Notas sobre SEDES de poder

Mais um documento fraquinho. Como fraquinhas têm sido todas as recentes posições colectivas da SEDES. Mais um relambório que mascara mal o projecto de submissão total da sociedade portuguesa às necessidades de uma utopia capitalista: “promover a criação de condições estruturais que permitam a adaptação da economia portuguesa às novas realidades de um mercado global, livre e altamente competitivo.” Esta é a ideia central do documento da SEDES. A economia global “livre” é assim uma espécie de facto da natureza: já aqui tentei desmascarar esta ficção que tem por efeito promover a via chinesa, mas sem política cambial, industrial e de controlo de capitais e do crédito, para um crescimento que nunca chegará.

Não se vê a insustentabilidade socioeconómica e política deste projecto, nem com todos os desequilíbrios que têm sido gerados. Não se vê que a estagnação da economia portuguesa é o resultado de um processo de integração europeu mal conduzido, mas sempre aplaudido, que reproduz dentro da Europa os desequilíbrios nas relações comerciais internacionais e nos fluxos financeiros descontrolados. Passa-se pela maior crise económica das últimas décadas como se não tivesse sido nada ou como se tivesse sido uma coisa que cai do céu, qual choque exógeno. Omissões só proporcionais ao vazio aparente de propostas.

Percebo bem: não convém analisar as causas da crise, das desigualdades socioeconómicas à liberalização financeira e comercial, nem o que evitou até agora a grande depressão: demagogicamente, ignora-se que os aumentos do défice e da dívida pública são a consequência da estagnação prolongada, e em especial da última crise, e não a sua causa. Além disso, num contexto de fragilidade económica, fazer, precipitadamente, da consolidação orçamental o fim último da política económica, pode matar a retoma e colocar-nos de novo nas armadilhas da depressão, como aliás alertam diversos economistas num país onde o debate é mais plural do que aqui: a consolidação orçamental só deve realizar-se, só pode realizar-se, num contexto de crescimento robusto. Esquece-se, adicionalmente, que o Estado predador, que aparentemente se denuncia, é o que resulta sempre, aqui ou em qualquer outro lugar, da aplicação prática das receitas teóricas do liberalismo económico: as parcerias público-privadas e as privatizações de sectores estratégicos são só dois bons exemplos do Estado capturado por uma burguesia crescentemente parasitária.

Sabem o que eu acho? Pelo menos, o seu colega Vítor Bento diz ao que vem com clareza e por isso é o melhor dos economistas-2012 que neste blogue temos criticado: cortes salariais, num país onde o salário mediano anda pelos 700 euros, e o trabalho como simples mercadoria para ser usada e descartada em função das necessidades de uma mítica “economia global livre”. É impressionante como uma ficção grosseira continua a alimentar projectos bem reais de transferência de custos sociais para os trabalhadores. Aceita-se pacoviamente todos os muito políticos constrangimentos europeus como outro facto da natureza. Será que é porque isso facilita a destruição do Estado social e a instituição do desemprego como mecanismo disciplinar, objectivos mal disfarçados por um pensamento económico mágico que tem em Belém o seu centro difusor?

De resto, é sempre interessante ver um antigo líder do lobby da banca subscrever um documento onde se fala vagamente, claro, da “promiscuidade dos interesses”. Que esta gente domine o debate económico como se tivesse chegado ontem ao país diz tudo sobre o consenso medroso e desmemoriado que aqui vigora. A esquerda não pode ter dúvidas: as sedes de poder são o adversário principal no campo das ideias, mesmo que estas não abundem por essas bandas...

 

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Publicado por Xa2 às 00:05 de 22.02.10 | link do post | comentar |

3 comentários:
De Diminuir despesa extravagante e inútil.. a 23 de Fevereiro de 2010 às 15:11
OE.2010

BE quer taxar transferências para `off-shores`, prémios das empresas e renegociar contratos militares publicado


Lisboa, 23 fev (Lusa) -- O BE propôs hoje taxar a 25 por cento as transferências para `off-shores`, a 50 por cento os prémios atribuídos pelas empresas aos seus gestores e administradores e renegociar os contratos de contrapartidas militares.

BE quer taxar transferências para `off-shores`, prémios das empresas e renegociar contratos militares

Com o objetivo de diminuir a despesa pública "extravagante e inútil", o BE propôs também limitar a contratação de consultadoria jurídica pelo Estado, submetendo-a a aprovação pelo Ministério das Finanças, e impor uma taxa efetiva de 20 por cento de IRC para as instituições de crédito e sociedades financeiras.

Estas propostas de alteração ao Orçamento do Estado para 2010 na especialidade foram hoje apresentadas pelo deputado do Bloco de Esquerda (BE) José Gusmão, em conferência de imprensa, no Parlamento.


De Má distribuição, fosso, destroi a Nação a 23 de Fevereiro de 2010 às 09:44
DISTRIBUIÇÃO DA RIQUEZA!

A solução para acabar com a pobreza em Portugal deve assentar na economia, diz o especialista Bruto da Costa. O que dizem, então, os economistas? Uns que é preciso flexibilizar o trabalho, outros que é preciso distribuir bem a riqueza. Em que é que ficamos?"

O problema principal de Portugal prende-se com a distribuição da riqueza", começa o economista Luís Bento, professor na Universidade Autónoma de Lisboa e membro do Grupo de Paris de Ética e Responsabilidade Social.
Pormenorizando, este economista explica que "em Portugal remunera-se muito melhor o factor capital do que o factor trabalho".
Ou seja, enquanto que nos países escandinavos 30% da riqueza gerada pelas empresas é para remunerar o capital (accionistas), 30% o trabalho (trabalhadores) e 40% para reinvestir, num balanço visivelmente equilibrado, aqui (em Portugal) a remuneração do capital é muito mais elevada do que a remuneração do trabalho.
Curiosamente, afirma Luís Bento, "Portugal tem uma riqueza global muito perto da gerada na Finlândia, o problema é que não sabe distribuir a sua riqueza".

Para o economista e professor da Universidade Católica João César da Neves, nos antípodas desta perspectiva, o problema da pobreza em Portugal prende-se com "a constante asfixia das empresas portuguesas".
"As empresas são asfixiadas com impostos e, sendo assim, optam pela precariedade, pelos salários baixos, até porque muitos empresários também são pobres.
Por outro lado, as leis que são criadas para proteger os trabalhadores também ajudam a bloquear a economia. A economia faz-se através da flexibilização laboral", resume.

Luís Bento desmonta esta visão. "É verdade que a maior parte (86%) do nosso tecido empresarial são pequenas empresas, mas esses 86% só geram 30% da riqueza.
Os outros 70% são gerados pelas grandes empresas - telecomunicações, energia e sector financeiro - que têm muito lucro e poderiam pagar bem aos trabalhadores, bem como aliviar a pressãosobre a economia, se não estivessem obcecados em remunerar tão bem os seus accionistas" (e administradores), explica.
Basicamente, se as grandes empresas pagassem melhor aos seus trabalhadores, estariam a aumentar-lhe o poder de compra e, obviamente, a aumentar a procura interna e a dar vida às pequenas empresas que são as que empregam 91% dos trabalhadores." (notícia do dia)

-por A.Brandão Guedes em 13:54, Bem estar no Trabalho


De DD a 22 de Fevereiro de 2010 às 17:18
O grande ataque aos salários dos trabalhadores em todo o Mundo apareceu com a exploração capitalista-esclavagista da China Comunista.
Ao colocar centenas de milhões de trabalhadores a 50 cêntimos à hora ao serviço do capital mundial, o COMUNISMO CHINÊS destruiu milhões de postos de trabalho na Europa/EUA, etc.

É indispensãvel impor rapidamente elevados Direiros Aduaneiros aos produtos chineses.

A China compra 4% das exportações alemãs, os países da União Europeia compram mais de 70% e mais de 80% das exportações espanholas, francesas, italianas, portuguesas, etc.

Só a Península Ibérica compra mais à Alemanha que todo o Continente Asiático com metade da população do Mundo.


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