Interesse público vs predação da coisa pública
A irrelevância de Sócrates
por João Rodrigues, i online 22.02.2010   

 

A erosão do espaço público prosseguirá graças às engenharias políticas de governos dispostos a tudo para agradar aos mercados.

As acções de Sócrates e o carácter que estas revelariam são escrutinados e debatidos até à exaustão. Fala-se muito do autoritarismo do primeiro-ministro e da sua necessidade de controlo da agenda mediática. Curioso é que muitos dos seus recentes críticos na imprensa passaram anos a entoar loas às suas determinação e coragem "reformistas" contra os chamados "grupos de interesse": estranhamente, o empresarialmente correcto dominante só usa esta expressão para se referir aos sindicatos e às suas lutas.

O que é realmente preocupante não está no centro do debate: o autoritarismo não é um defeito de Sócrates, mas sim o feitio de escolhas políticas governamentais concretas. São mais as políticas neoliberais, as que satisfazem os agentes que operam nos mercados financeiros liberalizados, a escolher os autoritários convenientes para a sua prossecução do que o contrário.

Sócrates sabe isto muito bem. Sabe onde está o poder. Basta estar atento às suas declarações à imprensa estrangeira, em que se apresenta como o mais competente para fazer recair o fardo do ajustamento sobre os mesmos grupos e espaços de sempre: contenção dos salários garantida pelo aumento de desemprego e pela precariedade e erosão dos serviços públicos.

Aqui a convergência com Belém e com a direita é total: prosseguir o que o economista político David Harvey designou como acumulação por expropriação dos bens comuns, ou seja, a empresarialização da gestão dos recursos públicos, de que as escolas secundárias são o último exemplo, como primeiro passo para a privatização nas condições que forem mais cómodas para os grupos económicos que já só prosperam à custa desta predação.

É claro que este processo, num contexto de crise e de estagnação duradoura, tem de gerar resistências, que serão tanto mais fortes quanto maior for a capacidade de mobilização dos contrapoderes na sociedade civil, sejam eles sindicatos, partidos ou outros movimentos sociais. Só uma sociedade civil activa pode traçar as linhas políticas que protegem a integridade do espaço público e assim asseguram as condições para a democracia e para a sobrevivência de um ethos de serviço público necessariamente antimercantil.

E, no entanto, foi sobre estes movimentos sociais que recaiu, e recairá, a ira do poder económico e de muita comunicação social. A desconfiança de sempre relativamente a uma democracia vibrante leva agora muitos a temer as explosões sociais e a olhar para o Oriente com enlevo: os modelos de capitalismo autoritário prosperam sem as tralhas da democracia. Enquanto não houver rupturas democráticas com esta trajectória ideológica e de políticas governativas, a erosão do espaço público prosseguirá graças às engenharias políticas de governos dispostos a tudo para agradar aos mercados.

Economista e co-autor do blogue Ladrões de Bicicletas



Publicado por Xa2 às 08:05 de 23.02.10 | link do post | comentar |

3 comentários:
De Izanagi a 23 de Fevereiro de 2010 às 23:57
Um artigo, que por muito que nos desagrade não deixa de ser um retrato fiel da realidade e que merece dos defensores de uma sociedade mais justa, mais equilibrada e em que a distribuição da riqueza seja mais equitativa, uma reflexão que conduza ao consenso de soluções que contrariem o caminho que está a ser construído.
Para esta reflexão até poderiam contribuir alguns militantes socialistas, que ainda os há.


De Fulano a 23 de Fevereiro de 2010 às 15:49
Não sei se tem a ver com o teor do artigo. Transcrevo:« O total de prémios atribuídos aos executivos em Wall Street cresceu 17% para 20,3 mil milhões de dólares no ano passado, segundo Thomas DiNapoli, fiscalista do Estado de Nova Iorque. »
Vinte virgula três MIL MILHÕES de dólares . Bah, milho aos pombos!


De Debates: Governar à Esquerda Socialista a 23 de Fevereiro de 2010 às 10:30
Governar à Esquerda

Curso: O que fará um governo de esquerda socialista?
27 e 28 de Fevereiro - Liceu Camões

A Cultra promove durante um fim de semana um ciclo de dez debates para discutir práticas políticas possíveis para uma governação à esquerda.
As sessões terão duração de uma hora e meia, com um orador (50 minutos), um comentador (20 minutos) e debate (20 minutos).
Participam nos debates alguns deputados e especialistas em cada um dos temas de discussão.
A entrada é livre.
Liceu Camões, Lisboa

27 de Fevereiro, Sábado
10:00h - 1. Na política do trabalho e da segurança social
Orador: Carvalho da Silva, Coordenador Nacional CGTP/IN
Comentadora: Mariana Aiveca, deputada, Conselho Nacional CGTP/IN
Debate

11:40h - 2. Na política económica e financeira
Orador: Francisco Louçã, Professor do ISEG e deputado
Comentador: João Ferreira do Amaral, Professor do ISEG

INTERVALO PARA ALMOÇO
15:00h - 3. Na política de saúde
Orador: João Semedo, médico, deputado
Comentador: Isabel do Carmo, médica
Debate

16,40h - 4. Na política das cidades e ordenamento territorial
Orador: Mário Vale, Inst. Geografia e Ordenamento do Território/UL
Comentador: João Seixas, geógrafo urbanista, ICS/UL
Debate

28 de Fevereiro, Domingo

09:30h
5. Na política do ambiente e energia
Orador: Francisco Ferreira, QUERCUS
Comentador: Rita Calvário, engenheira agrónoma, deputada
Debate

11:10h
6. Na política de desenvolvimento rural e das pescas
Orador: Fernando Oliveira Baptista, Professor ISA/UTL
Comentador: Pedro Soares, deputado, presidente da Comissão Parlamentar de Agricultura e Pescas
Debate

14:30h
7. Na política de igualdade
Orador: Virgínia Ferreira, Professora CES/FEUC
Comentador: Manuela Tavares, UMAR
Debate

16:10h
8. Na política de justiça
Orador: Conceição Gomes, investigadora CES/FEUC
Comentador: Teixeira da Mota, advogado
Debate

17:50h
9. Na política de educação
Orador: António Nóvoa, Professor FPCE/UL, Reitor UL
Comentador: Ana Drago, deputada
Debate

19:30h
10. Na política externa e de defesa
Orador: José Manuel Pureza, Professor da FE/UC, deputado
Comentador: Pezarat Correia, General do Exército
Debate
Publicada por José Guilherme Gusmão em 22.2.10


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