Poeiradas para os olhos do Zé Povinho

Contradições e desonestidades na distribuição da riqueza produzida.

Enquanto certos privilegiados da nossa sociedade, antigos políticos, gestores de topo e reformados com chorudas reformas (ao mesmo tempo que acumulam com segundos, terceiros, quartos... empregos) afirmam, despudoradamente e sem se cuidarem de evitar a generalização, que “vivemos acima das nossas possibilidades”, auto-excluindo-se a si mesmos, muitos concidadãos vivem sem recursos e no limbo da exclusão dos mais elementares direitos.

Por outro lado, alguns órgãos de comunicação social chamam de “ataque à banca” ao agravamento da tributação dos prémios pagos aos gestores com uma taxa de 50% este ano, ainda que já tivesse sido anunciado pelo primeiro-ministro esta possibilidade. Não se compreende o porquê da proposta de Orçamento do Estado para 2010 (OE), tornar a taxa permanente nos anos seguintes, reduza aquele valor só para 35%.

Como podem apelidar de “ataque” se, apesar deste agravamento, nem todas as remunerações variáveis serão tributadas. Só os prémios que excedam os 25 % da remuneração anual e tenham um valor superior a 27 500 euros estarão sujeitos à nova taxa e ainda assim poderão ficar isentos se mais de metade dos mesmos forem diferidos por um período de três anos e desde que o desempenho da empresa seja positivo durante esse período. Na prática só remunerações acima de mais de 137.500,00€/ano serão taxadas. Continuam a atirar-nos com poeira para os olhos. O que adiantaria, para combater a corrupção, fazer publicar na internet os rendimentos brutos de todos os cidadãos deste país?

O estranho, ou talvez não, é o facto de em Portugal uma boa parte dos pensionistas pouco mais receberem que duzentos e picos euros mês, ou seja pouco mais de três mil euros ano, os mesmos órgãos de comunicação não digam que é um ataque social, um ataque à dignidade das pessoas, assim como às suas respectivas vidas.

Porque será que tais órgãos de comunicação social não se predispõem a analisar, concreta e honestamente, a realidade económica e social da população portuguesa?

Porque será que os órgãos de comunicação social não desmistificam a caótica situação que tem sido o evoluir da concentração da riqueza produzida, agravando, a cada dia, o chamado leque salarial ao mesmo tempo que se conhece abuso de benesses distribuídas a quem mais influência tem nos aparelhos políticos e económicos, seja no sector público ou privado?

Porque será que os órgãos de comunicação social não apostam em jornalistas e jornalismo de investigação que levem os processos até ao seu completo esclarecimento e conclusão final?

É muito mais fácil fazer “justiça” panfletária que venda papel, do que informar sincera e honestamente a população e, promover o esclarecimento, forçando a conclusão de processos judiciais e respectivas inocentações se os arguidos tiverem de ser inocentados ou condenações que, dentro das respectivas molduras penais, não deixem duvidas da justeza das sanções.



Publicado por Zé Pessoa às 01:01 de 08.02.10 | link do post | comentar |

5 comentários:
De Izanagi a 8 de Fevereiro de 2010 às 21:23
A questão não se coloca ao nível da facilidade, mas sim ao nível do interesse. Convém desde logo lembrar que a comunicação social é dominada directamente pelo poder económico/financeiro e mesmo a dita imprensa pública, quer a rádio quer a televisão, são dominados também por esse poder, ainda que aqui indirectamente, ou seja, através do controle que o poder económico/financeiro detém sobre o poder executivo e legislativo.
Ao poder económico/financeiro não lhe interessa, sob pena de diminuir o rendimento do saque, que o nível de literacia e consciência cívica dos portugueses, aumente no primeiro caso e desperte no segundo.
Face á apatia da população e algum comodismo, competia ao governo criar meios para alterar esta situação, mas como este não é idóneo nem independente, assistimos ao empobrecimento contínuo do país e á impunidade do crime dito de colarinho branco.
Mas será que os portugueses, com o comportamento que demonstram perante o conjunto de escândalos que vão sendo denunciados, merece algo diferente? Duvido.


De Zé das Esquinas o Lisboeta a 9 de Fevereiro de 2010 às 09:53
Não duvide. Merecem algo de diferente, sim!
Nem que sejam poucos, nem que seja só um português a merecer, devemos fazer tudo para que este país possa um dia ser melhor do que é hoje.
Agora como... mas pode ter a certezinha absoluta que não são estes 'políticos' que se alternam no poder ou se acomodam na assembleia que o vão fazer através de mudanças de postura ou de procedimentos, não são, não!
Como então?
Precisa mesmo que eu lhe diga?


De marcadores a 8 de Fevereiro de 2010 às 10:49
Baseado num editorial do Destak , coloco aqui algo que considero muito pertinente e que tem a ver com parte do post :
"É difícil aceitar por quem trabalhou uma vida inteira e ainda continua a trabalhar que, quando chegar a sua hora, vai receber menos que alguns amigos da mesma idade e até mais novos que descontaram menos e com menos anos já estão reformados/aposentados..."
É digo eu, muito, mas mesmo muito difícil de engolir esta escandalosa situação que para além de desigual é profundamente imoral.
E ainda sabendo das "reformas escandalosas e de reformados em situação de privilégio que continuam a desempenhar funções que podiam ser de outros, tanto ou mais habilitados e ... desempregados"
Moralização urgente, precisa-se!


De marcadores a 8 de Fevereiro de 2010 às 10:18
As 'desonestidades' são muitas e uma das mais gravosas são as 'desonestidades intelectuais' porque corroem o mais profundo que há em nós - a esperança.
Faz deixar de acreditarmos em nós enquanto futuro, hoje continuamos a ser um país mas deixámos de ser uma nação.
E é isto que nos está a acontecer.
Porque estas 'desonestidades' reais e ou virtuais que proliferam na imprensa, na política, no trabalho, na solidariedade, no quotidiano, arruma completamente a esperança dos poucos portugueses que trabalham e que levam este país às costas. Não com heróis mas como burros de carga.


De Zés calados a 8 de Fevereiro de 2010 às 08:50
Parabéns Zé Pessoa por dizer umas VERDADES.
Deveriam haver mais Zés esclarecidos, ... para que este país deixasse de ser a choldra do costume.


Comentar post

DESTAQUE DO MÊS
14_04_botão_CUS
MARCADORES

todas as tags

CONTACTO

Email - Blogue LUMINÁRIA

ARQUIVO

Junho 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Online
RSS
blogs SAPO