbólico, não têm qualquer relevo nas receitas dos partidos.
O problema não está na fonte do financiamento, mas sim, na inoperacionalidade do sistema judicial. Veja-se, o Madoffjá está preso e o património que detinha foi-lhe retirado para a massa falida. Em Portugal, dos responsáveis pelas falências financeiras apenas um está detido e a residir, imagino que numa sumptuosa casa e um deles ainda se dá ao luxo de afirmar que vai processar (não sei quem, talvez os incautos dos clientes). E o problema não está apenas no deficiente desempenho da justiça (há que realçar que me Processo Penal, só é lenta com arguidos endinheirados, já que com os demais funciona em tempo útil) mas também na moldura penal, que convida ao crime. Não há muitos anos, num dos raros processos crime de “inside trading” o condenado foi obrigado a pagar uma quantia muito inferior ao lucro conhecido que obteve. O crime compensa.
Dizer-se que a culpa é dos políticos também é falso, porque os políticos são eleitos pelos cidadãos e como diz o ditado: á primeira todos caem, á segunda cai quem quer e á terceira…) o problema está nos cidadãos que continuam a votar nos partidos que os enganam e exploram, sem experimentar outros.
Regressando ao financiamento dos partidos, os mesmos poderiam ser financiados por particulares, desde que o financiamento fosse transparente e sem contrapartidas directas para os financiadores e se isso não fosse observado, duras sanções para quem violasse esse princípio. Como no quadro actual do nosso “estado democrático” é impossível, defendo, tal como DD, uma financiamento exclusivamente público.


De DD a 26 de Janeiro de 2010 às 19:57
Não confundamos o caso Madox com qualquer outro. O Madox confessou o crime e mostrou como fazia, pelo que não houve necessidade de qualquer investigação e o homem não disfarçou nada, recebia dinheiro como aplicações e utilizava-o para o pagamento de juros elevados. Enquanto as entradas eram superiores às saídas, a situação ia correndo bem, mas com a crise os depositantes começaram a querer resgatar o dinheiro aplicado e não havia mais. De resto, os bancos também não têm o suficiente para pagar uma corrida de todos os depositantes aos bancos. Segurança? Só com as notas metidas num buraco secreto no chão da casa a de banho.

A sentença contra Madox de prisão perpétua foi extremamente injusta por exagerada e o dinheiro que não resgatou foi muito menos que os milhões anunciados, pois a maior parte das aplicações eram de longa data e os detentores tinham recebido em altos juros grande parte ou mesmo mais que o capital investido.

Os verdadeiros prejudicados foram os últimos a entrar no sistema, mas foram bem pouco, pois a partir da falência da Eon , há dois ou três anos atrás , as aplicações começaram a diminuir e Madox até disse que se sentia aliviado por aquilo ter terminado. Claro , se o homem colocasse todo o dinheiro num carrossel de offshores " e dissesse que tinha perdido por falência do banco A, B, C, D, etc., a investigação seria complicada e, talvez, ainda não tivesse sido condenado.

Os juízes americanos aplicaram uma pena tão grave no calor da crise e estava como toda a gente nos EUA com a cabeça perdida. Hoje, talvez fossem mais comedidos.

Eu traduzi o artigo do "Der Spiegel " para mostrar que na Alemanha há muita corrupção como em toda a parte.

O Caso Schreiber das comissões pagas a Helmut Kohl pela Airbus que passaram pelo Canadá para disfarçar está em processo há ONZE ANOS na justiça alemã e ninguém sabe porquê. Se pegasse em revistas "Der Spiegel " antigas podia escrever sobre muitos casos de atrasos na justiça e corrupção verificados na Alemanha e em muitos países europeus. Até podia falar dos blindados estanques a químicos e radioactividade que Kohl vendeu a um intermediário e amigo na Suíça para serem revendidos aos árabes e americanos na I. Guerra do Golfo. Eram blindados de reserva do exército alemão e foram vendidos por metade do preço da revenda. Kohl tinha tanto dinheiro num banco suíço que este até o nomeou administrador quando deixou de ser chanceler.

Nós, os portugueses não somos santinhos, mas os outros também não. Parem lá com isso de dizer sempre mal do que está cá só porque não sabem o que se passa lá fora.


De marcadores a 26 de Janeiro de 2010 às 09:41
Estou de acordo que era necessário uma maior independência financeira dos partidos em relação às empresas e grandes grupos económicos de pressão sobre o sistema.
Mas também era necessário que quem está no exercício do poder, governo e partidos políticos, estivessem interessados nisso.
E aí já tenho sérias dúvidas porque parece-me trazer inúmeras contrapartidas pessoais aos governantes e dirigentes e não só quando estão nos cargos mas sobretudo quando depois entram na vida privada e são as colocações nessas e noutras empresas em cargos com remunerações elevadas com mordomias que nem se conhecem.
E é tudo legal porque ninguém fica cidadão de segunda por ter estado no governo ou num partido político... E não é que é verdade?


De Zé T. a 26 de Janeiro de 2010 às 11:09
Acertou na 'mouche'.
É necessário quebrar este ciclo vicioso.


De Xa2 a 26 de Janeiro de 2010 às 12:03
Corrupção, lobbies, tráfico de influências, nepotismo, falta de transparência, desresponsabilização dos políticos e dos administradores ....
existe em maior ou menor grau por quase todo o lado, mas, parece-me, que quanto mais quentes os países mais a 'porcaria' cheira mal.

Há que tomar medidas 'higiénicas' preventivas e sanadoras ... e punitivas, rápidas, dissuasoras, moralizadoras e eficientes.

E, por isso mesmo, estar atento a tudo o que parece menos correcto, a ''toda a palha que se aproxima do fogo'' e a ''todos os fumos''...


De marcadores a 26 de Janeiro de 2010 às 12:57
Quebrar como? Se quem manda pode e quem pode não está para aí virado.


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