Condicionamentos ideológicos nos media portugueses
(I e II)
 

De há semanas a esta parte, sobretudo com a divulgação das escutas do “Face Oculta”, o país anda ao rubro com as alegações de que o governo teria um plano para controlar órgãos de comunicação social incómodos usando como instrumento uma empresa privada (a PT) onde o Estado detém uma golden share que, porém, lhe dá apenas direito formal de veto. A situação está longe de estar esclarecida. Porém, como bem sublinhou Rui Tavares, o problema do PS e do governo é que as alegadas maquinações ganham plausibilidade por causa das dificuldades de relacionamento com a comunicação social: ataques do primeiro-ministro a certos media; inúmeros processos do premier a jornalistas e bloggers; etc. Mas ganham também plausibilidade por causa de notícias vindas a público no ano passado e que davam conta de uma eventual utilização da publicidade do Estado para “premiar” ou “punir” órgãos de comunicação social… Independentemente do que falta esclarecer, este caso mostra também que, por um lado, os jornalistas e os órgãos de informação parecem muito preocupados com a possibilidade de governamentalização dos media mas, por outro lado, pouco lhes parecem importar muitos e evidentes enviesamentos ideológicos que caracterizam os mass media portugueses, embora em graus variáveis.

Como disse, a situação relatada está longe de estar esclarecida. De qualquer modo, na sua alocução de quinta-feira passada, o primeiro-ministro já esclareceu o que era possível clarificar apenas com base em declarações suas: disse que nem ele nem qualquer membro do governo deram instruções à PT, ou aos seus administradores, para a compra de órgãos de comunicação (Media Capital/TVI). Note-se que as escutas divulgadas pelo SOL apenas apresentam vários indivíduos, nomeadamente os administradores da PT nomeados pelo governo e seus assessores, alegando que o governo teria um plano para controlar os media através da PT, e sugerindo que as suas acções se inseriam em tal plano e se destinavam a satisfazer os desejos do “chefe”. Ainda não vimos, porém, quaisquer escutas com falas do “chefe” e que evidenciem efectivamente que tal plano do governo existia, era do conhecimento e era dirigido pelo premier. Não significa isto que tal plano não existisse e que, a existir, o governo não tivesse conhecimento dele. Significa que existe também a possibilidade de estarmos apenas perante boys ultra-zelosos e desejosos de agradar ao líder, sobretudo tendo em conta o seu fraco CV para estarem onde estavam… (O despacho do PGR, recentemente divulgado, e onde este justifica a não relevância das escutas, aponta aliás neste sentido). Por tudo isto é que era ainda desejável que Sócrates demitisse o outro administrador que ainda não se demitiu e que representa (mal) o Estado na PT. A partir daqui, o que há ainda a esclarecer terá de basear-se num cruzamento de testemunhos (como, por exemplo, os que resultam das audições em curso no Parlamento) e outras informações (resultantes, por exemplo, do trabalho de uma eventual comissão de inquérito). Certo é que é difícil ir muito mais longe só com as declarações de membros do governo. Uns podem acreditar, outros não, mas é o domínio da crença.

Como disse, os jornalistas parecem muito preocupados, e bem, com a alegada interferência do(s) governo(s) nos media. Porém, pouco lhes parecem importar os evidentes enviesamentos ideológicos que caracterizam certos órgãos da comunicação social. Querem exemplos? Podemos começar com o célebre “Plano Inclinado”, da SIC-N, onde os convidados destilam regularmente os seus ataques generalizados à classe política e ao papel do Estado, por exemplo. Será que não há, na sociedade, pessoas prestigiadas e independentes que tenham uma visão positiva da política e dos políticos (ou, pelo menos, não apenas negativa)? Ou que tenham uma visão positiva sobre o papel do Estado? É óbvio que este tipo de programas não é minimamente plural do ponto de vista ideológico, entendido aqui em sentido amplo. Outro exemplo, com um programa muito prestigiado (e com intervenientes de qualidade!), a “Quadratura do Círculo”: será que alguém pensa que o pluralismo ideológico, em Portugal, vai apenas do PS ao CDS-PP? Mas não se pense que isto é um problema da SIC. Não, embora em menor medida, a RTP padece de idênticos problemas: basta pensar na presença regular de Marcelo e Vitorino na RTP para percebermos que também a TV do Estado promove um certo afunilamento ideológico… Ou, na imprensa (Expresso, Correio da Manhã, etc.), veja-se por exemplo a sobre-representação que têm os colunistas com orientações anti-políticos e profundamente críticas face ao papel do Estado na sociedade e na economia, designadamente de inclinação ultra-liberal. Ou ainda, a falta de pluralismo que vemos nas rádios, na TV e na imprensa em matéria de debates sobre economia (política), nos quais estão geralmente sobre-representadas as correntes associadas ao mainstream (neoliberal) da ciência económica e onde outras tendências igualmente relevantes do ponto de vista académico e político (neo-keynesianas, institucionalistas, etc.) estão claramente ausentes ou, na melhor das hipóteses, sub-representadas. Há, obviamente, liberdade de imprensa em Portugal, e essa é uma conquista crucial da democracia. Porém, há condicionamentos ideológicos de vária índole nos media portugueses. Pena é que os jornalistas pareçam só se preocupar com os condicionamentos que possam vir por via das influências dos governos e, pelo contrário, dêem pouco ou nenhum relevo (quando não os promovem eles próprios…) a vários outros condicionamentos (porventura mais graves e profundos) que caracterizam os media. A bem da democracia e do pluralismo, era desejável que não só a ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação) mas também os próprios jornalistas fossem muito mais exigentes neste domínio.

Originalmente publicado no Público de 22/2/2010.

3 , Ladrões de Bicicletas


Publicado por Xa2 às 00:05 de 27.02.10 | link do post | comentar |

8 comentários:
De DD a 27 de Fevereiro de 2010 às 17:53
Nunca no Mundo houve liberdade de imprensa. Há sim liberdade dos patrões dos meios de comunicação de imporem uma dada linha informativa, tanto nos países capitalistas como nos comunistas, tanto nas democracias como nas ditaduras e nas socio-economias de interesses como é a portuguesa.

O Expresso diz o que Balsemão manda e quando pretende ser ligeiramente plural é porque o patrão acha que necessita de leitores que não sejam apenas do PSD, o mesmo se passa com outros jornais e estações televisivas.

Agora, não há excepções, toda gente malha no Sócrates, desde os jornais gratuitos às televidões, rádios, etc.N~sao vejo mesmo uma única excepção, a não ser nalguns blogs. Mesmo aqui está muita gente contaminada pela obrigação pidesca de malhar no secretário-geral do PS.

O curioso é que na primeira linha do malhar no Sócrates estão os pasquins estrangeiros, Metro, Destak, Sol e na televisão espanhola TVI.

Os capitalistas suecos estão interessados em derrubar Sócrates. Não sei porquê, nem o que tem a Suécia a ver com Portugal?

Todos sabemos que a situação é tal que o governo não vai chegar ao fim do ano. Logo que o PSD tenha um líder, qualquer que seja, o governo será derrubado para gáudio de m uita gente.

Vamos ter eleições antes do fim do ano.


De Zé das Esquinas o Lisboeta a 27 de Fevereiro de 2010 às 19:14
Não, aqui "não há a obrigação pidesca de malhar no secretário-geral" do PS...
Aqui há quem tenha a liberdade de "malhar" no secretário-geral do PS, quando na sua modesta opinião, é de "malhar no secretário-geral" .
E pelo vistos o que aqui há é quem ache que deve impor aos outros de não "malhar no secretário-geral", mas não tem sorte nenhuma...


De Zé T. a 1 de Março de 2010 às 14:23
bem visto Zé das Esquinas.
também há quem goste de malhar noutros 'postantes' ou comentadores ... e nas suas ideias ou posições - espero que, quanto a isto, fiquemos apenas nas críticas ao que é expresso ... LIVREMENTE.


De Obscuridade e manipulação... a 1 de Março de 2010 às 14:31
«... Há sim liberdade dos patrões dos meios de comunicação de imporem uma dada linha informativa ...» (seja por imposição directa, por ameaça, por instilar a auto-censura, ou por fomentar/promover aqueles que o fazem ...) - nisto concordo com DD.

«...Todos sabemos que a situação é tal que o governo não vai chegar ao fim do ano. Logo que o PSD tenha um líder, qualquer que seja, o governo será derrubado para gáudio de m uita gente.
Vamos ter eleições antes do fim do ano. »
- aqui já tenho algumas dúvidas... se a situação económica não estivesse tão má já teria havido mudanças e muita mais 'louça quebrada'... tanto no PSD como no PS


De ANONIMO a 1 de Março de 2010 às 15:05
"O verdadeiro amigo não é aquele
que nos alegra com mentiras, mas
que nos 'ofende' com as verdades."


De Fulano a 27 de Fevereiro de 2010 às 13:37
O meu comentário não tem a ver com o teor do artigo, é um grito de indignação:

O que é preciso é compaixão Cristã. Vai aqui um exemplo da mesma compaixão:

« ...Esta proposta, sublinhou, é "perfeitamente possível" de ser executada "cortando 50,5 milhões de euros numa prestação onde o abuso é uma vergonha, chamado rendimento mínimo garantido". » Paulo Portas

O partido dos «com a boca cheia de dentes» que fazem terapia quando lhe morre o gato, e fazem peregrinações a Fátima equipados de roupa desportiva griffé e são católicos porque ser católico é tradição e ser tradicional é fino e aristocratico , vivem à séculos de rendas e de não participar no desenvolvimento (fugindo aos impostos em larga escala) têm o desplante de fazer bandeira dos abusos das classes populares. Estes cristãos, os tais do "ao outro como a si mesmo", (tem-se visto ao longo dos séculos), quando as classes populares já embrutecidas pela pobreza, enraivecidos pela miséria fizerem correr sangue clamarão pela dureza policial. O que esta gente propõe é a sul-americanização " da vida.

P.S. Não nego que haja abusos mas serão mais graves que os outros abusos que TODOS conhecemos? E havendo abusos serão na ordem de 50,5 milhões?


De explorado a 28 de Fevereiro de 2010 às 17:49
"clamarão pela dureza policial."
.Não é por acaso que o número de "agentes da ordem" aumenta, apesar de não haver correspondência na segurança dos cidadãos, pois os mesmos só se vêem com regularidade em super-mercados, estádios de futebol e outros locais onde sejam pagos extraordinariamente ou então na chamada "caça á multa" mas nunca com pretensões pedagógicas.
Acresce que estes mesmos agentes da ordem, usufruem de forma exclusiva na classe dos funcionários públicos, de um conjunto de benefícios, alguns de duvidosa constitucionalidade, mas todos eles sem qualquer justificação resultante da profissão.
Estes exclusivos benefícios que abrangem apenas os agentes da autoridade e que a generalidade da população tem de suportar, verificam-se em consequência dos “telhados de vidro dos políticos” e da sua actuação, por vezes, menos legítima e violadora da legalidade.


De IP a 27 de Fevereiro de 2010 às 01:45
PGR manda investigar contradições de Pinto Monteiro
O Procurador-Geral da República, Pinto Monteiro, mandou Maria José Morgado abrir um inquérito com prioridade e urgência para que o DIAP (Departamento de Investigação e Acção Penal) averigúe as contradições de Pinto Monteiro. "O caso é especialmente grave já que eu recusei o acesso aos despachos de arquivamento ao crime de atentado contra o Estado de Direito afirmando que os documentos continham escutas entre Armando Vara e José Sócrates e afinal estas não constam. É preciso investigar porque é que eu menti ao parlamento e a toda a gente. Eu não posso continuar a fazer isto. É preciso pôr cobro a mim próprio", acusou Pinto Monteiro.


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