Terça-feira, 9 de Fevereiro de 2010

Mobilização Popular

 

Este post do Jorge Bateira e este do João Rodrigues ajudam-nos a balizar os possíveis cenários alternativos perante a aparente crise de pagamentos que os países do Sul da Europa enfrentam. É urgente que a esquerda consiga articular um alternativa mobilizadora.

As actuais imposições, num contexto de crise internacional, não resolvem nada. A "saída por baixo", no cenário apresentado pelo Jorge Bateira (uma possível crise global da zona euro que levasse ao seu colapso), tem de ser evitada. Uma saída unilateral do euro também não é desejável como proposta política (e ninguém aqui a defende). Neste cenário, a nossa moeda seria desvalorizada, a competitividade externa da economia aumentaria, mas o aumento do preço das necessárias importações (por exemplo, dos combustíveis) resultaria numa desvalorização real dos salários. As dívidas das familias continuariam, no entanto, com o mesmo valor - mais escudos pelos mesmos euros de dívida resultariam em situações de não pagamento generalizado.

Podia ser moralmente regenerador, mas eu sou daqueles que acha que a política à esquerda não se faz segundo a máxima "quanto pior, melhor". Acresce ainda que um cenário de saída do euro resultaria num mais do que provável aumento da taxa de juro (em função da inflação) e dificuldades acrescidas de financiamento nos mercados de capitais internacionais. O cenário de um default nacional, como aconteceu na Argentina em 2001 ou no Sudeste Asiático em 1998, seria quase inevitável. O FMI aterraria novamente na Portela, com a sua tradicional receita de cortes de despesa pública (não muito diferente do que a comissão europeia esta agora a fazer com a Grécia). Podiamos simplesmente repudiar a dívida, mas dada a dimensão e abertura da nossa economia, tal medida transportar-nos-ia para a autarcia.

A "saída por cima", tal como é defendida pelo Jorge, existe e deve ser bem desenvolvida e articulada pela esquerda:

Imediato anúncio europeu de garantias para que nenhum país irá entrar em "default" (mais que suficiente para acalmar os mercados);

Criação do fundo obrigacionista europeu aqui referenciado pelo João - já repararam porque a Itália está fora da actual turbulência? É que eles são o terceiro mercado de dívida pública do mundo.

É mais difícil especular e manipular em mercados maiores. O tamanho importa: criação de dívida pública europeia.

Reforço orçamento europeu corrector das assimetrias externas dos países da zona euro; articulação e coordenação das políticas salariais na zona euro; reforma e regulação do sistema financeiro; revisão dos estatutos do BCE, colocando o crescimento económico e o emprego como objectivos cimeiros da sua actuação, etc...

Com as raras excepções dos defensores da "saída por baixo", não me parece que haja grandes problemas em construir uma plataforma política comum à esquerda europeia que contenha estes elementos.

Mesmo em países como a Alemanha, a luta pela valorização salarial é a nossa luta pela criação de mercados para os países do Sul e correcção dos desequilibrios nas contas externas do países da zona euro.

As plataformas políticas já existem: o partido da esquerda europeia, a confederação europeia dos sindicatos, a miríade de organizações progressistas que lutam por outra arquitectura europeia, etc.

Uma grande manifestação popular em Frankfurt, à porta do BCE, seria uma excelente demonstração de força popular. É sempre a correlação de forças sociais que faz das nossas boas alternativas uma realidade.

 


Publicado por Xa2 às 07:05 | link do post | comentar

4 comentários:
De Discriminação: BASTA . a 9 de Fevereiro de 2010 às 10:01
MULHERES SÃO PENALIZADAS!

Os casos de discriminação no emprego continuam a crescer em Portugal. É pelo menos isso que demonstram os últimos dados da Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT), sobretudo contra as mulheres: as inspecções e queixas por discriminação laboral feminina duplicaram em 2009, em relação ao ano anterior.

A maioria das situações estão relacionadas com penalizações das mulheres em licença de maternidade ou no período de amamentação.

Mas também com a discriminação salarial relativamente a pessoas na mesma categoria profissional e com oportunidades de ascensão na carreira, explicou ao DN o inspectorgeral do Trabalho, Paulo Morgado de Carvalho.
Situações que devem agravar-se com a crise económica.

Só em 2009, a ACT realizou 4859 inspecções por suspeitas de discriminação em várias instituições e empresas, contra as 4804 desenvolvidas no ano anterior. Destas, 280 tiveram como alvo situações de tratamento diferenciado por género, mais do dobro do que no ano anterior (139).
Estas inspecções tiveram por base denúncias de sindicatos e da Comissão para a Igualdade no Trabalho (CITE), ou eram já do conhecimento da ACT devido a averiguações anteriores, já que há entidades que praticam habitualmente situações de discriminação.

Com base em queixas apresentadas pelas eventuais vítimas ou pelos seus sindicatos, a ACT fez 810 acções inspectivas. Destas, 65 resultaram de queixas por discriminação de mulheres no trabalho.
Em 2008, tinham sido apenas 25 inspecções (ver infografia). Das inspecções desenvolvidas pela ACT no último ano resultaram 109 autos de notícia.
As multas aplicadas às entidades em que ficou provada a prática de actos discriminatórios oscilaram entre 213 882 euros e os 613 455 euros. Valores que têm vindo a crescer nos últimos anos.

Em 2007, as multas oscilavam entre os 138 mil euros e os 234 mil. Para o inspector-geral, Paulo Morgado de Carvalho, o aumento do número de inspecções e queixas pode não corresponder na totalidade a um crescimento de casos de discriminação no trabalho. "Houve um reforço das atenções para o problema, por parte das entidades competentes e uma maior informação das pessoas sobre os seus direitos", disse ao DN. E isso conduz a mais denúncias e queixas.
Mas o responsável não exclui a possibilidade de a discriminação laborai também ter aumentado. O que garante é que na ACT tem estado a ser dada maior relevância ao combate a estas situações.

As desigualdades de tratamento por raça, nacionalidade e sexo são as mais comuns no mundo laborai, diz o responsável.

Mas também há entidades que violam o dever de publicar anúncios de emprego, que praticam salários diferentes para pessoas com a mesma categoria profissional e formação, ou que promovem uns funcionários na carreira deixando outros para trás.

Já as queixas das mulheres dizem sobretudo respeito a desigualdades na ascensão da carreira, ou a penalizações no emprego por estarem de licença de maternidade ou por gravidez.
Muito raras são as queixas por assédio sexual ou moral.
-por A.Brandão Guedes em 8.2.2010, Bem Estar no Trabalho


De Acordem Trabalhadores e Sindicalistas ! a 9 de Fevereiro de 2010 às 10:09
FUNÇÃO PÚBLICA : O GRANDE DESAFIO !

A situação dos trabalhadores da Função Pública está complicada !
Em tempos de crise são os primeiros a pagarem as favas !
Durante anos os funcionários públicos aparecem como trabalhadores especiais. Vínculo seguro, sem grande pressão no trabalho (até dava para alguns tirarem um curso) e salários não muito altos, mas sempre pagos a horas !
Qual a família que não gostava de um emprego público para um familiar, principalmente nas finanças?

Os tempos mudaram, entretanto, os serviços não respondem às exigências sociais, a partidarização mexeu com a estrutura dirigente, as mudanças tecnológicas introduzidas nem sempre respondiam a necessidades, mas a interesses pessoais, a formação nem sempre era adequada e contrata-se à hora, a termo, ou a prestação de serviços !

Os serviços baixaram de qualidade e alguns são privatizados, os cidadãos queixam-se de que são mal servidos e começa a culpabilização dos funcionários públicos !

As reformas apregoadas por todos aparecem como as grandes soluções. Passado algum tempo as reformas introduzidas apenas tornam os serviços menos capazes de servir o cidadão e o que reina é a desorganização e a desmotivação !

Critérios economicistas fundamentam a nova estrutura de carreiras e de promoções !
Os funcionários sentem-se isolados, inteiramente nas maõs dos chefes e, os mais novos, longe de qualquer compensação e no início de uma longa carreira.
A desmotivação dos mais velhos é notória , basta ver o número dos que querem ir para a aposentação !

(Mas)
Os outros trabalhadores continuam a pensar que os funcionários públicos são privilegiados !
No próprio movimento sindical e na oposição de esquerda não se leva a sério a situação !
Há uma grande infelicidade e desmotivação profissional na Função Pública !
Acordem !
Os dirigentes sindicais (UGT e CGTP) preparem um novo caminho de unidade, convergência, o que lhe queiram chamar, mas passem para uma nova etapa para que a mobilização dos trabalhadores possa dar um salto qualitativo !
Não nos podemos contentar com 40 ou 50 mil trabalhadores na rua !
Há um grande trabalho pela frente para se dignificar o trabalhador e o serviço público ! A responsabilidade é de todos !
Os dirigentes sindicais devem assumir a sua autonomia estratégica para que o movimento sindical seja um actor de corpo inteiro na cena política !

- por A.Brandão Guedes, 6.2.2010, Bem Estar no Trabalho


De Zé das Esquinas o Lisboeta a 9 de Fevereiro de 2010 às 10:15
Tretas. Manifestações populares só servem para entreter o poder e dar-lhes mais armas de identificação e de exercício da autoridade (autoritarismo).
Se existe discriminação (sexo, cor, raça...) no mundo ocidental, também é porque se deixam discriminar. Também têm um preço (dinheiro, filhos, fome, seja o que for) mas também é porque se deixam ser discriminados. Também existe muita conversa de p___*, onde também há as 'baratas' e as 'caras'. Porque no fundo, no fundo acaba por ser tudo uma questão de preço.


De Izanagi a 9 de Fevereiro de 2010 às 12:48
Mais uma vez ficamos à espera que sejam terceiros a salvar-nos. Beber o leite sem ter que criar a vaca. A história mostra que somos exímios neste comportamento. Mas não ficaria surpreendido se os países que supostamente poderiam colaborar, viessem dizer que já “deram para esse peditório”.
Não quererão os defensores desta medida fazer um pequeno esforço e questionar qual a origem da dívida pública? Será que se justifica? Se atendermos á duplicação de custos de quase tudo o que é investimento público, para além dos gastos em redundâncias e dos desperdícios de dinheiros público, tudo evitável num regime democrático, rapidamente constatamos que com o investimento que foi feito pelo sucessivos governos (centrais, regionais e locais) não haveria lugar à divida pública e as agencias de rating dariam outra avaliação a Portugal.
E o mais grave, é que o montante desse défice não foi distribuído de forma equitativa, mas sim desviado para muito poucos.
Com que autoridade se pode apelar á solidariedade de terceiros?


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