Ser advogado é cada vez mais difícil
Conseguir estágio de advogado é cada vez mais difícil
por FILIPA AMBRÓSIO DE SOUSA, DN, 18.2.2010

 

Sociedades de advogados contratam cada vez mais cedo os recém-licenciados que são sujeitos a uma selecção exaustiva e competitiva com a presença dos principais sócios

Os finalistas do curso de Direito enfrentam cada vez mais obstáculos para conseguir um lugar de estagiário num escritório de advogados. Como se de um verdadeiro casting se tratasse, os recém-licenciados mergulham num processo de selecção exigente, competitivo e que se arrasta durante quase seis meses.

A selecção apertada deixa de fora centenas de jovens por ano: só da Faculdade de Direito de Lisboa ficaram desempregados quase 200 licenciados, segundo dados do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, divulgados no ano passado.

As razões? "Um maior número de licenciados em Direito" que tem vindo a crescer exponencialmente na última década, segundo dados da Ordem dos Advogados fornecidos ao DN, e uma maior selectividade e exigência por parte dos grandes escritórios que desde logo tentam "formatar" os futuros advogados ao perfil que exigem.

"Fui a três entrevistas a cada um dos cinco escritórios que me pré-seleccionaram", explica João Madureira, licenciado em Direito em 2007, actualmente desempregado e que preferiu não nomear as sociedades em causa. "Parecia que me estava a candidatar a uma multinacional nos cinco casos e isso não me agradou", explicou. "Um dos sócios de um desses escritórios chegou a dizer-me que não eram eles que tinham sorte em ter-me, caso eu fosse contratado, mas eu em trabalhar para eles."

Outro advogado, que estagia na Morais Leitão, Galvão Teles, Soares da Silva & Associados há um ano e que preferiu o anonimato, diz que não está arrependido: "O mercado é competitivo e eles têm que ser agressivos logo no início para ver se nós correspondemos ao estilo que eles pretendem."

Se há dez anos as sociedades de advogados começavam a receber as dezenas de currículos dos candidatos em Junho/Julho do ano em que os estudantes acabavam o curso, actualmente a selecção termina em Fevereiro, quando os estudantes ainda estão a acabar a licenciatura.

"Agora começamos a receber currículos em Outubro quando o estudante de Direito ainda está a acabar o curso", explica Fernanda Matoso, sócia da Morais Leitão, Galvão Teles, Soares da Silva & Associados, responsável pelo recrutamento no escritório.

Depois de seleccionados os currículos - em função da faculdade e da média do aluno -, vem a ronda de entrevistas. "Tentamos perceber se o candidato tem apetência efectiva para o direito, qual a área em que gostaria de trabalhar e fazemos uma avaliação do perfil humano da pessoa", explica a advogada. Dessa fase exaustiva de entrevistas escolhem-se os 20 a 30 melhores para serem "apresentados" aos sócios António Pinto de Leite e João Soares da Silva, que seleccionam, em média, dez a quinze futuros advogados.

"Um número que nunca é estanque, já que isso também depende das necessidades do escritório", explica Fernanda Matoso. "Este último ano, por exemplo, por causa da crise, foram só seis."

"Quando estamos a contratar estagiários, estamos a contratar um futuro advogado para a PLMJ", explicou ao DN Pedro Mettelo de Matos, sócio do maior escritório de advogados português.

A ronda de entrevistas e uma avaliação exaustiva do inglês fazem parte do processo. "O primeiro teste é escrito, para determinar a sensibilidade jurídica da pessoa", diz Marta Trindade, da Abreu Advogados, gestora dos estágios do escritório. "Depois um segundo teste de inglês e uma revisão de todos os testes dos seleccionados." A MLGTS chega a recorrer a uma advogada norte-americana para dar formação na vertente técnica do inglês. "O mercado da advocacia é cada vez mais competitivo e os jovens preocupam-se cada vez mais cedo com o que querem escolher", explica o sócio da VdA, Paulo Barros Baptista.

André Luiz Gomes, da Cuatrecasas, Gonçalves Pereira explica: "As sociedades têm padrões cada vez mais exigentes devido à profissionalização. É natural que a necessidade de captar os melhores leve a que o recrutamento seja cada vez mais uma prioridade."

..........

Exame de acesso para iniciar estágio
 Desde o início de Janeiro que os recém-licenciados que queiram candidatar-se a um estágio têm de fazer um exame na Ordem dos Advogados (OA). Até agora, os candidatos a advogados só prestavam provas no final da formação dada pela OA, mas desde o primeiro dia do ano que por deliberação do Conselho Geral se institui "um exame nacional de acesso ao estágio de advocacia para verificar os conhecimentos considerados necessários". A medida é polémica e já tinha sido rejeitada por anteriores bastonários. Marinho justificou a nova regra com a necessidade de melhorar o ensino do direito, que "se degradou''.

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Publicado por Xa2 às 00:05 de 19.02.10 | link do post | comentar |

4 comentários:
De Zé das Esquinas o Lisboeta a 19 de Fevereiro de 2010 às 12:23
Vai-te 'catar' ó Filpa... Conversa da treta.
Vai mas é trabalhar à procura de clientes e se trabalhares bem e a preços correctos, vais ver que, como noutras profissões, podes um dia vir a ter sucesso.
Se calhar pensavas que por seres advogada eras diferente dos outros profissionais que quando saiem das faculdades têm de ir para o mercado de trabalho, na maior parte das vezes começando noutras areas de actividade?


De DD a 19 de Fevereiro de 2010 às 11:24
A sociedade portuguesa não deu origem a uma economia livre de mercado, mas antes a uma economia de interesses e serviços. Os interesses visam sempre a monopolização por parte de poucos do maior número de actividades, daí a Ordem dos Médicos não querer Faculdades de Medicina e a Ordem dos Advogados estar a limitar o acesso de jovens à advocacia para serem menos e manterem os seus preços muito elevados.
O objectivo é que a maioria da população constituída por mal remediados não tenham acesso à justiça, a não ser a troco de elevadas verbas que os endividam por muitos e muitos anos.


De marcadores a 19 de Fevereiro de 2010 às 12:17
É isso mesmo.
Mais e melhores médicos, mais e melhores advogados, ou quaisquer outros profissionais pode fazer toda a diferença para melhor e mais barato serviço ao cidadão.
Agora quem vai para algumas profissões para ter um estatuto económico ou socialmente relevante, não gosta da concorrência que mais e bons profissionais podem fazer.
Esses profissionais que se habituem às regras de um mercado que já é concorrencial vai para muito tempo em outras actividades.
Acabemos com essas classes de actividade que se julgam mais importantes do que todas as outras!


De ..Oligopólio, Nepotismo e Escravatura.. a 19 de Fevereiro de 2010 às 08:44
Comentários:
Anónimo:
Mas por que é que estes artigos só falam das maiores sociedades? Sempre a PLMJ, sempre a Morais Leitão... (será que este também é um artigo encomendado?! ou publicidade bajuladora?!) Só em Lisboa existem várias centenas de sociedades de advogados e nem em todas os critérios de selecção são tão rigorosos e exaustivos... Não é por não se entrar numa dessas grandes sociedades que não se pode fazer uma carreira digna na advocacia. As coisas não estão fáceis, mas escusam de assustar tanto os recém-licenciados em direito!

Zé Zé com a Marinha:
«Outro advogado, que estagia … há um ano e que preferiu o anonimato, diz que não está arrependido: "O mercado é competitivo e eles têm que ser agressivos logo no início para ver se nós correspondemos ao estilo que eles pretendem."» Um comentário indigno de um futuro advogado: "...eles têm que ser agressivos...". Lá está, nenhum animal morde na mão que lhe dá de comer!

Anónimo:
Cuidado com os Advogados incompetentes que andam por aí, a única coisa que lhes interessa é que os clientes paguem sem que haja a mínima hipótese de vencerem a causa, aproveitando-se do desconhecimento das leis por parte dos clientes. Se calhar mais vale recorrer às sociedades do que a advogados de vão de escada, sem qualquer prestigio na praça.

Anónimo:
Este artigo só fala de sociedades com grande volume de negócios, e não necessariamente de “grandes sociedades de advogados”. Além disso, não refere o tão habitual sistema de “cunhas” na selecção de estagiários por essas mesmas sociedades. Há sempre um lugar para o sobrinho ou para o filho do amigo!

É o tempo da escravatura legal, meus senhores.

Cabral Mendes:
A advocacia deixou de ser uma actividade profissional digna e independente (profissão liberal), para se transformar numa profissão "por conta outrem". Uma vergonha e um retrocesso histórico. Penso amiúde como tudo estava bem estruturado e equilibrado no tão difamado Estado Novo. Afinal, foi para isto que se fez o 25 de Abril? Para termos uma juventude com capacidades mas desempregada sem futuro e sem esperança?! Precisamos de novo de um Gomes da Costa!

Adilio Belmonte:
Aqui no Brasil, após o chamado Exame de Ordem, o advogado está habilitado ao exercício profissional, podendo trabalhar individualmente. No entanto, fica bastante difícil para o cliente buscar no mercado um profissional que possa patrocinar a sua causa a contento. Mas, indubitavelmente, o cliente precisa ser muito sensato ao ir ao mercado procurar um profissional para defender a sua causa. O critério deve observar sobretudo a ética e o conhecimento da área do direito na qual se enquadra a demanda do cliente. Sem medo de errar pode-se dizer que no Brasil é mais difícil encontrar um bom a advogado do que encontrar um bom companheiro, marido ou mulher. A ética a ser observada pode girar em torno não só dos honorários cobrados, mas da boa-fé…

Diogo Pereira:
É uma palhaçada, as sociedades recrutam quem tem boa média o que nem sempre reflecte a qualidade do licenciado porque existem muitos "cábulas" que acabam com excelentes médias (caso da Universidade … onde o copianço é a regra) e quem lhes pode ser útil porque é filho de alguém influente. As grandes sociedades de advogados ensinam os estagiários a fazer traduções, pois é isso que na maior parte do tempo fazem quando estão na 1ª fase de estágio, estágio esse onde não são muitas vezes remunerados (escravatura moderna e legal)...Isto é tudo pura palhaçada...Eu fui estagiário e sei bem o que digo.


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