14 comentários:
De Funcionários públicos a 29 de Janeiro de 2010 às 15:25
Jumento do dia
Teixeira dos Santo

O ministro das Finanças inventou um "aumento zero" para os funcionários públicos, algo que só ele, um modesto professor de economia, deve saber o que é, se o aumento é zero não aumenta nada, a não ser na imaginação do ministro.
Mesmo assim o ministro está enganado, aquilo a que ele chama "aumento zero" é na verdade um "aumento negativo" já que a inflação é superior a zero.

Seria bom que o ministro das Finanças começasse a ser um pouco mais educado e menos bruto quando fala dos funcionários públicos.
Aceito e até sou capaz de concordar com o congelamento dos vencimentos, mas não aceito os termos em que o ministro se refere a tudo o que diz respeito ao funcionários públicos.
-em O Jumento, 29.1.2010


De (in-) justiça fiscal ... a 29 de Janeiro de 2010 às 14:29
Silêncios e adiamentos
Por João Rodrigues

“Neste OE, a tributação dos prémios dos gestores tem um valor simbólico e moralizador, mas não mais do que isso. Muito mais importante seria a penalização fiscal de rendimentos especialmente elevados, a eventual tributação das mais-valias bolsistas ou a introdução de um imposto sobre as heranças (a sua inexistência é um absurdo, como tem defendido Warren Buffet). Porém, sobre o papel da justiça fiscal no combate às desigualdades, o Orçamento do Estado é silencioso. Este, como outros problemas estruturais, fica adiado.”

João Cardoso Rosas, jornal i.


De Até a Suiça ataca banqueiros !! a 28 de Janeiro de 2010 às 18:04

Davos
Presidente suíça ataca banqueiros
A presidente e ministra da Economia suíça culpou ontem os banqueiros pela crise financeira mundial, ao dar as boas-vindas ao Fórum Económico de Davos

Lamentando o «desfasamento entre as palavras e a realidade» na hora de superar a crise, Doris Leuthard, que falou minutos antes do presidente francês, Nicolas Sarkozy, atirou farpas aos banqueiros, acusando-os de «fuga às suas responsabilidades».

«Este ano vão entregar-se alguns bónus por um volume inédito», lamentou.

A presidente suíça lembrou que foram os esforços coordenados dos dirigentes dos bancos centrais, das organizações internacionais e dos governos que permitiram, há mais de um ano, evitar o naufrágio da economia mundial.

«A crise também lançou um processo de reflexão sobre a maneira de reformar o sistema financeiro internacional», sustentou.

A titular da pasta da Economia suíça aludiu ao desfasamento entre palavras e actos, assinalando que, se o grupo dos 20 países mais ricos e emergentes foi chamado a evitar o proteccionismo, na realidade foram adoptadas numerosas medidas discriminatórias no comércio.

Lusa / SOL, 28.1.2010


De Agências de ratos financeiros a 28 de Janeiro de 2010 às 17:59
Economia
Teixeira dos Santos ataca agências de rating
Por Isabel Resende e Tânia Ferreira
O ministro das Finanças acusou hoje as agências de rating de estarem a fazer politica comercial para aumentarem quota de mercado, quando pressionam Portugal a retirar mais depressa os apoios para sair da crise

«Não podem ser as estratégias de política comercial de agências de rating, que querem aumentar muito a quota de mercado,» a fazer-nos sair rapidamente de cena, disse o ministro Teixeira dos Santos num almoço promovido pelo Fórum de Administradores de Empresas.

«É paradoxal que os mesmos que há um ano reclamavam pela nossa intervenção (na economia) venham agora reclamar que saiamos de cena», acrescentou o ministro, referindo-se às agências de rating.

As agências de rating têm um conjunto de analistas que avaliam o risco de incumprimento dos Estados. A Moody's, por exemplo, disse hoje que Portugal precisa de fazer «cortes mais ambiciosos» na despesa a partir do próximo ano para conseguir chegar a 2013 com um défice inferior a 3 por cento do PIB.

Teixeira dos Santos lembrou ainda que não se pode «ignorar» que muitos dos problemas com que o mundo se defronta hoje «tiveram a ver com erro de avaliações do risco» feitas pelas agências de rating.

«Chocam-me alguns comentários precipitados dos técnicos das agências de rating. Não tivemos análises das agências, tivemos apenas comentários de alguns técnicos que trabalham nas agências», acrescentou o governante.

O ministro socialista levantou ainda reservas quanto ao timing dos comentários que têm vindo a público: «Pessoalmente tenho dúvidas de que, tendo eu entregue o Orçamento do Estado na manhã de 27, essas pessoas já fossem capazes de fazer juízos fundamentados».

«Na perspectiva que deve ser relevante na avaliação do risco, tem de se olhar para as medidas de 2010, mas também para a estratégia de consolidação de médio prazo», concluiu.

A par da posição da Moody’s, outras duas agências de rating pronunciaram-se depois da proposta de Orçamento do Estado para 2010 ter sido apresentada. A Fitch decidiu manter o outlook negativo para Portugal, alertando, contudo, que após o OE 2010 se tornou mais provável um corte do rating do que uma revisão em alta.

Em declaração ao Jornal de Negócios, a Stantard & Poor’s remete para mais tarde uma posição sobre a estratégia de consolidação orçamental portuguesa, para depois da apresentação do Programa de Estabilidade e Crescimento (deve ser conhecido dentro de 2 semanas). No entanto, adianta que foi surpreendida pelo défice público de 9,3% do PIB para 2009. O valor previsto para 2010, de 8,3% previstos para 2010, está em linha com as expectativas dos analistas da S&P.


De Notações de crédito compradas e erradas a 29 de Janeiro de 2010 às 09:01
Agências de notação de crédito ...em total descrédito!
[Publicado por AG, http://causa-nossa.blogspot.com/ 29.1.2010]

Eu estava a começar a adormecer e sobretudo não estava nada a pensar pôr-me a escrever aqui, a esta hora (mais uma que Lisboa, em Bruxelas).
Mas um comentário a palavras do Ministro Teixeira dos Santos no Telejornal da meia-noite da SIC-Noticias indignou-me, pela manifesta parcialidade. A roçar a desonestidade.
A peça começa com uma referência às palavras "violentas" com que o Ministro reagiu sobre as apreciações negativas relativamente ao OE, emitidas pela Moody's. Aparece o Ministro a lembrar que o crédito das chamadas agências de notação de crédito é mais do que duvidoso - afinal, diz o Ministro, elas são principais responsáveis por várias apreciações erradas que estão na base da grave crise financeira que todo o mundo vive.

Logo a seguir, entra um jornalista/economista encartado a fazer o contraponto ao Ministro e a explicar quem são, afinal, as tais agências de notação de crédito: são os especialistas que avaliam a capacidade de reembolsar os empréstimos pedidos pelos países, tal como os que existem nos bancos com a competência para avaliar se cada um de nós podemos pagar o empréstimo que pedimos para pagar as nossas casas.
Ficou-se por aqui, o comentário do jornalista/economista. Ou pelo menos, a peça passada na SIC-Noticias. Sugerindo que o Ministro está errado, que a sua irritação e "violência" verbal são despropositadas. E que os diligentes avaliadores da Moody's são gente séria e competente.

Ora, e se quem fez esta peça da SIC-Noticias fosse lamber sabão ou antes passasse a ler relatórios das mais insuspeitas proveniências e o basicozinho "Financial Times" para notar, por exemplo, o que diz o respeitado Martin Wolf:

"É um escândalo que o modelo de pagamento para as agências de notação de crédito não tenha sido mudado. Elas deviam ser pagas por agentes dos compradores, não dos vendedores. Mais importante, o papel regulador das notações deveria ser eliminado pura e simplesmente. Elas não têm credibilidade, nesta matéria. O meu ponto de vista é que, quando muito, elas são um persistente indicador do que está errado no mercado. Na pior das hipóteses, elas estão activamente a enganar".

De facto, ao contrário do que sugere a peça da SIC-Noticias e muitos outros candidatos a cangalheiros da economia nacional que para aí estão a ulular, o Ministro tem carradas de razão:
as tais agências de notação de crédito como a Moody's, a Fitch e a Standard and Poor's não têm hoje a mais pequena ponta de credibilidade, depois de ter ficado claro que davam as notações mais altas a bancos, companhias e países que, afinal, não os mereciam, como se veio a descobrir com o eclodir da crise, a partir da queda do Lehman Brothers em 2008.
E davam essas e outras notas sem base em avaliação séria e não apenas por incompetência. Muito pior:
por falta de imparcialidade e idoneidade - davam notas mais altas a quem lhes pagava mais! A promiscuidade era total.
E o pior é que continua a ser!

Por isso a regulação e supervisão financeiras são urgentes e têm de incluir a disciplina, a responsabilização e a punição desta corja mercenária de pseudo-especialistas que se armam em avaliadores da capacidade de endividamento de países.

Uma corja que continua a fazer mossa, porque há comentadores políticos e económicos palermas, ignorantes ou mal-intencionados que continuam a ... dar-lhes crédito!


De Privatizações a 28 de Janeiro de 2010 às 14:45
Privatizações, sim. A qualquer preço, não.

por Martim Avillez Figueiredo e Ana Suspiro, Publicado em 27 de Janeiro de 2010

ANA (Aeroportos de Portugal), TAP e Inapa são algumas das empresas que estão na calha para uma privatização em 2010. O governo vai procurar activamente concretizar o plano de privatizações que não pode efectuar na anterior legislatura por causa da crise financeira. No entanto, não tenciona avançar com a venda de empresas "a qualquer preço". Garantia dada hoje pelo inistro das Finanças. A privatização do BPN é a operação mais avançada.

Galp e REN são as outras empresas que faziam parte do plano de privatizações, embora o primeiro-ministro, José Sócrates, tenha travado a cedência da maioria do capital da Redes Energéticas Nacionais.


De Não há LUMINÁRIA que valha a 28 de Janeiro de 2010 às 10:52
Por mais acendalhas que se acendam não há LUMINÁRIA que chegue para alumiar estes políticos da nossa praça e deste mundo planetário em que vamos vivendo.

Vamos vivendo os que temos sorte de vida com alguma dignidade que já não é muita e está em decrescendo.

Os Boys, Jotinhas, que teima em dizer, em afirmar, pelos megafones e através dos órgãos de comunicação social, muito coniventes nestas como noutras matérias, também, pouco dignas, que são capazes de governar os partidos e o país e afinal só conseguem, biem que mal, governar-se a si mesmos e ajudam os capangas que os rodeiam na mesma atitude.

Temos, infelizmente, os políticos que merecemos enquanto sociedade e cidadãos demissionários das nossas obrigações cívicas.

Veja-se o que se passa no interior dos partidos. Já não há militantes, estes entregaram, de bandeja, os partidos e respectivos “aparelhos” aos oportunistas que deles se servem para tudo e mais alguma coisa, nomeadamente estratégias corruptas que ninguém condena, tão pouco o aparelho judicial, que se deixou, também, enredar por este polvo que nos envolve a todos.


De Comentários ilustrativos. a 28 de Janeiro de 2010 às 09:52
Bruno Silva disse...

Más notícias? agora fiquei confuso... então não são vocês que estão sempre a defender a via do défice elevado para se sair da crise? Para vocês isto deveriam ser boas notícias, onde está a coerência?

José Guilherme Gusmão disse...

Vou partir do princípio que a pergunta é séria. Nunca ouviu aqui ninguém defender défices elevados. Terá ouvido dizer três coisas:

1. A escolha estratégica da política orçamental deve ser o crescimento e o emprego antes do défice.

2. A única solução estrutural e sustentável para o défice é uma política que combata o desemprego, aumentando o crescimento, aumentando a receita fiscal, reduzindo as prestações sociais, estimulando o consumo, etc.

3. Mesmo no quadro mais estrito das medidas de ajustamento orçamental, há escolhas a fazer: Justiça fiscal ou contenção salarial?

Se não se importam, desenvolverei alguns destes temas com mais detalhe em futuras entradas. Combinado?

Bruno Silva disse...

Ou seja, mais endividamento num país já irresponsavelmente endividado e estruturalmente pouco competitivo, certo?

Ou então vamos subir a taxa de IRS dos "ricos" de 42 para 60%, e o IRC das empresas dos 25% para os 35%. Era ficarmos sentadinhos a ver o capital a fugir a sete pés... mas ao menos havia a chamada "justiça fiscal"!

Onde está a "justiça" de quem produz mais, que já pagaria proporcionalmente mais impostos (no caso de uma flat rate), ser ainda altamente penalizado em termos de taxa efectiva à medida que produz ainda mais?

Chamem-lhe "Solidariedade Fiscal" e eu ainda posso engolir, mas chamar-lhe "justiça" é a maior treta do século. Longe vão os tempos do proletariado iletrado. Com o estado social que temos, com a educação que temos, quem ganha pouco já não é só por falta de oportunidades, também os há claro não é isso que está em causa, mas muitos é por falta de mérito, esforço e dedicação. Quantos jovens estouram o dinheiro na noite, telemóveis, carros, playstations, etc… mas para uma pós-graduação, uma formação em inglês, espanhol, contabilidade, informática, etc... Ah e tal que já não há dinheiro... peço desculpa por fugir para a "conversa de café", mas é a realidade, e ainda me vêm com a história da "justiça fiscal"? Haja decência..

Pergunto, é mais justo penalizar mais quem faz alguma coisa, prioritariamente a exigirmos mais de quem não faz nenhum?



De Comentários a reler. a 28 de Janeiro de 2010 às 10:03
José M. Castro Caldas disse...
Bruno! (boa tarde, outra vez):

“Mais endividamento num país já irresponsavelmente endividado e estruturalmente pouco competitivo, certo?”. Não. Errado.
Oposição a uma retirada precoce dos estímulos fiscais em toda a Europa e em cada país em particular (incluindo Portugal) que teria como resultado certo e seguro uma depressão mais longa e profunda;
defesa da inteligência dos ditos estímulos (não é fazer buracos e tapa-los outra vez, como se diz que o Keynes disse mas eu ainda não descobri onde);
redução do défice na fase ascendente do ciclo;
justiça fiscal (impostos progressivos sobre todos os rendimentos);
serviços públicos de acesso não condicionado pelo dinheiro.

“É mais justo penalizar mais quem faz alguma coisa, prioritariamente a exigirmos mais de quem não faz nenhum?”.
Claro que não: temos de “exigir mais a quem não faz nenhum”.
Ainda não descobri o que faz um tipo que nasceu em berço de ouro e se limita a entregar o cacau a um banco de investimento.

Há outros que fazem alguma ou muita coisa - são trabalhadores ou empresários – dentre eles, alguns (poucos) têm elevadíssimos rendimentos 10, 100, 1000 vezes a média.
Tenho dificuldade em aceitar (e nisso estou bem acompanhado por liberais sensatos) que tenham um mérito, ou um esforço, ou uma dedicação 10, 100, 1000 vezes maior que a média.

E já agora o tal “se-não-fazemos-os-que-eles-querem-eles-querem-eles-zangam-se-e-vão-se-embora”.
Isso tem um nome, chama-se chantagem.
Se o problema de taxar os escalões mais elevados de rendimento com uma taxa de 60% (que já existiu) é prático (não se pode porque eles fogem), isso significaria que deixaria de haver problema se fossem instituídos critérios fiscais (mínimos) no G20 (imaginemos) e se fossem penalizados os estados párias que não os cumprissem.
Certo? Improvável, mas não impossível. Temos visto acontecer cada coisa nos últimos tempos…

Mas não, eu sei, “é um problema de incentivos”, e parece que há quem precise de rendimentos 10, 100, 1000 vezes superiores à média para se sentir com vontade de fazer alguma coisa de útil. Isto para mim é um mistério.

Mérito, mérito é trabalhar seriamente e responsavelmente apesar da miséria do salário e da vida de cão de quem não tem nem espera ter jatinhos e férias em paraísos escondidos dos pobres.


De Estimular a economia e... a 28 de Janeiro de 2010 às 10:09
Tiago Tavares disse...
Caro Jose'

Não terá sido bem assim, e nem sequer foi totalmente defendida, mas a frase de abrir buracos para estimular a economia - ou, especificamente nessa citacao, o emprego - foi escrita por Keynes na Teoria do Emgrgo, Juros, e Moeda. Como tao acerrimo defensor das ideias de Keynes julgava que tinha ja lido o livro. Certamente que as suas leituras de Keynes nao terao ficado apenas pelos manuais de macroeconomia dos anos 50.

José M. Castro Caldas disse...
Tiago,
Diga-me onde… diga-me onde… Em que página?
Pronto vá lá eu digo-lhe o que o Keynes realmente escreveu na Teoria Geral (Capítulo 16):
"To dig holes in the ground," paid for out of savings, will increase, not only employment, but the real national dividend of useful goods and services. It is not reasonable, however, that a sensible community should be content to remain dependent on such fortuitous and often wasteful mitigations when once we understand the influences upon which effective demand depends.”

É bem diferente da historieta que se conta em muitos cursos de economia, não é?

Além disso por uma razão misteriosa que eu desconheço fez de mim um “acérrimo defensor das ideias de Keynes”.
Porquê?
E o Tiago é acérrimo defensor das ideias de algum economista morto ou gosta de pensar pela sua cabeça?

João Dias disse...

As desigualdades sociais têm a ver muito, mas muito mais com mecanismos artificiais e, diga-se, injustos do que pela fé inabalável da meritocracia.
A meritocracia é termo bonito para promover a disputa entre os que trocam trabalho por salário (o gajo do lado faz sempre muito menos do que nós) mas muito pouco razoável para quem quer perceber as verdadeiras razões das disparidades económicas.

É bonito dizer que o Sr. Doutor recebe mais que o "gajo das obras", contudo, não explica nada em relação às disparidades sociais. Aliás, toda gente sabe que quem trabalha não tem tempo para ganhar dinheiro (diria um astuto e rico indivíduo com a 4ª classe).

A questão está no poder, na propriedade, na riqueza que vem antes do 25 de Abril (link), no trabalho que paga impostos e na especulação que não paga, na cumplicidade dos estados nação e entidades supranacionais com a opacidade do sistema financeiro e crime organizado, na desresponsabilização dos detentores detentores dos meios de produção, na desresponsabilização dos proprietários, no facto de serem os trabalhadores a pagarem com desemprego e baixos salários uma economia deficiente e baseada em ciclos especulativos de oferta procura...

A tese da meritocracia não resiste à realidade nem à teoria...mas a fé também não se costuma autoquestionar muito, mas devia.


De Meritocracia e (não) oportunidades. a 28 de Janeiro de 2010 às 10:15
Miguel Rocha disse...
Bruno Silva,

Essa conversa das pessoas que são pobres ou são mal pagas porque querem ou não merecem mais já cansa...e é anacrónica....

Você quer-me convencer de que o facto do filho do Belmiro de Azevedo ser filho de quem é não tem influência na posição que ele ocupa neste momento?
Eu não lhe estou a tirar o mérito...longe disso...Acho que fez bem em aproveitar a oportunidade que teve...e teve mérito nisso...

Aliás, aposto que em certas ocasiões o filho acompanhava o pai ao escritório e via-o a trabalhar em casa com uns papéis, e via-o a ler, etc...

Os filhos tendem a imitar os pais...o que acontece é que o filho de Belmiro (epah, não me lembro do nome dele) foi crescendo habituando-se a reforços positivos em relação à qualificação e à familiarização com coisas como empresas (funcionamento interno, ambiente) ou seja, ele foi-se habituando a aprender o que se fazia numa empresa..e interiorizou formas de agir e reagir....

Transpondo para a realidade portuguesa: a maior parte das pessoas têm baixa qualificação e poucos hábitos de leitura....os respectivos filhos não têm um contexto social nem cultural para serem incentivados a ler ou a levar o seu processo de aprendizagem até muito longe...porque não notam no que isso lhes poderá ajudar...

Neste contexto compreende-se muito bem o que o Plano Nacional de Leitura queria atingir....

Pessoalmente falando, os meus pais têm a 4ª classe antiga...e o único estímulo que eu tive para ler foi quando uma tia minha me ofereceu um livro, nos meus 10 anos, no caso, "Uma aventura no Verão" para ser concreto...ou seja, foi-me dada uma oportunidade e eu aproveitei-a...

e li o livro...foi assim que ganhei o gosto pela leitura...na escola as notas eram bastante boas até por não dar erros de português (lá está: a influência da leitura), e posso dizer que me licenciei por causa desse livro.
Foi decisiva essa oportunidade. E hoje em dia leio bastante e tenho uma mente bastante curiosa...o que me faz ainda ter mais vontade de estudar.

Acontece que não consegui até agora arranjar trabalho de acordo com as minhas qualificações e o que vejo é que pessoal que têm pais que têm empresas conseguem mais facilmente emprego qualificado...
claro, eles sentem-se mais confortáveis porque têm experiência prática que deve ser um elemento sinalizador bastante importante para as empresas reduzirem a informação assimétrica na sua fase de recrutamento....
os meus pais são trabalhadores dependentes...

Claro que nem tudo se explicará por aqui mas é decisivamente um factor...
Aliás, mais preocupante do que isto, é ter constado à alguns anos através de um inquérito, que a maior parte dos alunos da minha Universidade tinham pais que tinham qualificações superiores à dos meus....

Posso admitir que foi um choque para mim porque não fazia a menor ideia....o que isto significa em última instância é que a mobilidade social é baixíssima e a estratificação social mantém-se não porque as pessoas necessariamente o queiram mas porque todos os factores levem a isso...

Mas lá está, as oportunidades têm de existir para que uma pessoa as possa aproveitar....acontece que em Portugal são poucas e vão baixando à medida que vamos descendo nas classes sociais....

Só existe uma variável actualmente capaz de baralhar este meu raciocínio (ou não)...chama-se: Cunha...


De Poder, Mérito (?) e mobilidade social a 28 de Janeiro de 2010 às 10:19
Zé Miranda disse...

Fiz um post sobre a meritocracia há algum tempo atrás em
http://profundaignorancia.blogspot.com/2009/12/isto-tem-que-ser-economia.html
"As desigualdades sociais de partida são reproduzidas e aumentadas pelo mercado.

O Estado Social ao estabelecer como um direito, independente da capacidade económica de cada um, o acesso de todos à Saúde e à Educação, surge como um instrumento para diminuir as desigualdades e igualizar ligeiramente as oportunidades para todos de uma vida decente.

Os defensores da meritocracia pretendem uma sociedade que premeie o mérito.
Mas esse mérito não tem em conta de onde partem as pessoas. Por exemplo:
alguém que faça uma investigação importante, ou que chegue ao topo de uma empresa e que nunca tenha tido dificuldades económicas na sua família, tenha a sorte de ter pais com niveis de escolaridade altos, tenha a sorte de ter em casa uma boa biblioteca, tenha a sorte de poder ter tido todos os livros e documentários e filmes e tudo o mais que lhe tenha ajudado a exercitar o pensamento,
essa pessoa terá tanto mérito como alguém que cresceu numa familia de reduzido capital económico e cultural mas que chegou a concretizar a mesma investigação ou chegou ao topo da mesma empresa?
Claro que não.

Portanto, a desigualdade sociais de partida reproduzem-se no mercado de trabalho tanto mais quanto mais elitista for o ensino.

O Estado Social, de forma a igualizar em parte o sistema capitalista selvagem e explorador que temos, atribui como direito a saúde e a educação, impõe impostos progressivos para que quem tenha mais contribua com mais para esses direitos, abrindo espaço ao exercicio da democracia.
Porque uma sociedade capitalista, meritocrática, burguesa e profundamente desigual e sem um Estado que preencha minimamente todas essas lacunas é uma sociedade não democrática -
porque na verdade, não temos todos o mesmo acesso aos melhores empregos, não temos todos o mesmo acesso aos bens e serviços, não temos todos a mesma voz, não temos todos o mesmo poder.

E sim: isto também é Economia."


De em Ladrões de Bicicletas... a 28 de Janeiro de 2010 às 10:26
Bruno Silva disse...
Caros,

Eu não critiquei o estado social, só critico os seus limites!
E quando já se chega a um escalão de 42% de tributação da riqueza produzida por um determinado indivíduo, um aumento disso soa-me a tudo menos a "justiça".

Não queria de todo começar o já gasto debate da tributação progressiva.

Caro Miguel Rocha, para existirem mais oportunidades tem de haver mais investimento privado, o qual tem vindo a descer dia após dia, os motivos disso, dava uma longa conversa...

Outro ponto: Não posso nem devo eu ter o direito de construir algo que possa deixar aos meus filhos? A crítica a isso mostra bem que a esquerda só se preocupa cegamente com a "desigualdade" e não com o estado efectivo de quem está na base. Mas isto dava outra longa conversa.. Recordo apenas Milton Friedman, citando Thomas Jefferson: "A society that puts equality ahead of freedom will end up with neither equality nor freedom"

28.01.2010


De marcadores a 28 de Janeiro de 2010 às 09:41
Alguém me sabe dizer se as mais-valias bolsistas, neste orçamento, já têm a retenção de 20%, em sede de IRS, ou se continuam isentas de impostos ao contrário de todas as outras mais-valias, como por exemplo os juros nas contas bancárias?


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