O estado da democracia e a democracia partidária

Há quem afirme, parece que com absoluta convicção, que vivemos numa, quase perfeita, democracia. Serão sonhadores, cegos, oportunistas, imbecis, corruptos,… Poetas não são, com certeza, porque quem escreve poesia, normalmente, anda lúcida/o.

Enquanto vivermos numa sociedade em que os maiores e mais graves sacrifícios se empurram para os outros e benesses só para uns não pode o regime político consubstanciar uma sociedade democrática. Uns e outros sempre os mesmos. Os primeiros sempre beneficiados e os outros sempre sacrificados.

Por outro lado, veja-se o regabofe de “jornalismo de buraco de fechadura” que polui a vida politica, social e económica portuguesa, subsistindo a duvida em se saber qual a verdade do que se vê, ainda que mesmo através do buraco, seja da fechadura ou de qualquer outro. Perdeu-se, completamente, a dignidade e o bom senso tanto dos políticos como dos fazedores de propaganda pretensiosamente noticiosa.

Seria, era normal que assim, sempre, fosse nos chamados regimes absolutistas ou totalitários, agora que, assim, sempre seja, também, em regimes ditos democráticos, já é menos compreensível e não deveria ser aceitável.

Os próprios partidos políticos, em termos de democracia interna, estão muito doentes, vivem mais de expedientes nem sempre claros do que de militâncias e solidariedades.

No plano da democracia interna partidária tornou-se regra a promoção de listas únicas ao mesmo tempo que se segregam quaisquer veleidades de iniciativas dos militantes a apresentarem listas alternativas às propostas pelos respectivos “aparelhos” partidários. Isto não é democracia e muito menos se poderá chamar de regime republicano, pela razão simples de estarem a ser sonegados os princípios que enformam, cultural e eticamente, tal regime.

Há bem pouco tempo, no distrito de Santarém, que conta com uma população acima dos 470.000 habitantes, constatou-se que um dos dois maiores partidos políticos da nossa praça não conta com mais de 4.000 militantes nos seus registos e menos de 400 estavam em condições de votar na recente eleição da respectiva estrutura distrital. O candidato de lista única que foi eleito com menos de 360 votos achou que “foi uma excelente participação” e concumitantemente “uma notável vitoria”. Mais grave que a posição do eleito foi o comportamento dos Órgão de Comunicação Regional que fizeram eco de tais disparates e não foram capazes de desmistificar tão profundos e tão graves anacronismos democráticos.

O Estado e a democracia estão num estado doentio, correndo, mesmo, o risco de desagregação convulsiva, na medida em que os partidos políticos, enquanto elementos essenciais ao regime, estão eles próprios em desaparecimento e cada vez menos reconhecidos, socialmente.

É caso para relembrar as prédicas de Frei Thomaz que no dito popular se apregoa “faz o que ele diz não faças o que ele faz”.

Creio que o que está na moda é uma inversa e mais perigosa formulação “não faças o que ele diz faz o que ele faz”.



Publicado por Zé Pessoa às 00:01 de 10.02.10 | link do post | comentar |

2 comentários:
De A democracia das escutas a 10 de Fevereiro de 2010 às 10:59
De facto tudo parece indicar que vivemos numa republica de bananas e dentro de uma democracia do faz de conta quer ao nivel económico, social e sobretudo judicial (justiça?).

Então sé é crime desrespeitar o segredo de justiça porque não são incriminados, julgados e punidos quem comete tais crimes, por maioria de razão órgãos de comunicação social que divulgam publicamente o que deveria ser, só e apenas, do conhecimento dos juízes instrutores do processo e dos investigadores que consigo trabalham. É estranho não e?

Por outro lado porque é que Pinto Monteiro “escondeu” as certidões que lhe chegaram onde estavam também incluídas escutas telefónicas, cuja validade ninguém parece contestar, entre Paulo Penedos e Rui Pedro Soares, o administrador executivo da empresa para quem o advogado trabalhava, relevantes para as suspeitas que envolvem o primeiro-ministro. E que havia ainda outra escutas envolvendo Armando Vara e outras pessoas, que não José Sócrates.

Será que esta atitude do PGR foi tomada para proteger o Primeiro Ministro ou para mais tarde atirar como arma de arremesso ao seu, visceral, “amigo” Presidente do Supremo Tribunal?


De Zé das Esquinas o Lisboeta a 10 de Fevereiro de 2010 às 12:04
Claro que é estranho, muito estranho, quando o que se torna importante não é saber se há indícios de crime mas sim a forma como se soube ou se divulgou esses indícios.
Claro que esta estranheza se refere a todas estas 'habilididades' da jurisprudência e não somente ao chamado 'caso das escutas'.
E já para não falarmos da ética ou falta dela que numa sociedade civilizada deveria estar acima das lleis(inhas) da nossa sociedade.
Haja vergonha nessas caras!


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