De Antes pelo contrário a 17 de Março de 2010 às 14:02
Paulo Portas já é primeiro-ministro e usa o nome de José Sócrates

Em defesa do PEC, os spin doctors do Governo exploram o ódio social a desempregados e a quem recebe o rendimento mínimo. Dou voz a socialistas incomodados com a chegada de Paulo Portas ao poder.
Daniel Oliveira (www.expresso.pt) , 17.03.2010

Não escrevo este artigo para encabular o PS e mostrar divisões internas. Até porque, com toda a sinceridade, acho que a tradição do PS, e falo apenas da mais recente, centrista e moderada, está nas frases que se seguem. O Governo, esse, parece que, para defender o seu PEC, adoptou definitivamente o discurso já não apenas da direita liberal, mas da abjecta insensibilidade social e populismo de Paulo Portas. Fico apenas aliviado por saber que pessoas de quem discordo mas pelas quais tenho respeito político não se conformam com esta nova deriva.

Sobre as privatizações, várias vozes no Partido Socialista se fizeram já ouvir, acordando a consciência de esquerda do torpor em que parecia viver, deixando nas mãos da direita o discurso ideológico sobre o PEC. O que tinha a dizer sobre o tema está no último Expresso em papel. Deixo-vos agora com Manuel Alegre e Ana Gomes:

"Não há constrangimentos de Bruxelas que justifiquem a privatização da REN e dos CTT. (...) Tenho muita dificuldade em compreender a privatização de serviços públicos como os Correios ou a REN". Manuel Alegre

"Quero juntar a minha voz à daqueles que não compreendem que se contemple a privatização de empresas que trabalham em sectores de interesse estratégico ou de interesse geral e que no fundo são monopólios que ao serem privatizados gravemente afectarão a protecção dos consumidores. Estou a falar de empresas como a REN, os CTT, a Galp. Do meu ponto de vista é errado que o Estado prescinda da posição que deve aí ter. E é igualmente errado que prescinda nestas condições em que obviamente nunca venderá por bom dinheiro". Ana Gomes

Mas depois da sua adesão definitiva ao discurso liberal (que tentou casar de forma trapalhona com com um discurso de esquerda sobre as deduções), o Governo parece estar decidido a ir mais longe e salta directamente para a propaganda da direita populista.

Para vender os cortes em despesas sociais (200 milhões) o Governo soprou para imprensa os 30 milhões que vai cortar, em tempo de crise, administrativamente, tal como o CDS/PP vem defendendo, no Rendimento Social de Inserção. O destaque que preferiu dar aos cortes no Rendimento Social de Inserção é fácil de explicar. Paulo Portas já o compreendeu há muito tempo: o ódio social vende bem. E agora quem o vende é o mesmo partido que se bateu por esta prestação.

Socorro-me de Paulo Pedroso e Pedro Adão e Silva, destacados militantes do Partido Socialista:

"No corte das prestações sociais, o Rendimento Social de Inserção tem direito a uma evidenciação especial e que lá está apenas para que o Governo do PS diga - qual Portas - que os malandros dos beneficiários do Rendimento Social de Inserção também vão pagar. De facto, a despesa com os mais pobres vai diminuir em 200 milhões entre 2011 e 2013, dos quais 30 milhões serão no Rendimento Social de Inserção. Os outros 170 milhões porque não se evidencia onde são? Estigma é estigma e quem escolheu este símbolo no PEC fez uma escolha clara sobre como quer tratá-lo. Que a factura dos pobres seja tão pesada em plena crise económica e em situação de risco de crise social não consigo aceitar, nem por nada. Repare-se que em 2011 o Estado vai buscar mais aos pobres do que ao adiamento das infraestruturas e que vai, afinal e para minha surpresa, buscar a estas prestações mais do que à famosa nova taxa de IRS de 45%. (...) Hoje sinto-me particularmente feliz por não ter sido candidato a deputado nesta legislatura." Paulo Pedroso
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