De Não é Socialista. a 11 de Março de 2010 às 13:54
Um governo que privatiza os correios não é socialista

Abrir ao capital privado novos mercados praticamente protegidos da concorrência foi uma das linhas de orientação do Novo Trabalhismo de Blair e Brown. A degradação do serviço de caminhos de ferro que se seguiu é hoje um facto incontroverso.

O último episódio da saga privatizadora do Novo Trabalhismo é o serviço dos correios (Royal Mail). A privatização tem sido adiada porque, depois de muitas tropelias na liberalização de alguns serviços postais que dão lucro, encontrou uma forte oposição da opinião pública.
Avaliando a fase de 'abertura do mercado', o relatório Hooper afirmava "não ter havido benefícios significativos da liberalização para as pequenas e médias empresas e para as famílias. Estes acreditam que o serviço da Royal Mail oferece uma boa relação qualidade-preço tal como está."

Contudo, a percepção do público é muito mais desfavorável que a linguagem cautelosa do relatório oficial. Em artigo no Guardian, Seumas Milne escrevia:
"Longe de "funcionar" ou prestar o serviço, a abertura de alguns segmentos às empresas privadas está a destruir uma rede pública que está no coração dos negócios e da vida social da Grã-Bretanha."

Este último aspecto é central para compreendermos por que razão os socialistas nunca privatizariam os correios.
Recordo aqui um livro de Jean Gadrey (Nova Economia Novo Mito, Instituto Piaget) onde se lê o seguinte sobre o serviço prestado pelos correios (p. 149):

"Em geral, esta organização é um serviço de proximidade que, em particular no quadro das suas estações e dos seus balcões, recebe "o público", todos os públicos. A qualidade deste acolhimento é diversa e por vezes problemática em termos de expectativas, mas algo de importante se desenrola ali, que de novo tem a ver com os laços sociais:
os agentes no balcão consagram uma parte considerável do seu tempo a ajudar pessoas com dificuldades ou "deficiências diversas" (analfabetismo ou dificuldades de compreensão dos procedimentos, pobreza, isolamento...), ligadas a formas de exclusão identificáveis. (...) A organização tolera por enquanto estes comportamentos não rentáveis ... também porque o monopólio que ela detém sobre uma parte das suas actividades ainda lhe permite libertar os recursos necessários. Mas já surgem pressões para os reduzir. (...)

Assim, esta empresa [pública] contribui para produzir integração social, que consideramos um bem colectivo a dois níveis, territorial por um lado, social por outro, a fim de manter a ligação da população às redes constitutivas da pertença a uma sociedade desenvolvida que são o correio, o vale do correio, a conta postal ou a caderneta A [serviços financeiros básicos em França]."

Se a coesão social está no âmago do pensamento socialista, então só posso esperar que os socialistas deste País não deixem passar à prática a anunciada intenção do Governo de privatizar os correios de Portugal.
Há certamente outras fontes de receita. Apenas é preciso ver com atenção o que se passa com
os rendimentos do capital e
com os negócios da urbanização de terrenos.

Os socialistas têm de levantar-se e dizer "BASTA, os Correios de Portugal são nossos"!

-por Jorge Bateira em 10.3.10 , Ladrões de Bicicletas


De Defender o PÚBLICO e sua Melhoria. a 11 de Março de 2010 às 13:58
Anónimo disse...

Não é mesmo!
Isto até me envergonha como membro do PS, embora não tenha nunca votado (digo-o publicamente!) na direcção actual e recem-passada do partido.
Uma medida dessas é de total insensibilidade para com necessidades que fazem o quotidiano da chamada "província", é de total insensibilidade para com a coesão territorial/nacional.

Se a desculpa "manhosa" é de alguma directiva europeia que "liberaliza" tais serviços, pois que se combata e se elimine nas instãncias europeias.
Cláudio Teixeira Almada, 11/3/10


Miguel Serras Pereira disse...
Caro Jorge Bateira,
estou na luta contra a privatização dos correios.
O Pedro Viana publicou no Vias de Facto um texto que vai no mesmo sentido e sugere formas de acção que me parecem, na generalidade, razoáveis.
Ver o seu "Basta!" em http://viasfacto.blogspot.com/2010/03/basta.html

Só um reparo sem prejuízo da unidade na acção e da discussão posterior ao ritmo desta:
os socialistas não defendem apenas a coesão social, isso também o Papa faz e qualquer corporativista da "democracia orgânica".

Os socialistas defendem a igualdade.

E outro ainda, dado que o ataque é a melhor defesa, e só se consegue o mínimo avançando na direcção do máximo:
sermos "contra a privatização" aqui significa que defendemos o serviço público e o seu desenvolvimento através do controle dos cidadãos, mais do que a simples propriedade do Estado.

Mas vamos falando pelo caminho.
Saudações republicanas


João disse...
Mais um crime dos politicos Portugueses.

A existência de um serviço publico de correios comporta consideraveis externalidades positivas que assim se vão perder.
E tudo com o objectivo de arrecadar uns poucos milhões que não vão resolver nada.

11 de Março de 2010


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